Resumo
Iaaaago Jorge, Ênio Macedo e Matheus Rezende conversam sobre 5 clinicagens sobre Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp):
- O que é
- Como fazer a investigação inicial
- Papel dos escores
- Principais diagnósticos diferenciais
- Manejo
Parte 1: O que é ICFEP
- Insuficiência cardíaca IC é a somatória de sinais e sintomas clássicos (dispneia paroxística noturna, turgência jugular) com alterações estruturais ou funcionais do coração, com evidência objetiva de congestão de origem cardíaca corroborada por biomarcadores ou ecocardiograma
- Na ICFEP especificamente, acrescentam-se dois critérios adicionais:
- Fração de ejeção (FE) maior ou igual a 50% no ecocardiograma
- Os sintomas não podem ser explicados por outra causa com tratamento específico (cardiomiopatia definida, doença valvar, doença pericárdica etc.)
- Diferença fundamental em relação à ICFER (FE menor que 50%): na ICFER, o coração é o astro principal e o problema é primariamente cardíaco com repercussões sistêmicas. Na ICFEP, o coração é a vítima: um pacote de condições sistêmicas torna o coração doente
- Perfil típico do paciente com ICFEP: idoso, com obesidade, síndrome metabólica, hipertensão e diabetes.
Parte 2: Investigação inicial
Peptídeos natriuréticos (BNP e NT-proBNP)
- Servem para corroborar a hipótese de IC, mas atenção central: BNP ou NT-proBNP alterados não são obrigatórios nem suficientes para o diagnóstico de ICFEP
- Não são obrigatórios: 20-30% dos pacientes com ICFEP têm valores normais (falso-negativos). Causas de BNP falsamente baixo: obesidade (adipócitos metabolizam a molécula) e deficiência congênita de BNP
- Não são suficientes: há muitas causas de falso-positivo: idade avançada, sexo feminino, fibrilação atrial, disfunção renal, TEP, sepse, anemia, doenças pulmonares graves
-
Em pacientes em uso de Sacubitril-Valsartana (inibidor da neprilisina, que degrada os peptídeos): não dosar BNP, usar apenas NT-proBNP - Usar BNP seriado para guiar descongestão não ajuda: estudos GUIDE-IT e PRIMA-2 mostraram que não há benefício em guiar a terapêutica pela curva de BNP. Não espere normalizar o BNP para considerar o paciente euvolêmico. BNP cronicamente elevado num paciente euvolêmico marca pior prognóstico mas não indica mais diurético
Ecocardiograma
- Primeiro parâmetro: confirmar FE maior ou igual a 50%
- Outros parâmetros que corroboram aumento das pressões de enchimento (avaliação retrógrada):
- Aumento do volume do átrio esquerdo
- Aumento da pressão sistólica da artéria pulmonar (PSAP)
- Insuficiência tricúspide
- Disfunção de ventrículo direito
- Relação E/e’ (Doppler tecidual, parâmetro de diástole)
- Disfunção diastólica no ECO também não é obrigatória nem suficiente para o diagnóstico:
- Não é obrigatória: até um terço dos pacientes com ICFEP não tem disfunção diastólica no ECO
- Não é suficiente: idosos podem ter disfunção diastólica sem ICFEP
- Por isso o nome mudou de “IC diastólica” para “IC com fração de ejeção preservada”
Parte 3: Escores diagnósticos
- Dois scores principais: H2FPEF e HFA-PEF
- Aplicados após já ter o ecocardiograma com FE maior ou igual a 50%
- Objetivo: estimar objetivamente a probabilidade de o paciente ter ICFEP, colocando em forma numérica o que a clínica já sugere
- O escore H2FPEF é o mais utilizado na prática
- Escores não são obrigatórios para todos os pacientes. Se o quadro clínico, peptídeos e ECO já apontam claramente para ICFEP, o score é desnecessário. Ele tem maior valor nos casos de dúvida diagnóstica (pontuação intermediária)
- HFA-PEFF: escore mais complexo, com mais parâmetros ecocardiográficos e cortes diferentes de peptídeos, mesma lógica de probabilidade baixa/intermediária/alta.
