Mpox (Monkeypox)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou em agosto de 2024 que os casos de mpox (a antiga monkeypox) em países africanos são uma emergência de saúde pública de preocupação internacional. O tópico "Mpox" revisa o diagnóstico e o manejo dessa doença.
Situação atual
A mpox, antes chamada de monkeypox, é causada por um vírus do gênero Orthopoxvírus, similar à varíola. É transmitida por contato direto com lesões de pele ou fluidos corporais da pessoa infectada, incluindo contato sexual, contato com objetos e superfícies contaminados e com secreções respiratórias. A doença pode ser adquirida e transmitida para mamíferos. O tempo entre o contato e a manifestação dos sintomas é de 3 a 21 dias, com média de 7 a 9 dias [1,2]. No surto de 2022, 95% dos pacientes eram homens que fazem sexo com homens.
O aumento de casos e o surgimento de uma nova variante de mpox levou a OMS a declarar emergência de saúde pública de preocupação internacional em 14 de agosto de 2024. A declaração visa mobilizar recursos internacionais, simplificar o financiamento e acelerar o desenvolvimento de vacinas, tratamentos e métodos diagnósticos sob autorização de uso emergencial. No Brasil, até o início de agosto de 2024, 709 casos foram registrados no Ministério da Saúde, predominando em São Paulo e Rio de Janeiro.
Apresentação clínica
A lesão inicial aparece no local provável de inoculação. Começa como mácula, evoluindo para pápula, vesícula e depois para pseudo-pústulas (figura 1). As pseudo-pústulas são pápulas que se assemelham a pústulas, mas o conteúdo é sólido, ao invés de líquido e purulento [3]. O centro pode se tornar necrótico e eventualmente as lesões assumem um aspecto umbilicado. Ao final, as lesões evoluem para crostas.
As lesões ocorrem mais comumente nos genitais, face, braços, mãos e região perianal. Podem ser únicas ou múltiplas, com mais de 50% dos casos tendo de duas a dez lesões, e eventualmente surgem em estágios diferentes de desenvolvimento [4]. Os pacientes com frequência sentem dor no local e alguns precisam de internação hospitalar para analgesia. Lesões confluentes podem causar edema importante causando obstrução uretral e retal. Quadros disseminados são descritos em imunossuprimidos.
A lesão inicial pode se apresentar de formas diferentes, a depender da localização. Lesões em mucosas tendem a se manifestar como úlceras. Nos dedos, a lesão pode se apresentar como paroníquia (inflamação periungueal). A OMS e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) disponibilizam gratuitamente imagens de mpox (veja aqui as imagens de mpox da OMS e do CDC).
Sintomas sistêmicos estão presentes na maioria dos pacientes (80 a 95%), principalmente febre, mialgia, linfonodomegalia, dor de garganta e cefaleia [1,5]. Os sintomas podem aparecer antes das lesões de pele em mais da metade dos casos. Manifestações graves como encefalite, pneumonia e miopericardite podem ocorrer em pacientes com HIV.
O diagnóstico é feito por detecção do vírus por reação em cadeia de polimerase quantitativa (qPCR). A coleta pode ser feita por swab em lesões de pele, orofaringe ou mucosas, assim como coleta da própria crosta para análise. Veja mais detalhes sobre o diagnóstico de mpox na nota informativa do ministérios da saúde. A suspeita de mpox é de notificação imediata, em até 24 horas.
Tratamento e prevenção
Deve-se adotar precauções de contato e gotículas com proteção ocular, máscara cirúrgica, avental e luvas descartáveis durante o cuidado de casos suspeitos ou confirmados de mpox. Máscara N95 ou equivalente deve ser adotada em procedimentos que gerem aerossóis. O caso confirmado de mpox deverá se manter em isolamento até que a erupção cutânea esteja totalmente resolvida, ou seja, até que todas as crostas tenham caído e uma nova camada de pele intacta tenha se formado. O tempo de transmissão médio em um estudo foi de 25 dias [6].
