Vacinação no Adulto: Pneumococo, Vírus Sincicial Respiratório, Dengue e Chikungunya
A vacinação do adulto reduz o risco de doenças graves e hospitalizações por infecções respiratórias e arboviroses. O benefício é maior em idosos e pessoas com comorbidades ou imunossupressão. Ensaios clínicos randomizados recentes reforçaram a evidência de benefício de várias novas vacinas [1-3]. Este tópico aborda indicações, esquemas e pontos de atenção das vacinas contra pneumococo, vírus sincicial respiratório, dengue e chikungunya.
Pneumocócica
Tipos de vacina
Atualmente, a imunização contra o Streptococcus pneumoniae pode ser feita com vacinas pneumocócicas conjugadas (VPC) e com a vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente (VPP23), com cobertura para diferentes sorotipos (tabela 1). Há quatro vacinas conjugadas disponíveis no Brasil: VPC10, VPC13, VPC15 e VPC20. A vacina polissacarídica é somente a VPP23 [4,5].
Na prática do adulto, VPC13, VPC15 e VPC20 e a VPP23 são as formulações mais utilizadas. No SUS, a VPC13 é ofertada nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) para pessoas com condições de risco, em esquema sequencial com a VPP23. A VPC10 integra o Calendário Nacional de Vacinação Infantil e não é utilizada de rotina no adulto.
Recomendações e oferta no Brasil
A Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2025 detalha a indicação da VPP23 para idosos acamados/institucionalizados e para povos indígenas [6]. O manual dos CRIEs define as indicações de vacinação pneumocócica em condições especiais, incluindo a disponibilidade de VPC13 para pessoas ≥ 5 anos com condições de risco, em esquema sequencial com VPP23 [7]. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) publica recomendações para a prática clínica, em geral aplicadas à rede privada/saúde suplementar (figura 1) [8,9].
As situações mais frequentes em que a vacina está indicada são:
- Vacinação universal infantil (SUS): realizada com a VPC10.
- Condições de risco (SUS/CRIE): esquema sequencial com VPC13 seguida de VPP23, para grupos selecionados conforme o Manual dos CRIEs.
- Idoso acamado/institucionalizado (SUS): VPP23 para pessoas a partir de 60 anos que não foram vacinadas e vivem acamadas e/ou institucionalizadas.
- Povos indígenas (SUS): VPP23 para pessoas a partir de 5 anos, sem comprovação vacinal com vacinas pneumocócicas conjugadas.
- Rede privada/saúde suplementar (SBIm): recomendação de rotina a partir de 60 anos. Entre 50 e 59 anos, a indicação pode ser a critério médico. Em adultos de qualquer idade com algumas comorbidades, a vacinação também é recomendada.
Eficácia
O estudo CAPiTA foi o primeiro ensaio clínico randomizado a demonstrar eficácia clínica de uma vacina pneumocócica conjugada em adultos [10]. O trabalho avaliou a vacina VPC13 em pacientes acima de 65 anos e evidenciou 75% de eficácia em prevenir o primeiro episódio de doença pneumocócica invasiva e 45% de eficácia contra pneumonia pneumocócica não invasiva nos sorotipos vacinais. O licenciamento de vacinas mais recentes, como VPC15, VPC20 e VPC21, foi baseado em eficácia inferida por imunogenicidade (não inferioridade imunológica) e segurança em comparação às vacinas previamente licenciadas [11-14].
Para a VPP23, uma meta-análise de 2017 estimou uma eficácia/efetividade de 73% contra doença pneumocócica invasiva em adultos ≥ 60 anos, com resultados menos consistentes para pneumonia [15]. A proteção contra pneumonia adquirida na comunidade na população geral permanece variável entre estudos e depende do desfecho analisado (pneumonia por qualquer causa em relação à pneumonia pneumocócica/por sorotipo vacinal)
[15,16].
Esquema vacinal
No Brasil, os esquemas vacinais disponíveis para adultos são:
- Dose única com VPC20 (Prevenar 20®) OU
- Esquema sequencial com VPC13 (Prevenar 13®) ou VPC15 (Vaxneuvance®) seguido de VPP23 (Pneumovax 23®), conforme indicação clínica e histórico vacinal (fluxograma 1).
