Hidrocefalia de Pressão Normal
A hidrocefalia de pressão normal é caracterizada pela tríade de alteração de marcha, declínio cognitivo e urge-incontinência urinária. O diagnóstico é clínico-radiológico com apoio de provas funcionais. Em dezembro de 2025, foi publicado um estudo no New England Journal of Medicine que avaliou o impacto da derivação ventriculoperitoneal nos sintomas dessa doença. Este tópico aborda o diagnóstico e o tratamento dessa condição e os resultados do estudo [1].
Definições
Algumas definições são necessárias para o entendimento da hidrocefalia de pressão normal (HPN) e de condições correlacionadas:
- Ventriculomegalia: dilatação dos ventrículos cerebrais por qualquer causa. Pode ocorrer por hidrocefalia, mas também por atrofia do parênquima cerebral com dilatação passiva dos ventrículos, perda focal de tecido cerebral (como após um AVC isquêmico) ou por variantes do desenvolvimento.
- Hidrocefalia: ventriculomegalia causada por alterações no fluxo de líquido cefalorraquidiano (LCR). Tipicamente associada ao aumento da pressão intracraniana, também pode ocorrer sem esse achado.
- Hidrocefalia não comunicante: causada por condições que interrompem a comunicação entre os ventrículos cerebrais. Exemplos incluem tumores de fossa posterior, estenose do aqueduto cerebral, má formações (como a de Chiari) e obstrução do quarto ventrículo (como na meningite por tuberculose).
- Hidrocefalia comunicante: a comunicação entre os ventrículos cerebrais está preservada, mas há interrupção do fluxo de LCR no espaço subaracnóideo ou dificuldade na absorção. Exemplos são hidrocefalia pós-hemorragia intraventricular (mais comum em crianças prematuras), pós-infecciosa (meningite causando obstrução das cisternas basais), comprometimento de absorção nas granulações aracnóides após uma hemorragia subaracnóidea e hidrocefalia de pressão normal.
A HPN é uma hidrocefalia comunicante. Na punção lombar, a pressão de abertura costuma estar na faixa normal, o que auxilia na diferenciação com quadros de hidrocefalia com hipertensão intracraniana sustentada.
A HPN pode ser secundária ou idiopática (primária). A forma secundária é menos frequente e está relacionada a eventos prévios como hemorragia subaracnoidea, trauma cranioencefálico, meningite crônica e neoplasias intracranianas [2]. Os mecanismos envolvidos na HPN idiopática não são totalmente compreendidos. Possíveis explicações incluem alterações na absorção e dinâmica do LCR e na complacência intracraniana.
A forma idiopática é a mais comum e a mais representada em estudos. Existe uma clara relação com o envelhecimento, sendo mais comum em pessoas acima dos 60 anos. A doença pode acometer até 5,9% das pessoas acima de 80 anos [3,4].
Manifestações clínicas
A apresentação clássica de HPN é de uma tríade que evolui de meses a anos, caracterizada por alteração de marcha, declínio cognitivo e urge-incontinência urinária.
Os componentes da tríade são prevalentes na população idosa. Deve-se avaliar com cautela cada um dos sintomas, bem como possíveis diagnósticos diferenciais ou doenças concomitantes (tabela 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27689463/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39539993/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/). É comum a ocorrência de comorbidades que explicam os sintomas da tríade.
Alteração de marcha
É o sintoma mais comum. Costuma ter boa resposta ao tratamento com derivação liquórica. Chamada de marcha “magnética”, “imantada” ou “apráxica”, é descrita como uma marcha de base alargada, com diminuição da velocidade, diminuição do tamanho do passo, aumento do tempo de apoio bipodal, e pouca elevação do pé em relação ao chão. Há dificuldade em mudar a direção, realizando viradas por meio de múltiplos passos. Pode ocorrer um fenômeno de dificuldade de iniciação de marcha, chamado de congelamento. O aspecto da marcha é como se os pés do paciente estivessem magneticamente grudados ao chão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39734225/).
