Caso Clínico #40: Anemia e Disfunção Renal
O caso clínico abaixo é apresentado em partes. O negrito é a descrição do caso, as partes que não estão em negrito são os comentários. Ao final, você encontrará a resolução e os pontos de aprendizagem resumidos.
Uma mulher de 70 anos procura o pronto-atendimento por fadiga intensa associada a náuseas e vômitos iniciados há um dia.
Ela informa astenia há dois meses. Nesse período, já procurou outro serviço de urgência, com exames que mostravam hemoglobina de 5,8 g/dL, creatinina de 4,89 mg/dL e ureia de 85 mg/dL. A anemia foi atribuída à doença renal crônica e a paciente recebeu um concentrado de hemácias, sendo encaminhada para investigação ambulatorial.
No dia do atendimento atual, a paciente passou a apresentar náuseas contínuas e dois episódios de vômitos com restos alimentares. Relata também perda de 5 kg no período, inapetência, edema de membros inferiores de início recente e ausência de diurese desde o início do dia.
Negou ortopneia, dispneia paroxística noturna ou aos esforços, febre, dor torácica e outras queixas álgicas, palpitações e alterações do hábito intestinal.
A paciente é tabagista, com carga tabágica de 10 maços-ano. Nega comorbidades, nunca realizou acompanhamento médico e não utiliza medicamentos de uso contínuo.
Fadiga, náuseas e vômitos são sintomas comuns e inespecíficos, mas ganham outro peso quando aparecem em uma paciente com disfunção renal grave documentada há dois meses (taxa de filtração glomerular estimada em torno de 9 mL/min/1,73 m² pelo CKD-EPI). Nesse contexto, ainda mais com redução do débito urinário e edema, sugerem fortemente síndrome urêmica e/ou disfunção renal grave, com risco imediato de complicações potencialmente fatais como hipercalemia, acidose, sobrecarga volêmica e manifestações urêmicas. A paciente deve ser avaliada em ambiente monitorizado e as complicações que indicam terapia renal substitutiva de urgência devem ser buscadas rapidamente.
Doença renal crônica (DRC) é definida como anormalidades na função ou estrutura renal, com duração de pelo menos três meses. No caso, não está claro o quanto da disfunção é crônica ou aguda, mas a dúvida prática é se existem sinais de piora aguda em um rim já muito comprometido. Os sintomas novos (edema, redução do débito urinário e náuseas) sustentam a hipótese de um componente agudo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22890468/).
A síndrome urêmica é semelhante nos quadros agudos e crônicos. Além dos sintomas apresentados pela paciente, pode ocorrer anorexia, gosto metálico, pericardite e alterações neurológicas, como confusão mental, asterixis (flapping) e coma (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22890468/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38490803/).
Comorbidades desconhecidas levando à DRC terminal devem ser pesquisadas, como hipertensão arterial e diabetes. Ultrassonografia de rins e vias urinárias pode indicar achados sugestivos de DRC, como redução do tamanho dos rins, aumento da ecogenicidade e diminuição da espessura cortical, além de poder identificar uropatia obstrutiva (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33958111/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38108672/). Veja mais em "Doença Renal Crônica: KDIGO 2024", no subtópico 'Como diferenciar injúria renal aguda da DRC?'.
A anemia deve estar contribuindo para a fadiga. Diversas doenças podem se apresentar com a associação de anemia e lesão renal, como DRC isoladamente, microangiopatias trombóticas, doenças autoimunes e mieloma múltiplo (tabela 1). Mesmo em pacientes com DRC estágio 5, menos de 12% possuem valores de hemoglobina menores que 9 g/dL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32905241/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Atribuir automaticamente toda a anemia à DRC é imprudente, sendo necessário investigar a anemia de maneira apropriada.
As informações são suficientes para encarar o caso como uma potencial emergência e acelerar a realização de exames complementares enquanto se finaliza a anamnese e o exame físico. O exame físico deve procurar sinais de instabilidade e hipervolemia, além de incluir avaliação com ultrassom à beira do leito (POCUS). Com a queixa de redução do débito urinário, o POCUS da bexiga diferencia retenção urinária de oligoanúria verdadeira. O eletrocardiograma (ECG) deve ser feito já agora para afastar repercussões de hipercalemia enquanto os exames séricos não estão disponíveis.
