Atualização da ESC 2025 sobre a Diretriz de Dislipidemias

Criado em: 08 de Setembro de 2025 Autor: Revisor: Marcela Belleza

A European Society of Cardiology (ESC) publicou em agosto de 2025 uma atualização da sua última diretriz de dislipidemias, com novas recomendações sobre o tratamento dessa condição [1]. Este tópico contextualiza a abordagem de dislipidemia e comenta as atualizações do documento.

Abordagem de dislipidemia

Dislipidemia se refere à alteração dos lipídios séricos que se relaciona com aumento do risco cardiovascular, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. As principais alterações dos lipídios associadas com desfechos cardiovasculares são:

  • LDL elevada
  • HDL reduzido
  • Triglicerídeo elevado
  • Lipoproteína(a) elevada.

O momento de dosar os lipídios dos pacientes não é consensual. As calculadoras de risco são em sua maioria validadas para população acima de 40 anos. A diretriz da AHA de 2018 sugere que todos os adultos acima de 20 anos dosem os lipídios pelo menos uma vez [2]. As diretrizes não enfatizam a periodicidade que esses exames devem ser repetidos.

O LDL é o lipídio mais relacionado com eventos cardiovasculares [3]. A diretriz da ESC de 2025 enfatiza que reduzir o LDL é foco principal do tratamento de dislipidemia. Valores de LDL acima de 190 mg/dL podem indicar a presença de hipercolesterolemia familiar e devem ser investigados [4]. Veja mais em "Hipercolesterolemia Familiar".

O HDL e os triglicerídeos possuem associação com eventos cardiovasculares, porém a redução do LDL possui maior relação com prevenção desses eventos. Eles devem ser dosados por serem incorporados nas calculadoras que estratificam o risco do paciente.

A lipoproteína(a) possui associação com risco cardiovascular, principalmente infarto agudo do miocárdio, e também está associada com a estenose valvar aórtica. O risco para eventos cardiovasculares aumenta com lipoproteína(a) acima de 30 mg/dL, mas o valor considerado alterado, que aumenta definitivamente o risco cardiovascular, é acima de 50 mg/dL [5]. A lipoproteína(a) aumenta após a menopausa e pode falsamente diminuir na fase aguda de um episódio de infarto agudo do miocárdio, necessitando de uma nova dosagem após um mês [6].

A diretriz da ESC de 2025 enfatiza que o papel da lipoproteína(a) no momento não é de substituir o LDL como um alvo na terapia para redução de risco cardiovascular. A diretriz recomenda dosar lipoproteína(a) pelo menos uma vez na vida adulta para auxiliar no momento de estratificar o risco do paciente. Veja mais em ‘Estratificação de risco’ abaixo. Terapias com foco na redução de lipoproteína(a) estão em estudos nesse momento. 

Não há critério diagnóstico para dislipidemia. A abordagem recente envolve avaliar se o paciente tem benefício de reduzir o LDL ou não. Assim, deve-se seguir os passos:

  1. Estratificar o paciente em algum dos grupos de risco (muito alto, alto, moderado e baixo).
  2. Definir um alvo ideal de LDL para o paciente baseado na sua classificação de risco.
  3. Orientar modificação de estilo de vida e iniciar estatina conforme o alvo ideal de LDL.
  4. Reavaliar em 4 a 6 semanas.
  5. Se fora do alvo, otimizar a estatina ou acrescentar outros medicamentos para redução do LDL.

Estratificação de risco

A redução do LDL é o pilar do tratamento de dislipidemia e visa reduzir o risco de eventos cardiovasculares do paciente. Essa redução de risco é proporcional ao risco pré-tratamento do paciente. Isto é: pacientes com alto risco cardiovascular se beneficiam mais da redução de LDL do que pacientes com baixo risco cardiovascular.

Por isso, identificar pacientes com alto risco cardiovascular é essencial no tratamento de dislipidemia. A tabela 1 traz as características utilizadas pela diretriz da ESC de 2025 para estratificar o risco do paciente.

[tabela id=1480 index=1]

Se o paciente não apresenta nenhuma das condições do muito alto risco, a diretriz da ESC 2025 orienta o uso da calculadora SCORE2 (40 a 69 anos) e SCORE2-OP (acima de 70 anos) para estimar o risco de pacientes. Essa é uma mudança em relação à diretriz de 2019. A diretriz de 2023 de doença cardiovascular no paciente com DM2 já recomendava o SCORE2-diabetes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37622663/).

Essas calculadoras foram validadas em pacientes sem doença aterosclerótica cardiovascular e que não faziam uso de terapia de redução de lipídios. A diretriz sugere não utilizá-las em pacientes que já possuem doença cardiovascular conhecida (como infarto prévio) ou pessoas em uso de estatina. Adicionalmente, as calculadoras não devem ser utilizadas para "reestratificar” o paciente. 