A alteração de marcha contribui para o aumento do risco de quedas. Em um estudo com 176 pacientes, 67% apresentavam quedas recorrentes (definidas por duas quedas ou mais no período pré-operatório de 12 meses). Após tratamento com derivação ventrículo-peritoneal, houve redução no número de pacientes com quedas recorrentes para 35% e melhora em indicadores de medo de cair e de confiança na marcha (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33830219/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39734225/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33906000/).
Declínio cognitivo
O principal domínio afetado é o das funções executivas, por disfunção do lobo frontal. Espera-se lentificação de pensamento, dificuldade em selecionar, organizar e realizar tarefas em etapas. Apatia também pode estar presente. Testes úteis que podem estar alterados são o teste do desenho do relógio, o teste de Luria e a fluência verbal.
Sintomas corticais não relacionados ao lobo frontal devem aumentar a suspeita de um diagnóstico alternativo ou de outra causa de demência como comorbidade. Entre esses sintomas estão memória episódica, afasia, negligência, apraxia manual e alterações visuoespaciais, por exemplo. A disfunção causada pela HPN não causa declínio cognitivo com esses sintomas.
Quando há outra causa de demência junto à HPN, a resposta cognitiva à terapia com derivação liquórica tende a ser menos consistente. Se disponível, uma avaliação neuropsicológica é útil para caracterizar o perfil de comprometimento cognitivo com testes específicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41366839/). Veja mais em "Demências: Diagnóstico e Investigação".
Nas ferramentas de rastreio cognitivo mais utilizadas, as etapas que avaliam predominantemente as funções executivas são a etapa de subtração seriada, presente no mini exame do estado mental (MEEM), a etapa de teste das trilhas B (trailmaking B) e o teste do desenho do relógio, presentes na escala cognitiva de Montreal (MoCA).
Urge-incontinência urinária
O principal sintoma é a urgência. O lobo frontal exerce função inibitória sobre o reflexo miccional. Na HPN, esse controle fica prejudicado e o reflexo de esvaziamento vesical é acionado com mais facilidade, causando urge-incontinência urinária. Em estudos urodinâmicos, cerca de 77% dos pacientes apresentam hiperatividade do músculo detrusor como achado principal (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28892272/).
Características de imagem
O achado principal na HPN é a ventriculomegalia. Porém, isoladamente, esse achado é pouco específico. Como a HPN é uma doença de pessoas com mais de 60 anos, um grau esperado de ventriculomegalia pode ocorrer pela atrofia do parênquima cerebral. Esse tipo de ventriculomegalia também é chamado de hidrocefalia ex vacuo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39332282/). Na HPN, a ventriculomegalia geralmente é desproporcional ao grau de atrofia cerebral.
Para identificar a ventriculomegalia da HPN maneira precisa, tentando diferenciar de outras causas como a hidrocefalia ex vacuo, pode-se utilizar o índice de Evans e a medida do ângulo calosal (figura 1):
- Índice de Evans: medida feita em um corte axial. Calcula-se a razão entre a maior distância entre os cornos frontais dos ventrículos laterais e o maior diâmetro interno do crânio, medido a partir da superfície óssea interna. Uma razão > 0,3 é considerada compatível com ventriculomegalia.
- Medida do ângulo calosal: medida realizada em corte coronal ao nível da comissura posterior (figura 1). Mede-se o ângulo entre os ventrículos laterais. Valores < 90º são sugestivos de HPN. Em um estudo com 102 indivíduos, o ponto de corte do ângulo calosal < 90º teve uma acurácia de 93% para diferenciar HPN de demência por doença de Alzheimer (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18500524/).
Além da ventriculomegalia, a HPN pode apresentar um aumento desproporcional do espaço subaracnoideo, achado também conhecido pela sigla DESH (do inglês disproportionately enlarged subarachnoid-space hydrocephalus) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27692614/). Há dilatação do sulco lateral (também chamado de fissura Sylviana) e estreitamento dos sulcos cerebrais da alta convexidade (figura 1). Esses achados são reflexo do aumento do conteúdo liquórico sem atrofia cerebral significativa e estão presentes em cerca de 30% dos pacientes com HPN (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27692614/).