No exame físico na admissão, estava afebril, com pressão arterial 146/102 mmHg, frequência cardíaca 97 batimentos por minuto, frequência respiratória 26 incursões por minuto, saturação periférica de oxigênio 94% em ar ambiente e tempo de enchimento capilar menor que 3 segundos.
À ausculta cardíaca, bulhas hipofonéticas e sopro sistólico de baixa intensidade (1+/4+) audível principalmente em foco mitral. Havia turgência jugular a 45º. No exame respiratório, murmúrio vesicular abolido em bases bilateralmente, sem ruídos adventícios e sem uso de musculatura acessória. Abdome sem alterações.
As extremidades estavam quentes e bem perfundidas, com edema depressível, bilateral e simétrico em membros inferiores +2/+4.
Edema de membros inferiores, turgência jugular e redução do murmúrio vesicular em bases, possivelmente por derrame pleural, favorecem hipervolemia em uma paciente com disfunção renal grave prévia. A taquipneia pode ocorrer por edema pulmonar ou como resposta a uma possível acidose metabólica. Ao mesmo tempo, a combinação de bulhas hipofonéticas com turgência jugular impõe a hipótese de derrame pericárdico com provável repercussão hemodinâmica (tamponamento cardíaco).
Enquanto derrame pericárdico é um achado anatômico, tamponamento cardíaco é um estado fisiopatológico no qual a pressão no espaço pericárdico limita o enchimento cardíaco. Isso explica a correlação imperfeita entre volume do derrame e tamponamento. Derrames volumosos de instalação lenta podem existir sem tamponamento e derrames menores de rápida evolução podem tamponar.
A tríade de Beck (hipotensão, turgência jugular e bulhas hipofonéticas) é tardia, pouco sensível e pouco específica. Em uma coorte, nenhum paciente com derrame ou tamponamento apresentou a tríade completa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28123617/). Os achados menos prevalentes, presentes em menos de 50% dos casos, são bulhas abafadas, hipotensão ou baixa voltagem no eletrocardiograma (ECG) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17456823/). Entre os achados clínicos, o pulso paradoxal com variação maior que 10 mmHg aumenta a probabilidade de tamponamento e deve ser sempre pesquisado nesse contexto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3341174/).
A limitação da avaliação clínica justifica ter um limiar baixo para utilizar o POCUS quando há sintoma compatível e fatores de risco. Alguns achados ecocardiográficos podem preceder o comprometimento hemodinâmico clinicamente aparente. Entre eles estão colapso sistólico do átrio direito, colapso diastólico do ventrículo direito e variação respiratória nas velocidades de fluxo mitral e tricúspide (tabela 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40767817/). Veja mais em "POCUS: Avaliação do Ventrículo Direito, Derrame Pericárdico e Tamponamento Cardíaco".
Agora deve-se realizar o POCUS cardíaco já na sala para confirmar derrame pericárdico e procurar sinais de repercussão. Em seguida, realizar o POCUS pulmonar e vesical. O ECG é necessário para rastrear hipercalemia e padrões que sugiram pericardite. A diurese deve ser quantificada com sonda vesical. Se o POCUS sugerir tamponamento, deve-se evitar a escalada de diurético/vasodilatador, acionar avaliação ecocardiográfica completa e elaborar um plano de drenagem, quando indicada. Se não houver sinais de tamponamento, o foco volta para sobrecarga volêmica/acidose em contexto de disfunção renal.
A paciente foi acomodada em leito de sala de emergência sob monitorização. Foram coletados exames laboratoriais e passada sonda vesical de demora, com saída inicial de 50 mL de urina.
Foi realizado POCUS, com avaliação pulmonar, cardíaca e de veia cava inferior. Havia derrame pleural volumoso bilateral, com padrão A predominante e linhas B somente em terço médio à esquerda. Evidenciou-se derrame pericárdico significativo, com lâmina estimada em 25 mm. Havia boa contratilidade ventricular global aparente, sem colapso evidente de câmaras direitas. A veia cava inferior estava dilatada, com diâmetro aproximado de 23 mm, não colapsável e sem variabilidade à inspiração.