- Quando o escore fica intermediário, o que fazer:
- Ecocardiograma de estresse diastólico: avalia se durante esforço há aumento das pressões de enchimento
- Cateterismo direito: medida invasiva das pressões de enchimento, diferencia também hipertensão pulmonar
- Na prática, esses exames são pouco utilizados por dificuldade de acesso e pelo caráter invasivo. Muitas vezes parte-se para um teste terapêutico
- Para diferenciar se a dispneia é cardíaca, pulmonar ou muscular no paciente com várias comorbidades:
- Ergoespirometria (teste cardiopulmonar de exercício): exame não invasivo em esteira ou bicicleta com espirometria simultânea, que permite identificar a origem predominante da limitação funcional
Parte 4: Diagnósticos diferenciais
- Ponto central: sempre investigar se a doença cardíaca tem etiologia com tratamento específico. Se tiver, não é ICFEP
- Abordagem anatômica para não esquecer:
- Coronárias: equivalente anginoso como causa de dispneia
- Pericárdio: pericardite constritiva
- Válvulas: estenose aórtica, outras valvopatias
- Circulação pulmonar: hipertensão pulmonar
- Coração direito isolado: IC direita isolada
- Alto débito: IC de alto débito
- Miocárdio: cardiomiopatias (as mais difíceis de diferenciar)
- Cardiomiopatias para ter no radar:
- Cardiomiopatia hipertrófica: espessamento septal assimétrico, sinais de sobrecarga no ECG
- Amiloidose ATTR (a mais relevante nesse contexto, não a amiloidose AL hematológica):
- Red flags: espessamento difuso do miocárdio discordante do ECG (ECG com baixa voltagem apesar do espessamento)
- Acometimento sistêmico: síndrome do túnel do carpo, estenose do canal lombar, ruptura do tendão do bíceps, neuropatia periférica
- Eco com strain global longitudinal: apical sparing (poupamento do ápice), padrão em bullseye ou “sinal da bandeira do Japão”. Requer software e profissional com treinamento específico
- Doença de Fabry, hemocromatose, sarcoidose
- Como diferenciar ICFEP de hipertensão pulmonar como causa primária:
- Na ICFEP, a PSAP elevada é consequência de hipertensão pulmonar tipo 2 (por doença cardíaca esquerda). A sequência é: alteração da diástole → aumento do átrio esquerdo → repercussão retrógrada na circulação pulmonar → coração direito
- Se há sinais apenas no lado direito sem doença esquerda evidente, acende o alerta para hipertensão pulmonar de outra causa
- Em casos de dúvida, deve-se realizar o cateterismo direito
Parte 5: Tratamento
Não farmacológico
- Exercício físico e dieta hipocalórica melhoram qualidade de vida: evidência do estudo SECRET
- Tratar comorbidades: fibrilação atrial, obesidade, hipertensão, diabetes
Farmacológico
- Conceito central: diferente da ICFER, onde há drogas que reduzem mortalidade, na ICFEP nenhuma medicação demonstrou redução de mortalidade até o momento. Os desfechos atingidos são redução de hospitalização e melhora de qualidade de vida, que são desfechos importantes
- Furosemida:
- Nenhum estudo comprova redução de mortalidade nem em ICFEP nem em ICFER, mas pela plausibilidade biológica e clínica é utilizada para manejo da congestão
- Usa enquanto o paciente está congesto, suspende quando atingir euvolemia
Primeira linha para todos os pacientes com ICFEP:
- Inibidores de SGLT2: dapagliflozina (estudo DELIVER, 2022) e empagliflozina (estudo EMPEROR-Preserved, 2021)
- Reduzem hospitalização e melhoram qualidade de vida
- Diferente da furosemida: não são suspensos ao atingir euvolemia, ficam como tratamento contínuo
- Segurança no paciente internado: estudo EMPULSE (pacientes mais estáveis, sem aumento recente de diurético EV nem inotrópicos)
- Cuidado e evitar em: diabetes tipo 1; diabetes tipo 2 com história de cetoacidose diabética ou alto risco para a condição; gestantes
- Antagonistas dos receptores mineralocorticoides:
- Espironolactona: estudo TOPCAT (2014), incluiu FE maior ou igual a 45%, não atingiu desfecho primário. Polêmica: análise de subgrupo mostrou benefício nas Américas mas não na Rússia/Geórgia, levantando suspeita de problema na inclusão de pacientes. Resultado: recomendação 2B nas diretrizes.
