Resumo
TdC 331: 5 Armadilhas em comunicação - más notícias e outros cenários
Marcela Belleza, Tiago Arnaud e Flávio Barbieri discutem 5 armadilhas (erros) comuns em comunicação na prática médica e como evitá-las.
Introdução: Por que comunicação é um procedimento clínico?
- Comunicação efetiva melhora a percepção de cuidado pelo paciente e família.
- Reduz conflitos no ambiente hospitalar
- Diminui burnout da equipe, especialmente em cenários de alta demanda emocional
- Não se restringe a “más notícias”: aplica-se a conflitos com paciente, família, entre equipes e entre chefe e residente
- Comunicação tem técnica, etapas e pode ser treinada, como qualquer procedimento
- A analogia usada no episódio: assim como na técnica de Seldinger para passagem de cateter, existem etapas obrigatórias que não podem ser puladas
- O episódio vai além delas técnicas conhecidas na literatura: SPIKES, ABCDE, NURSE.
- As etapas da comunicação são fluidas, não lineares, e intercorrências (as armadilhas) acontecem no meio do caminho
Caso-exemplo usado no episódio: Idoso frágil internado por sepse de foco urinário, com câncer de próstata sem proposta curativa, refratário ao terceiro ciclo de antibiótico, estabilizado após saída da UTI. Objetivo: comunicar prognóstico e próximos passos para paciente e família.
As cinco armadilhas:
- Não preparar o início
- Passar a informação de maneira muito direta e racional
- Não refletir emoções
- Usar linguagem inadequada
- Não respeitar o silêncio
ARMADILHA 1: Não estruturar o início da comunicação
Qual é a armadilha
- Chegar para a conversa sem preparo, sem conhecer bem o caso, o contexto familiar e as relações já estabelecidas com a equipe
- Improvisar quando há tempo e possibilidade de se organizar
O que fazer antes da conversa
- Fazer um briefing da equipe: reunir todos os dados do caso, alinhar julgamentos e pré-julgamentos, evitar rótulos tóxicos como “família conflituante” ou “paciente problemático”
- Marcar o encontro com hora, motivo e local definidos
- Reunir quem precisa estar presente
- Evitar ir sozinho: leve pelo menos mais um membro da equipe (pode ser psicóloga, enfermeira, assistente social)
- A segunda pessoa serve de apoio, pode intervir se necessário e oferece feedback ao final
Sobre o ambiente
- Local calmo, todos sentados, sem interrupções previstas
- Telefones silenciados
- Se não houver sala de acolhimento, priorizar o melhor ambiente disponível
Quando não é possível preparar
- A “puxada no corredor” acontece, mas deve ser a exceção, nunca o padrão
- Se a informação for impactante, adie educadamente e marque um momento adequado
- Feedback após a conversa
- Assim como no procedimento clínico, o debriefing pós-comunicação é parte do aprendizado: o que poderia ter sido feito diferente?
ARMADILHA 2: Querer passar a informação direto (de bate-pronto)
Qual é a armadilha
- Entrar na conversa e ir direto ao diagnóstico, prognóstico ou má notícia sem preparar o terreno emocional
- Acreditar que o paciente vai processar a informação de forma racional, da mesma forma que o médico processou
Por que isso não funciona: base em neurociência
- O médico chega com o córtex frontal ativado, processando logicamente
- O paciente, ao receber uma má notícia, ativa a amígdala: centro das emoções, resposta de luta e fuga
- Tentar comunicar dados técnicos para alguém em resposta amigdalar não funciona: a mensagem não é absorvida
A hierarquia da comunicação: do chão ao topo
- Base: confiança
- Meio: emoção
- Topo: cognição (onde a informação racional vai ser entregue)
- Você não pode começar pelo topo. A informação racional é sempre o destino, nunca o ponto de partida
Como construir confiança
- Olho no olho: aumenta vínculo afetivo e empatia, demonstrado em estudos
- Mostrar objetivo em comum: “vou falar toda a verdade, seja ela boa ou ruim, e tudo que discutirmos será pensando no melhor para você”
- Isso reduz a postura defensiva do paciente e da família
Como acessar a emoção antes de dar a notícia
- Use perguntas abertas voltadas para o sentimento, não para o histórico clínico
- Evitar: “o que você já sabe sobre seu caso?” (acessa tecnicismo)
- Preferir: “como você está se sentindo nessa internação?”; “o que te preocupa?”; “o que você pensa sobre os próximos passos?”
