Tromboembolismo no Paciente com Câncer

Criado em: 13 de Junho de 2022 Autor: Pedro Rafael Del Santo Magno

Em 2021 a American Society of Hematology publicou uma diretriz sobre tromboembolismo venoso (TEV) em pacientes com câncer [1]. Um tema comum na prática hospitalar e ambulatorial. Vamos checar as principais recomendações.

Profilaxia primária no paciente internado

Os autores sugerem que todo paciente internado com neoplasia deve realizar profilaxia para TEV. Nesse cenário, a heparina de baixo peso molecular é uma escolha melhor que a heparina não fracionada.

A discussão maior está no método da profilaxia. Uma das recomendações cita que, em pacientes com alto risco de trombose, a profilaxia medicamentosa (heparina) deve ser feita junto com a profilaxia mecânica (dispositivo de compressão pneumática). As evidências sinalizam que pode haver benefício em menor formação de trombose venosa periférica (TVP) e tromboembolismo pulmonar (TEP). Em relação à mortalidade, o benefício é pequeno ou inexistente.

A evidência para a recomendação de profilaxia combinada é escassa. Ainda faltam informações sobre a duração da profilaxia combinada e uma padronização da definição de alto risco para trombose em pacientes hospitalizados.

Em pacientes com alto risco de sangramento, a profilaxia mecânica isolada é a recomendação padrão.

Manutenção da profilaxia após a alta

O documento também sugere profilaxia primária para TEV após a alta para aqueles que realizaram procedimentos cirúrgicos abdominais ou pélvicos. Esses pacientes somam fatores de risco para TEV. Manter anticoagulação profilática por até quatro semanas pode ser benéfico quando comparado com uma anticoagulação apenas durante o tempo de internação.

A maioria dos estudos utilizou heparina de baixo peso molecular para manter a profilaxia, o que dificulta a aplicação desta conduta.

De qualquer forma, as evidências não são contundentes e o nível de incerteza dessa recomendação é alto.

Pacientes com neoplasia e TEV confirmado

Os anticoagulantes de escolha nesse cenário são os anticoagulantes orais diretos (DOAC) ou heparina de baixo peso molecular (HBPM). Ambos são melhores que a varfarina, pois possuem menor taxa de sangramento. Essa recomendação é coerente com o que já é orientado pela European Society of Cardiology (ESC) na diretriz de 2019 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31473594/).

A maior ressalva aos DOAC são os pacientes com neoplasia gastrointestinal, já que podem ter maior risco de sangramento.

TEP incidental ou subsegmentar

Em pacientes com neoplasia, existe recomendação de tratar TEP mesmo que seja subsegmentar ou incidental. Essa conduta também está de acordo com a diretriz da ESC de 2019, onde eles sugerem tratar TEP subsegmentar nos seguintes cenários:

  • Neoplasia ativa
  • Múltiplos TEP
  • Pacientes hospitalizados
  • Presença de TVP associado.

Pela ESC, pacientes com TEP incidental devem ser sempre tratados. A exceção são os casos de TEP subsegmentar, que devem ser tratados se entrarem em algum critério acima. Essas recomendações do ESC podem ser encontradas no material suplementar do guideline.

Profilaxia primária no ambulatório

O painel recomenda a busca ativa de pacientes ambulatoriais com neoplasia em tratamento que possuam alto risco para trombose. Esse grupo pode se beneficiar de profilaxia primária com os DOAC. Os únicos estudados nesse contexto foram apixabana e rivaroxabana. O método para definir se o risco de trombose é elevado em pacientes ambulatoriais pode ser o escore de Khorana (tabela 1).

[tabela id=140 index=1]

O Khorana é um dos mais famosos modelos preditores de risco de tromboembolismo venoso, identificando pacientes de alto risco quando a pontuação é ≥ 2. Um dos problemas desse escore é que no estudo de validação inicial, os pacientes com neoplasia renal e neoplasia de sistema nervoso central foram sub-representados. Por isso, apesar de ser estabelecido que essas neoplasias possuem maior risco de tromboembolismo venoso, elas não entraram no escore original.

Antes de aplicar essa conduta, é importante ponderar se há alto risco de sangramento. De maneira geral, o uso da varfarina não é recomendado nesse cenário. Há maior taxa de sangramento com esse medicamento, o que desequilibra o risco/benefício.

Aproveite e leia:

27 de Outubro de 2025

Quimioterápicos e Eventos Adversos

A quimioterapia segue como pilar do tratamento oncológico, isolada ou combinada a terapias-alvo e imunoterapias. Esses medicamentos também atingem tecidos saudáveis e estão associados a efeitos adversos relativamente previsíveis. Esta revisão aborda a prevenção, reconhecimento precoce e manejo das toxicidades mais relevantes da quimioterapia.

10 de Março de 2025

Profilaxia de Tromboembolismo no Paciente Internado

Cerca de 50% dos eventos tromboembólicos venosos diagnosticados na comunidade ocorrem como resultado de uma hospitalização atual ou recente. A maioria dos pacientes hospitalizados tem pelo menos um fator de risco para tromboembolismo venoso e cerca de 40% possui três ou mais fatores. Esse tópico revisa a profilaxia de tromboembolismo venoso em pacientes hospitalizados.

26 de Setembro de 2022

Diureticoterapia na Insuficiência Cardíaca Aguda

Diureticoterapia é a pedra fundamental do tratamento da insuficiência cardíaca (IC) descompensada há mais de 20 anos. Ainda assim, há muitas perguntas sem respostas claras nesse tema. A revisão do mês traz um apanhado do conhecimento atual sobre os diuréticos na IC.

19 de Julho de 2023

Caso Clínico #10

Homem de 38 anos com dispneia há 2 meses e eosinofilia.

6 de Março de 2023

Nova Diretriz de Hemorragia Digestiva Baixa

O Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG) publicou em 2023 uma nova diretriz sobre hemorragia digestiva baixa. Esse tópico resume as principais recomendações desse documento, que atualiza a última diretriz de 2016.