Ajustes Iniciais em Ventilação Mecânica Invasiva

Criado em: 22 de Setembro de 2025 Autor: Revisor: Nordman Wall

Em 2025 foi publicado na Critical Care Science um documento com orientações práticas de ventilação mecânica realizado por especialistas da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) [1]. Esse tópico revisará conceitos, modos básicos e ajustes iniciais em ventilação mecânica invasiva, com destaque para as principais recomendações do documento.

Conceitos gerais

A ventilação mecânica invasiva é uma intervenção de suporte à vida que utiliza um aparelho (ventilador) para auxiliar ou substituir a respiração espontânea. Além de auxiliar a troca gasosa, o ventilador garante a oxigenação adequada e remoção de gás carbônico e permite a redução do trabalho respiratório.

Existem diversas modalidades ventilatórias pelas quais o ventilador pode realizar o suporte, e para entendê-las, é necessário compreender o ciclo respiratório, que se encontra detalhado na figura 1.

Figura 1
Fases do ciclo respiratório no ventilador mecânico.
Fases do ciclo respiratório no ventilador mecânico.

Quanto ao comando do ciclo respiratório, a ventilação pode se subdividir em (http://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28870355/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25028944/):

  • Ventilação controlada: todos os ciclos são gerados e continuados pelo ventilador, sem participação do paciente. Ocorre em situações em que não se espera esforço ventilatório, como pacientes sob anestesia geral profunda, bloqueio neuromuscular ou coma profundo.
  • Ventilação assistida: o paciente é responsável por iniciar e continuar cada ciclo respiratório. O esforço do paciente é detectado pelo ventilador, que participa fornecendo o suporte programado. A frequência respiratória é, portanto, controlada pelo paciente, que também participa indiretamente do controle da ciclagem (transição da inspiração para expiração) através do fluxo respiratório gerado pelo seu esforço. O principal modo utilizado é o PSV. Para sua utilização, o paciente precisa apresentar drive respiratório adequado.
  • Ventilação assisto-controlada: A combinação dos últimos dois modos. O ventilador garante frequência respiratória mínima programada através dos ciclos controlados, mas, se o paciente fizer esforço inspiratório, o aparelho também poderá ser disparado mediante ciclos assistidos.

Modos ventilatórios

A escolha entre os modos de assistência depende da condição de base, do grau de sedação do paciente e da própria evolução clínica. Em todos, existem três tipos de variáveis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35953212/):

  • de controle, que determina como um ventilador fornece uma respiração, sendo fixa e assegurada em cada ciclo
  • limitantes, que impõem um teto e não podem ser ultrapassadas
  • resultantes, que são livres, em consequência dos ajustes e da mecânica do paciente

Os modos convencionais e suas variáveis são discutidos abaixo, e estão resumidos na tabela 1.

[tabela id=1502 index=2]

Ventilação controlada a volume (VCV): 

Neste modo, a variável de controle é o volume, a variável limitante é o fluxo inspiratório e a variável resultante é a pressão das vias aéreas.

O ventilador entrega um volume corrente (VT) programado. Para conseguir isso, define-se um fluxo inspiratório fixo que limita a entrega de ar durante a inspiração e, consequentemente, define o tempo inspiratório. Ao atingir esse volume corrente pré-definido, ocorre a ciclagem. Essa variação de volume gera uma variação livre de pressão.

Permite a monitorização da mecânica respiratória e o controle preciso do volume-minuto, no entanto, pode predispor a mais assincronias de fluxo (já que é constante) e a lesões alveolares causadas por pressões elevadas nas vias aéreas (barotrauma), por não haver limitação da pressão.

Ventilação controlada a pressão (PCV):

No modo PCV, a variável de controle é a pressão, a variável limitante é a pressão máxima programada, sendo o volume corrente e o fluxo as variáveis resultantes.

O ventilador entrega uma pressão inspiratória programada, com fluxo inspiratório livre. A entrega de ar durante a inspiração é limitada pela pressão pré-definida, ocorrendo a ciclagem no momento em que se atinge o tempo inspiratório (também pré-definido). A variação de pressão gera uma variação livre de volume e fluxo.

