Tromboembolismo Pulmonar
Em julho de 2022, o New England Journal of Medicine publicou uma revisão sobre tromboembolismo pulmonar (TEP) [1]. Baseado na votação dos assinantes, nessa revisão do mês vamos abordar tópicos relevantes sobre o tema.
Epidemiologia
A incidência mundial de TEP é de aproximadamente 1 para 1000 pessoas a cada ano. Quase 20% dos pacientes morrem em até 90 dias, mas o TEP não é comumente a causa de óbito. Isso ocorre já que frequentemente a doença tromboembólica coexiste com outras condições como neoplasia ou sepse. A recuperação é complicada por recorrências, sangramento por anticoagulantes, hipertensão pulmonar secundária e estresse psicológico.
Investigação inicial e escore PERC
O início agudo de sintomas cardiorrespiratórios é um indicativo conhecido de TEP, porém algumas situações podem enganar o avaliador. Síncope, especialmente no paciente internado, é uma manifestação descrita no TEP. Além disso, arritmias ou choque sem causa aparente também são apresentações importantes.
O aspecto mais desafiador no diagnóstico é saber qual exame requisitar uma vez que existe a suspeita de TEP. Nesse contexto, os testes não invasivos se baseiam na probabilidade pré-teste e são úteis para descartar o diagnóstico, levando a uma redução segura do uso da tomografia computadorizada (TC). Com algoritmos de avaliação validados, apenas 30 a 40% dos pacientes com suspeita de TEP são submetidos a avaliação por imagem.
Nos casos em que é muito improvável que o paciente tenha embolia pulmonar (probabilidade estimada < 15%), estudos de coorte mostraram que o Pulmonary Embolism Rule-out Criteria (PERC) (veja a tabela 1) pode descartar com segurança a possibilidade de TEP, sem avaliação diagnóstica adicional [2]. Isso é possível quando nenhum dos itens do escore está presente (sensibilidade de 96% a 100% e especificidade de 27% a 15%). Assim, se o médico julgar que a probabilidade de TEP é baixa, pode aplicar o escore PERC e, se negativo, pode descartar a hipótese sem a necessidade de mais exames.
Escore de Genebra e Wells
Quando a probabilidade não é tão baixa para aplicar o escore PERC, deve-se estimá-la por um dos três escores a seguir: Wells, Genebra revisado e Genebra simplificado. Uma pontuação ≤ 4 no escore Wells (veja a tabela 2), ≤ 10 no escore Genebra revisado e ≤ 4 no escore de Genebra simplificado (veja a tabela 3) configuram uma baixa probabilidade clínica. Quando a probabilidade é baixa por essas ferramentas, a hipótese de TEP pode ser excluída com segurança com base no valor de D-dímero seguindo os limites de corte recomendados pelo fabricante (sensibilidade 98 a 99% e especificidade de 37 a 40%).
D-dímero
Apesar de que TEP pode ser excluído com D-dímero menor que 500 ng/ml em pacientes com baixa probabilidade, essa combinação de achados não é tão comum. Novas abordagens tentam ajustar o limiar do D-dímero, com o objetivo de reduzir os falsos positivos. Estas abordagens incluem níveis de D-dímero que são ajustados para a idade (sensibilidade de 97 a 99% e a especificidade de 42 a 47%), ao algoritmo YEARS (sensibilidade 96 a 98% e especificidade 54 a 61%) ou ao escore de Wells (sensibilidade 93 a 97%; especificidade, 61 a 67%). Faltam ensaios randomizados que comparem as estratégias de ajuste do D-dímero em pacientes com suspeita de TEP.
O D-dímero é altamente sensível em pacientes hospitalizados. No entanto, é menos útil na exclusão de TEP, já que os níveis são frequentemente elevados durante uma intercorrência clínica ou após uma cirurgia.
Imagem
O diagnóstico por imagem é reservado para pacientes nos quais TEP não pode ser descartado com base nos escores de probabilidade clínica associados ou não ao D-dímero. A angiotomografia pulmonar (angioTC) é geralmente o exame de escolha. Para minimizar a irradiação em pacientes mais jovens, a TC de ventilação-perfusão com emissão de fótons (SPECT-CT) é uma opção de baixa radiação. A incidência de resultados falsos positivos na angioTC varia, mas pode chegar até 5%. O desempenho diagnóstico do SPECT-CT não foi bem estabelecido.