A maioria dos pacientes com mpox terá doença leve e podem ser tratados ambulatorialmente com suporte clínico. Os principais motivos de internação durante o surto de 2022 foram infecção bacteriana secundária, dor retal e perianal e acometimento ocular [5,7].
O tecovirimat é um antiviral atualmente em investigação para o tratamento de mpox. Estudos pré-clínicos mostraram eficácia em modelos animais. A medicação foi usada em pacientes com mpox no surto de 2022, mas faltam estudos randomizados. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos publicou um protocolo de acesso à medicação para imunossuprimidos, pacientes com manifestações graves ou em risco para manifestações graves. No Brasil, o Ministério da Saúde adquiriu uma pequena quantidade de medicação. Para obtê-la, deve ser realizado contato com mpox@aids.gov.br para avaliação técnica.
A vacinação contra mpox é recomendada para pessoas vivendo com HIV sendo homens cisgênero, travestis e mulheres trans com idade maior ou igual a 18 anos e profissionais de laboratório que trabalham diretamente com Orthopoxvírus. Pode ser usada também como profilaxia pós-exposição. No momento os estoques estão esgotados na maior parte dos estados. O Brasil está em negociação para aquisição de novas vacinas da mpox.
Referências
Monkeypox Virus Infection in Humans across 16 Countries - April-June 2022
Thornhill JP, Barkati S, Walmsley S, Rockstroh J, Antinori A, Harrison LB, Palich R, Nori A, Reeves I, Habibi MS, Apea V, Boesecke C, Vandekerckhove L, Yakubovsky M, Sendagorta E, Blanco JL, Florence E, Moschese D, Maltez FM, Goorhuis A, Pourcher V, Migaud P, Noe S, Pintado C, Maggi F, Hansen AE, Hoffmann C, Lezama JI, Mussini C, Cattelan A, Makofane K, Tan D, Nozza S, Nemeth J, Klein MB, Orkin CM, SHARE-net Clinical Group. Monkeypox Virus Infection in Humans across 16 Countries - April-June 2022. N Engl J Med. 2022.
Estimated incubation period for monkeypox cases confirmed in the Netherlands, May 2022
Miura F, van Ewijk CE, Backer JA, Xiridou M, Franz E, Op de Coul E, Brandwagt D, van Cleef B, van Rijckevorsel G, Swaan C, van den Hof S, Wallinga J. Estimated incubation period for monkeypox cases confirmed in the Netherlands, May 2022. Euro Surveill. 2022.
Clinical features and novel presentations of human monkeypox in a central London centre during the 2022 outbreak: descriptive case series
Patel A, Bilinska J, Tam JCH, Da Silva Fontoura D, Mason CY, Daunt A, Snell LB, Murphy J, Potter J, Tuudah C, Sundramoorthi R, Abeywickrema M, Pley C, Naidu V, Nebbia G, Aarons E, Botgros A, Douthwaite ST, van Nispen Tot Pannerden C, Winslow H, Brown A, Chilton D, Nori A. Clinical features and novel presentations of human monkeypox in a central London centre during the 2022 outbreak: descriptive case series. BMJ. 2022.
Clinical features and management of individuals admitted to hospital with monkeypox and associated complications across the UK: a retrospective cohort study
Fink DL, Callaby H, Luintel A, Beynon W, Bond H, Lim EY, Gkrania-Klotsas E, Heskin J, Bracchi M, Rathish B, Milligan I, O'Hara G, Rimmer S, Peters JR, Payne L, Mody N, Hodgson B, Lewthwaite P, Lester R, Woolley SD, Sturdy A, Whittington A, Johnson L, Jacobs N, Quartey J, Ai Payne B, Crowe S, Elliott IA, Harrison T, Cole J, Beard K, Cusack TP, Jones I, Banerjee R, Rampling T, Specialist and High Consequence Infectious Diseases Centres Network for Monkeypox, Dunning J. Clinical features and management of individuals admitted to hospital with monkeypox and associated complications across the UK: a retrospective cohort study. Lancet Infect Dis. 2023.
