Metformina: Bulário
A metformina é um medicamento de primeira linha para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2. Este tópico revisa as principais indicações, contraindicações e efeitos adversos do fármaco.
Indicações atuais de uso
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), recomenda o uso de metformina no diabetes mellitus tipo 2 (DM2) em monoterapia, como primeira escolha. Essa recomendação se aplica a pacientes com hemoglobina glicada (HbA1c) abaixo de 7,5% com baixo ou intermediário risco cardiovascular e sem insuficiência cardíaca (IC), doença renal crônica (DRC) ou obesidade (recomendação nível B) [1].
Em pacientes com doença cardiovascular estabelecida ou alto risco cardiovascular, a preferência é por agonistas de GLP-1 (aGLP-1) ou inibidores do cotransportador SGLT2 (iSGLT2). Nos casos de IC, independentemente da fração de ejeção, os iSGLT2 são a primeira escolha. Para DRC, os iSGLT2 e a semaglutida (aGLP-1) apresentam maior benefício [2-5]. Em pacientes com obesidade, os aGLP-1 oferecem maior perda ponderal e proteção cardiovascular [1]. Na maioria dos estudos com essas novas drogas, os participantes já utilizavam metformina, reforçando sua ação sinérgica para atingir a meta glicêmica. Veja mais em "Diabetes Mellitus Tipo 2 - Atualização da American Diabetes Association de 2025", no subtópico 'Escolha da primeira droga'.
A dose inicial é de 500 mg com a refeição da noite (preferencialmente nas formulações de liberação prolongada) ou 500 mg uma ou duas vezes ao dia nas formulações de liberação imediata. Pode-se aumentar 500 mg a cada duas semanas, sempre durante as refeições, até a dose máxima de 2.000–2.250 mg/dia. A metformina não provoca ganho de peso, não costuma causar hipoglicemia em monoterapia, é geralmente bem tolerada e de baixo custo. Na tabela 1 confira as apresentações da droga.
Estudos mostram redução média de 1,0 a 1,5% da HbA1c em 12 a 16 semanas. [6-8]. Esta redução é semelhante à descrita com o uso de iSGLT2, mas inferior ao das incretinas (aGLP-1 e agonistas duais GLP-1/GIP). Há evidências que a metformina traz redução de LDL e aumento de HDL sérico [9,10]. No DM2 há evidências de redução de desfechos macro e microvasculares, incluindo infarto, acidente vascular cerebral, nefropatia, retinopatia diabética e mortalidade geral [11-15].
Para pacientes com pré-diabetes, a metformina reduz a progressão para DM2 em cerca de 30%, mas sem benefício comprovado em redução de desfechos como doença cardiovascular, retinopatia e nefropatia [16]. Esse evento ocorre em pacientes com obesidade (IMC > 35 kg/m²), glicemia de jejum ≥ 110 mg/dL, HbA1c ≥ 6,0 % ou histórico de diabetes gestacional [17].
Para casos de diabetes gestacional a mudança de estilo de vida pode ser suficiente. Caso exista necessidade de terapia farmacológica, a insulina é a primeira linha, segundo a diretriz da American Diabetes Association (ADA) de 2025 [18,19]. A metformina é considerada segunda linha, pois essa droga atravessa a barreira placentária e não possui dados de segurança de longo prazo.
Na síndrome dos ovários policísticos (SOP), a metformina é indicada em pacientes com sobrepeso (IMC ≥ 25 kg/m²) e resistência insulínica para reduzir o risco de DM2 e auxiliar na regularização do ciclo menstrual. Não é recomendada pela Endocrine Society para tratamento de hirsutismo [20].
Contraindicações e situações especiais
A metformina é contraindicada em situações que aumentam o risco de acidose lática, como:
- DRC estágio IV ou V (< 30 mL/min/1,73 m²).
- Condições de hipoperfusão tecidual (como choque, sepse ou IC descompensada).
- Cirrose avançada (Child-Pugh C).
- Reações de hipersensibilidade (alergia) ao uso prévio da metformina.
Pacientes com DRC estágio 3b (30–44 mL/min/1,73 m²), a metformina pode ser mantida em quem já a utiliza, com ajuste para dose máxima de 1000 mg/dia. O início da droga para essa faixa é controverso: o Food and Drug Administration (FDA, análogo americano da Agência de Nacional de Vigilância Sanitária) não recomenda, já a ADA e a KDIGO (Kidney Disease: Improving Global Outcomes), sugerem uso cauteloso, começando na dose de 500 mg/dia e ajuste até 1.000 mg/dia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25536258/,https://diabetesjournals.org/care/article/48/Supplement_1/S181/157569/9-Pharmacologic-Approaches-to-Glycemic-Treatment/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36189689/). Acima de 45 mL/min/1,73 m² não há necessidade de ajuste de dose.