Em situações em que há necessidade de evitar a radiação, como na gestação, a ultrassonografia de membros inferiores pode definir a conduta adequada. A cintilografia pulmonar de ventilação-perfusão é outro método diagnóstico disponível para esses casos, mas sua disponibilidade é menor.
Estratificação de risco
Após o diagnóstico, deve-se estratificar o risco do TEP em alto, intermediário e baixo risco. Essa estratificação é o ponto-chave para guiar o tratamento inicial.
Alto risco - Aproximadamente 5% dos pacientes são admitidos com TEP de alto risco. Os achados clínicos que caracterizam essa apresentação são:
- Choque
- Hipoperfusão tecidual
- Hipotensão (pressão arterial sistólica menor que 90 mmHg ou queda da pressão arterial sistólica em mais de 40 mmHg sem associação com sepse, arritmia ou hipovolemia)
- Parada cardiorrespiratória
Risco intermediário - Essa categoria inclui os pacientes com evidências de disfunção de ventrículo direito no ecocardiograma ou angioTC, elevação de biomarcadores cardíacos (troponina ou BNP) ou ambos.
Risco baixo - Neste estrato encontram-se os pacientes com TEP sem alterações hemodinâmicas, sem disfunção ventricular direita e sem elevação de biomarcadores cardíacos.
Tratamento agudo do paciente de alto risco
Nesse cenário há benefício de terapia de reperfusão imediata, exceto na presença de contraindicações (veja tabela 5). Os trombolíticos disponíveis para essa indicação são o tenecteplase e o alteplase. A dose do tenecteplase é definida conforme a faixa de peso. Em contraponto, o alteplase pode ser prescrito de duas formas: 0,6 mg/kg com infusão durante 15 min (dose máxima de 50 mg) ou 100 mg com infusão em 2h [3]. Os regimes com dose guiada por peso são preferíveis em idosos ou pacientes com baixo peso (veja os regimes na tabela 6).
Quando há contraindicação à trombólise, as alternativas são embolectomia ou trombólise guiada por cateter com ou sem embolectomia, além de suporte hemodinâmico.
Tratamento agudo do risco intermediário
A trombólise não é rotineiramente recomendada para estes pacientes. Em um estudo randomizado que comparou a associação de tenecteplase à heparina versus placebo associado à heparina em pacientes de risco intermediário, o grupo intervenção teve uma redução absoluta do risco de descompensação hemodinâmica e morte de 3% [4]. No entanto, houve 9% de aumento no risco de sangramentos maiores e um aumento de 2% no risco de AVC hemorrágico. Assim, sugere-se que pacientes de intermediário risco sejam monitorizados de perto para identificação precoce de deterioração clínica, situação em que a terapia de reperfusão poderá ser administrada.
A anticoagulação terapêutica está indicada e a revisão sugere utilizar de preferência a heparina de baixo peso molecular (HBPM). Não há evidências que compararam os efeitos terapêuticos imediatos da HBPM com os anticoagulantes orais diretos (DOACs) em pacientes com risco intermediário. A European Society of Cardiology (ESC) sugere que após 2 a 3 dias de anticoagulação plena com HBPM é possível converter para tratamento oral.
Quando disponível, trombólise guiada por cateter é uma opção para pacientes em risco intermediário que têm um trombo proximal. Não há provas suficientes para respaldar a superioridade desse tratamento em comparação com a HBPM neste grupo de pacientes.
Tratamento agudo do baixo risco
A maioria desses pacientes pode ser tratada com um DOAC e são elegíveis para tratamento ambulatorial quando há adequado suporte social e baixo risco de sangramento.
