Diretriz sobre Tratamento para Fase Aguda de Transtorno Depressivo Maior

Criado em: 12 de Junho de 2023 Autor: Joanne Alves Moreira

Em fevereiro de 2023, o American College of Physicians (ACP) publicou recomendações sobre tratamentos não farmacológicos e farmacológicos na fase aguda de um transtorno depressivo maior [1]. Este tópico traz as recomendações e revisa o tema.

Introdução

O transtorno depressivo maior (TDM) é comum e causa uma grande carga de incapacidade, com custos para os indivíduos, sociedade e sistemas de saúde [2]. Em 2020, estima-se que 21 milhões de adultos nos Estados Unidos tiveram pelo menos um episódio de TDM, representando 8,4% de todos os adultos daquele país. Na américa latina, o Brasil é o país com maior prevalência dessa condição.

O TDM é a presença de humor deprimido ou perda de interesse ou prazer em atividades associada a pelo menos mais quatro critérios diagnósticos ou sintomas da tabela 1. O quadro deve durar por pelo menos duas semanas e causar sofrimento significativo ou prejuízo em áreas sociais, profissionais ou outras áreas importantes da vida. Sempre deve-se descartar que o episódio não é secundário ao uso de substâncias ou a outra condição médica.

{Tabela1}

O tratamento do TDM tem três fases: aguda (6 a 12 semanas), continuação (4 a 9 meses) e manutenção (≥ 1 ano). Durante a fase aguda, os sintomas são tratados até a remissão. Remissão e resposta ao tratamento podem ser quantificadas por meio de ferramentas como o Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) ou a Hamilton Depression Rating Scale (HAM-D ou HDRS). Pela escala HAM-D, resposta ao tratamento é definida como redução de 50% ou mais na gravidade da depressão e remissão como é definida como pontuação menor ou igual a 7 [3].

Tratamento inicial

O tratamento inicial tem dois componentes: não farmacológico e farmacológico.

O tratamento não farmacológico consiste em psicoterapia (terapia cognitivo-comportamental, humanística, etc), uso de medicina alternativa (por exemplo, acupuntura) e atividade física regular.

Quanto ao tratamento farmacológico, o uso de antidepressivos de segunda geração (AD2) é comum devido a disponibilidade, posologia e efetividade. Uma metanálise de 2011 não encontrou diferenças significativas entre os AD2 em relação aos benefícios clínicos [4].

{Tabela2}

As diferenças entre os AD2 estão nos perfis de efeitos adversos comuns, contraindicações, precauções e nos custos (veja as tabela 2 e tabela 3). Os principais efeitos adversos incluem constipação, diarreia, náusea, insônia, sonolência e disfunção sexual.

{Tabela3}

Na fase aguda do TDM leve, a diretriz sugere monoterapia com terapia cognitivo-comportamental (TCC) como tratamento inicial (recomendação fraca; qualidade da evidência baixa). Já na fase aguda de TDM moderado a grave, a recomendação é de monoterapia com TCC ou um AD2 como tratamento inicial (recomendação forte; qualidade da evidência moderada).

A terapia combinada é uma possibilidade. A decisão deve ser individualizada e baseada nas comorbidades e preferências do paciente. Não há evidência de benefício adicional em resposta ou remissão de sintomas com terapia combinada quando comparada à monoterapia com AD2 após 12 a 26 semanas [5].

O tratamento deve ser iniciado com dose baixa para reduzir a ocorrência de eventos adversos e aumentar a aderência. Deve-se monitorar os sintomas após uma a duas semanas do início da medicação e otimizar a dose progressivamente até obter bom controle de sintomas ou remissão. Não é necessário atingir a dose máxima da medicação se o paciente obteve a resposta/remissão com a dose inferior à máxima.

Segunda linha de tratamento

Até 70% dos pacientes com TDM não atingem a remissão após o tratamento farmacológico inicial com um AD2 [5].

Quando a resposta clinicamente satisfatória ou remissão não for obtida com a monoterapia inicial com AD2 em dose otimizada, a diretriz recomenda duas estratégias:

  • Mudar para um segundo AD2 ou associar um segundo tratamento farmacológico (recomendação fraca; evidência de baixa qualidade)
  • Mudar para psicoterapia ou associar a TCC ao AD2 (recomendação fraca; qualidade da evidência baixa).

A mudança para outro AD2 provavelmente resultará numa taxa de resposta e remissão semelhante segundo a diretriz. Contudo, a falha com uma medicação não prediz a ausência de resposta a outro AD2.

Compartilhe:
Aproveite e leia:
21 de Novembro de 2022

Psilocibina para Depressão Resistente

Depressão resistente é um desafio de tratamento. Muitas pesquisas têm estudado os alucinógenos nesse contexto. Um estudo de fase 2 publicado em novembro no New England Journal of Medicine (NEJM) testou várias doses de psilocibina, um alucinógeno presente em cogumelos, para depressão resistente. Vamos revisar esse tema e ver os resultados do trabalho.

hourglass_empty 8 min
Ler Tópico
20 de Março de 2023

Quetamina versus Eletroconvulsoterapia para Depressão

Mais de 30% dos pacientes com um episódio depressivo maior não atingem remissão mesmo com múltiplas tentativas de antidepressivos. Nesse cenário de depressão resistente ao tratamento, a eletroconvulsoterapia (ECT) é preconizada por algumas sociedades. Essa revisão sistemática do Journal of American Medical Association (JAMA) de outubro de 2022 comparou quetamina com eletroconvulsoterapia para depressão. Este tópico revisa essas terapias para depressão e traz os resultados do estudo.

hourglass_empty 9 min
Ler Tópico
10 de Abril de 2023

Transtornos de Personalidade

Pessoas com padrões de comportamento extremos e disfuncionais podem ter um transtorno de personalidade. Nos últimos 6 meses, foram publicadas duas revisões sobre o tema no New England Journal of Medicine (NEJM) e no Journal of The American Medical Association (JAMA). Esse tópico traz um resumo das principais informações sobre esse tema.

hourglass_empty 10 min
Ler Tópico
6 de Fevereiro de 2023

Baclofeno para Transtorno por Uso de Álcool

A Cochrane publicou uma revisão em janeiro de 2023 sobre um novo propósito para o baclofeno: tratamento do transtorno por uso de álcool. Essa droga entra no restrito grupo de medicamentos com evidência de eficácia para essa condição que afeta milhões de pessoas no mundo.

hourglass_empty 10 min
Ler Tópico
17 de Outubro de 2022

Investigação de Primeiro Episódio Psicótico

Em junho de 2022, foi lançado um estudo retrospectivo no JAMA Internal Medicine para avaliar o valor diagnóstico da tomografia de crânio na investigação de um primeiro episódio psicótico. Excluídos pacientes com alterações não psiquiátricas, nenhum dos resultados das tomografias analisadas foi positivo para alterações estruturais. Aproveitando este estudo, trazemos uma revisão sobre a abordagem do primeiro surto psicótico.

hourglass_empty 8 min
Ler Tópico
article

Resumo

auto_stories

Referências

computer

Multimídia

list

Índice

Edição #45
replay_10