Nova Diretriz Americana de 2025 sobre Tratamento de Infecção Urinária Complicada

Criado em: 18 de Agosto de 2025 Autor: Revisor: Nordman Wall

A Infectious Disease Society of America (IDSA) publicou uma nova diretriz de infecção do trato urinário (ITU) em 2025, abordando detalhes da classificação e terapia antimicrobiana [1]. Entre as razões para essa nova publicação, estão a necessidade de ampliar o foco da diretriz passada (que era direcionada somente para mulheres com ITU) e a crescente prevalência comunitária de bactérias resistentes envolvidas em ITU. Este tópico aborda a nova diretriz. 

O Guia já abordou infecção urinária em "Diretriz de Infecção do Trato Urinário", "Infecção do Trato Urinário Associada a Cateter Vesical" e "Piúria, Bacteriúria e Delirium".

Nova classificação: ITU complicada e não complicada

A nova diretriz da Infectious Disease Society of America (IDSA) mudou a classificação das infecções do trato urinário (ITU). Segundo o documento, para fins de manejo, as ITUs são divididas em complicadas e não complicadas: 

  • ITU complicada: ITU com sinais de que a infecção progrediu além da bexiga e/ou tem repercussão sistêmica, como febre, calafrios, instabilidade hemodinâmica, dor em flanco/lombar ou desconforto no ângulo costovertebral. Pielonefrite está incluída nessa categoria.
  • ITU não complicada: quadro restrito à bexiga (disúria, polaciúria, urgência e dor suprapúbica) sem febre ou outros sinais sistêmicos (salvo outra explicação) e sem dor em flanco/lombar ou desconforto no ângulo costovertebral. Pode ocorrer em mulheres ou em homens. 

Uma exceção é a presença de cateteres urinários (mesmo que intermitentes), stents na via urinária ou nefrostomia percutânea, que caracterizam uma ITU como complicada. Esses fatores são claramente identificáveis na avaliação clínica e impactam em vários aspectos do tratamento. Apesar dessa orientação, os autores reconhecem ser possível tratar como não complicada uma ITU associada a cateter na ausência de sintomas sistêmicos em um cateter recente. Veja mais em "Infecção do Trato Urinário Associada a Cateter Vesical".

A nova classificação difere da diretriz anterior da IDSA e da European Society for Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID) de 2010. O foco da diretriz atual é valorizar o quadro clínico, especificamente a extensão e a gravidade da infecção. Classificar uma ITU como complicada quer dizer somente que a infecção acomete partes do trato urinário além da bexiga e/ou tem sinais sistêmicos. O termo “complicada” não significa que existe uma complicação como abscesso ou litíase com obstrução do trato urinário. Essa mudança alinha-se à diretriz de 2024 da Sociedade Europeia de Urologia de infecções urológicas, que propõe uma classificação similar, porém com os termos ITU localizada (não complicada, cistite isolada) e sistêmica (complicada, como pielonefrite e prostatite) [2].

Pacientes do sexo masculino com ITU não são automaticamente considerados com ITU complicada. Uma ressalva é a possibilidade de prostatite aguda, que deve ser considerada e excluída antes de classificar uma ITU como não complicada. Não existe abordagem consensual de como excluir prostatite aguda. Na prática, a suspeita surge em pacientes com sintomas de cistite e sinais sistêmicos, dor pélvica, sintomas de dificuldade de esvaziamento vesical e instrumentação urológica recente. O toque retal auxilia no diagnóstico e pode ser feito de maneira cautelosa [3]. Ao longo da diretriz e desse tópico, “homem” e “mulher” são termos utilizados para o sexo biológico ao nascimento, por faltarem dados de estudos de ITU em pessoas transgênero. 

Imunossupressão, diabetes e anormalidades do trato urinário também não classificam uma ITU como complicada isoladamente. A diretriz pontua que faltam dados robustos indicando benefício de durações mais longas de antibiótico nessas populações quando o quadro é de ITU não complicada. Essas condições merecem atenção com acompanhamento mais próximo, mas não definem a categoria da ITU para fins de manejo.

Antibiótico inicial na ITU complicada: opções conforme gravidade

Recomendação

A diretriz sugere a escolha do antibiótico inicial separando dois grupos de pacientes (tabela 1): 

  • Pacientes com sepse (escore SOFA ≥ 2): preferir cefalosporinas de terceira (ceftriaxona) ou quarta geração (cefepime), quinolonas, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmicos.
  • Pacientes sem sepse: preferir cefalosporinas de terceira (ceftriaxona) ou quarta geração (cefepime), quinolonas ou piperacilina-tazobactam.
Tabela 1
Opções de antibioticoterapia empírica para infecção do trato urinário complicada.
Opções de antibioticoterapia empírica para infecção do trato urinário complicada.