A decisão para o tratamento ambulatorial é guiada pelo Pulmonary Embolism Severity Index (PESI) simplificado (tabela 7) ou pelo escore Hestia (tabela 8). O tratamento domiciliar é uma opção segura para algumas pessoas com TEP de baixo risco. Um ensaio randomizado mostrou um baixo risco de eventos adversos em pacientes que não preencheram critérios pelo escore Hestia ou que tiveram uma pontuação de 0 no PESI simplificado [5].
Tratamento de manutenção
Os DOACs são opções de primeira linha no tratamento de manutenção. Um ensaio clínico encontrou que os DOACs, que não necessitam de monitoramento, são tão eficazes em reduzir o risco de tromboembolismo venoso recorrente quanto os antagonistas da vitamina K e resultam em um menor risco de sangramento maior [6].
Em pacientes com câncer, os ensaios clínicos respaldam a segurança e a eficácia dos DOACs (apixabana, edoxabana e rivaroxabana) como alternativa ao tratamento com HBPM. A escolha entre os DOACs disponíveis deve ser orientada pelo perfil farmacológico e pelas preferências do paciente.
Os antagonistas de vitamina K são preferidos em pacientes com doença renal crônica avançada, hepatopatia e em pacientes com síndrome antifosfolípide com títulos muito altos de anticorpos ou com histórico de trombose arterial. A HBPM é o tratamento de escolha em mulheres grávidas, pois as demais drogas atravessam a circulação placentária e podem trazer riscos ao feto.
Tempo de tratamento e seguimento
Pacientes com TEP agudo devem ser anticoagulados por pelo menos 3 meses para reduzir os riscos de novas embolizações, extensão do trombo, recorrência precoce de tromboembolismo venoso e morte. Após os 3 meses, a decisão de interromper ou continuar a anticoagulação depende do risco de recorrência de tromboembolismo venoso (TEV) e de sangramento, levando em conta a preferência do paciente. Caso a anticoagulação seja mantida, essa decisão deve ser reavaliada pelo menos anualmente. A anticoagulação pode precisar ser descontinuada se o risco de sangramento aumentar, se ocorrer um evento hemorrágico grave ou se o paciente preferir interromper o tratamento.
A anticoagulação pode ser interrompida após 3 meses nos pacientes com baixo risco de recorrência a longo prazo. Nessa categoria se enquadram aqueles com TEP provocado por um fator de risco maior transitório ou reversível (cirurgia com anestesia geral com duração > 30 minutos, internação hospitalar por ≥ 3 dias devido a uma doença aguda, trauma ou fratura importante).
Nos casos de TEP associado à disfunção moderada do ventrículo direito, sintomas residuais persistentes ou TEP extenso, alguns especialistas recomendam que o tratamento se estenda até 6 meses [7].
Em pacientes com fatores de risco persistentes (como neoplasia ativa ou síndrome antifosfolípide) ou com episódios anteriores de TEV não provocado, o risco de recorrência a longo prazo é alto e recomenda-se a anticoagulação por tempo indefinido.
Apesar de reduzir a recorrência de TEV, manter a anticoagulação prolongada está associado a eventos hemorrágicos. O risco de sangramento é maior em pacientes com mais de 65 anos, taxa de filtração glomerular menor que 50 mL/minuto, histórico de sangramento, uso concomitante de antiplaquetários ou hemoglobina menor que 10 g/dL.
Embora a anticoagulação por tempo indefinido seja normalmente recomendada após um primeiro evento de TEV não provocado ou fracamente provocado, a suspensão do tratamento pode ser apropriada em alguns pacientes. Essa decisão pode ser orientada pela regra HERDOO2, um escore validado que identifica mulheres com um primeiro TEV não provocado ou fracamente provocado [8]. Mulheres com pontuação zero ou um podem descontinuar a anticoagulação com segurança. Não há escores validados para homens nesse cenário e muitos especialistas recomendam a continuação da anticoagulação por tempo indeterminado.
Em pacientes com anticoagulação indefinida, a dose do DOAC pode ser reduzida após 6 meses iniciais com dose plena. Ensaios clínicos randomizados indicam que, após 6 meses, a redução da dose mantém eficácia e segurança semelhantes às da dose plena habitual [9].
