ESC 2025: Potássio para Risco de Arritmias, Apixabana Prolongada para TEV, Betabloqueadores Após IAM
O congresso da European Society of Cardiology (ESC) de 2025 comentou sobre novos estudos na cardiologia como POTCAST (metas de potássio em pacientes com alto risco de arritmias) [1], HI-PRO (apixabana por tempo prolongado após tromboembolismo venoso provocado) [2], REBOOT-CNIC e BETAMI-DANBLOCK (betabloqueador após infarto agudo do miocárdio) [3,4]. Este tópico revisa os temas e comenta as novas evidências.
Reposição de potássio em paciente de alto risco para arritmias ventriculares
Em pacientes com insuficiência cardíaca, estudos mostram uma possível associação dos níveis de potássio com mortalidade de causas cardíacas. Em uma coorte de 2023, níveis de potássio abaixo de 4,0 mEq/L associaram-se com aumento do risco de morte comparado a níveis entre 4,7 e 5,0 mEq/L [5]. Após infarto agudo do miocárdio, hipocalemia aumenta o risco de arritmias ventriculares e morte súbita [6].
Alguns especialistas recomendam manter os níveis de potássio próximos de 4,5 mEq/L para pacientes pós-infarto ou com insuficiência cardíaca crônica. Essa recomendação possui baixo nível de evidência e o benefício é possivelmente maior em pacientes de maior risco de arritmia ventricular e morte súbita - como pacientes com disfunção sistólica do ventrículo esquerdo e uso de cardiodesfibrilador implantável (CDI) [7,8].
Antagonistas dos receptores de aldosterona, que aumentam os níveis de potássio, podem reduzir o risco de morte súbita em pacientes com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida [9]. Estudos que avaliaram seu benefício em diversos contextos observaram aumentos persistentes dos níveis de potássio, o que reforça a hipótese que esse seja um dos fatores para os desfechos favoráveis destes medicamentos [10-13].
O estudo POTCAST, apresentado no congresso da European Society of Cardiology (ESC) de 2025, avaliou a eficácia e segurança de aumentar os níveis de potássio para 4,5 a 5 mEq/L em pacientes com alto risco de arritmias ventriculares (definido por pacientes em uso de CDI). Foi um estudo randomizado, não-cego, guiado por eventos, multicêntrico em hospitais da Dinamarca.
Foram randomizados pacientes acima de 18 anos com CDI que apresentavam potássio sérico menor que 4,3 mEq/L para terapia multimodal com meta de potássio entre 4,5 e 5,0 mEq/L (grupo intervenção) e terapia padrão sem metas (grupo controle).
Pacientes com taxa de filtração glomerular estimada < 30 mL/min/1,73 m² foram excluídos.
A terapia multimodal para atingir os níveis de potássio no grupo intervenção consistia em:
- Dieta rica em potássio.
- Antagonistas dos receptores mineralocorticoides (espironolactona e eplerenona) - iniciados na dose de 25 mg/dia e escalonados a cada 2 semanas se o potássio fosse menor que 4,6 mEq/L, até uma dose máxima de 100 mg/dia.
- Suplementação de potássio, caso ocorram valores abaixo de 4,5 mEq/L, com dose máxima dos antagonistas.
O desfecho primário avaliado foi composto de arritmias ventriculares de alta frequência sustentadas por mais de 30 segundos, ocorrência de terapia de desfibrilação, hospitalização por arritmia ou IC e morte.
Foram randomizados 1.200 pacientes, que foram seguidos por uma média de 39 meses. Com relação ao perfil dos pacientes, 64% apresentavam insuficiência cardíaca, 50% doença isquêmica e 69% já haviam apresentado taquicardia ventricular prévia. A principal causa para CDI foi prevenção secundária.
A meta de potássio foi atingida em 41% dos pacientes do grupo intervenção, a média de elevação de potássio neste grupo foi de 0,35 mEq/L. O principal motivo para não atingir a meta de potássio foi a máxima dose tolerada das medicações utilizadas.
O desfecho primário composto ocorreu em 22,7% (7,3 eventos a cada 100 pessoas-ano) no grupo intervenção e 29,2% (9,6 eventos a cada 100 pessoas-ano) no controle com significância estatística. Essa diferença foi dada principalmente pela redução na ocorrência de desfibrilação ou presença de arritmia sustentada e hospitalização por arritmias. Não houve diferença de ocorrência de hipercalemia ao longo do acompanhamento.
