Fragilidade e Sarcopenia: Diagnóstico e Manejo
Fragilidade e sarcopenia são prevalentes e associadas a declínio funcional, hospitalizações e mortalidade. O reconhecimento dessas condições permite melhor estratificação prognóstica e individualização de condutas, muitas vezes divergindo de recomendações para pacientes sem esses diagnósticos. Este tópico aborda ambas as condições, com repercussões práticas do diagnóstico.
Definição de fragilidade
Fragilidade é uma síndrome caracterizada pela redução das reservas fisiológicas e maior vulnerabilidade a estressores. Eventos como infecções, imobilização, introdução de um novo medicamento ou cirurgias podem provocar um impacto desproporcional. Pacientes com fragilidade têm maior mortalidade, maior taxa de internações e mais complicações pós-operatórias [1-3].
A fragilidade pode ser entendida como um gradiente de vulnerabilidade, compreendendo robustez, pré-fragilidade e fragilidade (tabela 1) [4]. Nos estágios iniciais, a condição é parcialmente reversível com intervenções em vários domínios e manejo de fatores modificáveis (veja mais em ‘Manejo de fragilidade e sarcopenia’).
Em estágios avançados (“fragilidade avançada” ou end-stage frailty), intercorrências menores podem levar à perda funcional significativa e terminalidade. O cuidado costuma priorizar conforto, dignidade e decisões guiadas por valores do paciente e da família, com integração de cuidados paliativos quando apropriado [5]. A fragilidade é útil para uma avaliação mais precisa do risco e guiar decisões compartilhadas, com cuidado para não negar intervenções potencialmente eficazes mesmo nesse contexto. Veja mais em "Cuidados Paliativos: Indicação, Critérios de Terminalidade e Escalas Prognósticas".
Fatores de risco
A síndrome de fragilidade não é uma consequência direta do envelhecimento, apesar de a idade ser um fator de risco importante. Outros fatores de risco incluem baixo índice de massa corporal (IMC), sexo feminino, baixa escolaridade e renda, histórico de depressão, sedentarismo, multimorbidade, polifarmácia, consumo de álcool, histórico de tabagismo, desnutrição e deficiência de vitamina D [6,7].
A prevalência varia conforme o instrumento de avaliação e a população estudada (comunidade, internados ou institucionalizados). No Brasil, estudos encontraram prevalência de fragilidade de 9 a 38% em pessoas acima de 50 anos [8,9].
Suspeita, rastreio e diagnóstico de fragilidade
Suspeita e rastreio
A literatura não é consensual para embasar o rastreio universal da fragilidade em idosos [10]. Enquanto alguns serviços implementam rastreio universal a partir de uma certa idade, outros utilizam uma estratégia de busca ativa quando sinais de vulnerabilidade surgem ou quando o diagnóstico de fragilidade interfere na tomada de decisão (antes de uma grande cirurgia ou quimioterapia, por exemplo).
O impacto prognóstico motivou a implementação do rastreio de indivíduos frágeis na população acima de 65 anos na Inglaterra [11]. Na Itália, estuda-se a efetividade do rastreio populacional [12]. O Ministério da Saúde recomenda aplicar o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVFC-20) a todos os pacientes idosos na Atenção Primária à Saúde, para manejo individualizado do cuidado.
Fragilidade deve ser considerada quando surgirem sinais de perda de reserva fisiológica ou evidências de baixa tolerância a estressores. Exemplos incluem quedas, perda ponderal involuntária, anorexia, redução de atividades, declínio novo em atividades de vida diária (básicas ou instrumentais), delirium, internações repetidas, visitas frequentes ao pronto-socorro, polifarmácia e eventos adversos a medicamentos, piora cognitiva e humor deprimido. Uma estratégia possível é direcionar ferramentas de rastreio para pacientes com essas características [10].
A avaliação geriátrica ampla (AGA) é a abordagem mais completa para identificar fragilidade. Como a AGA demanda tempo e equipe, instrumentos de rastreio podem ser usados para selecionar quem mais se beneficia de uma avaliação aprofundada. O IVCF-20 é um instrumento brasileiro com evidências de adequação para rastreio de vulnerabilidade em pessoas idosas [13].
