KDIGO 2026: Anemia na Doença Renal Crônica
Em 2026, o Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) atualizou a diretriz sobre investigação e manejo de anemia em pacientes com doença renal crônica (DRC) [1]. A anemia está associada a piores desfechos cardiovasculares, à progressão da DRC e ao aumento da necessidade transfusional [2-4]. Este tópico revisa as principais recomendações da diretriz.
A avaliação e o manejo da doença renal crônica já foram abordados em "Doença Renal Crônica: KDIGO 2024".
Definição e avaliação
A definição de anemia em adultos é a mesma entre KDIGO e a Organização Mundial da Saúde: hemoglobina (Hb) < 12 g/dL em mulheres e < 13 g/dL em homens [5]. Apesar de haver limitações nesta definição, como a ausência de consideração da idade, é a utilizada pela maioria dos estudos.
A doença renal crônica está associada à anemia por diversos mecanismos, como a deficiência relativa de eritropoetina, a inflamação crônica e a redução da sobrevida das hemácias [1].
A prevalência da anemia aumenta à medida que o estágio da DRC avança. Por exemplo, em pacientes com taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) > 90 ml/min/1,73 m², a taxa é menor que 10%, enquanto mais da metade dos pacientes com TFGe < 15 ml/min/1,73 m² apresenta anemia [6-8].
A etiologia da DRC é um fator relevante no surgimento da anemia. Pacientes com DRC associada ao diabetes, por exemplo, apresentam até 3 vezes mais anemia na DRC G3 do que pacientes sem diabetes [9].
O KDIGO 2026 sugere que a frequência do rastreio de anemia varie conforme o estágio da DRC [1]:
- G3: ao menos 1 vez ao ano
- G4: ao menos 2 vezes ao ano
- G5: ao menos a cada 3 meses
Independentemente do estágio da DRC em que o paciente se encontra, devem ser investigadas as causas mais prevalentes de anemia na população em geral [1]. Na diretriz, o KDIGO 2026 reforça a deficiência de ferro como uma das principais etiologias.
Todos os pacientes com DRC devem ser avaliados com hemograma completo, contagem de reticulócitos, ferritina e saturação de transferrina.
Quando não há deficiência de ferro, as causas não renais de anemia devem ser investigadas e tratadas (fluxograma 1). Veja mais em "Investigação de Anemia".
Reposição de ferro
O KDIGO 2026 divide os critérios para reposição de ferro entre pacientes em hemodiálise ou não (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/):
Pacientes que não estão em hemodiálise (recomendação 2D):
- Ferritina < 100 ng/mL e saturação de transferrina < 40% ou
- Ferritina < 300 ng/mL e saturação de transferrina < 25%
Pacientes em hemodiálise (recomendação 2D):
- Ferritina ≤ 500 ng/mL e saturação de transferrina ≤ 30%
A via intravenosa é a preferida em pacientes em hemodiálise (recomendação 2D). Permite uma correção mais rápida e efetiva dos níveis de hemoglobina e uma menor necessidade de agentes estimuladores da eritropoiese em comparação à terapia oral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24891437/). Além disso, pode ser realizada após as sessões de hemodiálise, o que facilita a adesão. Em pacientes com DRC que não fazem hemodiálise ou que fazem diálise peritoneal, o KDIGO 2026 sugere que a escolha entre terapia oral e intravenosa seja baseada em custos, preferências do paciente e na gravidade da anemia e da deficiência de ferro (tabela 1).
O KDIGO reforça que as evidências sobre a reposição de ferro em pacientes com DRC são consideradas de certeza muito baixa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). A dose ideal de ferro a ser reposta não está bem estabelecida, e o impacto de diferentes estratégias sobre desfechos clinicamente relevantes é incerto, especialmente em pacientes que não estão em hemodiálise.
O estudo PIVOTAL comparou 2.141 pacientes em hemodiálise para uma estratégia proativa de altas doses de ferro elementar (400 mg/mês) ou uma estratégia reativa com doses menores de até 400 mg/mês apenas se a ferritina < 200 mcg/L ou a saturação de transferrina < 20%. Este trabalho resultou em desfechos melhores no grupo proativo de altas doses de ferro com redução do desfecho composto de morte e eventos cardiovasculares. Esse grupo apresentou níveis mais elevados de Hb e necessitou de menores doses de eritropoetina (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30365356/). Uma consideração sobre esse trabalho é que estratégias intermediárias não foram avaliadas, e as doses ideais podem estar entre as estratégias propostas ou em reposições mais intensas, acima de 400 mg/mês de ferro.
