Nova Diretriz Americana de 2025 sobre Tratamento de Pneumonia

Criado em: 01 de Setembro de 2025 Autor: Pedro Rafael Del Santo Magno Revisor: Marcela Belleza

A American Thoracic Society (ATS) publicou uma atualização da diretriz de 2019 sobre tratamento de pneumonia [1,2]. A diretriz atualiza quatro pontos: (1) duração de antibioticoterapia; (2) indicação de corticoide na pneumonia; (3) antibioticoterapia em paciente com pneumonia viral e (4) ultrassonografia no diagnóstico de pneumonia. Este tópico discute as novas recomendações do documento.

Duração do tratamento

A diretriz atual da American Thoracic Society (ATS) recomenda que em pacientes com pneumonia adquirida na comunidade (PAC) imunocompetentes que atinjam a estabilidade clínica (tabela 1), o tempo de antibiótico deve ser estabelecido baseado no local de tratamento e gravidade do quadro:

  • Tratamento ambulatorial: menor que cinco dias e com um mínimo de três dias (recomendação fraca).
  • Tratamento hospitalizado de PAC não grave: menor que cinco dias e com um mínimo de três dias (recomendação fraca).
  • Tratamento hospitalizado de PAC grave: realizar no mínimo 5 dias de tratamento (recomendação forte). 
Tabela 1
Definição de estabilidade clínica* em indivíduos com pneumonia.
Definição de estabilidade clínica* em indivíduos com pneumonia.

A diretriz enfatiza que o tratamento de três dias necessita de vigilância ativa no paciente. Deve-se estabelecer planos de contingência, via de comunicação e orientação sobre sinais de alerta como febre, dispneia e alteração do nível de consciência.

Essa recomendação é baseada principalmente no estudo PTC de 2021, que encontrou que o tratamento de três dias com betalactâmico foi não inferior ao tratamento de oito dias considerando cura clínica [3]. A mortalidade foi avaliada como desfecho secundário e não foi vista diferença entre os grupos. Outros três trabalhos citados pela diretriz corroboram com um menor tempo de antibioticoterapia [4-6]. Diretrizes no início dos anos 2000 recomendavam tratamento por 14 dias, enquanto nos últimos anos as recomendações passaram a focar em um tempo mínimo de cinco dias [2,7]. Longos períodos de tratamento estão relacionados a eventos adversos como infecção por Clostridioides difficile, lesão renal aguda e indução de resistência [8,9].

Os critérios de exclusão dos principais estudos foram destacados pela diretriz como contraindicação a um tratamento com menos de cinco dias, como:

  • Doença pulmonar grave como bronquiectasia.
  • Presença de abscesso pulmonar ou empiema.
  • Infecção por Pseudomonas aeruginosa ou Staphylococcus aureus.
  • Pneumonia pós-obstrução.
  • Gestação.
  • Uso recente de antibiótico.
  • Hospitalização recente.
  • Imunossupressão.
  • Suspeita ou confirmação de infecção por Legionella sp.

Muitos pacientes com PAC não atingem os critérios para essa recomendação de antibioticoterapia breve. Uma coorte de 36 mil casos de internação hospitalar por PAC avaliou que somente 25% dos pacientes conseguiriam terminar o tratamento em três dias. Os principais motivos foram as contraindicações ao tempo reduzido e os pacientes que não atingiram os critérios de estabilidade clínica no terceiro dia [10]. 

Uso de corticoide na pneumonia

A diretriz recomenda o uso de corticoide em pacientes com pneumonia grave (recomendação fraca), excluindo pacientes com pneumonia por influenza. Existe suspeita de malefício de corticoide na influenza, como discutido em "Influenza Grave: Tratamento Medicamentoso", no subtópico 'Corticoides em pacientes hospitalizados por influenza'.

Os estudos sobre corticoide na pneumonia apresentam resultados conflitantes. A recomendação da diretriz é feita principalmente devido ao trabalho CAPE-COD de 2023, com maior número de pacientes randomizados e protocolo bem estabelecido (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36942789/). 

Os critérios de inclusão desse estudo foram os seguintes (qualquer um deles):

  • Início de ventilação invasiva ou não invasiva com PEEP ≥ 5 cmH₂O.
  • Uso de cateter nasal de alto fluxo com FiO2 > 0,5 e relação pO₂/FiO₂ < 300.
  • Máscara não reinalante com estimativa de pO₂/FiO₂ < 300.
  • Índice de Gravidade de Pneumonia (PSI, sigla em inglês) > 130.

O corticoide de escolha é a hidrocortisona, por pelo menos oito dias, com esquema de desmame baseado em critérios de melhora do paciente (tabela 2). 