Várias condições tratáveis podem simular ou contribuir com fragilidade e devem ser consideradas. Neoplasias ocultas, disfunções orgânicas crônicas, distúrbios endocrinológicos, doenças disabsortivas, condições inflamatórias e neurodegenerativas entram nesse grupo.
Diagnóstico
A abordagem diagnóstica usa instrumentos que se baseiam nos modelos aceitos para entendimento da fragilidade [14]:
- Físico/fenotípico: avalia sinais e sintomas associados à fragilidade, como perda ponderal, redução de velocidade de marcha e fraqueza;
- Acúmulo de déficits: entende a fragilidade como consequência do agrupamento de sintomas, comorbidades e incapacidades.
A estratégia eFrailty agrupa alguns instrumentos de avaliação de fragilidade e auxilia na escolha das ferramentas conforme o objetivo (rastreio ou tomada de decisão) e informações disponíveis (avaliação física, cognitiva, dados de prontuário) [15]. A tabela 2 agrupa alguns instrumentos de avaliação de fragilidade.
Os critérios de fragilidade de Fried (ou fenótipo de fragilidade) foram descritos em 2001 e incluem cinco características [16]:
- Redução de velocidade de marcha. Valores ajustados para altura e sexo.
- Baixa atividade física, estimada em calorias gastas por semana (homens gastando < 383 kcal e mulheres < 270 kcal).
- Sensação de exaustão. Resposta positiva a perguntas sobre o esforço necessário para a atividade.
- Perda ponderal ≥ 5 kg no último ano.
- Redução de força, medida pela diminuição da força de preensão palmar (valores ajustados para IMC e sexo).
A presença de pelo menos três critérios indica fragilidade. São considerados pré-frágeis os indivíduos que apresentam uma ou duas características [16]. Limitações desse método são a necessidade da avaliação da força muscular com dinamômetro e aplicação do Minnesota Leisure Time Activity Questionnaire para quantificar o gasto energético.
Outro modelo para identificar fragilidade é o de acúmulo de déficits (Frailty Index - Rockwood/Mitnitski). Nessa proposta, a fragilidade é caracterizada pela proporção de déficits presentes (sintomas, doenças e limitações) em relação aos déficits pesquisados [17]. Esse instrumento pode ser utilizado para identificar fragilidade pelo prontuário médico, sem a necessidade de avaliar o paciente diretamente [18].
Velocidade de marcha inferior a 0,8 m/s tem sensibilidade de 99% para identificação de indivíduos frágeis, quando comparada aos critérios de Fried [19]. A redução da velocidade de marcha é um fator independente para piores desfechos, como piora de funcionalidade, aumento do risco de internações e mortalidade [20-24]. Esse é um parâmetro relativamente simples e com boa correlação com fragilidade.
Sarcopenia
Sarcopenia é uma condição progressiva caracterizada pela redução de função e massa muscular [25,26]. Pode ocorrer de forma secundária, como manifestação de outras doenças (como insuficiência cardíaca, doença renal crônica e câncer), ou primária. [27]. A sarcopenia primária está associada ao envelhecimento, com contribuições de fatores genéticos e comportamentais (como sedentarismo) [26,27]. A sarcopenia aumenta o risco de quedas, fraturas, declínio funcional, fragilidade e morte [26].
Sarcopenia pode ocorrer em pessoas com excesso de adiposidade (obesidade sarcopênica) [26]. A redução de massa muscular pode ser negligenciada, especialmente se o tratamento está centrado na perda ponderal. O atraso no diagnóstico da sarcopenia pode aumentar o risco de eventos adversos [25].
Uma classificação temporal categoriza a sarcopenia em aguda (quando ocorre em < 6 meses) e crônica (com duração ≥ 6 meses). A primeira é geralmente associada a trauma ou doença aguda, enquanto a sarcopenia crônica está usualmente atrelada a condições progressivas que aumentam a mortalidade [26].