O KDIGO 2026 considera razoável suspender a administração de ferro quando a ferritina atingir > 700 ng/mL ou a saturação de transferrina atingir ≥ 40% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Não há formulação preferencial de ferro oral ou venoso, segundo a diretriz, desde que o uso seja bem tolerado pelo paciente.
O monitoramento de Hb, ferritina e saturação de transferrina pode ser realizado a cada 3 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Episódios de hemorragia, hospitalização, uso de agentes estimuladores da eritropoiese e suspeita de sobrecarga de ferro são motivos para monitoramento mais frequente. Nos pacientes em hemodiálise, pode ser necessário monitoramento a cada 1 a 3 meses.
Veja mais em "Anemia Ferropriva".
Agentes estimuladores de eritropoiese e estabilizadores da HIF
Agentes estimuladores de eritropoiese (AEE)
Agentes estimuladores de eritropoiese (AEE), como alfaepoetina, betaepoetina e darbepoetina, são o principal tratamento para a anemia no paciente com DRC após a correção de causas reversíveis (recomendação 2D). Esses medicamentos melhoram sintomas e reduzem a necessidade de hemotransfusão, mas não demonstraram reduzir mortalidade nem melhorar desfechos cardiovasculares (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17108343/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17108342/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9718377/).
O KDIGO 2026 recomenda o início de agentes estimuladores de eritropoiese (AEE) em pacientes em hemodiálise ou diálise peritoneal com hemoglobina (Hb) ≤ 9,0–10,0 g/dL (recomendação 2D).
Para pacientes que não dialisam, a indicação do uso deve considerar a presença de sintomas atribuíveis à anemia, os potenciais benefícios de uma concentração mais alta de hemoglobina e os potenciais riscos das transfusões de hemácias ou da terapia com AEE (recomendação 2D). O KDIGO comenta que o início de AEE deve ocorrer, para a maior parte dos pacientes que não dialisam, quando a Hb atingir níveis em torno de 8,5 a 10,0 g/dL.
A Hb durante a terapia com AEE não deve ultrapassar 11,5 g/dL (recomendação 1D). O motivo é reduzir os efeitos adversos, que ocorrem mais frequentemente em doses maiores, para atingir níveis de Hb mais elevados, que não se traduzem necessariamente em melhores desfechos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17108343/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17108342/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9718377/). O uso destes medicamentos aumenta o risco de complicações como hipertensão arterial e trombose de acesso venoso. Um ensaio clínico randomizado que incluiu pacientes com doença renal crônica em hemodiálise e com insuficiência cardíaca ou cardiopatia isquêmica foi interrompido precocemente porque houve maior número de mortes e infarto agudo do miocárdico não fatal no grupo com alvo de Hb de aproximadamente 14,0 g/dL em comparação com 10 g/dL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9718377/).
Em pacientes com maior risco de eventos adversos relacionados à medicação, como história de acidente vascular cerebral ou trombose de acesso vascular, postergar o início até valores de Hb menores do que 9,0–10,0/dL pode ser considerado. Na prática, um desafio é decidir quanto aumento do risco cardiovascular e trombótico se aceita em troca de menos transfusões e de melhora dos sintomas.
O uso de AEE em pacientes com câncer ativo pode estar relacionado com a progressão da doença (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26858335/). A American Society of Clinical Oncology (ASCO) e a American Society of Hematology (ASH) contraindicam o uso em pacientes com câncer sólido, exceto em casos não curativos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30969847/). Apesar disso, o KDIGO comenta que estas diretrizes não são específicas para o paciente com DRC e o National Comprehensive Cancer Network (NCCN) entende que AEE devem ser considerados neste grupo (https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/pdf/growthfactors.pdf).
As doses de AEE estão na tabela 2. A dose recomendada é a menor possível para atingir os objetivos do tratamento.