A abordagem em quatro etapas explicada abaixo e disposta na figura 1 orienta a escolha dentre esses antibióticos.

Figura 1
Escolha da terapia empírica para infecção do trato urinário complicada.
Escolha da terapia empírica para infecção do trato urinário complicada.

Pacientes com critérios de sepse devem ter antibióticos com amplo espectro, considerando a cobertura para microrganismos diferentes de Enterobacterales (por exemplo, Pseudomonas aeruginosa, enterococo ou Staphylococcus aureus resistente à meticilina), quando o diagnóstico de ITU complicada não é claro ou se há suspeita de ITU por esses patógenos. A diretriz valoriza a cobertura inicial adequada em contexto de sepse para prevenir mortalidade. A escolha de um antibiótico com espectro mais estreito (descalonamento) pode ser feita após o resultado de culturas.

Por outro lado, em pacientes sem sepse, antibióticos como sulfametoxazol-trimetoprim, amoxicilina-clavulanato e cefalosporinas de primeira ou segunda geração podem ser considerados para tratamento oral empírico mesmo em casos de ITU complicada. Nesse grupo de pacientes sem critérios de sepse, a diretriz valoriza a escolha de um antibiótico inicial com espectro mais estreito, pois a mortalidade é baixa.

Abordagem em quatro etapas

Para seguir o raciocínio proposto pela diretriz, duas informações iniciais são necessárias:

  • Qual o impacto caso o antibiótico inicial seja inadequado? Os autores realizaram uma meta-análise com oito estudos observacionais e estimaram um aumento de mortalidade com odds ratio de 1,56 (IC 95% 0,99–2,46) se o antibiótico inicial for inadequado. A qualidade da evidência é baixa, mas é o melhor número disponível. Não foi possível estimar esse efeito em outros desfechos, como cura clínica, mas é plausível existir uma influência.
  • Qual o aumento aceitável de mortalidade ao optar por um antibiótico com espectro mais estreito? Por convenção dos autores, a meta é não ultrapassar 1% de aumento absoluto de mortalidade ao optar por um esquema mais estreito. 

A diretriz orienta que o processo de escolha da terapia inicial/empírica envolva quatro etapas (figura 1):

  1. Gravidade do quadro. Se o paciente está em choque séptico, sepse sem choque ou sem sepse.
  2. Fatores de risco para microrganismo resistente. 
  3. Fatores específicos do paciente. Como alergias e interações medicamentosas.
  4. Perfil de sensibilidade dos organismos locais.

Antibiótico inicial na ITU complicada: como escolher entre as opções

Etapa 1: gravidade do quadro

Esse é o aspecto mais influente na escolha da terapia inicial. Deve-se definir se o paciente tem sepse ou choque séptico segundo o Sepsis-3 (escore SOFA ≥ 2 para definir sepse)[4]. Essa caracterização é importante para separar os pacientes em três grupos de mortalidade estimada:

  • Choque séptico: aproximadamente 20%.
  • Sepse sem choque: aproximadamente 10%.
  • Infecção sem sepse: menor ou igual a 5%.

Em ITU com sepse ou choque séptico, a diretriz apoia o uso inicial de antibióticos de amplo espectro se necessário, com ajuste após o resultado de culturas. Em pacientes sem sepse, deve-se priorizar espectros mais estreitos e possivelmente eficazes, mesmo que exista incerteza sobre a adequação inicial. A escolha do antibiótico nesses casos tende a não influenciar grandes desfechos como redução de mortalidade, mas pode resultar em melhora sintomática ou cura clínica.

Etapa 2: fatores de risco para microrganismo resistente

O principal ponto dessa etapa é a análise de culturas prévias do paciente, especialmente dos últimos 3 a 6 meses. O documento sugere evitar antibióticos para os quais o paciente teve um microrganismo resistente isolado anteriormente. Além disso, caso tenha sido exposto a quinolonas nos últimos 12 meses, essa classe deve ser evitada.

Na revisão dos autores, quando o antibiótico inicial era concordante com a cultura anterior, a probabilidade de o tratamento ser adequado aumenta em pelo menos 7 vezes. Apresentar uma bactéria resistente em cultura anterior é um fator de risco para a identificação de uma bactéria resistente ao mesmo antibiótico na cultura atual. Ter mais de uma cultura prévia com a mesma resistência aumenta ainda mais as chances de identificar um microrganismo resistente ao mesmo antibiótico. Quando os resultados de culturas prévias são discordantes, a cultura mais recente é uma evidência mais forte para guiar a decisão. Exposição aos cuidados de saúde possuem uma associação fraca ou inexistente com a probabilidade de resistência.