As calculadoras de risco cardiovascular não são ferramentas perfeitas e não conseguem levar todos os fatores em consideração. Quando um paciente apresenta valores próximos de classificá-lo em um risco maior, é recomendado avaliar se ele não tem fatores modificadores de risco (tabela 2), que inclui fatores clínicos e laboratoriais, como a lipoproteína(a) (recomendação 2a). Pacientes com moderado risco pelas calculadoras, mas com um dos fatores modificadores de risco, podem ser reclassificados como alto risco.  

[tabela id=1481 index=2]

Alvo de Tratamento

Cada categoria de risco possui um alvo de estatina diferente. A diretriz de 2025 recomenda:

  • Baixo risco: LDL abaixo de 116 mg/dL;
  • Moderado risco: LDL abaixo de 100 mg/dL;
  • Alto risco: LDL abaixo de 70 mg/dL;
  • Muito alto risco: LDL abaixo de 55 mg/dL;
  • Extremo risco: LDL abaixo de 40 mg/dL.

O extremo alto risco é uma categoria nova, que deve considerar pacientes com recorrência de eventos cardiovasculares mesmo em uso de terapia de redução de lipídios otimizada ou pacientes com doença multiarterial, como doença coronariana e doença arterial periférica. O alvo de LDL para < 40mg/dL nesse grupo é baseado principalmente nos trabalhos que validaram os inibidores de PCSK9 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28304224/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30403574/). Estes trabalhos selecionaram pacientes com histórico de doença cardiovascular em uso de estatina e encontraram benefícios desses medicamentos quando comparados com placebo. Os pacientes do grupo intervenção atingiram uma mediana de LDL de 40 mg/dL.

Ainda é impreciso o alvo ideal para cada grupo de risco, já que há poucos trabalhos nesse cenário. O principal trabalho que validou um alvo foi o Treat Stroke to Target trial, que encontrou que, em pacientes com AVC recente, um LDL abaixo de 70 mg/dL foi superior a um LDL abaixo de 90 mg/dL para prevenir novos eventos cardiovasculares (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31738483/). 

O alvo de 50 mg/dL em pacientes com doença cardiovascular estável é derivado principalmente do trabalho IMPROVE-IT que validou o uso do ezetimiba em pacientes após um episódio de infarto agudo do miocárdio com LDL acima de 50 mg/dL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26039521/). 

A busca por um alvo não é a única estratégia para redução de LDL. O trabalho LODESTAR comparou a estratégia de busca de um alvo por buscar apenas a redução do LDL em 50% do basal (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36877807/). A conclusão do trabalho é que a estratégia de alvo foi não inferior à estratégia de redução do basal em relação a eventos cardiovasculares, utilizando menos estatina de alta potência. A principal crítica a esse trabalho envolve que o alvo de LDL foi menor que 70 mg/dL em pacientes com história de infarto recente, sendo que o alvo atual é menor que 50 mg/dL. Isso provavelmente envolveria um uso maior de estatina de alta potência. 
 

Início de terapia e outras opções além da estatina

A terapia inicial de escolha para redução do LDL são as estatinas. Elas são classificadas baseadas em sua potência (tabela 3). A estatina de alta potência são aquelas que têm uma redução de LDL prevista em 50%. Isso inclui a rosuvastatina 20 a 40 mg e a atorvastatina 40 mg a 80 mg. Pacientes do grupo de alto risco e muito alto risco devem ter uma redução de pelo menos 50%, logo todos os pacientes desses grupos devem iniciar o tratamento com uma estatina de alta potência.

[tabela id=1482 index=3]

Caso o paciente já apresente um valor basal de LDL para o qual a redução de 50% não será suficiente para atingir o alvo, é possível iniciar o tratamento com terapia dupla com ezetimiba. O trabalho IMPROVE-IT avaliou o tratamento com terapia combinada de estatina e ezetimiba, e mais de 60% dos pacientes não fazia uso de estatina antes do início da terapia combinada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26039521/).  

Após introdução do medicamento, o LDL deve ser solicitado a cada 4 a 6 semanas para avaliar se atingiu o alvo. Para os pacientes que não atingiram o alvo com o máximo de estatina tolerado, a diretriz sugere três medicamentos possíveis:

  • Ezetimiba. Veja o tópico "Ezetimibe e Dislipidemia".
  • Inibidor de PCSK9 (como o evolocumabe ou alirocumabe).
  • Ácido bempedóico.

A escolha do medicamento envolve as preferências do paciente e a porcentagem de redução desejada. Veja a figura 1.