Em relação ao seguimento, existe a preocupação de o paciente ter um câncer oculto. Neoplasias são detectadas em 5% dos pacientes dentro de 1 ano após um diagnóstico de TEV não provocado [10]. Os especialistas recomendam rastreio de câncer guiado por história pessoal, exame físico, testes laboratoriais gerais, além de rastreios específicos para idade e sexo. Outros problemas que devem ser avaliados são o desenvolvimento de síndrome pós-TEP ou hipertensão pulmonar crônica secundária ao TEP. Os pacientes devem ser atendidos de 3 a 6 meses após o diagnóstico de TEP agudo para avaliação de sintomas como dispneia ou limitação funcional.
Referências
Screening for Occult Cancer in Patients With Unprovoked Venous Thromboembolism: A Systematic Review and Meta-analysis of Individual Patient Data
van Es N, Le Gal G, Otten HM, Robin P, Piccioli A, Lecumberri R, Jara-Palomares L, Religa P, Rieu V, Rondina M, Beckers MM, Prandoni P, Salaun PY, Di Nisio M, Bossuyt PM, Büller HR, Carrier M. Screening for Occult Cancer in Patients With Unprovoked Venous Thromboembolism: A Systematic Review and Meta-analysis of Individual Patient Data. Ann Intern Med. 2017.
Rivaroxaban or Aspirin for Extended Treatment of Venous Thromboembolism
Weitz JI, Lensing AWA, Prins MH, Bauersachs R, Beyer-Westendorf J, Bounameaux H, Brighton TA, Cohen AT, Davidson BL, Decousus H, Freitas MCS, Holberg G, Kakkar AK, Haskell L, van Bellen B, Pap AF, Berkowitz SD, Verhamme P, Wells PS, Prandoni P, EINSTEIN CHOICE Investigators. Rivaroxaban or Aspirin for Extended Treatment of Venous Thromboembolism. N Engl J Med. 2017.
Apixaban for extended treatment of venous thromboembolism
Agnelli G, Buller HR, Cohen A, Curto M, Gallus AS, Johnson M, Porcari A, Raskob GE, Weitz JI, AMPLIFY-EXT Investigators. Apixaban for extended treatment of venous thromboembolism. N Engl J Med. 2013.
Validating the HERDOO2 rule to guide treatment duration for women with unprovoked venous thrombosis: multinational prospective cohort management study
Rodger MA, Le Gal G, Anderson DR, Schmidt J, Pernod G, Kahn SR, Righini M, Mismetti P, Kearon C, Meyer G, Elias A, Ramsay T, Ortel TL, Huisman MV, Kovacs MJ, REVERSE II Study Investigators. Validating the HERDOO2 rule to guide treatment duration for women with unprovoked venous thrombosis: multinational prospective cohort management study. BMJ. 2017.
Triaging acute pulmonary embolism for home treatment by Hestia or simplified PESI criteria: the HOME-PE randomized trial
Roy PM, Penaloza A, Hugli O, Klok FA, Arnoux A, Elias A, Couturaud F, Joly LM, Lopez R, Faber LM, Daoud-Elias M, Planquette B, Bokobza J, Viglino D, Schmidt J, Juchet H, Mahe I, Mulder F, Bartiaux M, Cren R, Moumneh T, Quere I, Falvo N, Montaclair K, Douillet D, Steinier C, Hendriks SV, Benhamou Y, Szwebel TA, Pernod G, Dublanchet N, Lapebie FX, Javaud N, Ghuysen A, Sebbane M, Chatellier G, Meyer G, Jimenez D, Huisman MV, Sanchez O, HOME-PE Study Group. Triaging acute pulmonary embolism for home treatment by Hestia or simplified PESI criteria: the HOME-PE randomized trial. Eur Heart J. 2021.
