Bicarbonato no Doente Crítico: Indicações e o BICAR-ICU 2
Acidose metabólica grave é comum em ambientes de UTI, assim como o uso de bicarbonato de sódio endovenoso. Em outubro de 2025, foi publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) o estudo BICAR-ICU 2 sobre o uso de bicarbonato em doentes críticos [1]. Neste tópico revisamos o tema e comentamos o estudo.
Uso do bicarbonato em pacientes graves
A acidose metabólica grave pode ocorrer em 8% a 14% dos pacientes admitidos em unidades de terapia intensiva (UTI) [2,3]. Acredita-se que a acidemia grave e persistente possa contribuir para disfunção cardíaca, vasodilatação sistêmica, menor resposta a drogas vasoativas, alterações no fluxo renal e edema cerebral. Embora essas associações sejam descritas principalmente em estudos retrospectivos e de pequeno porte, elas levaram à adoção frequente do uso de bicarbonato nas UTIs [2,4,5].
O BICAR-ICU, publicado em 2018, foi o primeiro ensaio clínico randomizado a investigar desfechos clínicos com o uso de bicarbonato em pacientes críticos com acidose metabólica grave [6]. O estudo incluiu pacientes graves (escore SOFA ≥ 4) com pH ≤ 7,2, bicarbonato ≤ 20 mmol/L e PaCO₂ ≤ 45 mm Hg, excluindo aqueles com acidose respiratória. A intervenção consistiu na infusão de bicarbonato de sódio a 4,2%, com o objetivo de manter o pH acima de 7,3, em comparação com placebo.
O desfecho primário foi mortalidade em 28 dias e não houve diferença significativa entre os grupos. Nos desfechos secundários, foi encontrado redução na necessidade de terapia substitutiva renal (TSR). Em uma análise pré-especificada, o uso de bicarbonato reduziu a mortalidade em pacientes com injúria renal aguda (IRA) AKIN 2 e 3.
Esse achado secundário do BICAR-ICU levantou a hipótese de que pacientes com IRA, devido à alteração na capacidade de excreção renal de ácido, poderiam se beneficiar do uso de bicarbonato.
O BICAR-ICU 2 foi um estudo multicêntrico francês, não cego, desenhado para responder a essa pergunta. Foram randomizados pacientes graves com acidose metabólica grave (pH ≤ 7,2) e disfunção renal moderada a grave (KDIGO 2 ou 3) para a administração de bicarbonato de sódio ou placebo [1]. O desfecho primário avaliado foi a mortalidade em 90 dias.
No total, 627 pacientes foram randomizados e analisados. Os indivíduos tinham as seguintes características (tabela 1):
- Maiores de 18 anos
- Menos de 48 horas de admissão de UTI
- pH ≤ 7,2 com HCO3- ≤ 20 mEq/L, PaCO2 ≤ 45 mmHg e IRA KDIGO 2 e 3
- SOFA > 4 e lactato arterial ≥ 2 mmol/L (18 mg/dL).
Os principais critérios de exclusão foram a acidose respiratória e a cetoacidose. Em pacientes com acidose respiratória, o bicarbonato não corrige o distúrbio ventilatório de base e pode levar à acidose intracelular paradoxal e à piora da depressão do centro respiratório [7]. Em pacientes com cetoacidose, o bicarbonato pode prolongar a cetonemia ao aumentar a produção hepática de corpos cetônicos, atrasando a resolução da cetoacidose com fluidos e insulina. Nesses casos, o uso costuma ser reservado para situações de risco iminente à vida, com pH < 7,0 e instabilidade hemodinâmica, embora as evidências ainda sejam escassas [8,9]. Veja mais no tópico "Consenso de Emergências Hiperglicêmicas".
O estudo não encontrou diferença na mortalidade em 90 dias entre o grupo bicarbonato e o grupo placebo (62,1% vs. 61,7%, respectivamente; diferença absoluta de 0,4%; IC 95% -7,2 a 8,0; p=0,91). Na análise de subgrupo, pacientes com pH ≤ 7,1 e SOFA renal maior que 3 apresentaram maior tendência de benefício na mortalidade com o uso de bicarbonato. Quanto aos desfechos secundários, a necessidade de terapia substitutiva renal foi significativamente menor no grupo que recebeu bicarbonato (35% vs. 50%).