Na ressonância magnética (RM), casos mais graves de HPN podem apresentar alteração de substância branca periventricular, com hipersinal em T2/FLAIR. A causa desse achado não é completamente compreendida. A gravidade das alterações de substância branca é um marcador de pior resposta ao tap test (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34599204/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17768003/).
Não se deve indicar derivação baseando-se somente na imagem. Nenhum sinal radiológico, isoladamente, tem valor como preditor de resposta à derivação liquórica. No entanto, há sinais correlacionados com melhor resposta ao tap test. Os sinais do porco-espinho e do halo do porco-espinho (hedgehog sign e hedgehog-halo sign) são descritos na RM e se relacionam à maior gravidade do acometimento de marcha e maior responsividade da marcha ao tratamento com punção lombar. Pacientes com esses achados tiveram melhora mais consistente em parâmetros de marcha após o tratamento, quando comparados àqueles sem os sinais radiológicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39503269/).
Diagnóstico
O diagnóstico de HPN idiopática é realizado a partir da suspeita clínica e exame de imagem sugestivo, auxiliado por exame de punção lombar e teste de retirada liquórica (tap test). A diretriz japonesa de 2021 divide o diagnóstico em possível, provável e definitivo conforme os critérios abaixo (fluxograma 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/):
- HPN possível: 1) presença de mais de um dos três componentes da tríade clínica e 2) ausência de um diagnóstico alternativo mais provável. A diretriz menciona que idade > 60 anos e o achado de imagem de ventriculomegalia são fatores de apoio à suspeita diagnóstica.
- HPN provável: 1) cumpre critérios para HPN possível, 2) a pressão de abertura ao exame de punção lombar está ≤ 20 cmH₂O e a análise citológica e bioquímica do LCR é normal e 3) uma das investigações adicionais está presente:
- Características de DESH com alteração de marcha sugestiva (marcha apráxica).
- Melhora de sintomas após realização de tap test.
- HPN definida: 1) cumpre critérios para HPN provável e 2) melhora objetiva dos sintomas após realização de cirurgia de derivação
Punção lombar
Recomendada na investigação de HPN com dois objetivos: primeiro, avaliar a pressão de abertura e a análise citológica e bioquímica do LCR, e segundo, realizar o tap test.
Na HPN, espera-se que a pressão de abertura esteja na faixa normal, com valores ≤ 20 cmH₂O. Deve-se utilizar um raquimanômetro na posição de decúbito lateral. Medidas na posição sentada tendem a valores mais elevados e não são comparáveis ao padrão de referência para essa avaliação. A análise citológica e bioquímica deve vir normal. Pressão de abertura acima de 20 cmH₂O ou alterações na citologia e bioquímica do líquor devem motivar a investigação de diagnósticos alternativos de hidrocefalia, como meningites crônicas, paquimeningites, neuroinfecções ou outros distúrbios da hidrodinâmica cerebral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/).
O tap test auxilia no diagnóstico e na predição de resposta ao tratamento com cirurgia de derivação. É um exame de punção lombar de alívio, com objetivo de avaliação clínica antes e após a retirada de 30-50 ml de líquor. Recomenda-se realizar um teste de marcha, como o timed up-and-go test (TUG) ou teste de caminhada de 10 m, e uma escala cognitiva, como o mini exame do estado mental (MEEM). A comparação deve incluir tempo cronometrado e, quando possível, registro em vídeo para análise qualitativa da marcha. As avaliações devem ser realizadas antes do procedimento, 2-4 horas após a punção lombar e cerca de 24 horas após a punção lombar. Reavaliações ao longo da primeira semana após o tap test podem mostrar melhora tardia de sintomas, especialmente da disfunção urinária e cognição (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23250963/).