Caquexia e desnutrição devem ser diferenciadas de sarcopenia [25].
- Caquexia: síndrome metabólica associada a uma doença de base. Em adultos, a principal característica clínica é a perda ponderal. A fisiopatologia envolve inflamação crônica, anorexia e resistência insulínica. Não é totalmente reversível com suporte nutricional isoladamente [28].
- Desnutrição: combinação de um critério fenotípico (como perda de peso, baixo IMC e redução de massa muscular) e de um critério etiológico (redução de ingestão, absorção ou presença de inflamação/doença) [29].
Recomenda-se pesquisar sarcopenia em indivíduos que apresentem sinais ou sintomas compatíveis, como quedas, fraqueza, redução de velocidade de marcha ou perda muscular [25,26]. A investigação de sarcopenia recomendada pelo consenso europeu (EWGSOP2) está detalhada no fluxograma 1.
Após a confirmação de sarcopenia, deve-se investigar causas secundárias e passíveis de tratamento específico [25].
Manejo de fragilidade e sarcopenia
Fragilidade e sarcopenia possuem fatores de risco, fisiopatologia e tratamento semelhantes. O objetivo do manejo é otimizar ou manter a qualidade de vida e a independência, mantendo função e idealmente a massa muscular [27].
Os pilares do tratamento incluem exercícios físicos e adequações nutricionais. O tratamento das causas secundárias, quando presentes, faz parte do arsenal terapêutico. O impacto do diagnóstico de fragilidade no manejo de comorbidade está em ‘Fragilidade e decisões terapêuticas’.
Exercícios físicos
Os principais exercícios recomendados são os programas de treinamento estruturado, que englobam fortalecimento muscular, equilíbrio, condicionamento aeróbico e flexibilidade.
Não há uma recomendação específica quanto à superioridade em relação ao tipo de exercício [27]. Idosos frágeis que iniciaram Yoga e Tai Chi tiveram melhora em testes como velocidade de marcha, força de membros inferiores, testes de função muscular (como o timed up-and-go test) e redução do número de quedas [30,31].
Recomendações sobre intensidade e duração do exercício não são consensuais. Há evidências de benefício com um a dois treinos semanais de exercício resistido em intensidade de até 50% da carga máxima tolerada [27,32].
Nutrição
Pacientes frágeis e com sarcopenia devem ser acompanhados por um nutricionista. Como orientação geral, recomenda-se consumo diário de 30 kcal/kg/dia [33].
Na presença de perda ponderal, deve-se avaliar causas de desnutrição, como comorbidades e dificuldades socioeconômicas. Medicamentos podem levar à diminuição de peso e devem ser revisados. Fármacos comumente prescritos podem reduzir o apetite (como metformina e inibidores seletivos da recaptação de serotonina) ou causar náuseas e vômitos (antibióticos, agonistas dopaminérgicos). Xerostomia e disfagia devem ser questionadas como eventos adversos de anticolinérgicos e bisfosfonatos, respectivamente [34].
O tratamento de indivíduos com obesidade sarcopênica é delicado, por conta do objetivo duplo de perda ponderal com preservação de massa muscular. Sugere-se um déficit de aproximadamente 500 kcal/dia, garantindo ingestão mínima de 1000–1200 kcal/dia, combinado a exercício físico [33,35,36]. Não há recomendação atual de segurança para o uso de medicamentos nesse cenário, com a preocupação de perda de massa muscular associada a análogos de GLP1, por exemplo [35].
A ingestão proteica também deve ser avaliada. O consumo diário de proteína recomendado para idosos é de 1,0 a 1,2 g/kg/dia, mas pode ser aumentado até 1,5 g/kg/dia no contexto de doenças crônicas [33,37]. Suplementação proteica pode levar a aumento da força e massa muscular quando associada a exercícios físicos [27,38]. Não há consenso sobre a melhor fonte proteica ou horário da ingesta [27,39-41].