Realizado ainda ECG, com evidência de baixa voltagem difusa (figura 1).
O derrame pericárdico tem alto potencial de evoluir para tamponamento, mesmo sem sinais ecocardiográficos clássicos no momento. A baixa voltagem difusa no eletrocardiograma é compatível com derrame pericárdico volumoso, mas não define repercussão hemodinâmica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8222799/). A lâmina de derrame estimada em mais de 20 mm classifica o derrame como “grande” segundo diretrizes atuais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40878297/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40767817/). Esta quantidade de líquido pericárdico sem sinais de tamponamento sugere instalação lenta, com tempo para adaptação e aumento da complacência do pericárdio parietal. Veja mais em "Pericardite: Novas Diretrizes Europeia e Americana de 2025".
Apesar da ausência de tamponamento no momento, em um derrame volumoso sem etiologia clara, é razoável discutir a possibilidade de drenagem terapêutica e diagnóstica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40767817/). Em derrame sem instabilidade, a punção é considerada na suspeita de etiologia que exige diagnóstico rápido (tuberculose, pericardite bacteriana ou neoplásica) ou quando o derrame é grande e crônico (mais de três meses) e/ou sintomático e refratário.
Pericardite urêmica é uma possibilidade, mas é rara atualmente. Pode ser observada em doença renal avançada com diagnóstico tardio. Dor torácica, apesar de muito comum nas demais etiologias de pericardite, pode estar ausente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12695728/). No ECG, os achados clássicos de elevação do segmento ST e depressão do segmento PR são incomuns (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40943703/). Uma entidade que deve ser distinguida da pericardite urêmica é a pericardite associada à diálise, que ocorre em pacientes que já iniciaram a diálise há pelo menos oito semanas e está relacionada à diálise inadequada.
Outras etiologias possíveis para o derrame são neoplasias, doenças autoimunes e doenças infecciosas. Todas podem causar anemia da doença crônica, apesar de raramente esse mecanismo levar a hemoglobina tão baixa quanto a do começo do quadro. As neoplasias mais relacionadas a derrame pericárdico são de pulmão, mama e as hematológicas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15904655/).
Pulso paradoxal deve ser pesquisado e documentado. É necessário confirmar a lesão renal nos exames laboratoriais e procurar suas complicações, como hipercalemia e acidose metabólica. O hemograma irá confirmar a anemia e as outras séries serão úteis para avaliar citopenias associadas. Deve-se solicitar um ecocardiograma formal e repetir o POCUS se houver qualquer piora clínica. Se houver deterioração compatível com tamponamento, a drenagem deve ser feita imediatamente.
Os exames laboratoriais coletados na sala de emergência mostraram:
- Hemoglobina 7,1 g/dL; hematócrito 21,4%; volume corpuscular médio 85,5 fL; leucócitos 8.600/mm³, sem desvio, e plaquetas 185.000/mm³.
- Tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) 38 s; tempo de protrombina (TP) 15,9 s; razão normalizada internacional (INR) 1,39 e proteína C reativa (PCR) 23,14 mg/dL.
- Creatinina 8,28 mg/dL, ureia 140 mg/dL, sódio 134 mmol/L, potássio 6,2 mmol/L, cloro 109 mmol/L e cálcio ionizado de 1,29 mmol/L.
- Gasometria arterial com pH 7,29, pO₂ 87 mmHg, pCO₂ 22 mmHg, excesso de bases (base excess) –10,7 mEq/L e bicarbonato 10,7 mEq/L.
Foi solicitada avaliação da cirurgia cardíaca para pericardiocentese devido ao risco de evolução para tamponamento. A paciente não apresentou diurese. Foram realizadas medidas para hipercalemia e acidose metabólica e passado cateter de diálise para início de terapia renal substitutiva. Realizada a transferência para o leito de terapia intensiva.
A paciente evolui com queda na pressão arterial média para menos de 65 mmHg, frequência cardíaca de 125 bpm e tempo de enchimento capilar prolongado, sendo iniciada noradrenalina. Uma nova avaliação com POCUS mostrou colapso sistólico de átrio direito e colapso diastólico de ventrículo direito, sendo caracterizado um estado de tamponamento cardíaco (vídeo 1).