Na IC, a metformina é segura quando não há descompensação, podendo inclusive reduzir hospitalizações e mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35906276/). Em pacientes com DRC ou IC que evoluem com quadros agudos de baixo débito ou hipovolemia, vômitos e diarreia intensa, recomenda-se a suspensão temporária.
Em cirrose Child-Pugh C deve ser evitada; em Child-Pugh B pode ser usada com cautela em pacientes compensados, iniciando 500 mg/dia, com aumento mensal até um limite de 1500 mg/dia conforme tolerância (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35317103/).
Segundo o American College of Radiology (2025), deve-se suspender a metformina antes de exames com contraste iodado em pacientes com injúria renal aguda, DRC estágio 4 (< 30 mL/min/1,73 m²) ou submetidos a injeção intra-arterial (ex.: coronariografia) (https://edge.sitecorecloud.io/americancoldf5f-acrorgf92a-productioncb02-3650/media/ACR/Files/Clinical/Contrast-Manual/ACR-Manual-on-Contrast-Media.pdf). Pode ser reiniciada 48 horas após o exame, mediante reavaliação da função renal. Não há necessidade de suspensão em ressonância magnética com gadolínio.
Durante internação hospitalar, a SBD sugere considerar o uso adjuvante de metformina para controle glicêmico somente em pacientes estáveis, com função renal preservada e sem previsão de exames contrastados (https://diretriz.diabetes.org.br/manejo-da-hiperglicemia-hospitalar-em-pacientes-nao-criticos/). Ao internar pacientes em uso de metformina, principalmente por quadros sob risco de acidose lática, a droga deve ser suspensa. Veja em "Nova Diretriz de Hiperglicemia no Paciente Internado". No perioperatório eletivo, recomenda-se suspender no dia da cirurgia e reiniciar após retorno da dieta e estabilidade clínica (https://diretriz.diabetes.org.br/rastreio-e-controle-da-hiperglicemia-no-perioperatorio/#ftoc-introducao). Veja mais em "Diabetes Mellitus e Drogas Antidiabéticas no Perioperatório".
Efeitos adversos e cuidados com o uso crônico
Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais (≥10%): anorexia, náusea, dor abdominal em cólica, diarreia e gosto metálico. Podem ser transitórios e melhoram com administração junto às refeições ou redução da dose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36129996/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27987248/). A formulação de liberação prolongada (XR) pode reduzir sintomas, embora uma meta-análise indique benefício na adesão e não na redução de efeitos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34079464/).
A ADA destaca que o uso prolongado de metformina pode levar à deficiência de vitamina B12 em até 20% dos pacientes, com maior risco em doses ≥ 1.500 mg/dia e duração prolongada. A ADA recomenda dosagem anual de vitamina B12 em pacientes que utilizam metformina há mais de 4 anos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39651971/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39651989/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31725641/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26900641/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17030830/). Veja mais sobre em "Nova Diretriz de Diagnóstico de Deficiência de Vitamina B12".
Toxicidade por metformina
A toxicidade por metformina pode acontecer em casos de superdosagem (ex.: tentativa de autoextermínio) ou uso de doses habituais em condições que aumentam a recirculação da droga e o risco de acidose lática, como piora da função renal (TFG < 30 mL/min/1,73 m²), IC, hepatopatia, hipovolemia ou hipoxemia, sepse e cetoacidose.
A manifestação mais grave da toxicidade pela droga é a acidose lática associada à metformina (metformin-associated lactic acidosis – MALA). O quadro resulta da inibição da gliconeogênese hepática e do aumento da conversão esplâncnica de glicose em lactato. É um evento raro, estimado em cerca de 3 casos a cada 100.000 pacientes/ano (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26705203/). Em usuários de metformina, valores de lactato acima de 5 mmol/L (45 mg/dL) associados à acidose metabólica sugerem o diagnóstico de MALA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32960426/).
O quadro clínico inicial é inespecífico, geralmente com sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos e dor abdominal. Complicações graves incluem insuficiência respiratória, rebaixamento do nível de consciência e choque. Hipoglicemia pode ocorrer, principalmente na vigência de outros antidiabéticos. A dosagem de metformina sérica é pouco disponível e o nível sérico não tem valor prognóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19556031/).
O tratamento da MALA é de suporte clínico, com suspensão imediata da metformina, estabilização hemodinâmica e respiratória e tratamento das causas associadas. Hemodiálise é indicada quando lactato > 20 mmol/L (180 mg/dL), pH < 7,0 ou na ausência de resposta às medidas iniciais. Existem outros cenários em que a hemodiálise pode ser considerada, embora com evidências mais limitadas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25860205/). O carvão ativado pode ser usado em intoxicações agudas.
A hiperlactatemia isolada em pacientes assintomáticos, sem acidose metabólica, pode ser observada em uso prolongado da droga e não caracteriza MALA.
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