Viral dynamics in patients with monkeypox infection: a prospective cohort study in Spain
Suñer C, Ubals M, Tarín-Vicente EJ, Mendoza A, Alemany A, Hernández-Rodríguez Á, Casañ C, Descalzo V, Ouchi D, Marc A, Rivero À, Coll P, Oller X, Miguel Cabrera J, Vall-Mayans M, Dolores Folgueira M, Ángeles Melendez M, Agud-Dios M, Gil-Cruz E, Paris de Leon A, Ramírez Marinero A, Buhiichyk V, Galván-Casas C, Paredes R, Prat N, Sala Farre MR, Bonet-Simó JM, Farré M, Ortiz-Romero PL, Clotet B, García-Patos V, Casabona J, Guedj J, Cardona PJ, Blanco I, Movie Group, Marks M, Mitjà O. Viral dynamics in patients with monkeypox infection: a prospective cohort study in Spain. Lancet Infect Dis. 2023.
Clinical characteristics of ambulatory and hospitalized patients with monkeypox virus infection: an observational cohort study
Mailhe M, Beaumont AL, Thy M, Le Pluart D, Perrineau S, Houhou-Fidouh N, Deconinck L, Bertin C, Ferré VM, Cortier M, De La Porte Des Vaux C, Phung BC, Mollo B, Cresta M, Bouscarat F, Choquet C, Descamps D, Ghosn J, Lescure FX, Yazdanpanah Y, Joly V, Peiffer-Smadja N. Clinical characteristics of ambulatory and hospitalized patients with monkeypox virus infection: an observational cohort study. Clin Microbiol Infect. 2023.Mídia
2022-24 Mpox (Monkeypox) Outbreak: Global Trends
World Health Organization
Anvisa renova dispensa de registro de duas vacinas contra mpox
Agência Brasil
Características Clínicas da Monkeypox
Ministério da Saúde
Atlas of mpox lesions
World Health Organization
NOTA TÉCNICA Nº 29/2024-.DATHI/SVSA/MS
Ministério da Saúde
WHO Director-General declares mpox outbreak a public health emergency of international concern
World Health OrganizationAproveite e leia:
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DIANE DOURADO
Boa noite! As lesões são pustulosas ( no paciente q atendi) deixa atb??
Frederico Amorim Marcelino
Equipe GuiaOi Diane, tudo bem?
Pode ocorrer infecção bacteriana secundária, mas pode ser difícil diferenciar entre as lesões do mpox e uma infecção secundária. Infecção bacteriana secundária inclusive é uma das causas de internação por mpox.
Mas não conheço uma estratégia boa/escore clínico para diferenciar a lesão do mpox de uma infecção bacteriana secundária, infelizmente. Acaba sendo um diagnóstico individualizado.
Obrigado.
Lucas Ribeiro
Boa noite, não ficou muito claro para mim sobre a recomendação da vacinação. Entendi, como muito bem escrito, que o grupo de PVHIV sendo homens cisgênero, travestis e mulheres trans com idade > 18 anos e profissionais de laboratório que trabalham diretamente com Orthopoxvírus devem receber a vacina. Mas e em relação às mulheres cis (gestantes ou não) e homens trans, devem procurar a vacinação também? É uma questão de priorização, apenas? Falta de estudos? Muito obrigado.
Frederico Amorim Marcelino
Equipe GuiaOi Lucas, tudo bem?
É uma questão de priorização, considerando os dados epidemiológicos de quem se infecta mais. Homens que fazer sexo com homens foram os mais infectados no surto anterior e a quantidade de vacinas é pequena. Essas recomendações são relativamente antigas (final de 2023 e começo de 2024). Caso o ministério consiga novas vacinas, deve publicar uma nova recomendação dos grupos prioritários.
Obrigado.
Lucas Ribeiro
Entendi. Obrigado pela resposta!
Rafaela Saragiotto
Ótima revisão, muito informativa.