Semaglutida contra Tirzepatida para Obesidade

Criado em: 07 de Julho de 2025 Autor: Revisor: Nordman Wall

Semaglutida (análogo da GLP-1) e tirzepatida (agonista dual da GLP-1 e GIP) são medicamentos altamente eficazes para a perda de peso. Estudos independentes demonstravam perdas de peso maiores com a tirzepatida, porém as drogas nunca haviam sido comparadas em um ensaio clínico randomizado. O estudo SURMOUNT-5 comparou ambos os medicamentos para tratamento de obesidade, sendo publicado no New England Journal of Medicine em maio de 2025 [1]. Este tópico aborda os resultados do estudo e novidades no tratamento de obesidade.
 

Tratamento medicamentoso de obesidade em 2025

As diretrizes e revisões recentes recomendam que a farmacoterapia para obesidade seja considerada nos seguintes grupos, após resposta insuficiente à modificação do estilo de vida [2-5]:

  • Índice de massa corporal (IMC) ≥ 30 kg/m² ou
  • IMC ≥ 27 kg/m² com pelo menos uma comorbidade relacionada à obesidade (por exemplo, diabetes tipo 2, hipertensão ou dislipidemia).

Em ensaios clínicos de medicamentos para obesidade, “perda de peso significativa” é definida como a redução de pelo menos 5% do peso corporal total. Esse valor é o mínimo para um benefício significativo ser percebido em fatores de risco metabólicos e cardiovasculares (como controle glicêmico, pressão arterial e perfil lipídico). Contudo, maior perda de peso está consistentemente associada a maior benefício em várias doenças e fatores de risco. Essa relação foi demonstrada em diabetes tipo 2, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, fatores de risco cardiovasculares e osteoartrite [6-9].

Diante desses achados, a intensidade da perda de peso e a frequência de eventos adversos com cada droga impacta na seleção terapêutica e na decisão compartilhada com o paciente. Nesse contexto, foi realizado o estudo SURMOUNT-5.

O estudo SURMOUNT-5

O SURMOUNT-5 foi um estudo de fase 3b, aberto, controlado e multicêntrico, comparando semaglutida com tirzepatida para perda de peso em pacientes com obesidade.

  • Critério de inclusão: IMC ≥ 30 kg/m² OU IMC ≥ 27 kg/m² com uma complicação relacionada à obesidade (hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular). Além disso, era necessário pelo menos uma tentativa mal sucedida de perda de peso com dieta.
  • Critérios de exclusão:
    • Diabetes.
    • Cirurgia para obesidade prévia ou planejada.
    • Tratamento com droga para redução de peso ou agonista da GLP-1 em até 90 dias antes da inclusão.
    • Mudança de mais de 5 kg em até 90 dias da inclusão.
  • Intervenção: dose máxima tolerada de tirzepatida (10 a 15 mg) ou semaglutida (1,7 a 2,4 mg). A intervenção era administrada por 72 semanas. Todos os participantes receberam aconselhamento sobre nutrição e atividade física.
  • Desfechos: o desfecho primário foi a variação percentual no peso corporal entre o início do estudo e a semana 72. Entre os desfechos secundários estavam uma redução de peso de pelo menos 10%, 15%, 20% e 25% e uma variação na circunferência abdominal entre o início do estudo e a semana 72. 
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O estudo foi conduzido entre abril de 2023 e novembro de 2024. Foram 751 pacientes randomizados com média de idade de 44 anos, peso médio de 113 kg e IMC médio de 39 (tabela 1).

  • Resultados do desfecho primário: a média de perda de peso foi de 20,2% com tirzepatida, 13,7% com semaglutida. A tirzepatida foi significativamente superior à semaglutida em relação à perda de peso (diferença estimada de tratamento, −6,5%; IC 95%, −8,1 a −4,9).
  • Resultados dos desfechos secundários: considerando somente os que perderam pelo menos 30% do peso, foram 19,7% no grupo tirzepatida e 6,9% no grupo semaglutida. A redução da circunferência abdominal foi de 18,4 cm com tirzepatida e de 13,0 cm com semaglutida. Em ambos os grupos, a redução de peso foi aproximadamente 6% maior em mulheres do que em homens.
  • Segurança e eventos adversos: 76% do grupo tirzepatida e 79% do grupo semaglutida relataram pelo menos um evento adverso, sendo a maioria gastrointestinais e leves. Eventos gastrointestinais também foram os que mais levaram à descontinuação do tratamento e foram observados com maior frequência no grupo semaglutida (21 participantes — 5,6%) do que no grupo tirzepatida (10 participantes — 2,7%). Reações no local da injeção foram mais comuns com tirzepatida do que com semaglutida (8,6% vs. 0,3%). Essas reações não levaram a descontinuação do tratamento.

Em ambos os grupos, reduções de peso maiores foram associadas a melhorias mais expressivas em fatores de risco cardiometabólicos. Esse achado é consistente com estudos anteriores.

Perspectiva

Os resultados indicam que a tirzepatida tem maior efeito em perda de peso com menor eventos adversos que levam à interrupção do tratamento em comparação com a semaglutida.

Uma limitação importante é o custo. Em julho de 2025, a tirzepatida está disponível no Brasil (Mounjaro®) nas doses de 2,5 e 5 mg (um terço da dose do estudo) e tem custado de 1.700 a 2.300 reais para 4 semanas nessas doses. A semaglutida está disponível na dose de 2,4 mg (Wegovy®) e custa de 1.700 a 1.900 reais por 4 semanas.

A semaglutida demonstrou um benefício em prevenção de eventos cardiovasculares no estudo SELECT e esse tipo de evidência ainda não existe para tirzepatida. O estudo em andamento SURMOUNT-MMO com tirzepatida fornecerá dados sobre a prevenção de doenças cardiovasculares com essa droga (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40545827/). Veja mais sobre o estudo SELECT em "Semaglutida para Prevenção Cardiovascular Secundária".

Não existe uma orientação formal de como transicionar de semaglutida em doses altas para tirzepatida. Seguindo a bula, a tirzepatida deve ser iniciada na dose de 2,5 mg uma vez por semana e escalonada em seguida, independente da dose de semaglutida. Um estudo prospectivo avaliou a transição de semaglutida, liraglutida ou dulaglutida direto para tirzepatida 5 mg, com bom perfil de segurança (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38723893/). 

Com o provável aumento na prescrição desses medicamentos, deve-se atentar para a possibilidade de interações medicamentosas. Isso é válido especialmente para drogas orais, pois a lentificação do esvaziamento gástrico pode afetar a sua farmacocinética. Pacientes em uso de anticoncepcionais orais devem mudar para um método contraceptivo não oral por 4 semanas após o início do uso de tirzepatida e por 4 semanas após cada escalonamento de dose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37940101/). A semaglutida e outros agonistas do GLP-1 não parecem ter o mesmo efeito sobre os anticoncepcionais orais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25475122/).

Um dos próximos passos é tentar maximizar a redução de gordura preservando massa magra. A bula da semaglutida sinaliza maior incidência de fraturas de quadril e pelve em mulheres e em pacientes ≥ 75 anos, o que pode estar relacionado à perda de massa muscular. Quando um paciente perde peso e ganha novamente, esse ganho parece ocorrer predominantemente às custas de gordura, sem recuperação proporcional da massa magra (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21795437/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19366882/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30925026/). Alguns trabalhos testam abordagens complementares, como o estudo BELIEVE, que combinou semaglutida ao anticorpo bimagrumabe, conseguindo perda de peso e preservação de massa magra (resultados apresentados em congresso, ainda não publicados) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38218536/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33439265/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33074327/).

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