Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC): GOLD 2026
Anualmente, a Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) fornece atualizações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Este tópico aborda as principais atualizações da edição do GOLD de 2026 [1].
O Guia já abordou publicações prévias do GOLD em "Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica - GOLD 2023", "Atualização de DPOC: GOLD 2024" e "Atualização de DPOC: GOLD 2025".
Busca ativa de casos: novo algoritmo
Subdiagnóstico da DPOC
O GOLD 2026 reforça que a DPOC é subdiagnosticada e destaca a busca ativa por casos [1]. O subdiagnóstico decorre de uma combinação de fatores: queixas respiratórias inespecíficas ou subvalorizadas pelos profissionais de saúde, acesso limitado à espirometria, desigualdades no acesso à saúde e baixa percepção de risco por parte dos pacientes, que adaptam progressivamente suas atividades para minimizar a dispneia [2].
Indivíduos com DPOC não diagnosticada apresentam pior qualidade de vida, maior carga de sintomas, maior risco de exacerbações e de pneumonia, redução da produtividade laboral e maior mortalidade respiratória e geral, quando comparados a pessoas sem DPOC [3-5].
No Brasil, o estudo populacional PLATINO revelou que cerca de 87,5% dos indivíduos com critérios espirométricos para DPOC em São Paulo nunca haviam recebido o diagnóstico previamente [6].
Busca ativa de casos de DPOC
Diferentemente do rastreamento, a busca ativa por casos direciona-se a indivíduos com sintomas respiratórios sem explicação ou com fatores de risco específicos para DPOC, que seguem para a realização de espirometria na atenção especializada [2]. O GOLD 2026 propõe um novo fluxograma para busca ativa de casos (fluxograma 1). A avaliação de rastreamento e busca ativa já foi discutida em "Atualização de DPOC: GOLD 2024", no subtópico 'Rastreio de DPOC'.
Evidências recentes sugerem que a busca por casos em populações de alto risco é custo-efetiva, especialmente com estratégias ativas e ferramentas combinadas, como questionários validados e dispositivos portáteis para avaliação da função pulmonar [2].
Entre os questionários indicados para identificar casos suspeitos de DPOC na atenção primária, especialmente em países de baixa e média renda, o COLA (COPD in Low- and middle-income countries Assessment) tem tradução e adaptação cultural validadas para o português brasileiro (tabela 1) [7].
O estudo UCAP, publicado em 2024 no New England Journal of Medicine (NEJM), realizou busca ativa por casos de DPOC na comunidade, com questionários validados, seguida de espirometria. Participantes com DPOC previamente não diagnosticada foram randomizados para cuidado usual na atenção primária ou para tratamento baseado em diretrizes, guiado por um pneumologista e por um educador especializado em asma/DPOC. Esta intervenção reduziu a utilização de serviços de saúde por doenças respiratórias [8].
Atualização na classificação da DPOC
Classificação A/B/E e manejo na exacerbação moderada
O GOLD 2026 é mais abrangente no ajuste da terapia farmacológica diante de exacerbações moderadas da DPOC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Na terapia farmacológica inicial, o grupo E foi modificado para incluir indivíduos que apresentaram exacerbação moderada no ano anterior, com base em evidências emergentes de estudos observacionais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39147410/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32855228/). Esses dados sugerem que mesmo uma única exacerbação moderada ou grave antes do início da terapia farmacológica de manutenção aumenta o risco de eventos subsequentes (figura 1). Os grupos A e B permaneceram inalterados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
No tratamento farmacológico de seguimento, uma exacerbação moderada passa a ser usada para considerar a escalada do tratamento (fluxograma 2). (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Novos conceitos de atividade de doença
Com o entendimento de DPOC como uma doença inflamatória crônica, o GOLD 2026 utiliza o termo “atividade de doença” para se referir a desfechos patológicos e à potencial redução da atividade e à prevenção de dano orgânico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
A atividade da doença da DPOC pode ser mensurada através das exacerbações, piora crônica dos sintomas respiratórios, eosinófilos séricos, declínio da função pulmonar acima do esperado para a perda fisiológica relacionada à idade e progressão radiológica de destruição enfisematosa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Dois termos com definições semelhantes, mas conceitualmente distintos, foram propostos para pacientes com DPOC sem piora dos sintomas ou exacerbações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/):
- Estabilidade da doença: sem perda acelerada da função pulmonar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39680953/).
- Controle da doença: quando o paciente é pouco sintomático e o impacto da doença é baixo na sua qualidade de vida.