Uma limitação do trabalho é que o cálculo do tamanho amostral utilizado se baseou em uma redução esperada da mortalidade de 10%. Análises simuladas recentes sugerem que o efeito estimado do bicarbonato seja uma redução esperada de 2% na mortalidade [10]. O ajuste desse dado pode informar um estudo futuro para um cálculo mais apropriado caso o intuito seja identificar um possível efeito na mortalidade.
Apesar do resultado neutro quanto à mortalidade, a redução da necessidade de hemodiálise é um achado secundário robusto e clinicamente relevante, considerando os recursos e riscos associados à introdução de TSR. Além disso, não houve aumento de eventos adversos relacionados ao bicarbonato, como distúrbios eletrolíticos (hipernatremia, alcalose metabólica, hipocalcemia) ou hipervolemia, o que sugere que a estratégia é mais segura do que se esperava inicialmente.
Houve uma tendência de diferença no efeito do tratamento conforme o tipo de acidose. Pacientes com acidose metabólica hiperclorêmica associada à acidose de ânion gap aumentado apresentaram tendência a menor mortalidade em comparação àqueles com predomínio de acidose de ânion gap aumentado (tabela 2).
Nas acidoses hiperclorêmicas, o principal mecanismo é a perda ou a diluição de bicarbonato decorrente do aumento do cloro [11]. Essas acidoses são relativamente frequentes na UTI, seja por sobrecarga de NaCl 0,9%, insuficiência renal aguda ou perdas gastrointestinais. Esse distúrbio é diretamente reversível com a “reposição” de bicarbonato de sódio, o que ajuda a explicar a sinalização de maior benefício nesses pacientes. Naqueles com acidose predominantemente de ânion gap aumentado, há produção contínua de ácidos orgânicos, o que não é corrigido somente pela infusão de bicarbonato.
Os dados de segurança com o uso do bicarbonato e a redução na necessidade de TRS são significativos, em especial em locais de recursos limitados. O grupo da intervenção também apresentou menor risco de infecção da corrente sanguínea. Com estes achados, é possível que o uso de bicarbonato fique mais frequente nas UTIs. Contudo, novos estudos são necessários para entender melhor quais subgrupos podem se beneficiam mais desta conduta.
Como fazer
Nos estudos BICAR-ICU, utilizou-se bicarbonato de sódio a 4,2% em bolus de 125 a 250 mL, com volume máximo de 1.000 mL em 24 horas. Cada infusão era administrada durante 30 minutos. A meta era alcançar pH ≥ 7,3, com controle por gasometria arterial a cada 1 a 4 horas para reavaliar a necessidade de novas doses.
O bicarbonato de sódio 4,2% foi administrado tanto por acesso periférico quanto por acesso central. Quando usado em acesso periférico, recomenda-se monitorização rigorosa de sinais de flebite e extravasamento, embora não tenham sido relatados eventos adversos locais relevantes nesses estudos.
No Brasil, a apresentação mais disponível é o bicarbonato de sódio 8,4%. Ele deve ser preferencialmente administrado por via central ou, se em acesso periférico, diluído na proporção 1:1 (por exemplo, 125 mL de bicarbonato 8,4% em 125 mL de água destilada ou glicose 5%) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37442665/, https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/apoio-a-prescricao/irritantes-e-vesicantes). Como sua concentração é o dobro da usada nos estudos, cada infusão deve conter no máximo 125 mL, com um máximo de 500 mL em 24 horas.
Em pacientes que também necessitam de expansão volêmica, pode-se considerar o uso de solução bicarbonatada inicial, preparada com 150 mL de bicarbonato 8,4% diluídos em 850 mL de água destilada ou glicose 5%. Essa estratégia, conhecida como expansão volêmica guiada por pH, é mencionada por alguns especialistas pela possibilidade de otimizar precocemente o pH e a hipercalemia, embora não existam evidências diretas de benefício clínico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24132/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1552710/).
Eventos adversos
Uso de bicarbonato de sódio 4,2% ou 8,4% pode causar hipernatremia por ser uma solução hipertônica com alto conteúdo de sódio comparado ao plasma. Este efeito é maior quando o bicarbonato é administrado não diluído (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30852347/). Além disso, pode causar hipocalcemia devido ao risco de alcalose metabólica. À medida que o pH aumenta, a ligação do cálcio à albumina aumenta, reduzindo sua forma ionizada (forma biologicamente ativa) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25372090/).
No primeiro estudo BICAR-ICU, o grupo bicarbonato apresentou maior incidência de alcalose metabólica, hipernatremia e hipocalcemia. Porém, nenhum paciente apresentou complicações ameaçadoras à vida ou necessidade de intervenção urgente.
