Resumo
TdC 325: Clinicagens de diálise - Parte 1
Aline Campos, Caio Bastos e Jonatas Zanoveli conversam sobre clinicagens na diálise.
- Indicações de hemodiálise
- Tipos (intermitente, contínua e peritoneal)
- 4 clinicagens sobre acessos para diálise
CLINICAGEM 1: Indicações de Diálise no Paciente Agudo (Urgências Dialíticas)
O mnemônico AEIOU
- Acidose · Eletrólitos (hipercalemia) · Intoxicação · Overload (hipervolemia) · Uremia sintomática
- Na prática não é tão simples: precisa de contexto clínico e dificilmente um critério isolado define a indicação
Hipervolemia Refratária
- Conceito central: mismatch demanda-capacidade. O rim não consegue eliminar o que o paciente acumula
- O paciente pode estar urinando e ainda assim estar em hipervolemia (ex.: recebe 4L/dia, elimina 2L/dia → balanço positivo crônico)
- O paciente pode estar urinando e ainda assim estar em hipervolemia (ex.: recebe 4L/dia, elimina 2L/dia → balanço positivo crônico)
- Contexto comum: Paciente da UTI com ganhos de volumes diários: drogas vasoativas e antibióticos em grandes volumes
- Indicação principal: hipervolemia com impacto clínico (principalmente hipoxemia por edema pulmonar) com refratariedade a diuréticos
- Balanço hídrico muito positivo = maior mortalidade em UTI
Hipercalemia Refratária
- KDIGO indica quando: K⁺ > 6 mEq/L com disfunção renal grave; alguns estudos apontam > 6,5 como mais grave
- Refratária = não respondeu às medidas clínicas:
- Glicoinsulina
- Salbutamol (beta-agonista)
- Bicarbonato (em pacientes acidóticos)
- Ciclosilicato de zircônio (Lokelma®): nova opção, com benefício no agudo
- Furosemida
- Não existe número mágico: o que importa é reversibilidade da causa
- Hipercalemia por IECA/BRA/espironolactona em rim funcionante → tende a reverter com suspensão
- Hipercalemia em IRA KDIGO 3, séptico, oligúrico → tende a necessitar de diálise
Acidose Metabólica Refratária
- Referência numérica: pH < 7,2 (alguns autores usam < 7,15)
- Refratária = tentou bicarbonato sem resposta adequada
- Estudo BICAR-ICU-2: usaram até 500 mL de NaHCO₃ 8,4% em 24h
- Risco de insistir no bicarbonato: hipervolemia e hipernatremia
- Regra prática: 1 mL/kg de NaHCO₃ 8,4%, repetir algumas vezes; Se ausência de melhora, considerar diálise
Uremia Sintomática
- A mais difícil das indicações: não há corte de ureia definido
- Sinais e sintomas de alerta:
- Encefalopatia urêmica (asterix/flapping) → indicação urgente
- Pericardite urêmica (derrame pericárdico sem outra causa) → indicação urgente
- Náuseas, vômitos, hiporexia, prurido, fadiga → contribuem para a decisão, mas isoladamente não são indicação absoluta
- Encefalopatia em UTI é difícil de atribuir à uremia: sepse, sedação e hipoperfusão confundem o quadro
- AKIKI-2: ureia > 300 mg/dL foi considerada "diálise muito tardia" e foi associada a pior desfecho
Outras Indicações (além das renais)
- Intoxicações: álcoois tóxicos (metanol, etilenoglicol), salicilatos, metformina (acidose lática refratária)
- Hiperamonemia (encefalopatia hepática): diálise para remoção de amônia
- Remoção de CO₂: paciente em SARA grave com hipercapnia permissiva além do tolerado
CLINICAGEM 2: Diálise Precoce vs. Tardia na IRA
- Contexto: IRA KDIGO 2-3, sem urgência dialítica clara — qual o melhor momento para iniciar diálise?
- Os trabalhos AKIKI, IDEAL, STAART, AKIKI: não houve diferença de mortalidade entre precoce e tardio convencional.
- Problema: não há consenso na definição de o que é precoce e o que é tardio entre os estudos.