Apesar do benefício ser principalmente pela ocorrência de desfibrilação e arritmias, a redução da necessidade de choques pode apresentar benefício em um acompanhamento de maior prazo. Uma maior densidade de choques pode estar associada a menor sobrevida [14,15].
Este foi um dos primeiros estudos randomizados ratificando o benefício de aumento dos níveis de potássio sérico em pacientes selecionados. A meta de 4,5 a 5 mEq/L de potássio é segura e de fácil acesso (com medicamentos a custo acessível) para melhorar desfechos cardiovasculares em pacientes de alto risco de arritmias ventriculares.
Apixabana para tratamento prolongado de TEV provocado
O tromboembolismo venoso (TEV) é classificado como provocado quando há um fator de risco conhecido e não provocado se nenhum fator é identificado (fluxograma 1). No caso do provocado, os fatores de risco podem ser classificados como:
- Transitórios - que por sua vez são classificados como maior (como cirurgias de grande porte, trauma e hospitalização maior ou igual a 3 dias) e menor (como cirurgias de pequeno porte, viagem prolongada, terapia com estrogênio).
- Persistentes - neoplasia ativa, imobilidade crônica e síndrome antifosfolípide (SAF).
A diretriz da American Society of Hematology (ASH) recomenda que todos os pacientes com TEV devam ser tratados com anticoagulantes por ao menos 3 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33007077/).
Adicionalmente, a diretriz da ESC recomenda suspender anticoagulação após 3 meses em casos de TEV provocado associado a fatores de risco transitórios maiores desde que o fator tenha se resolvido e não existam outros fatores associados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31504429/).
Em casos de fatores de risco transitórios menores o risco de recorrência pode ser maior (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29632234/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28321922/). Para esses pacientes, a ESC sugere considerar estender o período de anticoagulação por 3 a 6 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31504429/).
Em pacientes com TEV com fator de risco persistente ou não provocado, a terapia de escolha é a anticoagulação por tempo prolongado segundo as principais diretrizes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31504429/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33007077/). Em casos em que a manutenção da terapia seja maior que 6 meses, pode-se considerar o uso de uma dose menor (como rivaroxabana 10 mg/dia ou apixabana 2,5 mg de 12 em 12 horas) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23216615/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28316279/). É recomendado avaliar função hepática, função renal e risco de sangramento em intervalos regulares para considerar a manutenção da anticoagulação ao longo do acompanhamento.
Nos casos de TEV provocada com fatores de risco transitórios maiores, o risco de recorrência é maior em pacientes com comorbidades (como obesidade, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, doenças autoimunes ou inflamatórias, entre outros) do que em pacientes sem outros fatores coexistentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17296569/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31504429/). O uso de doses menores para anticoagulação prolongada ainda é uma dúvida na literatura para esse perfil de pacientes.
Nesse contexto, o estudo HI-PRO foi realizado para avaliar o risco de recorrência de TEV em pacientes com TEV provocada e fatores de risco coexistentes, com anticoagulação por apixabana em baixa dose por período superior a 6 meses. Foi um ensaio clínico randomizado, duplo cego, unicêntrico em Boston. Todos os pacientes realizaram ao menos 3 meses de terapia anticoagulante. Após esse período, o grupo intervenção continuou a anticoagulação com dose reduzida de apixabana (2,5 mg 12 em 12 horas) e o grupo controle interrompeu a anticoagulação, recebendo apenas placebo.
Foram incluídos pacientes maiores de 18 anos que apresentaram TEV provocado com ao menos um fator de risco (cirurgias maiores, trauma, condição clínica aguda, imobilismo por 3 ou mais dias, entre outros) e com ao menos um fator de risco coexistente (veja tabela 1).
O tempo de acompanhamento foi de 12 meses. O desfecho primário avaliou novos episódios de TEV confirmados. Os principais desfechos de segurança foram a ocorrência de sangramento (separados em maior e menor). Foram randomizados 600 pacientes; algumas características da população estudada podem ser vistas na tabela 2.
O desfecho primário ocorreu em 1,3% no grupo intervenção e 10% no controle (HR 0,13; IC 95% 0,04 a 0,36; p<0,001). Não houve diferença significativa de sangramentos.
