Miastenia Gravis no Pronto-Socorro
A miastenia gravis é a doença mais comum da junção neuromuscular [1]. É causada por anticorpos contra estruturas da placa motora e cursa com fraqueza muscular. Podem ocorrer exacerbações com necessidade de suporte ventilatório, episódios chamados de crises miastênicas. Esse tópico revisa conceitos sobre a doença, o diagnóstico e o tratamento da crise miastênica.
Definição e diagnóstico de miastenia gravis
A miastenia gravis é a doença mais comum da junção neuromuscular [1]. O primeiro pico de incidência é por volta dos 30 anos, com predomínio de mulheres, enquanto o outro pico de incidência ocorre ao redor dos 50 anos, com predomínio em homens [2].
A doença é causada por autoanticorpos contra estruturas da placa motora (figura 1). O alvo mais comum é o receptor nicotínico de acetilcolina, na forma do anticorpo anti-AChR, encontrado em 80 a 85% dos pacientes. Outros alvos possíveis são a quinase músculo específica, com o anticorpo anti-MuSK em 5 a 10% dos pacientes e o anticorpo anti-LRP4 em 1 a 3% dos pacientes. [3,4]. Cerca de 10% dos pacientes com a doença podem ser soronegativos (ou seja, não apresentam anticorpos detectáveis) [5,6].
O principal sintoma é a fraqueza muscular. Essa fraqueza difere de outras síndromes neurológicas por ser flutuante e fatigável, piorando após uso repetido da musculatura e comumente ao final do dia.
A miastenia gravis pode ser classificada em forma generalizada ou forma ocular pura. Na forma generalizada, há fraqueza de membros de predomínio proximal, com ou sem acometimento de musculatura ocular, respiratória ou da função bulbar, como alteração da deglutição. Na forma ocular pura, há somente envolvimento da musculatura ocular, com queixa de diplopia por paralisia de musculatura oculomotora e ptose por fraqueza do músculo elevador da pálpebra. Cerca de 75% dos pacientes com início de doença com a forma ocular irão desenvolver sintomas da forma generalizada após três anos do início da doença [7].
Alguns testes clínicos são úteis na identificação de pacientes com miastenia gravis:
- Teste de fatigabilidade: avalia a perda de força muscular após esforço repetitivo. O examinador mede inicialmente a força de um grupo muscular, por exemplo, a abdução do ombro. Em seguida, solicita ao paciente que eleve e abaixe os braços por 20 vezes. A redução da força após essa sequência caracteriza fatigabilidade, achado sugestivo de miastenia.
- Teste do gelo: realizado somente se houver ptose palpebral. Primeiro, a ptose do paciente é medida com uma régua. Em seguida, uma compressa gelada é aplicada com proteção sobre o olho com ptose por três a cinco minutos. Após esse período, a ptose do paciente é novamente medida. Uma melhora de pelo menos 2 mm é indicativa de doença de junção neuromuscular e uma pista para o diagnóstico de miastenia. Acredita-se que o resfriamento local melhore a transmissão neuromuscular e diminua a atividade enzimática da acetilcolinesterase, aumentando a acetilcolina disponível após o período de repouso com gelo [8,9].
O diagnóstico é feito com quadro clínico compatível e dosagem de anticorpos como anti-AChR e anti-MuSK positivos. Caso haja suspeita clínica, mas a dosagem de anticorpos negativa, o diagnóstico pode ser confirmado por eletroneuromiografia ou resposta à terapia empírica [5].
Identificação de crise miastênica
Crise miastênica é definida como uma exacerbação da miastenia gravis com insuficiência respiratória por fraqueza dos músculos respiratórios e/ou bulbares, necessitando de suporte ventilatório, seja invasivo ou não invasivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19078687/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37114503/). Até 20% dos pacientes com a doença podem apresentar crise miastênica durante a vida, especialmente nos primeiros três anos de doença (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24141444/). A crise miastênica pode ser a forma de apresentação inicial em pacientes sem diagnóstico prévio, sendo um diagnóstico diferencial de outras causas de paralisia flácida aguda, como síndrome de Guillain-Barré e botulismo. O "Caso Clínico #5" do Guia possui um fluxo de abordagem aos pacientes com fraqueza muscular.