Na prática, o AEE mais disponível no Brasil é a alfaepoetina, disponibilizado em soluções injetáveis via subcutânea e fornecido no SUS por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. No paciente DRC G5D, de forma geral, as doses iniciais são 50 a 100 U/kg 1–2x/semana, depois progredindo para 3x/semana. Para pacientes em hemodiálise, frequentemente é administrada após a sessão.
A ausência de resposta aos AEE não possui uma definição clara na literatura. O KDIGO 2026 caracteriza a ausência de resposta aos AEE como um paciente que mantém Hb baixa, apesar do uso dos medicamentos em dose otimizada ou em progressão de dose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Em pacientes já em uso da medicação, a ausência de resposta pode ser definida por uma necessidade de incremento em > 50% da dose de AEE em um paciente com resposta prévia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23891356/). De forma prática, o uso de uma dose total > 300 UI/kg/semana de AEE subcutâneo também pode indicar ausência de resposta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11229970/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40240983/).
Pacientes que não respondem a AEE possuem maior risco cardiovascular e piores desfechos de mortalidade e progressão da DRC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20507852/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36445882/). Causas reversíveis devem ser investigadas e tratadas (tabela 3).
Inibidores da prolil-hidroxilase do fator induzível por hipóxia (HIF-PHI)
Inibidores da prolil-hidroxilase do fator induzível por hipóxia (HIF-PHI), também conhecidos como agentes estabilizadores da HIF, como vadadustat, daprodustat e roxadustat, são opções aos AEE (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Ao ativar o HIF (fator induzível por hipóxia, do inglês hypoxia-inducible factor), esses medicamentos mimetizam o estado de hipóxia e promovem a transcrição de genes que regulam a resposta adaptativa ao baixo nível de oxigênio (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36031160/). Isso leva a um aumento da produção endógena de eritropoetina nos rins e no fígado.
HIF-PHI parecem ter eficácia semelhante aos AEE, mas há incerteza quanto à segurança, principalmente no uso a longo prazo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36041790/) . Uma vantagem dos HIF-PHI é a via oral em relação aos AEE, que são de administração subcutânea ou intravenosa. Os HIF-PHI são pouco disponíveis no Brasil e, até o momento da publicação deste tópico, não estão registrados na ANVISA.
Os limiares específicos de Hb para o início de HIF-PHI não são conhecidos. O KDIGO considera razoável usar os mesmos parâmetros adotados para os AEE (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Como o KDIGO sugere o uso de AEE como primeira linha, os HIF-PHI podem ser considerados em situações selecionadas, como a preferência pela via oral ou hiporresponsividade aos AEE.
Os estabilizadores do HIF exigem cautela em pacientes com eventos cardiovasculares prévios, tromboembolismo, trombose de acesso vascular ou disfunção hepática (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36031160/). Devem ser evitados na gestação e, em geral, também em casos de neoplasia ativa, doença renal policística, retinopatia proliferativa e hipertensão arterial pulmonar.
Transfusão de hemácias
Transfusões de concentrado de hemácias (CH), na maioria dos cenários, são reservadas para situações em que os AEE não são indicados ou não promovem a resposta desejada.
Não há consenso quanto a um limiar de Hb que indique a transfusão de CH (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41485812/). Segundo o KDIGO, a indicação de transfusão deve ser guiada pelos sinais e sintomas da anemia. Fatores que favorecem a transfusão de CH são:
- Necessidade de rápida correção dos valores de Hb para estabilização clínica
- Presença de contraindicações aos AEE, como história de câncer sólido ou de AVC isquêmico.
- Ausência de resposta aos AEE ou HIF-PHI
Nos pacientes com DRC elegíveis para transplante, deve-se considerar o risco de allosensibilização associado à transfusão. Pacientes com histórico de transfusão apresentam com maior frequência anticorpos contra potenciais doadores (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24107093/). Pacientes com transfusões ou transplantes anteriores e com histórico de gestações prévias parecem apresentar maior risco de sensibilização após uma hemotransfusão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24107093/). A alossensibilização está associada ao aumento da rejeição e da perda do enxerto e a tempos de espera mais longos para o transplante (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24107093/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34358637/).
Outras complicações associadas às transfusões incluem anafilaxia, TACO, TRALI e reações febris hemolíticas ou não hemolíticas. Veja mais em "Reações Transfusionais".
[tabela id=1885 index=5]
Estratégias para redução de transfusões de CH em pacientes com DRC estão na tabela 4.
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