Fibrinolysis for patients with intermediate-risk pulmonary embolism
Meyer G, Vicaut E, Danays T, Agnelli G, Becattini C, Beyer-Westendorf J, Bluhmki E, Bouvaist H, Brenner B, Couturaud F, Dellas C, Empen K, Franca A, Galiè N, Geibel A, Goldhaber SZ, Jimenez D, Kozak M, Kupatt C, Kucher N, Lang IM, Lankeit M, Meneveau N, Pacouret G, Palazzini M, Petris A, Pruszczyk P, Rugolotto M, Salvi A, Schellong S, Sebbane M, Sobkowicz B, Stefanovic BS, Thiele H, Torbicki A, Verschuren F, Konstantinides SV, PEITHO Investigators. Fibrinolysis for patients with intermediate-risk pulmonary embolism. N Engl J Med. 2014.
Clinical criteria to prevent unnecessary diagnostic testing in emergency department patients with suspected pulmonary embolism
Kline JA, Mitchell AM, Kabrhel C, Richman PB, Courtney DM. Clinical criteria to prevent unnecessary diagnostic testing in emergency department patients with suspected pulmonary embolism. J Thromb Haemost. 2004.
Long-term treatment of venous thromboembolism
Kearon C, Kahn SR. Long-term treatment of venous thromboembolism. Blood. 2020.
Direct oral anticoagulants compared with vitamin K antagonists for acute venous thromboembolism: evidence from phase 3 trials
van Es N, Coppens M, Schulman S, Middeldorp S, Büller HR. Direct oral anticoagulants compared with vitamin K antagonists for acute venous thromboembolism: evidence from phase 3 trials. Blood. 2014.
Pulmonary Embolism
Kahn SR, de Wit K. Pulmonary Embolism. N Engl J Med. 2022.Mídia
Escore PERC
Tabela 1
Critério de Wells para Tromboembolismo Pulmonar
Tabela 2
Escore de Genebra para Tromboembolismo Pulmonar
Tabela 3
Itens do YEARS
Tabela 4
Fluxograma de investigação de tromboembolismo pulmonar (TEP)
Fluxograma 1
Contraindicações à trombólise
Tabela 5
Trombolíticos e doses no tromboembolismo pulmonar
Tabela 6
PESI simplificado (Simplified Pulmonary Embolism Severity Index)
Tabela 7
Escore Hestia
Tabela 8
Regimes de tratamento com anticoagulantes para TEP
Tabela 9Aproveite e leia:
Anticoagulantes Orais Diretos (DOACs): Bulário
Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) formam um grupo de medicamentos composto por inibidores do fator X ativado - apixabana (Eliquis ®), edoxabana (Lixiana ®) e rivaroxabana (Xarelto ®) - e por um inibidor direto da trombina, a dabigatrana (Pradaxa ®). Este tópico revisa as principais indicações e doses recomendadas dos DOACs para cada situação clínica, além de destacar cuidados no uso e possíveis eventos adversos.
Trombocitopenia Induzida por Heparina
A trombocitopenia induzida por heparina é potencialmente fatal e envolve redução de plaquetas com eventos trombóticos. Em março de 2024, o JAMA Open publicou um artigo que avaliou a acurácia da abordagem diagnóstica dessa condição. Este tópico revisa a definição, apresentação clínica e abordagem terapêutica da trombocitopenia induzida por heparina.
Dor Torácica no Pronto-Socorro: Diretriz Brasileira de 2025
A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou, em 2025, a Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência. O documento recomenda critérios para abertura do protocolo de dor torácica, padrões eletrocardiográficos de oclusão coronariana aguda e escores para avaliação de condições mais graves. Este tópico traz as recomendações da diretriz e os principais aspectos operacionais da abordagem dessa queixa no pronto-socorro.
Tratamento de Tromboembolismo Pulmonar de Alto Risco
Até 5% dos pacientes com tromboembolismo pulmonar agudo (TEP) evoluem com instabilidade hemodinâmica, com uma mortalidade que pode chegar a 20%. Em agosto de 2022, saiu uma revisão e atualização sobre o tratamento de pacientes com TEP de alto risco no Journal of Clinical Medicine. Aproveitamos para revisar os principais pontos dessa condição neste tópico.