A incidência de TEV de 10% no grupo placebo é considerada alta. Essa proporção de recorrência se assemelha mais aos pacientes com TEV não provocada, o que levanta a hipótese de que a classificação de TEV provocado ou não provocado não seja acurada para predizer o risco de recorrência (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38066936/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30571266/). Estudos prévios já mostravam risco maior de TEV após episódios provocados em pacientes com fatores de risco coexistentes como os avaliados pelo estudo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20975016/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17296569/). Apesar do estudo ter incluído fatores provocadores menores, eles representaram apenas 28,2% da população estudada.
O uso da apixabana em dose menor por 12 meses pode ser benéfico em pacientes com TEV provocado e que apresentem outros fatores de risco para recorrência. Essa decisão deve ser individualizada focando em pacientes que apresentem fatores coexistentes persistentes e sempre levando em consideração o risco de sangramento. Novos estudos são necessários para avaliar quem são os pacientes com TEV provocada que mais se beneficiaram desta conduta.
Betabloqueador após infarto agudo do miocárdio
O uso de betabloqueadores após infarto agudo do miocárdio em pacientes sem insuficiência cardíaca ou com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada é controverso. Um estudo recente sobre o assunto foi o REDUCE-AMI de 2024 que não evidenciou benefício do seu uso sobre os desfechos de morte e novo infarto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38587241/). Porém, este estudo não inclui pacientes com fração de ejeção levemente reduzida (40 a 50%). Veja mais no tópico "Betabloqueador Após Infarto Agudo do Miocárdio".
Novos estudos sobre o assunto foram apresentados na ESC 2025: REBOOT-CNIC e BETAMI-DANBLOCK.
REBOOT-CNIC
O REBOOT foi um estudo randomizado, open-label (com cegamento para avaliação de desfechos), multicêntrico realizado em hospitais da Itália e da Espanha. O objetivo foi avaliar o efeito de betabloqueador após infarto agudo do miocárdio em desfecho composto de morte, reinfarto ou hospitalizações por insuficiência cardíaca.
Pacientes com infarto agudo do miocárdio tipo 1 e 2 que passaram por angiografia durante a hospitalização foram randomizados para receber betabloqueadores (intervenção) ou não (controle). Foram incluídos apenas pacientes com fração de ejeção acima de 40% antes da alta hospitalar. Excluídos pacientes com história de insuficiência cardíaca durante hospitalização (usado Killip ≥ II como critério). Foram randomizados 8.505 pacientes e o acompanhamento médio foi de 3,7 anos.
O desfecho primário composto de morte por qualquer causa, reinfarto ou hospitalização por insuficiência cardíaca ocorreu em 22,5% do grupo com betabloqueador e 21,7% no grupo sem betabloqueador (HR 1,04; IC 95% 0,89 a 1,22; p=0,63).
A ausência de diferença se manteve na análise de pacientes com menos de 50% de fração de ejeção. A taxa de eventos do desfecho primário manteve-se estável durante todo o período de acompanhamento, mesmo no primeiro ano, período em que alguns estudos prévios observaram maior benefício em reduzir reinfarto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27650822/).
BETAMI-DANBLOCK
Os estudos BETAMI (realizado em centros da Noruega) e DANBLOCK (centros da Dinamarca) foram combinados por apresentarem protocolos semelhantes e terem passado por dificuldades de recrutamento no período da pandemia por coronavírus. Ambos são estudos randomizados e open-label (com cegamento para avaliação de desfechos).
Randomizou pacientes para receber betabloqueador (intervenção) ou não (controle) para acompanhar o efeito no desfecho primário composto de morte por qualquer causa ou eventos cardiovasculares maiores (novo infarto, revascularização não planejada, AVC, insuficiência cardíaca ou arritmias ventriculares). O acompanhamento foi de 3,5 anos.
O desfecho primário composto ocorreu em 14,2% do grupo com betabloqueador e 16,3% no grupo sem betabloqueador (HR 0,85; IC 95% 0,75 a 0,98; p=0,003). Essa pequena diferença de desfecho foi dada principalmente pela presença de novos infartos não fatais (5,0% versus 6,7%).
Apesar da pequena redução de risco (1,7% de redução de risco absoluto, NNT de 58) de novos infartos vista neste estudo, juntando as evidências mais atuais de grandes estudos randomizados como REBOOT e REDUCE-AMI, não parece haver benefício significativo de uso rotineiro de betabloqueadores após infarto em pacientes que passaram por reperfusão, recebem antiagregação adequada e terapia com estatinas de alta potência. Pacientes com outras indicações de betabloqueadores (como angina e arritmias) ainda se beneficiam do seu uso.
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