Hipertensão Resistente e Baxdrostat

Criado em: 20 de Fevereiro de 2023 Autor: João Mendes Vasconcelos

Hipertensão resistente afeta de 10% a 20% dos pacientes com hipertensão, levando a piores desfechos cardiovasculares. Em fevereiro de 2023, o New England Journal of Medicine publicou o estudo BrigHTN, testando a nova droga baxdrostat nessa população [1]. Neste tópico revisamos hipertensão resistente e avaliamos o que o estudo adicionou.

Qual é a definição de hipertensão resistente?

Segundo as diretrizes do Brasil, Estados Unidos e Europa hipertensão resistente (HR) é definida como pressão arterial (PA) acima da meta mesmo com o uso de três medicações anti-hipertensivas de classes diferentes , idealmente em dose máxima, sendo preferencialmente uma delas um diurético [1-3]. Acredita-se que a retenção de sódio e a expansão do volume extracelular contribuem com a HR.

Nem todos os incluídos nessa definição tem HR de fato. É necessário excluir fatores de pseudorresistência, entre eles aferição inadequada e não aderência. Para garantir que os valores são confiáveis, a HR deve ser confirmada com medidas de PA fora do consultório - seja monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) ou monitorização residencial da pressão arterial (MRPA).

Para verificar a aderência, muitos estudos utilizam dosagem de drogas no sangue ou urina. Na prática, é possível recorrer à tomada de medicação diretamente observada na unidade de saúde. Entre os fatores que podem melhorar a aderência estão:

  • Educação do paciente
  • Contato frequente com os profissionais de saúde
  • Simplificar o tratamento (combinar várias drogas e um só comprimido)
  • Reduzir os custos da prescrição
  • Usar lembretes
  • Monitorizar a pressão em casa.

Medicações que elevam a PA - como antiinflamatórios - também são possíveis culpados, devendo ser evitadas.

O conceito de hipertensão refratária é diferente de hipertensão resistente. Hipertensão refratária é definida como níveis inadequados de PA mesmo com cinco classes de antihipertensivos diferentes, sendo obrigatoriamente clortalidona e um antagonista do receptor mineralocorticóide. Um dos mecanismos propostos para explicar esse grupo é a hiperatividade simpática, por conta dos níveis elevados de frequência cardíaca e a ausência de resposta com terapia diurética intensiva.

Como manejar um paciente com hipertensão resistente?

Pacientes com HR devem ser investigados para hipertensão secundária. As causas de hipertensão secundária mais comuns nos pacientes com HR são: estenose da artéria renal, doença renal crônica e apnéia obstrutiva do sono. Para mais detalhes da investigação de hipertensão secundária, veja nosso episódio sobre hipertensão secundária.

O estudo PATHWAY-2 comparou bisoprolol, doxazosina, espironolactona e placebo em pacientes com HR [3]. Os pesquisadores encontraram que a espironolactona foi a melhor droga a ser acrescentada em pacientes com HR.

Apesar de a espironolactona ser a melhor escolha para HR, a medicação tem alguns problemas. A droga aumenta o risco de hipercalemia em pacientes com doença renal crônica, além de poder causar ginecomastia, irregularidades menstruais e sangramento pós-menopausa.

O que é o baxdrostat e o que o estudo BrigHTN acrescentou?

O baxdrostat é um inibidor da enzima aldosterona sintase, reduzindo a quantidade de aldosterona ao inibir a síntese da substância. Por não interferir no receptor de aldosterona, espera-se que alguns efeitos indesejados como ginecomastia não ocorram.

O BrigHTN foi um estudo de fase 2, multicêntrico, em pacientes com HR testando várias doses de baxdrostat uma vez por dia (0,5 mg, 1 mg e 2 mg) versus placebo. O desfecho primário era variação da PA sistólica no consultório em 12 semanas. Pacientes com taxa de filtração glomerular menor que 45 ml/min foram excluídos. Ao final, 248 pacientes concluíram o trabalho.

Os grupos 1 mg e 2 mg de baxdrostat reduziram significativamente a PA sistólica (-20 mmHg e -17 mmHg, respectivamente) em relação ao placebo (-9 mmHg). O grupo 0,5 mg não teve diferença estatisticamente significante na mudança de PA sistólica em comparação ao placebo (-12 mmHg).

A maioria dos eventos adversos foi leve e não relacionada ao baxdrostat. Dois pacientes tiveram hipercalemia com potássio sérico maior que 6 mEq/L, mas a hipercalemia não recorreu após a suspensão e posterior reintrodução da droga.

O efeito placebo foi grande, com uma redução de quase 10 mmHg na PA sistólica. É possível que esse efeito fosse reduzido se uma MAPA fosse usada como critério de inclusão, excluindo pacientes com HR por efeito do jaleco branco.

O trabalho deixa o baxdrostat como uma promessa, porém estudos com mais pacientes, avaliando MAPA e comparando com espironolactona são necessários.