[tabela id=1470 index=2]

Veja mais em "Corticoides na Pneumonia Adquirida na Comunidade".

Pacientes com clínica de pneumonia com teste viral positivo

A diferenciação entre pneumonia viral e bacteriana é difícil e as duas condições podem coexistir. A Infectious Disease Society of America (IDSA) orienta em documento de 2024 que todo paciente com suspeita de pneumonia deve coletar exames para SARS-CoV-2 e vírus da influenza se houver presença desses vírus na comunidade, viagem recente ou exposição ao vírus recente (https://www.idsociety.org/globalassets/idsa/practice-guidelines/community-acquired-pneumonia-in-adults/cap-clinical-pathway-final-online.pdf).

Pacientes com teste positivo para etiologia viral podem ter coinfecção bacteriana. A prevalência de coinfecção varia conforme o vírus (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35100984/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34038699/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33335940/):

  • Vírus da influenza: 27% a 33%.
  • Vírus sincicial respiratório: 12% a 29%.
  • SARS-CoV-2: 4% a 10%.

Não há consenso sobre quando tratar empiricamente uma coinfecção bacteriana em pacientes com PAC e confirmação de infecção viral. A decisão deve considerar o risco de atrasar o tratamento de uma coinfecção bacteriana e a exposição desnecessária a antimicrobianos. 

As recomendações da nova diretriz da ATS variam conforme o perfil do paciente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40679934/):

  • Ambulatoriais sem comorbidades: sugerem não prescrever antibiótico se houver confirmação de vírus respiratório e achados clínico-radiológicos compatíveis com pneumonia adquirida na comunidade.
  • Ambulatoriais com comorbidades (tabela 3) ou internados (PAC grave ou não): sugerem iniciar antibiótico empírico (recomendação fraca). 
[tabela id=1471 index=3]

A diretriz relata que o contexto clínico deve ser considerado para a indicação de antibioticoterapia empírica, porém não é categórica em quais situações. Algumas sugestões da diretriz que favorecem o tratamento empírico são: imagem de consolidação lobar, aumento importante de provas inflamatórias (como procalcitonina e proteína C reativa), exposição recente a patógenos como Mycoplasma pneumoniae, sintomas prolongados ou com recidiva de piora clínica. Veja mais em "Influenza Grave: Tratamento Medicamentoso", no subtópico 'Antibióticos em pacientes hospitalizados por influenza'.

O documento da IDSA sugere não utilizar antibioticoterapia se houver baixa suspeita de infecção bacteriana, e usa como exemplo pacientes com leucócitos abaixo de 10 mil/microlitro, procalcitonina < 0,25 ng/mL ou redução de 80% em seu valor (https://www.idsociety.org/globalassets/idsa/practice-guidelines/community-acquired-pneumonia-in-adults/cap-clinical-pathway-final-online.pdf). 

Uso do ultrassom para diagnóstico de pneumonia

Os sintomas de pneumonia são inespecíficos e por isso a confirmação com exame de imagem é recomendada quando disponível. A radiografia de tórax é o exame de imagem inicial. A tomografia de tórax possui maior sensibilidade, mas deve ser reservada para os casos de radiografia negativa ou duvidosa. Veja mais em "Diagnóstico e Erro Diagnóstico em Pneumonia Adquirida na Comunidade".

A ATS sugere que o ultrassom seja usado como ferramenta diagnóstica inicial quando a radiografia não for acessível. 

Os estudos que compararam ultrassonografia com radiografia utilizaram como comparativo a presença de achados sugestivos de pneumonia na tomografia computadorizada. A diretriz separou 11 estudos, que mostraram que a ultrassonografia tem uma mediana de sensibilidade de 95% e especificidade de 75%. A radiografia apresentou mediana de sensibilidade de 70% e especificidade de 55%.

Os achados ultrassonográficos de pneumonia incluem consolidações hiperecogênicas mal definidas, com broncogramas aéreos dinâmicos, e linhas B pleurais não-uniformes pelo tórax. O ultrassom também permite identificar derrame pleural e monitorar a resposta ao tratamento. 

A presença de broncograma aéreo dinâmico é o achado com maior especificidade para pneumonia na ultrassonografia à beira do leito (POCUS) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40810585/). Broncogramas aéreos estáticos podem ocorrer na pneumonia, porém estão mais associados com atelectasia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19225063/). Um exemplo de broncograma aéreo dinâmico está no vídeo 1.

[video id=9 index=1 vimeo-id=1114370618 tag=V%C3%ADdeo%201 title=Broncograma%20a%C3%A9reo%20na%20ultrassonografia%20pulmonar]

As principais limitações do exame são a inexperiência do operador, a disponibilidade do equipamento e o pior desempenho em visualizar consolidações profundas.

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