Doenças do Interstício Pulmonar: Abordagem Inicial e Novas Classificações de 2025
Duas publicações atualizaram a classificação e a investigação de intersticiopatias pulmonares em 2025. A American Thoracic Society (ATS) publicou uma atualização dedicada às anormalidades intersticiais identificadas na tomografia de tórax. Posteriormente, junto à European Respiratory Society (ERS), foi lançado um novo documento revisando a classificação das doenças pulmonares intersticiais. Este tópico revisa os principais pontos das publicações, incluindo as novas definições, os critérios diagnósticos e as orientações mais recentes para o manejo destas condições.
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VINICIUS FREDERICO OLIVEIRA
No tep maciço quanto tempo após fibrinólise devemos iniciar anticoagulação?
Mateus Lima
Existe alguma indicação de fazer uma dose inicial intravenosa de HBPM antes de começar o esquema subcutâneo?
Nicholas Resende Pena
Muito bom! Mas fiquei com uma dúvida, em casos de TEP com risco intermediário, no qual inicia-se anticoagulação com HBPM e depois faz transição para DOAC após 2-3 dias, é indicado fazer também a dose de ataque como no TEP de baixo risco quando já inicia diretamente os DOACs?
Gabrielle Marrocos
Existe alguma classificação de TEP? Ex: TEP extenso
Matheus C. Bevilacqua
Equipe GuiaOlá, Gabrielle! Excelente pergunta.
Classificar o TEP adequadamente direciona a avaliação prognóstica e o manejo inicial, mas o termo “TEP extenso” não corresponde a uma categoria formalmente reconhecida nas principais diretrizes sobre o tema.
A classificação aceita atualmente é baseada no risco de mortalidade precoce (hospitalar ou em 30 dias), levando em conta repercussão clínica, hemodinâmica, imagem e biomarcadores, e não apenas a extensão anatômica do trombo.
As principais categorias são:
• TEP de alto risco (maciço): caracteriza-se por instabilidade hemodinâmica (choque, hipotensão sustentada ou parada cardiorrespiratória). Representa cerca de 5% dos casos e exige diagnóstico imediato para terapia de reperfusão.
• TEP de risco intermediário (submaciço): pacientes normotensos, mas com disfunção de ventrículo direito em exames de imagem e/ou biomarcadores cardíacos elevados. Pode ser subdividido em: intermediário-alto (imagem + biomarcadores positivos) e intermediário-baixo (apenas um dos critérios).
• TEP de baixo risco (não maciço): pacientes hemodinamicamente estáveis, sem disfunção de VD e com biomarcadores normais.
Quanto ao termo “TEP extenso”, apesar de usado de forma descritiva para indicar grande carga trombótica, ele não faz parte da classificação oficial e, isoladamente, não define conduta. O impacto clínico e hemodinâmico é mais importante do que a extensão do trombo. Apesar de ainda utilizada pela diretriz da AHA, a própria diretriz da ESC considera essa classificação anatômica em “maciço” e “submaciço” confusa, visto que não estabelece o melhor tratamento.
Por fim, além da estratificação de risco, o TEP pode ser classificado em “provocado” (associada a fator desencadeante, como cirurgia ou imobilização) ou “não provocada”, o que influencia na duração da anticoagulação.
Em resumo, a classificação mais prática e clinicamente relevante de TEP é a de alto, intermediário e baixo risco, conforme repercussão clínica e hemodinâmica, pois diretamente orienta as decisões de tratamento e manejo do paciente. O uso de termos como “extenso” pode ajudar na descrição anatômica, mas não substitui a estratificação de risco recomendada pelas diretrizes.
Estamos à disposição para outras dúvidas!
Referências:
Stenger WJE, et al. Effective risk stratification in pulmonary embolism: evaluating current tools and identifying research gaps. Heart. 2025 Jul 22:e-pub ahead of print. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40695622/)
Kahn SR, de Wit K. Pulmonary Embolism. New England Journal of Medicine. 2022 Jul 7;387(1):45–57. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35793208/)
2019 ESC Guidelines for the diagnosis and management of acute pulmonary embolism. European Heart Journal. 2019. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31504429/)
Giri J, Sista AK, Weinberg I, Kearon C, Kumbhani DJ, Desai ND, Piazza G, Gladwin MT, Chatterjee S, Kobayashi T, Kabrhel C, Barnes GD; American Heart Association Councils. Interventional Therapies for Acute Pulmonary Embolism: Current Status and Principles for the Development of Novel Evidence: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2019 Nov;140(20):e774–e801. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31585051/)
Naiara
Eu fiquei com uma dúvida: li que a divisão do tempo de tratamento era baseado em Provocados e Não provocados para diferenciar o tratamento em 6 meses ou por tempo indeterminado.