As vacinas conjugadas (VPC13/VPC15/VPC20) induzem resposta imune T-dependente e memória imunológica. A VPP23 amplia a cobertura para sorotipos adicionais, mas com resposta menos duradoura. Quando se opta por VPC13 ou VPC15, recomenda-se complementar com VPP23 para ampliar a cobertura (fluxograma 1).
As vacinas VPC20 e VPC21 podem ser utilizadas em dose única [17]. A VPC21 não está disponível no Brasil, mas passou a ser recomendada nos Estados Unidos em 2024. Essa vacina adiciona oito sorotipos não presentes nas vacinas previamente usadas, mas não inclui o sorotipo 4. Em comunidades em que ≥ 30% da doença pneumocócica invasiva é causada por sorotipo 4, recomenda-se preferir vacinas que incluam esse sorotipo (VPC20 isolada ou VPC13 ou 15 + VPP23) [11].
A incorporação de vacinas pneumocócicas em calendários públicos depende de sorotipos locais e análises de custo-efetividade. Em 2022, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avaliou expandir o uso da VPP23 para a vacinação universal de pessoas ≥ 60 anos e recomendou não incorporar a estratégia, citando, entre outros pontos, impacto orçamentário e necessidade de priorização de outras ações [18].
Os sorotipos mais comuns em adultos no Brasil, de acordo com o SIREVA de 2024, são 3 e 19A. Pode existir variação conforme a região do país e ao longo do tempo [19].
Segurança
As vacinas pneumocócicas têm bom perfil de segurança. As reações mais comuns são locais. Dor é frequente, tipicamente em metade ou mais dos vacinados com vacinas conjugadas e em torno de 60% com a VPP23. Sintomas sistêmicos (fadiga, mialgia, cefaleia e febre) podem ocorrer, em geral leves e autolimitados. Eventos adversos graves são raros [20-22].
Vírus sincicial respiratório
Tipos de vacina e indicações
Três vacinas contra o vírus sincicial respiratório (VSR) foram licenciadas nos Estados Unidos pela FDA: Abrysvo® (Pfizer), Arexvy® (GSK) e mResvia® (Moderna). No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registrou Abrysvo® e Arexvy®. Ambas são aplicadas em dose única intramuscular (tabela 2) (https://familia.sbim.org.br/vacinas/vacinas-disponiveis/vacinas-vsr-virus-sincicial-respiratorio/).
A Abrysvo® é indicada para imunização materna, com o objetivo de proteger lactentes nos primeiros meses de vida. Para essa indicação, é fornecida pelo SUS a partir de 28 semanas de gestação em dose única (https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/publicacoes/estrategia-de-vacinacao-contra-o-virus-sincicial-respiratorio-em-gestantes.pdf). Essa vacina teve ampliação de uso para adultos de 18–59 anos com alto risco de doença grave (https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2024/anvisa-registra-vacina-para-prevencao-de-bronquiolite-em-bebes/, https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/abrysvo-r-vacina-do-virus-sincicial-respiratorio-a-e-b-recombinante-ampliacao-de-uso/).
Abrysvo® e Arexvy® são indicadas pela SBIm a partir dos 50 anos em pacientes de risco e a partir dos 70 anos para todos (tabela 2, figura 1).
Eficácia
Uma revisão sistemática da Cochrane de setembro de 2025 avaliou os ensaios clínicos randomizados de vacinas contra VSR em pacientes idosos (aproximadamente 100 mil participantes). Houve redução relativa de 77% em doença do trato respiratório inferior associada ao VSR (4 casos a menos por 1.000 vacinados) e de 67% em doença respiratória aguda associada ao VSR (6 casos a menos por 1.000 vacinados). A evidência para desfechos graves, como hospitalização e morte, é mais limitada, em parte porque esses eventos foram raros e os ensaios não foram dimensionados para capturar diferenças com precisão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016728/).
Segurança
Os eventos adversos mais comuns são reações locais e sintomas sistêmicos leves a moderados, como dor no local, fadiga, mialgia e cefaleia.