Buscar controle é mais difícil do que alcançar estabilidade. O controle pode ser inalcançável quando já há dano estrutural extenso e alta carga de sintomas. Ainda assim, intervenções farmacológicas e não farmacológicas combinadas podem reduzir a atividade da doença (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Manejo farmacológico e exacerbações na DPOC
Uso de biológicos na DPOC
No GOLD 2026, a terapia biológica (dupilumabe e mepolizumabe) foi incorporada ao fluxograma de tratamento farmacológico de seguimento (fluxograma 2). A indicação inclui pacientes com DPOC que mantêm exacerbações apesar de terapia tripla e eosinófilos sanguíneos ≥ 300 células/µL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
O documento também inclui fatores que favorecem ou desencorajam a adição de corticoide inalatório a broncodilatadores de longa ação (tabela 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Manejo das exacerbações: classificação de gravidade e local de tratamento
A seção sobre exacerbações da DPOC no GOLD 2026 foi completamente revisada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
A gravidade das exacerbações de DPOC era classificada retrospectivamente com base no tratamento adotado. Agora, propõe-se classificá-la conforme as características clínicas do paciente (fluxograma 3) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34570991/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
O documento também propõe um guia para auxiliar na avaliação do local mais adequado para o manejo da exacerbação de DPOC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Cânula nasal de alto fluxo, antibioticoterapia e corticosteroides sistêmicos
A cânula nasal de alto fluxo (CNAF) é indicada quando há pelo menos uma das seguintes condições (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/):
- Hipoxemia persistente apesar de oxigenoterapia convencional.
- Incapacidade de tolerar ou contraindicação à ventilação não invasiva (VNI).
- Desmame do oxigênio suplementar após VNI.
- Prevenção de nova intubação em pacientes que necessitaram de intubação e ventilação com pressão positiva.
O documento também inclui a recomendação de uso de CNAF domiciliar. Para pacientes com DPOC estável e hipercapnia crônica em uso de oxigenoterapia domiciliar, há benefício especialmente se houver histórico de exacerbações frequentes (≥ 2 por ano) ou hospitalizações recorrentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35771533/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29283682/).
Os critérios de indicação para antibioticoterapia na exacerbação da DPOC foram ampliados para (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/):
- Aumento da purulência do escarro associado a pelo menos um entre piora da dispneia, febre ou aumento do volume do escarro.
- Cultura de escarro previamente positiva durante exacerbação anterior.
- Necessidade de ventilação mecânica (invasiva ou não invasiva).
A indicação de corticoides sistêmicos foi mantida, como prednisona 40 mg/dia ou equivalente, por até 5 dias em pacientes com exacerbações moderadas ou graves (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Multimorbidade e vacinação
A seção de comorbidades foi renomeada para multimorbidades, e o conteúdo foi completamente revisado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Multimorbidade na DPOC
Multimorbidade é definida pela presença de mais de duas condições médicas crônicas adicionais à DPOC. Essas condições complicam o manejo, com impacto significativo no prognóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/).
Foi proposta uma abordagem sistemática baseada nos “4Ms” para pacientes idosos multimórbidos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40803921/):
- Mentation (estado mental): estabelecer os objetivos de vida do paciente e rastrear depressão, ansiedade e comprometimento cognitivo.
- Mobilidade: avaliar equilíbrio e fragilidade; realizar teste de caminhada de 6 minutos.
- Medicamentos: revisar medicamentos e evitar polifarmácia.
- Morbidades: diagnosticar e gerenciar comorbidades além da DPOC.
As morbidades associadas à DPOC foram agrupadas em cinco sistemas orgânicos (clusters). Esse agrupamento permite uma estratificação de risco mais precisa e orienta intervenções clínicas personalizadas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40803921/).
Vacinação na DPOC
As recomendações de vacinação para pessoas com DPOC foram atualizadas e devem incluir:
- Influenza: anual.
- SARS-CoV-2 (COVID-19): conforme recomendações atualizadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centers for Disease Control and Prevention (CDC).
- Pneumocócica: uma dose da vacina pneumocócica conjugada 21-valente (VPC21) ou da VPC20.
- Vírus sincicial respiratório: ≥ 50 anos, doença cardíaca ou pulmonar crônica.
- dTpa: se não vacinado na adolescência.
- Herpes zóster: > 50 anos.
Veja mais sobre vacinação no adulto em "Vacinação no Adulto: Pneumococo, Vírus Sincicial Respiratório, Dengue e Chikungunya".
Aproveite e leia
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- Risco cardiovascular e hipertensão pulmonar
- Pacientes com LABA e corticoide inalatório: o que fazer?
- Ensifentrina e dupilumabe
- Condições precursoras de DPOC: pré DPOC e PRISm
- Rastreio de DPOC
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- Definição e impacto
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- Espirometria
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- DPOC estável: terapia não farmacológica
- DPOC estável: medicações iniciais
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- DPOC exacerbado: avaliação
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- Oportunidade de mudança do estilo de vida
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