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Naiara!
A duração da anticoagulação após um TEP depende de vários fatores, incluindo a presença de fatores de risco transitórios ou persistentes e se o evento foi provocado ou não. Em pacientes com TEP provocado por um fator de risco maior transitório ou reversível, como cirurgia, a anticoagulação é geralmente recomendada por 3 meses. Para TEP não provocado ou com fatores de risco persistentes (como neoplasia ativa ou síndrome antifosfolípide), a decisão entre interromper a anticoagulação após 3 meses ou continuar indefinidamente é baseada no risco de recorrência e no risco de sangramento. A anticoagulação indefinida é frequentemente considerada se o risco de sangramento for baixo. A American College of Chest Physicians recomenda anticoagulação indefinida para pacientes com TEP recorrente não provocada ou associada a fatores de risco persistentes.
Lucas Torres
Quando e como desospitalizar os pacientes que tiveram o episódio de TEP e estão estáveis no internamento?
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Lucas! Tudo bem? Excelente dúvida. Como é um tema complexo estamos programando um tópico para responder essa dúvida. Muito obrigada pela sugestão.
Julia Breda
Muito bom!!! Para pacientes com contraindicação a anticoagulação, em que momento da abordagem o filtro de veia cava entra como alternativa?
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Julia! Bom ponto! O filtro de veia cava é indicado em pacientes com TEP com contraindicação a anticoagulação como, por exemplo, sangramento ativo ou alto risco de sangramento. A National Comprehensive Cancer Network descreve algumas condições que contraindicam anticoagulação profilática ou terapêutica (https://doi.org/10.6004/jnccn.2011.0062).
O American College of Chest Physicians, Society of Interventional Radiology e PERT Consortium indicam o filtro de veia cava quando há contraindicação a anticoagulação. Não existe um período específico para colocação do filtro de veia cava após o TEP. A decisão baseia-se na necessidade clínica de prevenir novos eventos embólicos.
Deixo aqui as referências: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31185730/; https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21422387/; https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32919823/
Caio Lobato Gomes
No paciente de risco intermediário, durante a transição da anticoagulação intravenosa para a anticoagulação oral, é preciso também fazer a dose de ataque dos DOACS e depois manutenção?
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Caio! Ótima pergunta. Fiz uma ampla busca, mas infelizmente é um ponto ainda não respondido na literatura. Após conversar com alguns especialistas, o que é feito na prática de alguns serviços é considerar o tempo de anticoagulação. Se foi realizada anticoagulação plena por 21 dias, não haveria necessidade de dose de ataque de DOAC. Caso anticoagulação por menos de 21 dias, sugere-se fazer DOAC em dose ataque até atingir as três semanas e, após, iniciar dose de manutenção. Por exemplo, se o paciente usou HBPM por 7 dias, ele deveria usar DOAC em dose de ataque por 14 dias (completando 21 dias ao total) e após iniciar a dose de manutenção. Considerando que é uma abordagem com poucas evidências, sugiro que você converse com os especialistas do seu serviço para ouvir a opinião.
ruan miguel
Não entendi essa parte de definir que a suspeita inicial é < 15 % para aplicar o PERC. Quais dados eu uso para chegar a esse valor?
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Ruan! Excelente pergunta!