Outras preocupações com o uso do bicarbonato são hipocalemia e hipervolemia, que não apresentaram diferença clínica significativa entre o grupo bicarbonato e o placebo nos dois estudos.
Os estudos apresentavam protocolos de infusão de bicarbonato bem estabelecidos e com controles frequentes de eletrólitos, de pH e de balanço hídrico. O uso acima da dose recomendada pelos protocolos pode estar associado a um maior risco de eventos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3702227/).
Uso do bicarbonato em intoxicações
Intoxicação por Aspirina
O uso de bicarbonato é recomendado em pacientes com intoxicação por aspirina independentemente da presença de acidose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32579814/). A alcalinização auxilia na excreção urinária do salicilato ao aumentar a forma dissociada do salicilato.
Alcalose respiratória, comum na intoxicação por aspirina, não é contraindicação ao uso de bicarbonato.
O bicarbonato de sódio 8,4% pode ser feito na dose de 1 mL/kg (1 mEq/kg) em bolus seguido de uma solução bicarbonatada de manutenção na infusão de 200 a 250 mL/h com objetivo de pH urinário ≥ 7.5 sem ultrapassar pH sérico de 7,5 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32579814/). Potássio e cálcio séricos também devem ser monitorizados por serem frequentes durante a terapia de alcalinização.
A infusão deve ser continuada até uma concentração de salicilato sérica de < 40 mg/dL em duas medidas e paciente assintomático.
Intoxicação por Tricíclicos
O bicarbonato de sódio está indicado na intoxicação por tricíclicos na presença de QRS > 100 ms ou arritmias ventriculares (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37721023/).
Sugere-se um bolus inicial de 1 a 2 mEq/kg (ou 1 a 2 mL/kg do bicarbonato de sódio 8,4%). O objetivo é encurtar o QRS, reduzir a onda R na derivação aVR ou resolver a arritmia. A dose pode ser repetida em caso de ausência de resposta. Após as doses iniciais, recomenda-se manter uma infusão de manutenção de 2 a 3 mL/kg/h da solução bicarbonatada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11060957/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37721023/).
A monitorização deve ser realizada com eletrocardiograma e gasometria. A meta de pH sérico é de 7,45 a 7,55. Não é necessário monitorizar a alcalinização da urina, pois o benefício do bicarbonato neste contexto é reverter as alterações eletrocardiográficas e não aumentar a excreção urinária da droga.
Intoxicação por Metformina
Uso de bicarbonato é controverso na acidose láctica induzida por metformina. Seu uso pode ser considerado em casos de acidose metabólica grave com pH abaixo de 7,1 a 7,2, principalmente na presença de instabilidade hemodinâmica e como ponte para hemodiálise (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38423865/). Hemodiálise é indicada se pH menor que 7,0 a 7,1 e lactato acima de 15 a 20 mmol/L (https://www.extrip-workgroup.org/metformin).
Veja mais sobre o uso de bicarbonato em intoxicações em "Intoxicação por Metanol".
Aproveite e leia:
Consenso de Emergências Hiperglicêmicas
Um novo consenso internacional de emergências hiperglicêmicas foi publicado em agosto do 2024 pela American Diabetes Association (ADA), European Association for the Study of Diabetes (EASD), American Association of Clinical Endocrinology (AACE) e outras sociedades. Publicado originalmente em 2001 e atualizado pela última vez em 2009, o documento agora incorpora os avanços mais recentes para o manejo dessas condições. Este tópico revisa aspectos práticos no diagnóstico e manejo da cetoacidose diabética e estado hiperglicêmico hiperosmolar.
Reposição de Potássio
A hipocalemia é uma alteração eletrolítica frequente e que pode causar repercussões graves. A reposição de potássio exige cuidados para ser segura e efetiva. Este tópico revisa o tema.
Reposição de Potássio
A hipocalemia é uma alteração eletrolítica frequente e que pode causar repercussões graves. A reposição de potássio exige cuidados para ser segura e efetiva. Este tópico revisa o tema.
Caso Clínico #24
Homem de 68 anos internado devido um AVC, começa a apresentar hipoxemia.
Hiperaldosteronismo Primário
Em abril de 2022, o British Medical Journal (BMJ) lançou uma revisão sobre hiperaldosteronismo primário (HP). Indo da investigação ao tratamento, o artigo coloca em pauta o porquê de ser uma condição tão subdiagnosticada. Trazemos aqui os principais pontos.