- Isso permite que o paciente traga o que realmente importa para ele
ARMADILHA 3: Não identificar nem refletir as emoções do paciente
Qual é a armadilha
- O paciente expressa uma emoção (medo, esperança, frustração) e o médico responde com lógica ou com distanciamento
- Adotar postura fria como mecanismo de defesa frente à impotência
- Falar “vai dar tudo certo” enquanto o paciente está manifestando sofrimento: isso é dissonância emocional
O que fazer: ressoar a emoção
- Não discorde, não contra-argumente e não interponha informações racionais enquanto a emoção não acalmar
- Se o paciente traz esperança, ressoe esperança: “é tudo que eu mais gostaria, e estou aqui para presenciar isso com você”
- Se o paciente traz frustração, ressoe frustração: “eu também queria muito que as coisas tivessem sido diferentes”
- Ressoar esperança não é mentir: é reconhecer um desejo genuíno que você, como médico, também tem
Pegadinha clássica do “mas”
- O “mas” no final da frase desfaz tudo que foi construído antes
- “Eu também gostaria que melhorasse, mas a bactéria é resistente…” → quebra o vínculo
- Evite o “mas”. Termine a ressonância emocional. Devolva com outra pergunta aberta se necessário
Ciclos de ressonância
- Você pode precisar ressoar a emoção diversas vezes antes de conseguir avanço
- O processo não é linear: o paciente oscila entre medo e esperança como parte natural do luto
- Só avance para a cognição quando houver abertura real do paciente ou da família
Ferramenta: protocolo NURSE
- N: Naming (nomear a emoção: “você parece assustado”)
- U: Understanding (compreender: “é natural sentir isso”)
- R: Respecting (respeitar o momento do paciente)
- S: Supporting (apoiar: “estou aqui com você nesse processo”)
- E: Exploring (explorar: “você quer me falar mais sobre isso?”)
- Útil para fazer os ciclos de ressonância até atingir sintonia com o paciente
ARMADILHA 4: Usar linguagem muito leiga ou muito técnica
Qual é a armadilha
- Extremo leigo: pode não transmitir a gravidade do caso com fidelidade; pode parecer subestimação para famílias com maior grau de instrução
- Extremo técnico: gera lacunas de compreensão, especialmente em famílias com menor grau de instrução; a mensagem não chega
O que fazer: ancoragem técnico-leigo
- Sempre que usar um termo técnico, ancore com a tradução em linguagem acessível
- Exemplo: “é uma infecção que começou no xixi, se generalizou e causou uma inflamação no corpo inteiro; isso na medicina a gente chama de sepse de foco urinário”
- Isso inclui o paciente no contexto, sem menosprezar e sem excluir
Recursos complementares de linguagem
- Imagens (radiografia, tomografia, ultrassom): mostrar o normal vs. alterado ajuda concretamente
- Vídeos ou instrumentos: úteis quando o próximo passo é um procedimento
- Analogias: potentes para explicar decisões complexas
Exemplo: analogia do barco — “Se eu segurar um barco muito forte, ele quebra e afunda. A gente não vai largar o barco, vai segurar devagar, sem deixar que ele quebre”
Atenção às barreiras de linguagem
- Deficiência auditiva ou de fala (ex.: pacientes afásicos)
- Diferença cultural ou religiosa
- Paciente estrangeiro: considerar intermediador ou intérprete
Quando falar do futuro
- Prognóstico entra aqui, mas com foco no presente ao descrever o quadro
ARMADILHA 5: Não respeitar pausas e o silêncio
Qual é a armadilha
- Após entregar a informação racional, continuar falando por ansiedade
- Acumular informações sem tempo de processamento
- Interpretar o silêncio como falha
Por que o silêncio é terapêutico
- O paciente pode regredir para emoção ou desconfiança
- O silêncio permite processamento cognitivo
- Reduz perguntas tardias
O que fazer
- Entregue a informação em pequenas doses
- Aguarde o silêncio
- Regra de ouro: deixe que o paciente rompa o silêncio
- Retome com checagem: “o que você entendeu até agora?”, “ficou com alguma dúvida?”
Se o paciente regredir
- Volte à emoção
- Ressoe novamente
Exemplo: “te assustou? eu também não queria estar te dando essa notícia. quer me falar mais sobre isso?”
A comunicação não é linear
- O paciente oscila entre cognição e emoção
- Você vai subir e descer essa “escada” várias vezes
Descrição + Referências
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Marcela Belleza, Tiago Arnaud e Flávio Barbieri discutem 5 armadilhas (erros) comuns em comunicação na prática médica e como evitá-las.
Referências:
1. Vogel D, Meyer M, Harendza S. Verbal and non-verbal communication skills including empathy during history taking of undergraduate medical students. BMC Med Educ. 2018;18(1):157. Published 2018 Jul 3. doi:10.1186/s12909-018-1260-9
2. Riess H, Kraft-Todd G. E.M.P.A.T.H.Y.: a tool to enhance nonverbal communication between clinicians and their patients. Acad Med. 2014;89(8):1108-1112. doi:10.1097/ACM.0000000000000287
3. Campos VF, et al. Comunicação em cuidados paliativos: equipe, paciente e família. Revista Bioética. 2019;27(4):711–804.
4. Patel AA, Arnold RM, Taddei TH, Woodrell CD. "Am I Going to Die?": Delivering Serious News to Patients With Liver Disease. Gastroenterology. 2023;164(2):177-181. doi:10.1053/j.gastro.2022.11.006
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10. Manual de cuidados paliativos / Maria Perez Soares D’Alessandro (ed.) ... [et al.]. – 2. ed. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023.
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