Permite o controle da pressão no sistema respiratório e maior sincronia de fluxo, porém está mais sujeito a lesão alveolar decorrente de excessiva distensão dos alvéolos por volumes correntes elevados (volutrauma), além de não garantir o volume-minuto fixo.

Ventilação de Pressão de Suporte (PSV):

A variável de controle é a pressão de suporte, limitada pela pressão máxima programada, sendo volume corrente, fluxo e tempo inspiratório livres e resultantes. 

Neste modo, o paciente inicia o ciclo respiratório recebendo pressão de suporte do ventilador após ser detectado seu esforço. A entrega de ar depende do tamanho do esforço do paciente, que gera um fluxo livre e proporcional ao esforço realizado, sendo limitada pela pressão de suporte definida. O fluxo começa alto pelo gradiente de pressão inicial, e vai caindo à medida que atinge a pressão de suporte definida, até atingir uma porcentagem (%) do pico inicial na qual o ventilador entende que a inspiração acabou e inicia a fase expiratória (ciclagem). Esse percentual é pré-definido e garante a ciclagem, no entanto, é o paciente, com seu esforço, que determina quando esse ponto será alcançado.

É útil no desmame ventilatório e para pacientes que conseguem iniciar respirações espontâneas, mas ainda necessitam de assistência ventilatória parcial para superar o trabalho de respiração.

Outros modos:

O documento brasileiro reforça que os modos avançados podem ser utilizados em situações individualizadas, desde que o profissional esteja familiarizado com o método e seus ajustes e exista benefício ao paciente relacionado às particularidades do modo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39907364/). A tabela 2 traz exemplos de modos avançados e suas particularidades.

[tabela id=1503 index=3]

Ajustes iniciais

Quando iniciamos a ventilação mecânica, é fundamental fazer ajustes iniciais adequados para garantir oxigenação, ventilação e segurança pulmonar. Os ajustes podem variar conforme a condição clínica (ex: SDRA, DPOC), mas existem princípios gerais. A tabela 3 reúne as principais recomendações para os ajustes iniciais no ventilador.

[tabela id=1504 index=4]

Parâmetros de oxigenação:

Fração inspiratória de oxigênio (FiO2)

É a concentração de O2 ofertada para atingir uma concentração adequada de oxigênio no sangue. Deve ser guiada pela saturação periférica de O2 com meta de SpO2 entre 92-96% para a maioria dos pacientes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39907364/).

Tais metas são apoiadas por estudos que demonstraram que tanto a hipoxemia (SpO₂ < 90%) quanto a hiperóxia (SpO₂ > 96–98%) estão associadas a um risco aumentado de danos, enquanto metas intermediárias são seguras e eficazes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33471452/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32160661/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27706466/). 

PEEP

É a pressão positiva ao final da expiração, responsável pela manutenção de parte dos alvéolos abertos, evitando colapso pulmonar, possibilitando melhor aeração e redução de lesão alveolar induzida pela abertura e colapso dos alvéolos a cada ciclo respiratório (atelectrauma) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24283226/). Alguns estudos sugerem também redução de pneumonia associada à ventilação mecânica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18664777/). Por outro lado, pode levar a complicações hemodinâmicas e lesão pulmonar induzida pelo ventilador (VILI, do inglês ventilator-induced lung injury) por hiperdistensão alveolar, especialmente em valores mais altos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35439832/). Para equilibrar esses pontos, a recomendação é escolher uma PEEP inicial de 3 a 5 cmH2O, exceto em situações específicas como na SDRA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25028944/). 

Utilizar PEEP mais alta em pacientes com lesão pulmonar aguda sem SDRA já foi comparado à ventilação com PEEP mais baixa, sem melhora de desfechos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27813023/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33295981/). Na SDRA, por sua vez, PEEP mais alta pode estar relacionada a maiores benefícios (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20197533/). Veja mais sobre as recomendações em SDRA no tópico "Atualizações no Manejo de Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo".