Foi efetuada pericardiocentese de alívio com saída de 300 mL de líquido hemático. As amostras foram encaminhadas para análise.
Dois vetores que ameaçam a vida da paciente estão se desdobrando ao mesmo tempo. A disfunção renal avançada levou à hipercalemia e acidose metabólica importante, exigindo terapia renal substitutiva urgente. Em paralelo, o derrame pericárdico volumoso evoluiu para tamponamento. O reconhecimento foi rápido porque o risco já estava identificado e o POCUS foi repetido no momento certo. Veja mais em "POCUS - Uso da Ultrassonografia no Diagnóstico do Choque" e "POCUS: Avaliação do Ventrículo Direito, Derrame Pericárdico e Tamponamento Cardíaco".
Pericardiocentese guiada por imagem é a abordagem preferida para o tamponamento. Geralmente, é utilizado um dreno com ponta curva (tipo pigtail), porém há relatos de uso de cateter venoso central para a mesma finalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36605922/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26320112/). O dreno é normalmente retirado quando o débito reduz para menos de 30 ml/dia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34196832/). A confecção de uma janela pericárdica cirúrgica é recomendada quando não há um trajeto percutâneo seguro ou quando se espera recorrência com risco de tamponamento, como em doenças malignas ou autoimunes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40767817/).
Uma complicação incomum e debatida da pericardiocentese é a síndrome de descompressão pericárdica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33514476/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39131808/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31908728/). O mecanismo não é claro, mas a condição é definida por uma piora paradoxal após o procedimento, com edema pulmonar, hipotensão e até óbito, sem outro diagnóstico que explique o quadro. A paciente deve ser mantida em alta vigilância após o procedimento.
O líquido pericárdico auxiliará no diagnóstico etiológico. A citologia do líquido é um dos testes de maior rendimento quando há suspeita de malignidade, enquanto a bioquímica tem utilidade limitada para definir etiologia na maioria dos casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37210977/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31422364/). O estudo deve incluir celularidade, coloração de Gram, culturas para bactérias e fungos e pesquisa de células neoplásicas. Dosagem de adenosina deaminada (ADA), pesquisa de bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR), cultura para micobactérias e teste molecular para tuberculose podem ser solicitados conforme o caso. Os critérios de Light do derrame pleural não devem ser extrapolados, pois o líquido pericárdico normal é rico em proteínas e seria erroneamente classificado como exsudativo.
A retirada de somente 50 ml de líquido pericárdico já pode reduzir a pressão local e melhorar o débito cardíaco, mas, para análise, volumes maiores são mais adequados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22294431/). Para estudo laboratorial, é necessário o envio de 60 ml para pesquisa de células neoplásicas e 10 ml para as outras análises (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26712877/).
Resolvida a intercorrência e garantida a estabilidade, a condução do caso volta para a elucidação etiológica. Além da análise do líquido pericárdico, nesse momento é necessário investigar a causa da anemia. Anemias carenciais devem ser pesquisadas, com avaliação da cinética do ferro, vitamina B12 e ácido fólico, e quantificação de reticulócitos. Se houver sinais de hemólise, lúpus e microangiopatias trombóticas são favorecidas. A ultrassonografia de rins e vias urinárias pode identificar se existe algum componente crônico na disfunção renal. Se a diurese estivesse mantida, a análise de urina também poderia contribuir.
A paciente evoluiu com resolução do choque, desmame completo de droga vasoativa e melhora dos parâmetros perfusionais. Foi submetida à hemodiálise, sem intercorrências, porém manteve-se em oligoanúria.
A ultrassonografia de rins e vias urinárias não mostrou achados sugestivos de cronicidade.
Os demais exames complementares mostraram:
- Vitamina B12 499 pg/mL (referência 221-911), ácido fólico de 7 ng/mL (referência > 5,38), ferro sérico 71 mcg/dL (referência 33-193) e ferritina 1307 ng/mL (referência 1-150).