A crise colinérgica é um importante diagnóstico diferencial de crise miastênica. Essa condição é rara e causada por doses elevadas de anticolinesterásicos como a piridostigmina, comumente utilizada como tratamento sintomático para a miastenia gravis. A crise colinérgica também se apresenta com piora sintomática, porém junto a outros sintomas autonômicos parassimpáticos exacerbados como broncorreia, diarreia, fasciculações e bradicardia. A ocorrência de crise colinérgica é incomum com o uso em doses habituais de piridostigmina (180 a 450 mg/dia) e deve levantar a suspeita de dose inadequada ou consumo acidental do fármaco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9153452/).
Há fatores estabelecidos que podem levar à piora de sintomas e precipitar uma crise miastênica. Os mais comuns são infecções, medicamentos que pioram a miastenia e dificuldade de adesão ao tratamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37114503/). Apesar desses fatores, cerca de 24% dos pacientes não terão um gatilho identificável para a crise (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31469909/). Vacinação não possui associação com exacerbação sintomática de miastenia gravis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35503373/). A tabela 1 traz as principais classes de medicamentos que devem ser evitadas ou usadas com cautela em pacientes com miastenia gravis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31469909/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33144515/).
A identificação da crise miastênica envolve definir quando um paciente com piora sintomática da miastenia deve receber suporte ventilatório. Os principais sinais clínicos de alerta para falência respiratória são:
- Dispneia.
- Disartria flácida.
- Disfagia.
- Taquicardia e hipertensão.
- Sudorese e salivação excessivas.
A insuficiência respiratória ocorre por fadiga dos músculos respiratórios, causando retenção de CO₂. Pela fraqueza muscular, muitos pacientes podem não apresentar sinais claros de uso de musculatura acessória ou de taquipneia e evoluir rapidamente para insuficiência respiratória com rebaixamento do nível de consciência e acidose respiratória.
O tratamento da crise miastênica é composto por suporte ventilatório e tratamento medicamentoso.
Suporte respiratório na crise miastênica
A decisão de intubação orotraqueal envolve a avaliação de insuficiência respiratória e da capacidade de proteção da via aérea. Todo paciente com suspeita de crise miastênica deve ter a aferição frequente dos parâmetros respiratórios de capacidade vital (CV), pressão inspiratória máxima (Pins) e pressão expiratória máxima (Pex). Essa medição é realizada por um manômetro acoplado à boca do paciente e feito o registro da melhor de três tentativas para cada parâmetro.
A regra de bolso “20/30/40” (CV < 20 mL/kg; Pins > −30 cmH2O e Pex < 40 cmH2O) é útil para memorização de valores preocupantes, mas não são cortes validados em estudos prospectivos formais (tabela 2). Os parâmetros mais associados à necessidade de suporte ventilatório são a CV e a Pins. A Pex está mais associada à tosse eficaz e ao sucesso na etapa de extubação. Algumas recomendações de especialistas indicam valores diferentes para indicação de intubação, como CV < 15 mL/kg e uma Pins > −20 cmH2O (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37114503/).
Na impossibilidade de medir pressões e volumes respiratórios, seja por falta de material ou por falha de acoplamento ao manômetro por fraqueza de musculatura facial, podem-se utilizar os seguintes testes clínicos que têm correlação com valores de CV para auxílio na tomada de decisão:
- Flexão de pescoço: com o paciente em decúbito dorsal, é avaliada a força de flexão de pescoço. A incapacidade de manter o sustento cefálico contra a gravidade indica comprometimento respiratório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26437790/).
- Contagem em fôlego único: é solicitado ao paciente que realize, em um fôlego único, a contagem de números sequenciais. A contagem em fôlego único de menos que 20 números indica comprometimento respiratório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26437790/).
A ventilação não invasiva (VNI) tem espaço no manejo da crise miastênica principalmente nos cenários pré-intubação e na prevenção de falha de extubação. Em um estudo com 250 pacientes com crise miastênica, 38% dos pacientes que receberam VNI não necessitaram de intubação orotraqueal. O principal fator associado à falha de VNI e necessidade de intubação foi a presença de infecção como gatilho para a crise miastênica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31801833/).