Compartilhe:
Aproveite e leia:
17 de Abril de 2023

Acido Bempedóico para Dislipidemia

Um dos trabalhos que chamou a atenção no congresso do American College of Cardiology (ACC) de 2023 foi o CLEAR OUTCOMES que avaliou o uso do ácico bempedoico em pacientes que não toleram estatina. Este tópico revisa o que fazer nessa situação e traz o que o artigo agrega.

hourglass_empty 7 min
Ler Tópico
4 de Dezembro de 2023

Betabloqueadores para Hipertensão Arterial

Um dos pontos mais polêmicos do tratamento de hipertensão arterial é o uso de betabloqueadores. Inspirados pela nova diretriz da Sociedade Europeia de Hipertensão Arterial (ESH), disponível em novembro de 2023, trazemos hoje uma revisão sobre o tema. Será que tem evidência para usar betabloqueadores na hipertensão?

hourglass_empty 7 min
Ler Tópico
11 de Dezembro de 2023

Tratamento de Hiponatremia e Mielinólise Pontina

Hiponatremia grave sintomática pode ocasionar complicações ameaçadoras à vida através de edema cerebral. Elevações acima de 12 mEq/L em 24 horas foram classicamente associadas com o surgimento da síndrome de desmielinização osmótica e mielinólise pontina. Em setembro de 2023, um estudo retrospectivo lançado na revista NEJM Evidence comparou diferentes estratégias de correção e avaliou mortalidade, tempo de hospitalização e ocorrência de mielinólise pontina. Este tópico revisa o tratamento de hiponatremia grave, mielinólise pontina e os resultados deste estudo.

hourglass_empty 9 min
Ler Tópico
15 de Janeiro de 2024

Tratamento de Angina Estável

Uma das principais indicações de angioplastia em pacientes com doença coronariana crônica é a persistência de angina. No entanto, ainda existem dúvidas sobre a efetividade do procedimento no controle de sintomas. O estudo ORBITA-2, publicado pelo New England Journal of Medicine em dezembro de 2023, avaliou a eficácia da angioplastia no manejo de angina. Esta edição do Guia revisa a terapia antianginosa na doença coronariana crônica e traz os detalhes do estudo.

hourglass_empty 10 min
Ler Tópico
6 de Maio de 2024

Hipomagnesemia

Hipomagnesemia é um distúrbio eletrolítico comum, podendo ocorrer em até 10% dos pacientes em enfermaria e 65% daqueles em terapia intensiva. Um estudo publicado em 2023 revisou estratégias de reposição intravenosa de magnésio. Este tópico foca na avaliação e tratamento da hipomagnesemia e traz os resultados do estudo

hourglass_empty 8 min
Ler Tópico

book Guidelines

Resistant Hypertension: Detection, Evaluation, and Management: A Scientific Statement From the American Heart Association

Resistant Hypertension: Detection, Evaluation, and Management: A Scientific Statement From the American Heart Association

Carey RM, Calhoun DA, Bakris GL, Brook RD, Daugherty SL, Dennison-Himmelfarb CR, Egan BM, Flack JM, Gidding SS, Judd E, Lackland DT, Laffer CL, Newton-Cheh C, Smith SM, Taler SJ, Textor SC, Turan TN, White WB, American Heart Association Professional/Public Education and Publications Committee of the Council on Hypertension; Council on Cardiovascular and Stroke Nursing; Council on Clinical Cardiology; Council on Genomic and Precision Medicine; Council on Peripheral Vascular Disease; Council on Quality of Care and Outcomes Research; and Stroke Council. Resistant Hypertension: Detection, Evaluation, and Management: A Scientific Statement From the American Heart Association. Hypertension. 2018.

2018 ESC/ESH Guidelines for the management of arterial hypertension

2018 ESC/ESH Guidelines for the management of arterial hypertension

Williams B, Mancia G, Spiering W, Agabiti Rosei E, Azizi M, Burnier M, Clement DL, Coca A, de Simone G, Dominiczak A, Kahan T, Mahfoud F, Redon J, Ruilope L, Zanchetti A, Kerins M, Kjeldsen SE, Kreutz R, Laurent S, Lip GYH, McManus R, Narkiewicz K, Ruschitzka F, Schmieder RE, Shlyakhto E, Tsioufis C, Aboyans V, Desormais I, ESC Scientific Document Group. 2018 ESC/ESH Guidelines for the management of arterial hypertension. Eur Heart J. 2018.

Posicionamento Brasileiro sobre Hipertensão Arterial Resistente – 2020

Posicionamento Brasileiro sobre Hipertensão Arterial Resistente – 2020

Yugar-Toledo JC, Moreno Júnior H, Gus M, Rosito GBA, Scala LCN, Muxfeldt ES, et al. Posicionamento Brasileiro sobre Hipertensão Arterial Resistente – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020.