Etapa 3: fatores específicos do paciente

Como boa prática, deve-se considerar o histórico de alergia a antibióticos, contraindicações a antibióticos específicos e potenciais interações medicamentosas. Por bom senso, os autores sugerem evitar um antibiótico que o paciente estava tomando quando os sintomas atuais se desenvolveram ou antibiótico que o paciente tomou muito recentemente.

Etapa 4: perfil de sensibilidade dos organismos locais

Essa etapa deve ser aplicada somente aos pacientes com critérios de sepse. Os dados são úteis para guiar a terapia se forem derivados do mesmo estabelecimento de saúde, baseados nos últimos 12 meses e de uma população semelhante ao paciente. 

Com base no perfil de sensibilidade local, deve-se selecionar um antibiótico com os seguintes limiares de sensibilidade:

  • Choque séptico: antibiótico com ≥ 90% de sensibilidade dos microrganismos prováveis.
  • Sepse sem choque: antibiótico com ≥ 80% de sensibilidade dos microrganismos prováveis.

Esses limiares de 90% (choque séptico) e 80% (sepse sem choque) são os pontos em que, em média, o risco extra de mortalidade por um antibiótico inicialmente inadequado não ultrapassa 1% (ver em acima em ‘Abordagem em quatro etapas’). Esse cálculo é feito utilizando o incremento de risco com a escolha inicial inadequada (odds ratio de 1,56) e a mortalidade basal de cada grupo.

Se o paciente tem uma cultura prévia, a escolha deve ser guiada pelo padrão de resistência da espécie isolada nos dados recentes daquele estabelecimento para a população do paciente. Na ausência de culturas prévias, deve-se utilizar padrão de resistência da E. coli.

Em pacientes que não têm critérios de sepse, a diretriz não se posiciona sobre utilizar ou não o perfil de sensibilidade local. Esse grupo possui baixa mortalidade prévia ao tratamento e um antibiótico inicial inadequado influencia pouco esse desfecho. Os autores apontam que utilizar antibióticos de amplo espectro nesse grupo pode aumentar a resistência bacteriana sem benefício para os pacientes. Por outro lado, é possível que uma escolha inicialmente inadequada impacte em outros desfechos como velocidade de recuperação, permanência hospitalar e cura clínica.

O antibiótico deve ser direcionado para a espécie isolada assim que o resultado da cultura atual estiver disponível. Quando não existe resultado de cultura atual, o quadro clínico pode servir de guia. Pacientes em melhora com antibiótico de amplo espectro são bons candidatos à transição para um regime mais estreito e troca para uma droga oral, caso microrganismos resistentes não sejam isolados. 

Transição para antibiótico oral e duração do tratamento na ITU complicada

Em pacientes que estão melhorando clinicamente, conseguem tomar medicamento oral e existe uma opção oral eficaz, a diretriz sugere modificar para antibiótico oral em vez de continuar a terapia parenteral pelo restante do tratamento. Essa recomendação é válida também para pacientes com hemocultura positiva para gram negativos.

O foco deve estar controlado para aplicar essa orientação, o que no caso de ITU significa desobstruir a via urinária ou drenar abscessos maiores que 3 a 5 cm. Em homens com ITU e febre, a escolha deve priorizar antibióticos com boa penetração na próstata, como as quinolonas, sulfametoxazol-trimetoprim e cefalosporinas.

Essa recomendação pode reduzir as complicações de dispositivos intravenosos, tempo e esforço de enfermagem, volume de fluido e sódio administrado, duração da hospitalização, custos de assistência médica e inconveniências para o paciente.

As doses das opções via oral estão na tabela 2.

Tabela 2
Opções de tratamento para infecção do trato urinário complicada.
Opções de tratamento para infecção do trato urinário complicada.

Em pacientes que estão melhorando, a diretriz orienta um tempo de tratamento de 5 a 7 dias para esquemas com quinolonas e 7 dias para esquemas sem quinolonas. Em pacientes com hemocultura positiva para um gram-negativo, o tempo recomendado é de 7 dias.

Nos homens com ITU febril nos quais há suspeita de prostatite bacteriana aguda, pode existir benefício de uma duração mais longa (10 a 14 dias). Faltam evidências para orientar a duração ideal nessa população.

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