Não há critérios claros. O estudo que avaliou essa estratégia de baixa probabilidade + PERC negativo para descartar TEP usou a impressão médica de baixa (<15%), moderada (15-40%) e alta probabilidade (>40%). Em 74% dos pacientes, o exames (d-dímero, angioTC ou cintilografia pulmonar de ventilação-perfusão) estavam normais. A taxa de falso-negativo no grupo de baixo risco foi de 0.8% para TEV e 1% para TEV ou morte por qualquer causa em 45 dias. Considerando a subjetividade dessa avaliação, a American College of Emergency Physicians (ACEP) sugere aplicar Wells. Se menor ou igual a 1, o paciente tem baixo probabilidade de TEP. Deixo aqui as referências:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18318689/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21621092/
Isaac Carioca
Não entendi bem uma coisa. Tinha lido em algum momento em contéudo externo que TEP com alta probabilidade, mesmo diante de uma angioTC negativa, não há como afastar TEP... mas o fluxograma 1 mostra o contrário...
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOlá, Isaac! Excelente pergunta!
A angioTC negativa é o exame de escolha para descartar TEP em pacientes com uma probabilidade clínica pré-teste baixa ou intermediária. Esse dado foi reforçado por uma revisão sistemática que encontrou um valor preditivo negativo de 99,1% e uma razão de verossimilhança negativa de 0,07 para TEV após uma angioTC de tórax negativa para TEP.
Em pacientes com uma elevada probabilidade clínica pré-teste de TEP, a angioTC negativa pode não ser suficiente para excluir a TEP, podendo ser necessário realizar mais exames como cintilografia de ventilação-perfusão (V/Q), SPECT V/Q e angiografia pulmonar. Existem alguns pontos importantes quanto a investigação adicional: baixa disponibilidade desses exames no SUS; 50% de chance da cintilografia ser inconclusiva e necessidade de alta dose de contraste na angiografia. A ultrassonografia doppler dos membros inferiores também é recomendada quando há alta suspeita de TEP com angioTC negativa. Caso os exames sejam negativos, o diagnóstico de TEP é excluído. É importante reforçar que essa situação corresponde a uma minoria dos casos, visto a excelência acurácia da angioTC.
Referências:
https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/200784
https://erj.ersjournals.com/content/erj/54/3/1901647
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaIsaac, outros fatores a serem considerados são a qualidade técnica do exame (inspiração correta, ausência de artefatos), a localização do trombo e a experiência do radiologista. Um estudo de 2018 que avaliou a acurácia na detecção e erros de interpretação da TC com TEP com radiologistas com especialização em tórax. A sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo, valor preditivo negativo e acurácica dos radiologistas foi 86.8%, 99.2%, 92.4%, 98.5% e 97.9%, tendo uma maior sensibilidade nos pacientes com TEP central e TEPs múltiplos. A taxa de falso-negativo é maior em TEP pequeno e subsegmentar, visto que é necessário maior experiência do radiologista.
https://journals.lww.com/thoracicimaging/fulltext/2018/11000/radiologist_performance_in_the_detection_of.4.aspx
Assis Andrade
Quando podemos iniciar a anticoagulação no tratamento do agudo de alto risco após trombolisar?
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Assis! Tudo bem?
O guideline de TEP da ESC orienta que após, a estabilização clínica, podemos trocar a anticoagulação parenteral para oral. Como os pacientes pertencentes a esta categoria de risco foram excluídos dos ensaios de fase III dos DOACs, o período ideal para essa transição não foi determinado pelas evidências existentes. Logo, deve ser baseada no julgamento clínico. As orientações da tabela 9 também (regimes de tratamento) devem ser seguidas nesse caso.
FRANCISCO LUIZ GOMIDE MAGALHAES
Tinha a informação de "orelhada de visitas" que deveríamos reiniciar anticoagulação pós-trombólise quando o TTPA menor que 2x o limite superior da normalidade
Joanne Alves Moreira
Equipe GuiaOi, Francisco! Essa orientação consta no UptoDate. Essa referência cita que para minimizar o risco de hemorragia, especialista orientam verificar o valor de TTPA e retornar a infusão de HNF quando o TTPA é menor que 2 vezes o limite superior da normalidade. Se TTPA estiver acima este valor, deve-se repetir a cada 4 horas. A introdução de um anticoagulante oral (varfarina ou DOAC) poderá ser feita após 24 a 48h se o paciente estiver estável.
Marcelo Ferreira
Excelente!!
Lucas Corrêa
Muito bom!!!
Diego Pires de Melo
Excelente pessoal! Gostando demais desse formato