O tap test tem um valor preditivo positivo superior a 90%, enquanto o valor preditivo negativo é inferior a 20%. Um resultado positivo é altamente sugestivo do diagnóstico de HPN, enquanto um resultado negativo não é capaz de excluir o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23250963/).
Tratamento
O tratamento com melhor evidência para HPN é a cirurgia para derivação liquórica, que pode ser indicada para pacientes que cumprem critérios para HPN provável. Durante a avaliação de indicação cirúrgica, deve-se esclarecer os riscos e benefícios e levar em consideração a condição clínica e funcionalidade prévia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/).
Não há terapia farmacológica estabelecida como modificadora de doença na HPN.
As diferentes modalidades de derivação (ventriculoperitoneal, ventriculoatrial e lomboperitoneal) têm eficácia semelhante. A mais utilizada é a derivação ventriculoperitoneal (DVP), com menor necessidade de revisão do sistema de derivação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26871203/).
Os sistemas de derivação utilizam válvulas para orientar a drenagem liquórica, impedir refluxo e diminuir riscos de infecção. Válvulas de pressão ajustáveis são a recomendação de diretriz, pois permitem ajustes não invasivos e podem facilitar o manejo de complicações relacionadas à hiperdrenagem, como hematomas subdurais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30497150/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/).
Em dezembro de 2025, foi publicado no New England Journal of Medicine o PENS, um ensaio clínico randomizado multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo, que avaliou a DVP na HPN idiopática (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40960253/). Foram selecionados pacientes capazes de andar 10 metros sem apoio e que tiveram melhora da velocidade de marcha após tap test.
Todos os participantes foram submetidos à cirurgia de DVP. Metade foi randomizada para o grupo intervenção, com a válvula ajustada para manter-se funcionante. No grupo placebo, a válvula foi configurada para alta pressão de abertura, o que impedia a drenagem, tornando-a não funcionante. Após avaliação dos desfechos primários em três meses, o grupo placebo teve ajuste da pressão da válvula para que ela se tornasse funcionante. Assim, ao final do período de observação do estudo, todos os pacientes receberam o tratamento.
O desfecho primário foi a mudança na velocidade máxima de marcha em três meses, medida pelo teste de caminhada de 10 metros. Após 3 meses, o grupo intervenção apresentou melhora média de 0,23 m/s, contra 0,03 m/s do grupo placebo. Além disso, 80% dos pacientes do grupo intervenção atingiram uma melhora significativa, em comparação com 24% do grupo placebo.
Os desfechos secundários incluíram avaliação de mobilidade/equilíbrio (escala de Tinetti), cognição (MoCA) e sintomas urinários (questionário OABq-SF). Houve melhora significativa na mobilidade/equilíbrio no grupo da intervenção, mas não houve diferença estatisticamente significativa em cognição e sintomas urinários no período de três meses.
Os eventos adversos da DVP envolvem complicações do ato cirúrgico, como sangramento intracraniano ou infecções, e complicações do tratamento de derivação, como a hiperdrenagem liquórica, que pode levar à formação de hematomas subdurais. No estudo PENS, o evento adverso mais reportado foi cefaleia posicional, ocorrendo em 59% dos pacientes do grupo intervenção e 28% no grupo placebo. Revisão da derivação ou retirada do sistema foi necessária em dois pacientes do grupo de intervenção. Hematoma e/ou hemorragia subdural ocorreram em 6 (12%) dos pacientes do grupo intervenção, e em 3 pacientes houve necessidade de drenagem cirúrgica ou embolização de artéria meníngea média. Veja mais em "Hematoma Subdural Crônico".
Os achados do PENS fortalecem a evidência de outros ensaios randomizados de que a derivação liquórica melhora a velocidade de marcha e funcionalidade no curto prazo. Os resultados estão alinhados com a revisão da Cochrane de 2024, que apontou um provável benefício na marcha, mas maior incerteza para melhora de cognição e ocorrência de eventos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39105473/).
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