Diretriz de 2023 de Prognóstico Neurológico Pós Parada Cardiorrespiratória

Criado em: 08 de Maio de 2023 Autor: João Urbano

O prognóstico neurológico pós parada cardiorrespiratória (PCR) é um desafio comum na terapia intensiva. Em março de 2023, a Neurocritical Care Society publicou uma diretriz de recomendações para a avaliação do prognóstico neurológico em pacientes que permanecem comatosos após PCR [1]. Revisamos este tema neste tópico.

Qual é a importância de prognosticar pacientes pós PCR?

De acordo com dados dos EUA, poucos pacientes com uma PCR abortada têm alta hospitalar - cerca de 9% das PCR extra-hospitalares e 27% das PCR intra-hospitalares. No entanto, 80% dos que tiveram alta apresentaram bom prognóstico neurológico após pelo menos 3 meses de acompanhamento. A definição de bons desfechos é medida na maioria dos estudos pela escala Cerebral Performance Category (CPC) (veja a tabela 1).

Tabela 1
Escala Cerebral Performance Category (CPC)
Escala Cerebral Performance Category (CPC)

A diretriz é focada em estabelecer critérios de pior prognóstico neurológico. Isso ocorre devido ao desenho dos estudos. Além disso, estabelecer com maior confiança um pior prognóstico tem valia no alinhamento de expectativas com a família e de condutas condizentes com os valores do paciente.

O documento estratifica os preditores em confiáveis, moderadamente confiáveis e não confiáveis. Essa classificação se baseia na certeza das evidências e na acurácia do preditor, baseado especialmente nos falsos positivos. Falsos positivos que indicam mau prognóstico no suporte pós-PCR podem levar a consequências graves, como retirar o suporte de alguém que teria boa recuperação.

A retirada de medidas de suporte é a principal causa de morte em pacientes pós-PCR. O estabelecimento de critérios de mau prognóstico neurológico serve para que a decisão de limitar o suporte seja tomada da maneira mais acurada possível.

Boas práticas recomendadas

  1. A avaliação deve ser realizada naqueles que permanecem em coma após 72 horas do retorno à circulação espontânea (RCE) ou 72 horas após o reaquecimento nos que foram submetidos à hipotermia terapêutica. A maioria dos pacientes estudados acordou dentro das primeiras 72 horas do RCE ou do reaquecimento. Apesar disso, o tempo do coma maior que 72 horas isoladamente não é um preditor de mau prognóstico. Na maioria dos estudos, a definição utilizada para o despertar foi de um componente motor da escala de coma de Glasgow de 6 - obedecer comandos motores.
  2. Pacientes devem ser mantidos sem sedação e sem outros confundidores. Sedativos atrasam o despertar e influenciam outras ferramentas da avaliação, como eletroencefalograma e reflexos de tronco quando em doses elevadas.
  3. Comorbidades limitantes, baixa funcionalidade prévia e baixa expectativa de vida devem ser consideradas no momento da avaliação. Prognóstico neurológico é diferente de prognóstico geral. A predição de funcionalidade em 3 meses ou mais pode não ser o parâmetro mais importante naqueles com maior risco de morte em curto prazo.
  4. A avaliação neurológica multimodal (clínica, imagem e eletrodiagnóstico) é essencial. O avaliador não deve se basear em apenas uma modalidade.
  5. Na ausência de preditores específicos, a recuperação é incerta. O período de observação nesses casos pode ser prolongado de acordo com os valores do paciente. A duração do período de observação é variável. Muitos pacientes acordam nas primeiras 72 horas após o RCE ou o reaquecimento e a imensa maioria tem o despertar nas primeiras duas semanas. O período de coma maior que 72 horas isoladamente não é um preditor de mau prognóstico. É razoável acessar os valores do paciente em relação a ser submetido a um período mais prolongado de suporte invasivo.

Exame neurológico

Os principais pontos do exame neurológico nesse cenário são:

  • Responsividade a estímulos externos
  • Presença de posturas patológicas
  • Reflexos de tronco
  • Presença de movimentos involuntários.

Idade do paciente, ritmo da PCR e tempo até o RCE não são preditores confiáveis de mau prognóstico. Por conta do prolongamento da hipoperfusão cerebral, deve existir um tempo até o RCE que implique em pior prognóstico. Contudo, esse tempo ainda não está estabelecido e depende da etiologia da PCR, portanto não deve ser considerado isoladamente.

A tabela 2 resume a valorização de achados patológicos do exame neurológico.

[tabela id=303 index=2]

Para mais detalhes do exame do paciente em coma, escute o Episódio 142: Morte Encefálica.

Neuroimagem

A lesão hipóxico-isquêmica sofrida pelo cérebro após a PCR se reflete em achados de neuroimagem.

Tomografia de crânio sem contraste: edema difuso de padrão citotóxico, com perda de diferenciação córtico-subcortical e diminuição dos sulcos em imagem realizada pelo menos 48 horas após RCE (veja figura 1).

Ressonância magnética: Padrão de restrição à difusão disseminado em imagem realizada entre 2 e 7 dias do RCE (veja figura 1).

[tabela id=304 index=3]

Os achados de imagem foram definidos como preditores moderadamente confiáveis de mau prognóstico.

Outros exames complementares

Eletroncefalograma: É válido quando realizado em pacientes após 72 horas de RCE ou do reaquecimento na ausência de sedativos. Padrão de supressão ou surto-supressão é considerado preditor moderadamente confiável de mau prognóstico.

Potencial evocado somato-sensitivo: É um exame eletrofisiológico que avalia a resposta cortical a um estímulo sensitivo. A ausência bilateral do achado da onda N20 é considerado um preditor confiável de mau prognóstico.

[tabela id=305 index=4]

Veja o algoritmo de avaliação de prognóstico neurológico após PCR no fluxograma 1.

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