Síndrome de Realimentação: Diagnóstico e Manejo

Criado em: 22 de Setembro de 2025 Autor: Flávio Augusto Barbieri Revisor: Marcela Belleza

A síndrome de realimentação é uma alteração hormonal e hidroeletrolítica que ocorre após o início ou aumento do aporte nutricional (enteral ou parenteral) em paciente com déficit nutricional prolongado. A prevalência da condição pode chegar a 41% em pacientes críticos [1]. Este tópico resume as causas, os critérios diagnósticos e o tratamento da síndrome de realimentação. 

Definição, incidência e fatores de risco

A síndrome de realimentação é caracterizada por complicações clínicas decorrentes da reintrodução ou aumento do aporte calórico em indivíduos expostos previamente à subnutrição/jejum [2]. O aumento rápido de aporte de calorias (mesmo que em soro glicosado) leva ao consumo de tiamina e aumento dos níveis de insulina, com consequente translocação de eletrólitos para o intracelular. As complicações são potencialmente fatais e decorrem da redução de fósforo, potássio e magnésio, retenção hídrica, deficiência de tiamina (incluindo encefalopatia de Wernicke), insuficiência cardíaca e insuficiência respiratória (tabela 1) [3]. 

Tabela 1
Sinais e sintomas da síndrome de realimentação.
Sinais e sintomas da síndrome de realimentação.

A síndrome de realimentação associa-se a piores desfechos. Pacientes com o diagnóstico apresentam maior tempo de internação (12,5 contra 7,1 dias) e mortalidade em seis meses, embora resultados variem entre populações [1,4-6]. A prevalência de síndrome de realimentação na UTI é alta mesmo com o manejo adequado, podendo chegar a 27% ou mais, especialmente em pacientes de maior risco, como idosos [1,7,8]. 

Todo paciente que recebe nutrição enteral/parenteral deve ser estratificado quanto ao risco de síndrome de realimentação antes de iniciar a terapia. O consenso da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) de 2020 propõe critérios objetivos para definir os pacientes em risco de desenvolver a síndrome de realimentação (tabela 2). A principal mudança foi incluir uma lista de comorbidades associadas a alto risco [2]. Dentre os grupos de risco citados, destacam-se anorexia nervosa, etilismo e pós-operatório. 

Tabela 2
Consenso da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) para identificação de adultos sob risco de síndrome de realimentação.
Consenso da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) para identificação de adultos sob risco de síndrome de realimentação.

Jejum por mais de sete dias ou menos de 50% das necessidades calóricas por cinco dias já caracteriza alto risco [2]. 

Pacientes de risco moderado ou significativo (tabela 2) devem ter os níveis séricos de potássio, fósforo e magnésio aferidos antes da oferta calórica inicial. Não há recomendação de dosagem de tiamina, apesar da sua relação com a fisiopatologia da síndrome. 

Diagnóstico e complicações

Pela ASPEN, o diagnóstico de síndrome de realimentação é caracterizado quando, em até cinco dias do início/aumento do aporte calórico, ocorre redução de fósforo, magnésio ou potássio em relação ao valor pré-realimentação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32115791/):

  • Redução de 10 a 20%: quadro leve.
  • Redução de 21 a 30%: quadro moderado.
  • Redução > 30% ou disfunção orgânica decorrente: quadro grave.

Manifestações clínicas de deficiência de tiamina, como insuficiência cardíaca e encefalopatia de Wernicke, são consideradas formas graves da síndrome, independentemente dos níveis de eletrólitos.

Caso não haja valor dosado de algum dos eletrólitos prévio ao início do aporte calórico, deve-se realizar dosagem seriada (a cada 8 ou 12h) e avaliar a tendência de queda ou estabilidade dos níveis séricos. 

A hipofosfatemia é a alteração mais característica da síndrome, embora a queda dos níveis séricos de magnésio e potássio também determine a gravidade do quadro (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26597130/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22307490/). As manifestações graves relacionadas à hipofosfatemia incluem insuficiência respiratória por fraqueza diafragmática, rabdomiólise e insuficiência cardíaca (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32115791/).

Como prevenir

Pacientes de risco moderado ou alto devem ter o início do aporte calórico de forma lenta, com monitorização e reposição eletrolítica, se necessário. A ASPEN estrutura as recomendações sobre a prevenção em quatro eixos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26597130/):

  • Aporte energético.
  • Monitoramento de distúrbios hidroeletrolíticos.
  • Suplementação de vitaminas.
  • Cuidados gerais. 

Aporte energético

Em pacientes de risco, a ASPEN recomenda iniciar o aporte calórico em 10-20 kcal/kg nas primeiras 24 horas. Caso o paciente esteja estável e os eletrólitos em níveis normais ou próximos da normalidade, sugere-se aumentar em 33% a meta a cada um a dois dias. O National Institute for Health and Care Excellence (NICE, do Reino Unido) pontua que em casos extremos, como IMC menor que 14 kg/m² ou jejum por período maior que 15 dias, o início do aporte em 5 kcal/kg/dia é apropriado, com monitorização cardíaca contínua.

