Interpretação do Base Excess
A Intensive Care Medicine publicou nesse ano um artigo rápido sobre Base Excess, explorando suas origens, nomenclatura, usos e armadilhas [1]. Trouxemos isso tudo para você nesse tópico.
De onde veio o Base Excess
Existem três maneiras de interpretar os desequilíbrios ácido-básicos. O primeiro e mais famoso é o método de Boston, que utiliza a fisiologia cooperativa entre pulmão e rim. O segundo é o método de Copenhague, que utiliza o Base Excess (BE). O terceiro e menos utilizado é o método de Stewart, baseado em quantificar íons fortes e íons fracos.
O BE surgiu da procura de um marcador que indicasse acidose ou alcalose metabólica e que não fosse influenciado pelo gás carbônico (CO2), como era o bicarbonato (HCO3). Até chegar no BE, ocorreram várias etapas. Primeiro foi utilizado HCO3 standard, que representava o HCO3 caso o pCO2 fosse de 40 mmHg, assim era menos influenciado pelo pulmão. Esse método falhava ao não levar em conta o efeito tampão de ácidos não carbônicos fracos, como proteínas. Depois veio o Buffer Base (BB) que levava em conta bicarbonato, hemoglobina, proteínas e fosfato, mas tinha como desvantagem uma variabilidade grande entre pacientes.
Por último, da diferença do BB para um valor de normalidade (NBB), que chegamos no BE. O BE representa a quantidade de ácidos que precisa ser adicionada ao sangue para atingir condições padrões (pH de 7.40, pCO2 40 mmHg e temperatura de 37 °C)
Nomenclatura
O BE pode ser expressado como BE do sangue ou BE do fluido extracelular (FEC). Esse último é melhor para estimar distúrbios ácido-básicos, já que não é apenas o sangue que possui efeito tampão para equilibrar o pH do corpo inteiro. O BE do FEC também é chamado de Standard Base Excess (SBE), utilizando em seu cálculo uma fração menor da hemoglobina.
De qualquer forma, exceto em situações de anemia ou policitemia extremas, é improvável que a diferença de SBE e o BE do sangue cause mudanças na interpretação e conduta de uma gasometria.
Outra nomenclatura possível de encontrar é o de Base Deficit, que é exatamente o contrário do BE.
Como utilizar?
O BE normal varia de +2 a -2 mmol/L e a ideia do uso dele é substituir o bicarbonato nas contas habituais. Na presença de acidemia (pH < 7,35), BE reduzido sinaliza acidose metabólica; na presença de alcalemia (pH> 7,45), BE aumentado sinaliza alcalose metabólica. Pode-se analisar se a resposta sistêmica é satisfatória diante de um distúrbio respiratório, através de fórmulas utilizando o BE (tabela 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29641969/).
Como o BE é resultado de vários processos, ele tem dois problemas:
- Não consegue dar informações sobre qual componente alterou, então às vezes não auxilia no diagnóstico final;
- Mais de um distúrbio acidobásicos podem se somar, e se forem opostos, se anulam, fazendo com que o BE não seja confiável.
Outros usos
No contexto do paciente do trauma, a anaerobiose provocada pelo choque hipovolêmico aumenta a produção do lactato e consequentemente altera o BE. Um trabalho observacional comparou a classificação do choque hipovolêmico utilizando níveis de BE com critérios habituais como frequência cardíaca, pressão arterial e escala de coma de Glasgow (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23497602/). Foi visto uma correlação com a classificação estipulada pelo BE com a morbimortalidade e um BE que continua piorando tinha maior relação com sangramento ativo.
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