- Finerenona: estudo FINEARTS, publicado em 2024, mais de 6.000 pacientes. Reduziu hospitalização, não reduziu mortalidade. Vantagem sobre espironolactona: menor disfunção renal e menos hipercalemia. Ainda não entrou nas diretrizes (estudo recente), mas expectativa de recomendação melhor que da espironolactona quando as diretrizes forem atualizadas
- Agonistas GLP-1 e GLP-1/GIP (para pacientes com ICFEP + obesidade):
- Semaglutida: estudos STEP-HFpEF (obesidade sem DM2) e STEP-HFpEF-DM (obesidade com DM2), ambos com desfechos positivos em qualidade de vida
- Tirzepatida (co-agonista GLP-1/GIP): estudo SUMMIT, demonstrou melhora de qualidade de vida e redução de desfecho composto de morte cardiovascular ou piora de IC
- Sacubitril-Valsartana:
- Estudo PARAGON: negativo. Análise pós-hoc sugeriu sinal de benefício em mulheres e em pacientes com FE entre 50-57%. Recomendação 2B
- Bloqueadores do SRAA (iECA/BRA):
- Estudos CHARM-Preserved (candesartana), I-PRESERVE (irbesartana), PEP-Preserved (perindopril): todos negativos, “bateram na trave”. Recomendação baixa
ICFEP + Fibrilação Atrial
- Preferir estratégia de controle de ritmo, não de frequência. Esses pacientes são mais dependentes da contração atrial
- Se optar por controle de frequência: ser leniente, não controlar demais. Bradicardia excessiva reduz o volume sistólico e piora sintomas, pois esses pacientes têm incompetência cronotrópica (não conseguem aumentar suficientemente a FC no esforço)
Nitratos
- Podem piorar sintomas em pacientes com ICFEP. Estudo NIT-HFpEF mostrou que doses crescentes de nitratos pioravam a funcionalidade. Se não houver indicação clara, considerar a desprescrição
Descrição + Referências
Iaaaago Jorge, Ênio Macedo e Matheus Rezende conversam sobre 5 clinicagens sobre Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp):
- O que é
- Como fazer a investigação inicial
- Papel dos escores
- Principais diagnósticos diferenciais
- Manejo
Referências:
1. Kittleson MM, Panjrath GS, Amancherla K, et al. 2023 ACC Expert Consensus Decision Pathway on Management of Heart Failure With Preserved Ejection Fraction: A Report of the American College of Cardiology Solution Set Oversight Committee. J Am Coll Cardiol. 2023;81(18):1835-1878. doi:10.1016/j.jacc.2023.03.393
2. Borlaug BA, Sharma K, Shah SJ, Ho JE. Heart Failure With Preserved Ejection Fraction: JACC Scientific Statement. J Am Coll Cardiol. 2023;81(18):1810-1834. doi:10.1016/j.jacc.2023.01.049
3. Bakalakos A, Monda E, Elliott PM. Tailored therapeutics for cardiomyopathies. Nat Rev Cardiol. 2025;22(10):814-831. doi:10.1038/s41569-025-01183-6
4. Cannata A, McDonagh TA. Heart Failure with Preserved Ejection Fraction. N Engl J Med. 2025;392(2):173-184. doi:10.1056/NEJMcp2305181
5. Rahi W, Lababidi H, Hussain I, Quinones MA, Nagueh SF. Improving the Diagnosis of HFpEF: A Comparison of the H2FPEF Score and the 2025 ASE Diastolic Function Guideline Recommendations Using Invasive Hemodynamics as the Gold Standard. JACC Cardiovasc Imaging. 2026;19(2):166-174. doi:10.1016/j.jcmg.2025.09.011
6. Ndumele CE, Rangaswami J, Chow SL, et al. Cardiovascular-Kidney-Metabolic Health: A Presidential Advisory From the American Heart Association. Circulation. 2023;148(20):1606-1635. doi:10.1161/CIR.0000000000001184
7. FIGUEIREDO, Viviane Melo e Silva de; SANTOS, João Vitor Soares; GALVÃO, Natália Garcia; FIGUEIREDO NETO, José Albuquerque de. Fluxograma do Tratamento da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada. ABC Heart Fail Cardiomyop, v. 2, n. 3, p. 299-303, dez. 2022.