Parâmetros de ventilação:

Volume corrente

É o volume de ar fornecido pelo ventilador a cada fase inspiratória. A recomendação é de iniciar com um volume de 6-8 mL/kg de peso predito (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39907364/). 

Na SDRA, sabidamente volumes ainda menores (4-6ml/kg) estão relacionados à menor mortalidade, fazendo parte da “estratégia protetora” (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10793162/). Essa recomendação baseia-se em estudos que demonstraram possível associação de volumes correntes mais baixos com melhores desfechos também em pacientes sem SDRA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23331507/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26181219/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32966812/). Apesar disso, o maior trial comparando a estratégia de baixo x alto volume corrente nos pacientes sem SDRA não encontrou diferença significativa em mortalidade ou demais desfechos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30357256/).

Frequência respiratória

O ajuste inicial deve ser baseado na demanda respiratória e na fisiopatologia da doença de base. A frequência respiratória está diretamente relacionada à ventilação alveolar e, consequentemente, inversamente proporcional à concentração arterial de CO2 no sangue. 

Em situações de SDRA, pode ser necessária maior frequência para compensar o volume corrente reduzido; já em asma e DPOC descompensadas, em geral, é necessária menor frequência respiratória para permitir maior tempo expiratório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33169215/). Ajustes posteriores devem ser realizados conforme a gasometria, com a recomendação de coleta após 20 minutos do início da ventilação e diariamente durante a fase aguda (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39907364/).

Volume-minuto

O volume-minuto é a quantidade total de ar mobilizada pelos pulmões em um minuto, calculado através do produto entre volume corrente e frequência respiratória. Esse volume de ar está diretamente relacionado ao quanto de CO2 é “lavado” pelos pulmões. Quanto maior for o volume-minuto, em geral, mais CO2 é lavado, diminuindo o pCO2 e elevando o pH arterial. Um ponto de atenção importante é que esse valor inclui tanto o ar que chega aos alvéolos quanto o que fica no espaço morto, e, portanto, em doenças obstrutivas pode gerar resultado contrário ao aumentar o espaço-morto e, paradoxalmente, consequente hipercapnia com volume-minuto aumentado.

Relação I:E

Descreve a duração relativa da fase inspiratória em comparação com a fase expiratória dentro de cada ciclo respiratório. Por exemplo, uma relação I:E de 1:2 significa que a expiração dura o dobro da inspiração.

Em pacientes com respiração espontânea e vias aéreas normais, a razão é próxima de 1:2 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10668868/). Na ventilação mecânica, a recomendação geral é de relações I:E de 1:2 a 1:3 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25028944/). No entanto, em pacientes com distúrbios obstrutivos exige-se tempo expiratório maior para permitir adequado esvaziamento pulmonar, sendo adequadas relações I:E menores, como 1:4 a 1:5 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3662241/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25028944/).  

Outros ajustes de segurança:

Sensibilidade

Parâmetro que permite que o ventilador detecte um nível mínimo de esforço do paciente para disparar o ciclo ventilatório, pode ser pré-determinado a fluxo ou, mais comumente, à pressão. Deve ser ajustada para o valor mais sensível para detectar esforço do paciente ao mesmo tempo que evita disparos automáticos (autodisparo) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25028944/).

Alarmes

São ferramentas essenciais de segurança, projetadas para monitorar pressão, volume, frequência respiratória e oxigenação. Por exemplo, o alarme de pressão máxima ajuda a evitar barotrauma caso haja obstrução do tubo ou broncoespasmo, enquanto pressão baixa pode detectar desconexões ou fugas do circuito; o alarme de frequência respiratória pode identificar apneia, taquipneia ou esforço respiratório inadequado; alarme de SpO₂ assegura oxigenação adequada e assim por diante. A recomendação é ajustá-los de forma individualizada para a patologia do paciente, para permitir uma resposta rápida a alterações clínicas, prevenindo complicações e evitando fadiga de alarme (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39907364/).

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