Na farmacovigilância, houve sinal de aumento de síndrome de Guillain-Barré nas seis semanas após a vacinação em adultos ≥ 60 anos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40343698/). Em um estudo observacional pós-licenciamento, estimou-se um excesso de 18,2 casos por 1.000.000 de doses para a Abrysvo® e de 5,2 casos por 1.000.000 de doses para a Arexvy®. Para a Arexvy®, o intervalo de confiança incluiu ausência de aumento de risco. As estimativas dependem de diagnóstico em prontuário e devem ser interpretadas como sinalização. Com base no conjunto de evidências, a FDA determinou a inclusão de um alerta nas bulas de Abrysvo® e Arexvy®, ainda sem estabelecer relação causal definitiva (https://www.fda.gov/safety/medical-product-safety-information/fda-requires-guillain-barre-syndrome-gbs-warning-prescribing-information-rsv-vaccines-abrysvo-and/).
Dengue
Tipos de vacinas e indicação
No Brasil, há três vacinas contra dengue com registro na Anvisa (figura 1):
- TAK-003 (Qdenga®, Takeda): vacina tetravalente de vírus vivo atenuado, indicada para pessoas de 4 a 60 anos, em duas doses (0 e 3 meses), independentemente de infecção prévia (https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2023/anvisa-aprova-nova-vacina-para-a-dengue/). No SUS, a oferta segue estratégia com foco na população de 10 a 14 anos em localidades prioritárias, com expansões temporárias em contextos específicos (https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/saude-amplia-recomendacao-da-vacina-de-acordo-com-vencimento/).
- Butantan-DV (Instituto Butantan): vacina de vírus vivo atenuado, indicada para 12 a 59 anos, em dose única. O registro foi publicado pela Anvisa em dezembro de 2025 (https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/anvisa-publica-registro-da-vacina-contra-a-dengue-do-butantan/). O Ministério da Saúde anunciou aquisição e planejamento para oferta pelo SUS a partir de 2026, com implementação progressiva (https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/dezembro/vacina-100-nacional-contra-a-dengue-comeca-a-chegar-ao-sus-com-compra-das-primeiras-3-9-milhoes-de-doses/).
- CYD-TDV (Dengvaxia®, Sanofi): vacina tetravalente atenuada (recombinante) indicada apenas para aqueles com infecção prévia documentada, em três doses (0, 6 e 12 meses). Um comunicado emitido pela fabricante em 2025 informa sobre a descontinuação definitiva da vacina (https://www.sanofi.com.br/pt/noticias/informacoes-de-produtos/2025-2-28-comunicado-sobre-a-descontinuacao-definitiva-da-fabricacao-importacao-do-medicamento-dengvaxia-vacina-dengue-1-2-3-e-4-recombinante-e-atenuada/).
As vacinas disponíveis contra a dengue são de vírus vivos atenuados, sendo contraindicadas na gestação e em imunodeficiência/imunossupressão (https://sbim.org.br/images/files/notas-tecnicas/perguntas-respostas-qdenga-240229.pdf).
Eficácia
As vacinas Qdenga® e Butantan-DV foram avaliadas em ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Em ambos, o desfecho primário foi dengue sintomática confirmada virologicamente ocorrendo >28–30 dias após a vacinação, e a análise considerou apenas o primeiro episódio (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32197105/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38294972/). Os estudos publicaram análises interinas dos resultados.
A evidência mais robusta da Qdenga® vem do estudo TIDES, realizado em crianças e adolescentes. A eficácia global foi de 80% no período primário pós-esquema, com queda ao longo do seguimento. Em 3 anos, a eficácia cumulativa foi de 62,0% contra dengue confirmada e 83,6% contra dengue com necessidade de hospitalização. Em 4,5 anos, os valores permaneceram semelhantes. A eficácia foi menor naqueles sem evidência de infecção prévia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32197105/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34606595/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38245116/).
A Butantan-DV, em estudo de fase 3 com dose única, mostrou 79,6% de eficácia em 2 anos contra dengue sintomática confirmada (73,6% em participantes sem evidência de exposição prévia e 89,2% em previamente expostos) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38294972/). No período observado, não houve casos por DENV-3 e DENV-4, impedindo estimar a eficácia específica para esses sorotipos nesse ensaio.