Avaliação Geriátrica Ampla e Plano de Cuidados
A AGA pode auxiliar na identificação de fatores de declínio funcional [4,42-44]. Nesse aspecto, ressaltam-se:
- Adequar medicamentos: rever fármacos potencialmente inapropriados.
- Avaliar risco de quedas e necessidade de dispositivo auxiliar de marcha ou encaminhamento à fisioterapia.
- Pesquisar alterações cognitivas e transtornos de humor, que podem impactar a adesão às terapias, apetite e mobilidade.
- Abordar aspectos sociais. Insegurança alimentar e vulnerabilidade social podem ser perpetuadores de risco para fragilidade e sarcopenia.
Nos casos de fragilidade avançada, declínio funcional progressivo e múltiplas internações, é apropriado incorporar um plano de cuidados baseado em decisões compartilhadas com o paciente e familiares. Podem ser consideradas estratégias de cuidados paliativos. Veja mais em "Cuidados Paliativos: Indicação, Critérios de Terminalidade e Escalas Prognósticas".
Outras intervenções
Até o momento, não há aprovação de terapias farmacológicas específicas para manejo de fragilidade e sarcopenia.
Estudos com reposição hormonal (como testosterona, estrogênio, progesterona e hormônio do crescimento) demonstram resultados inconclusivos [4,45-47]. O uso não deve ser recomendado como rotina.
Ensaios clínicos avaliando terapias personalizadas, transplante de células-tronco e inibidores de miostatina (bimagrumabe) estão em andamento [48].
Fragilidade e decisões terapêuticas
Identificar pacientes frágeis permite a melhor individualização do plano de cuidados, especialmente em relação a metas terapêuticas, escolha sobre tratamentos com potenciais riscos e decisão de prosseguir com rastreios.
Antes de intervenções com potencial maior de eventos adversos, como grandes cirurgias e quimioterapia, é prudente rastrear fragilidade. Existem ferramentas específicas para a tomada de decisão em alguns contextos que podem ser encontradas em eFrailty.
Metas terapêuticas em pacientes frágeis
O diagnóstico de fragilidade indica adequação de terapias, como o ajuste de alvos glicêmicos e pressóricos [49-51].
A American Diabetes Association cita que idosos com problemas de saúde complexos/intermediários devem ter alvo de hemoglobina glicada menos estrito (8,0 a 8,5%) [49]. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda alvos semelhantes e reforça que o objetivo do tratamento em idosos muito comprometidos deve ser evitar sintomas de hiper ou hipoglicemia [52].
A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que idosos sejam avaliados quanto à funcionalidade e fragilidade. Em pacientes frágeis, o início do tratamento anti-hipertensivo deve ser mais cauteloso, em monoterapia. O alvo pressórico nesses casos é individualizado como o menor valor tolerado [51].
Escolha de terapias com risco de complicações graves
American Heart Association e a World Society of Emergency Surgery ressaltam a importância de identificar fragilidade para guiar o manejo de intercorrências, como internações em UTI e cirurgias de grande porte (por exemplo, laparotomias) [53-55].
Em 2025, National Comprehensive Cancer Network (NCCN) atualizou as diretrizes de recomendações para manejo oncológico em idosos. O documento ressalta que componentes associados à fragilidade (como comorbidades, funcionalidade, cognição e estado nutricional) devem ser avaliados antes de intervenções terapêuticas [56]. Os critérios de Fried também são mencionados como ferramenta de escolha para estratificação de risco.
Decisão sobre rastreios
Em indivíduos frágeis, manter um protocolo de rastreio pode expor o paciente a intervenções que levam à perda funcional significativa e terminalidade, sem o benefício do protocolo [57]. Veja mais em "Rastreamento de Neoplasias".
A United States Preventive Services Taskforce recomenda que medidas objetivas de prognóstico sejam associadas ao julgamento clínico para definir se há benefício em manter o rastreamento oncológico em indivíduos idosos [58]. Uma sugestão é calcular o índice de Lee Schonberg (disponível aqui), uma ferramenta que estima sobrevida geral em 10 anos a partir de análise de dados como idade, comorbidade e funcionalidade.
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