- Reticulócitos de 2,39%, contagem absoluta de 57.200/microL e índice reticulocitário de 0,63.
- Bilirrubina indireta 0,1 mg/dL (referência 0,2-0,8), haptoglobina 46 mg/dL (referência 30-200) e desidrogenase lática (DHL) 530 U/L (referência 120-480).
- Pesquisa de esquizócitos negativa.
- Hemoglobina glicada de 5,6%.
- PTH 38 pg/mL (referência 10 a 65).
A pericardiocentese e a hemodiálise resolvem a urgência, mas a história continua mal explicada para ser somente uma DRC não acompanhada que evoluiu. O ultrassom renal sem sinais de cronicidade e o paratormônio normal favorecem injúria renal aguda ou subaguda. A anemia é desproporcionalmente grave para ser atribuída somente à DRC. Essas pistas devem levar a uma hipótese que explique lesão renal grave e anemia.
Apesar do valor absoluto de reticulócitos estar dentro da normalidade, o índice de produção reticulocitária (IPR) pode ser utilizado para ajustar esse parâmetro para o grau de anemia, fornecendo uma avaliação mais contextualizada da resposta medular. Um IPR ≤ 2 geralmente indica resposta medular inadequada e anemia hipoproliferativa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25676377/). Além disso, bilirrubina indireta baixa e haptoglobina normal tornam hemólise improvável. A DHL aumentada é inespecífica e pode refletir doença sistêmica, hipóxia tecidual prévia, inflamação ou outras fontes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35584830/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7365971/). Após a exclusão de déficits nutricionais, outras causas de anemia hipoproliferativa devem ser avaliadas (tabela 3).
Anemia hipoproliferativa associada à lesão renal aguda sugere duas linhas principais. A primeira é uma doença com manifestação imunológica levando à injúria renal, como glomerulonefrite rapidamente progressiva em doenças autoimunes e vasculites. A segunda linha é alguma doença hematológica, com destaque para gamopatias monoclonais com lesão renal associada.
Deve-se tentar obter urina para análise assim que houver débito. Além disso, investigar fator antinúcleo, dosagem de complemento, anticorpos anticitoplasma de neutrófilo e sorologias para infecções sexualmente transmissíveis. O rastreio de neoplasias apropriadas para o sexo e a idade também é pertinente. Paralelamente, pesquisar gamopatia monoclonal com eletroforese de proteínas séricas, imunofixação e pesquisa de cadeias leves livres (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34556256/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35461559/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20410922/). Veja mais em "Gamopatias Monoclonais e Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (MGUS)".
A análise inicial do líquido pericárdico mostrou celularidade aumentada, com 4.240 hemácias/mm³ e 1.375 leucócitos/mm³. Na contagem diferencial, havia 49% de neutrófilos, 24% de plasmócitos, 17% de linfócitos e 10% de mesoteliócitos. As proteínas totais eram de 5,15 g/dL e a glicose de 125 mg/dL. A bacterioscopia foi negativa.
Os exames microbiológicos do líquido pericárdico foram negativos. Os exames para doenças autoimunes e as sorologias para doenças infecciosas também foram negativos.
Com todos os outros exames negativos e um líquido pericárdico com alta proporção de plasmócitos, a hipótese mais forte agora é de mieloma múltiplo. Esses achados combinam com a anemia significativa, a perda ponderal e a lesão renal grave.
O elevado percentual de plasmócitos no líquido pericárdico é incomum e sugere infiltração por um processo neoplásico, sendo descrito especialmente no mieloma múltiplo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30852296/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40842268/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41549254/). Plasmócitos em excesso podem ser clonais ou reativos. Os relacionados a mieloma múltiplo são clonais. Exames como citometria de fluxo ou imunohistoquímica podem determinar se existe clonalidade. No mieloma múltiplo, o acometimento pericárdico também pode ocorrer por amiloidose, infecções ou sangramento.
Esse achado reforça a necessidade de eletroforese de proteínas séricas, imunofixação, pesquisa de cadeias leves livres e dosagem de imunoglobulinas para investigação de mieloma múltiplo.