[tabela id=1483 index=4]

A diretriz da ESC de 2025 traz como recomendação 1A o uso do ácido bempedóico em pacientes que não conseguem utilizar a estatina. O estudo CLEAR OUTCOMES que avaliou o ácido bempedoico foi discutido no tópico "Acido Bempedóico para Dislipidemia".

Outros medicamentos citados na diretriz de 2025:

  • Evinacumabe (Evkeeza®): anticorpo monoclonal contra ANGPTL3 (angiopoietin-like 3) que pode ser utilizado em pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigótica, que não responde a estatina e inibidor do PCSK9.
  • Inclisirana (Sybrava®): inibidor da síntese de PCSK9 e alternativa aos anticorpos monoclonais já aprovados. Dois trabalhos estão em andamento para avaliar se há benefício em desfechos cardiovasculares.

Outras recomendações

Hipertrigliceridemia

Mesmo em pacientes com hipertrigliceridemia, a primeira terapia de escolha para reduzir risco cardiovascular é a estatina. 

A diretriz de 2019 trazia como recomendação 2a o icosapentil como opção em casos de pacientes que mantinham triglicérides acima de 135 mg/dL apesar do tratamento com estatina. Essa recomendação era devida ao trabalho REDUCE-IT que encontrou redução de eventos cardiovasculares (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30415628/). Em 2020 foi publicado o trabalho STRENGTH (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33190147/) que não encontrou diferença com placebo. A diretriz pontua que um dos possíveis motivos para a diferença entre os trabalhos era que a população do STRENGTH utilizou uma combinação de omega 3 ao invés do icosapentil isolado e em altas doses (2 g 2x ao dia). 

O volanesorsena (Waylivra®) foi recomendado como um novo medicamento para pacientes com hipercolesterolemia familiar e com triglicerídeos acima de 500. O medicamento tem objetivo de reduzir o risco de pancreatite. 

Pacientes vivendo com HIV

Pessoas vivendo com HIV (PVHIV) têm um risco duas vezes maior de desenvolver doença aterosclerótica cardiovascular em comparação com a população geral. Os mecanismos além dos fatores de risco tradicionais incluem inflamação crônica causada pela infecção e dislipidemia causada pela terapia antirretroviral (TARV). 

A diretriz trouxe recomendação de uso de estatina como profilaxia primária em todo paciente com HIV acima de 40 anos, independentemente do risco cardiovascular do paciente. Essa recomendação é baseada no trabalho REPRIEVE, que encontrou que a pivastatina na dose de 4 mg reduziu eventos cardiovasculares nessa população (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37486775/). A pivastatina foi escolhida por não interagir com a TARV. 

Pacientes com câncer

As estatinas devem ser consideradas em pacientes adultos com risco alto ou muito alto de desenvolver cardiotoxicidade relacionada à quimioterapia, com objetivo de reduzir o risco de disfunção cardíaca induzida por antraciclinas. As antraciclinas, como a doxorrubicina, são utilizadas no tratamento de câncer de mama e linfoma, por exemplo.

O trabalho STOP-CA demonstrou que a estatina tem efeito cardioprotetor quando associada a quimioterapia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37552303/). A estatina utilizada foi atorvastatina 40 mg. Não houve aumento expressivo de hepatotoxicidade ou outro evento adverso grave durante o estudo. 

A recomendação para pacientes de alto risco ou muito alto risco de desenvolver cardiotoxicidade é abordada na diretriz da ESC de 2022 de cardio-oncologia, que orienta o uso da calculadora HFA-ICOS (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36017568/).

Aproveite e leia

  • Dor Torácica no Pronto-Socorro: Diretriz Brasileira de 2025
  • Novo Paradigma de Infarto: Oclusão Coronariana Aguda
  • Síndromes Coronarianas Agudas - Diretriz AHA/ACC 2025
  • Atualizações em Hipertensão Arterial Sistêmica: Diretrizes da AHA e SBC de 2025, e ESC de 2024
  • Atualização da ESC 2025 sobre a Diretriz de Dislipidemias
8 min
Não visto
Ler Tópico
  • Diretriz de fibrilação atrial
  • Diretriz de dislipidemia
  • Diretriz de obesidade
11 min
Não visto
Ler Tópico
  • O que é a hipercolesterolemia familiar e quais as consequências da doença?
  • Quando suspeitar e como investigar?
  • Quais são as opções terapêuticas para hipercolesterolemia familiar?
9 min
Não visto
Ler Tópico
  • Intolerância à estatina
  • Sobre o ácido bempedoico
  • O que o estudo acrescenta?
7 min
Não visto
Ler Tópico
22 de Agosto de 2022
  • O que é o ezetimibe?
  • Quais são as evidências prévias?
  • O que as diretrizes orientam?
  • O que essa nova evidência acrescenta?
9 min
Não visto
Ler Tópico