As calorias de infusões intravenosas, como soro glicosado e propofol, devem ser contabilizadas. Por exemplo, uma bolsa de 500 mL de soro glicosado 5% contém 85 kcal, assim como um mililitro de propofol 1% contém 1,1 kcal.

Monitoramento de distúrbios hidroeletrolíticos

Fósforo, potássio e magnésio devem ser dosados antes de iniciar a terapia nutricional em pacientes de risco de síndrome de realimentação. Os distúrbios eletrolíticos devem ser corrigidos antes de iniciar ou progredir o aporte calórico. 

A frequência de novos exames varia conforme o risco. Sugere-se monitorar os níveis séricos a cada 12 horas em pacientes de alto risco por três dias. Enquanto em pacientes de moderado risco, a dosagem diária é suficiente, até os mesmos se manterem estáveis. 

Não há consenso quanto à suplementação profilática de eletrólitos, ou seja, repor os eletrólitos mesmo em níveis normais. A ASPEN não recomenda suplementação profilática, enquanto o NICE sugere iniciar suplementação de potássio, fosfato e magnésio em pacientes de alto risco, contanto que os valores não estejam elevados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31999417/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18583681/). 

Suplementação de vitaminas

A suplementação de tiamina deve ser realizada antes do início do aporte calórico, incluindo soro glicosado. Recomenda-se a administração de 100 mg/dia (via oral ou intravenosa), por cinco a sete dias ou por período maior em caso de desnutrição grave, etilismo crônico, outras condições com alto risco de deficiência ou sintomas de deficiência de tiamina. O aumento da demanda por tiamina com o aporte calórico pode precipitar a deficiência da vitamina e consequente encefalopatia de Wernicke e acidose láctica. A reposição empírica antes da realimentação tem baixo risco e alto potencial benéfico e não deve depender da dosagem sérica.  

Pelo aumento de demanda de outros micronutrientes, tanto a ASPEN quanto a NICE recomendam o início empírico de polivitamínicos (enteral ou parenteral) durante os primeiros 10 dias de aporte calórico. Os documentos não especificam doses ou concentrações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32115791/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18583681/).

Cuidados gerais

Indivíduos com distúrbios hidroeletrolíticos graves ou com disfunções orgânicas secundárias devem ser admitidos em UTI. Os cortes de eletrólitos para considerar um distúrbio grave são: fósforo < 1,0 mmol/L, potássio < 3,0 mmol/L e magnésio < 1,0 mg/dL.

Nos pacientes de moderado risco, recomenda-se aferição de sinais vitais a cada quatro horas no primeiro dia de início/aumento do aporte calórico. Pesagem diária e balanço hídrico auxiliam a identificar complicações como retenção hídrica e insuficiência cardíaca.

Não há recomendação específica sobre restrição de sódio, proteína ou fluidos. 

Como tratar

Apesar das medidas de prevenção, alguns pacientes desenvolvem síndrome de realimentação. A ASPEN recomenda que o tratamento seja focado em três pontos simultâneos:

  • Aporte energético.
  • Correção de eletrólitos.
  • Suplementação de tiamina. 

Aporte energético

Caso exista uma queda rápida e importante dos eletrólitos ou dificuldade de correção apesar das reposições, deve-se reduzir o aporte calórico total em 50%. No surgimento de disfunções orgânicas ameaçadoras à vida, considera-se suspender o aporte. 

O início progressivo e titulado conforme correção de eletrólitos, quando comparado com a nutrição padrão, foi associado a maior sobrevida em 60 dias, além de redução de complicações infecciosas durante a internação. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26597128/).

Correção de eletrólitos

A reposição de fósforo é feita conforme o nível sérico e a presença de sintomas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18583681/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31847205/):

  • Reposição profilática (manutenção): 0,3-0,6 mmol/kg/dia via oral.
  • Fósforo entre 2,48 e 1,89 mg/dL: repor 0,3-0,6 mmol/kg/dia de fósforo via oral (dividido em 3-4 tomadas no dia).
  • Fósforo abaixo de 1,88 mg/dL: repor 0,6 mmol/kg em 8-12 horas via intravenosa, repetindo a infusão se necessário (máximo de 50 mmol em 24 h).

A reposição intravenosa é preferida em pacientes sintomáticos. Na tabela 3 estão resumidas as principais apresentações de fósforo para reposição, doses, cuidados e complicações.

[tabela id=1507 index=3]

A reposição de magnésio e potássio foi descrita em detalhes nos tópicos "Hipomagnesemia" e "Reposição de Potássio".

Suplementação de tiamina

Em caso de sintomas sugestivos de encefalopatia de Wernicke ou beribéri, deve-se instituir a dose terapêutica de tiamina. A posologia varia conforme recomendações em literatura, 300 - 500 mg endovenoso de 8/8h por 3 a 5 dias, seguidos de 300 mg/dia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25201422/). Estudos recentes não encontraram diferença significativa para os sintomas neurológicos dos pacientes comparando as duas dosagens sugeridas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35428992/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37838073/).

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