- Benefício de esperar: parte dos pacientes do grupo tardio recuperou a função renal e nunca precisou dialisar (evitou cateter, infecção de corrente sanguínea)
- Esperar demais (AKIKI-2, ureia > 300): pior desfecho
- Conclusão prática: "late, but not too late". Esperar um pouco faz sentido; esperar demais, não
Ferramentas para apoiar a decisão
- Score SCAMP: fluxograma sequencial para indicar ou não a diálise
- Dado relevante: em 57% dos casos em que o SCAMP indicou diálise, o nefrologista optou por não fazer. Desses, 33% precisaram de diálise mesmo assim. O feeling clínico pode superestimar a chance de recuperação
- Dado relevante: em 57% dos casos em que o SCAMP indicou diálise, o nefrologista optou por não fazer. Desses, 33% precisaram de diálise mesmo assim. O feeling clínico pode superestimar a chance de recuperação
- Teste de estresse com furosemida:
- Virgem de furosemida: 1 mg/kg IV
- Em uso crônico de furosemida: 1,5 mg/kg IV
- Medir diurese em 2 horas: Resposta positiva (≥ 200 mL): menor risco de evolução para KDIGO 3 ou diálise
- Não confundir com furosemida para pacientes já com KDIGO 3 hipervolêmico: são coisas diferentes. O teste tem sentido antes do KDIGO 3
CLINICAGEM 3: Indicação de Diálise na Doença Renal Crônica (DRC)
- Também não há TFG mágica para indicar diálise
- Estudos IDEAL e revisão BMJ 2021: não houve diferença de mortalidade entre início precoce e tardio
- Guia-se principalmente por sintomas de uremia crônica:
- Anorexia, perda de peso, fadiga, confusão mental leve, tremor
- Geralmente surgem com TFG < 10–15 mL/min
- KDIGO autoriza considerar qualidade de vida e preferências do paciente na decisão
- Nem todo paciente com TFG baixa tem sintomas. Individualizar sempre
Planejamento e encaminhamento precoce
- TFG < 15–20 mL/min ou risco > 40% de necessitar de diálise em 2 anos → encaminhar para:
- Avaliação para transplante renal (modalidade de escolha para a maioria)
- Confecção de fístula arteriovenosa (FAV)
- Discussão sobre diálise peritoneal
- Ferramenta: calculadora KFRE (Kidney Failure Risk Equation)
- Estima risco de diálise em 2 e 5 anos
- Recomendação 1A no KDIGO
- A SBN disponibiliza versão traduzida no site oficial
CLINICAGEM 4: Tipos de Hemodiálise
- Dado contextual: censo 2024 → 172.585 brasileiros em diálise; 5,6% em diálise peritoneal
- Contínua é significativamente mais cara e exige equipe especializada
- Remoção rápida de soluto → risco de edema cerebral (síndrome de desequilíbrio) → preferir contínua em pacientes neurocríticos (AVC extenso, HIC)
- Ultrafiltração rápida em paciente instável hemodinamicamente → pode piorar o choque → preferir contínua
CLINICAGEM 5: Acessos Vasculares para Diálise (4 pontos essenciais)
1. Sítio preferencial no agudo: Veia Jugular Interna Direita (VJID)
- Trajeto direto até o átrio direito → melhor fluxo para a máquina
- Dica prática: se o paciente vai precisar de acesso central para droga vasoativa e provavelmente irá precisar de diálise → passe o central de drogas na jugular esquerda e preserve a direita para o cateter de diálise
2. Veia Femoral: opção válida em nefrologia
- Fornece fluxo melhor que a jugular interna esquerda para diálise
- Risco de infecção semelhante à jugular esquerda, exceto em:
- IMC > 28,4
- Pacientes com diarreia ou outros fatores locais de contaminação
- Limitação: pode restringir mobilização do paciente
3. Veia Subclávia: evitar sempre para cateter de diálise
- Risco 4x maior de estenose venosa local
- Compromete definitivamente a confecção futura de FAV no mesmo membro
- Última opção absoluta — mesmo sendo tecnicamente mais fácil em emergências
4. Fístula Arteriovenosa (FAV): melhor acesso para DRC
- Risco de infecção de corrente sanguínea 20x menor que cateteres de longa permanência (permcath)
- Preservar o membro a todo custo:
- Não coletar sangue no membro com FAV (ou planejado para FAV)
- Evitar até aferir pressão arterial nesse membro
- Orientar toda a equipe (enfermagem, técnicos, outros médicos)
Descrição + Referências
Aline Campos, Caio Bastos e Jonatas Zanoveli conversam sobre clinicagens na diálise.
- Indicações de hemodiálise
- Tipos (intermitente, contínua e peritoneal)
- 4 clinicagens sobre acessos para diálise
Referências em breve.