A eletroforese de proteínas apresentou pico monoclonal na fração gama com estimativa de 0,7 g/dl de proteína M. A dosagem de cadeias leves livres demonstrou kappa de 9.850 mg/L (referência 6,7 a 22,4) e lambda 11,40 mg/L (referência 8,3 a 27,0), com relação kappa/lambda 864 (referência 0,31 a 1,56).
A biópsia de medula óssea com imunofenotipagem demonstrou 30% de plasmócitos clonais, confirmando mieloma múltiplo de cadeias leves kappa. O tratamento foi iniciado pelo serviço de hematologia.
Anemia e insuficiência renal somados aos 30% de plasmócitos clonais na medula confirmam o diagnóstico de mieloma (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40340857/). Pelos critérios do International Myeloma Working Group, mieloma múltiplo é caracterizado por plasmócitos clonais na medula (≥10%) associado a um evento definidor de mieloma, seja por dano a órgão/tecido ou por biomarcadores específicos (tabela 4).
Ausência de hipercalcemia não afasta mieloma. Apesar de tipicamente associada, dados da literatura sugerem que a hipercalcemia está presente ao diagnóstico em menos de 20% dos casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12528874/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33145966/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28675766/). Além disso, um pico monoclonal pequeno não reduz a probabilidade quando a doença é por cadeias leves. Parte relevante dos casos é de mieloma de cadeias leves, em que a carga tumoral pode se expressar mais pela dosagem de cadeias leves livres do que por um grande pico em eletroforese sérica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12528874/).
Menos de 5% dos pacientes possuem doença extramedular ao diagnóstico. Essa manifestação está associada a um pior prognóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22689675/). Acometimento pericárdico é ainda mais raro dentre as manifestações extramedulares.
A injúria renal acontece em 20-50% dos pacientes com mieloma (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17325894/). Os mecanismos mais envolvidos são nefropatia por cilindros (causa mais comum), lesão tubular proximal relacionada à cadeia leve ou glomerulopatias, como na doença de depósito de cadeia leve e na amiloidose de cadeia leve (AL) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22045243/). A hipercalcemia também contribui com a injúria renal.
Alguns pontos de aprendizagem sobre o caso que você não pode esquecer:
- Em uma injúria renal sem temporalidade clara, a ultrassonografia pode indicar achados sugestivos de DRC, como redução do tamanho dos rins, aumento da ecogenicidade e diminuição da espessura cortical.
- A tríade de Beck (hipotensão, turgência jugular e bulhas hipofonéticas) é tardia, pouco sensível e pouco específica para tamponamento cardíaco. Isso justifica ter um limiar baixo para utilizar o POCUS quando há sintoma compatível e fatores de risco.
- Pericardite urêmica é rara atualmente. Dor torácica pode estar ausente e os achados eletrocardiográficos clássicos são incomuns. A pericardite urêmica deve ser distinguida da pericardite associada à diálise, que ocorre em pacientes que já iniciaram a diálise há pelo menos oito semanas e está relacionada à diálise inadequada.
- Pericardiocentese guiada por imagem é a abordagem preferida para o tamponamento cardíaco. Geralmente, é utilizado um dreno com ponta curva (tipo pigtail), porém há relatos de uso de cateter venoso central para a mesma finalidade. O dreno é normalmente retirado quando o débito reduz para menos de 30 ml/dia.
- Plasmocitose no líquido pericárdico é incomum e sugere infiltração por um processo neoplásico, descrito especialmente no mieloma múltiplo. Plasmócitos em excesso podem ser clonais ou reativos. Os relacionados a mieloma múltiplo são clonais e exames como citometria de fluxo ou imunohistoquímica podem determinar se existe clonalidade.
Aproveite e leia
- Diagnóstico diferencial do choque circulatório pelo POCUS
- Abordagem sistemática do POCUS para avaliação do choque (RUSH)
- Integral velocidade-tempo e débito cardíaco
- Diagnóstico diferencial do choque através da integral velocidade tempo
- Definição e etiologias
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- Avaliação básica do ventrículo direito
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- O que é gamopatia monoclonal?
- Como identificar uma gamopatia monoclonal?
- O que fazer diante de uma gamopatia monoclonal? O que é MGUS?
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