Em relação ao procedimento da intubação orotraqueal, o uso de bloqueadores neuromusculares é debatido. Existe risco de duração prolongada do bloqueio neuromuscular e comportamento farmacocinético imprevisível do bloqueador. Se for utilizado, a preferência é pelos bloqueadores não despolarizantes com uso de reversor específico após o procedimento, como o rocurônio seguido de sugamadex (antídoto do rocurônio) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23424048/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34707886/). Pacientes com miastenia são mais sensíveis a bloqueadores não despolarizantes, incluindo rocurônio, sendo sugerido o uso de doses menores que as habituais, porém não existe evidência direta de dose ideal para intubação nesse grupo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8678231/). Nos casos em que apenas a Succinilcolina estiver disponível, deve-se ponderar sobre o seu uso em doses reduzidas, pelo risco de bloqueio prolongado após infusão do medicamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27755068/).
A média de tempo de ventilação mecânica é de 12 dias. Fatores relacionados com tempo de ventilação mecânica prolongado são idade avançada, comorbidades e complicações como pneumonia associada à ventilação mecânica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31801833/). Os pacientes em crise miastênica podem apresentar broncorreia pelo uso de anticolinesterásicos, dificultando a ventilação. Por isso, há a recomendação de suspender essa classe de medicamentos durante o período de ventilação mecânica e retornar próximo à programação de extubação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34292475/). O momento da extubação deve ser avaliado conforme a melhora sustentada dos parâmetros ventilatórios de CV, Pins e Pex.
Tratamento específico da crise miastênica
O tratamento definitivo para a crise miastênica é com imunoglobulina humana intravenosa (IVIG) ou plasmaférese. As duas modalidades têm início de efeito e benefício clínico semelhantes. Há uma tendência de início de efeito mais rápido para a plasmaférese, mas sem diferenças em desfechos motores após 15 dias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35690385/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9189040/).
A escolha entre as modalidades depende de fatores individuais de cada paciente, guiado por perfil de efeito adverso.
- Plasmaférese: realizada por cateter venoso central de curta permanência. São feitas cinco trocas no período de 7 a 14 dias. O paciente está suscetível a complicações relacionadas ao cateter e hipotensão. Está contraindicada em pacientes com infecção ativa. Tem efeito máximo entre uma e três semanas. Veja mais em “"Plasmaférese".
- Imunoglobulina humana: dose total de 2 g/kg dividida em dois a cinco dias. Pode ser necessária a pré-medicação com anti-histamínicos e analgésicos para evitar reações infusionais e profilaxia para tromboembolismo venoso. Há risco de reações de hipersensibilidade (incluindo anafilaxia), sobrecarga volêmica e complicações hematológicas (hemólise e eventos trombóticos) e neurológicas (meningite asséptica). Tem efeito máximo entre uma e três semanas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22448967/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29951056/).
A maioria dos pacientes responde a um único tratamento. Em pacientes com fraqueza refratária, dificuldade de extubação persistente ou piora sintomática após melhora inicial, é possível trocar a modalidade de tratamento, ou realizar um novo ciclo de tratamento, com níveis de evidência baixos. Há evidências crescentes do uso de inibidores de complemento, como o eculizumabe, como alternativas para crises refratárias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40505554/).
A introdução ou aumento de imunossupressão durante a crise miastênica pode causar piora sintomática transitória (tabela 1). Caso o paciente já esteja em uso de imunossupressor, como corticoide ou azatioprina, os mesmos podem ser mantidos durante a internação.
Após a alta, o acompanhamento ambulatorial envolve:
- Inibidor de acetilcolinesterase, como a piridostigmina, é a terapia inicial para casos leves a moderados.
- Em casos moderados a graves, corticosteroides e imunossupressores (azatioprina, micofenolato e ciclosporina).
- Pesquisa de timoma, encontrado em 10% dos pacientes e com melhora dos sintomas após a timectomia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28029925/).
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