Segurança
A vacina CYD-TDV (Dengvaxia®) aumenta o risco de dengue grave em soronegativos quando ocorre a primeira infecção natural após a vacinação. Entre soronegativos de 2 a 16 anos, a incidência cumulativa de hospitalização por dengue foi maior no grupo vacinado do que no placebo (3,06% vs 1,87%) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29897841/). Por isso, a Dengvaxia® deve ser usada apenas em pessoas com evidência de infecção prévia por dengue.
Para TAK-003 (Qdenga®), os ensaios clínicos não identificaram sinais importantes de risco de segurança. Os eventos adversos são leves a moderados (dor no local, cefaleia, mialgia e febre), e a taxa de eventos adversos graves foi semelhante entre vacina e placebo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34606595/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38245116/). Na vacina Butantan-DV, eventos adversos foram mais frequentes do que no placebo nas primeiras semanas após a dose, mas em geral foram autolimitados. Eventos adversos graves foram raros (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38294972/).
Chikungunya
Tipos de vacinas disponíveis e indicação
Até o momento, existem duas vacinas licenciadas internacionalmente contra chikungunya, ambas em dose única intramuscular:
- IXCHIQ® (CHIKV-LA; vírus vivo atenuado; Valneva/Instituto Butantan): indicada para pessoas ≥ 18 anos com risco aumentado de exposição ao vírus chikungunya. No Brasil, a Anvisa registrou a vacina em abril de 2025 (https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/ixchiq-vacina-chikungunya-novo-registro/, https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/anvisa-aprova-primeira-vacina-para-chikungunya/). Até janeiro de 2026, não há comunicado oficial confirmando início de comercialização ampla no país ou oferta pelo SUS. Essa vacina foi aprovada pelo FDA em novembro de 2023. Em 2025, a FDA publicou atualizações de segurança e suspendeu a licença de uso nos EUA (ver mais em “Segurança”).
- VIMKUNYA™ (CHIK-VLP; vacina recombinante de partícula semelhante a vírus; Bavarian Nordic): indicada para pessoas ≥ 12 anos. Nos Estados Unidos, foi aprovada por via acelerada, com base em níveis de anticorpos neutralizantes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40158526/).
A IXCHIQ® é uma vacina de vírus vivo atenuado. Por esse motivo, é contraindicada na gestação e em imunodeficiência/imunossupressão.
Eficácia
Até o momento, não há ensaios de fase 3 com desfecho clínico (redução de casos de chikungunya). A proteção foi inferida por imunogenicidade, com títulos de anticorpos neutralizantes como desfecho principal (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40158526/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37321235/). A CHIK-VLP demonstrou resposta sorológica de 96,6% e a CHIKV-LA de 98,9%.
Segurança
Na vacina CHIK-VLP, a frequência de eventos adversos foi semelhante ao placebo. Os mais comuns foram dor no local da injeção, fadiga, cefaleia e mialgia, em geral leves e autolimitados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40158526/).
Na CHIKV-LA, ensaios clínicos mostraram reatogenicidade esperada para vacina viral e ocorrência de eventos chikungunya-like em pequena proporção (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39243794/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37321235/). Após a introdução em programas de vacinação, relatos pós-comercialização motivaram medidas regulatórias. A Agência Europeia de Medicamentos recomendou restrição temporária em ≥ 65 anos em maio de 2025 e orientou uso apenas quando houver risco significativo de infecção, com avaliação individual de benefício e risco (https://www.ema.europa.eu/en/news/ema-starts-review-ixchiq-live-attenuated-chikungunya-vaccine/, https://www.ema.europa.eu/en/news/ixchiq-temporary-restriction-vaccinating-people-65-years-older-be-lifted-0/). Nos Estados Unidos, a FDA suspendeu a licença da CHIKV-LA em agosto de 2025 com base em relatórios de eventos adversos graves, muitos compatíveis com doença chikungunya-like, em alguns com evidência de replicação/detecção do vírus vacinal (https://www.fda.gov/vaccines-blood-biologics/safety-availability-biologics/fda-update-safety-ixchiq-chikungunya-vaccine-live/).
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