Eventos Adversos de Agonistas dos Receptores de GLP-1
A patente da semaglutida no Brasil expirou em março de 2026 e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que há pedidos de registro de novos medicamentos com esse princípio ativo em análise [1]. A introdução de novos produtos pode ampliar o acesso e espera-se encontrar com mais frequência pacientes em uso desses medicamentos. Este tópico revisa os principais eventos adversos relacionados ao uso dessa classe e as recomendações de manejo perioperatório.
A prescrição, aplicação e armazenamento desses medicamentos foi abordada em "Agonistas de GLP-1: Como Prescrever".
Efeitos adversos mais comuns: náuseas, vômitos, diarreia e constipação
Os efeitos adversos mais comuns dos agonistas do receptor de GLP-1 (aGLP-1) são gastrointestinais, incluindo náuseas, vômitos, diarreia e constipação [2,3]. A frequência varia conforme o medicamento, a dose e a fase do tratamento (tabela 1). A incidência é maior no início do tratamento e no escalonamento de doses. Fatores associados ao desenvolvimento de sintomas gastrointestinais incluem sexo feminino, idade avançada, maior número de medicamentos em uso e história de doenças gastrointestinais, como gastroparesia [4].
Na maioria dos casos, os sintomas gastrointestinais são leves a moderados e tendem a melhorar com o tempo [2,5-7]. A constipação pode durar mais que náuseas, diarreia e vômitos. Em pessoas com obesidade utilizando semaglutida 2,4 mg, a mediana de duração da constipação foi de 47 dias, em comparação com 8 dias para náuseas, 3 dias para diarreia e 2 dias para vômitos [8]. A sensação de plenitude gástrica pode reduzir a ingestão hídrica, predispondo à constipação.
O manejo inicial deve priorizar medidas alimentares, hidratação e ajuste da velocidade de escalonamento. As orientações incluem reduzir o tamanho das refeições, evitar refeições muito gordurosas, comer mais lentamente, suspender a refeição ao atingir a saciedade, fracionar a ingestão alimentar ao longo do dia e manter boa ingestão de água. A cartilha de orientações traz sugestões de especialistas para minimizar a ocorrência ou gravidade de eventos adversos gastrointestinais [9].
Nos casos intensos ou persistentes, podem ser consideradas as seguintes medidas [9-11]:
- Prolongar a fase de escalonamento da dose por mais duas a quatro semanas.
- Pausar temporariamente o tratamento até a melhora dos sintomas.
- Retornar para uma dose mais baixa, mantê-la por alguns dias e tentar novo aumento mais lentamente.
- Reforçar e avaliar a adesão do paciente às orientações.
- Caso haja náuseas ou vômitos, trocar por aGLP-1 de longa ação, que são menos associados aos sintomas [12-14].
- Caso haja diarreia, trocar por aGLP-1 de curta ação que são menos associados ao sintoma [7]
Pode-se considerar uma dose de manutenção inferior à inicialmente planejada em caso de intolerância persistente [9]. Parte das sugestões baseia-se em consenso de especialistas e experiência clínica, com pouca evidência comparativa direta entre estratégias.
Caso os sintomas persistam apesar das orientações, pode-se tentar medicamentos sintomáticos por curto período, direcionado ao efeito adverso predominante (fluxograma 1). Para náuseas e vômitos, antieméticos e/ou procinéticos podem ser utilizados na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível [9,15]. Para diarreia, pode-se considerar antidiarreicos, como a loperamida, quando não houver suspeita infecciosa ou inflamatória. Em pacientes em uso de metformina e aGLP-1 ao mesmo tempo, pode ser necessária a redução da dose da metformina, pois também pode causar diarreia [9]. Para constipação, laxativos são uma alternativa [10]. Veja mais em "Controle Farmacológico de Sintomas" e "Tratamento de Constipação Crônica".
A necessidade de medicamentos sintomáticos por mais de um mês após a fase de escalonamento ou após atingir a dose de manutenção é motivo de reavaliação do quadro. Nesse contexto, deve-se revisar a dose do aGLP-1, a adesão às medidas alimentares, a possibilidade de diagnósticos alternativos e os demais medicamentos em uso [10,16]. Sintomas com gravidade desproporcional ou pouco esperados como efeitos de aGLP-1, como disfagia, odinofagia, icterícia e sangramento gastrointestinal, também devem levar a uma avaliação mais detalhada de diagnósticos diferenciais [9,10,16].
Em pacientes com vômitos, diarreia importante ou baixa ingestão oral, o medicamento deve ser temporariamente suspenso se houver risco de desidratação. Idosos, pacientes com doença renal crônica e pessoas em uso de diuréticos, inibidores do sistema renina-angiotensina ou inibidores de SGLT2 merecem maior vigilância, com avaliação de creatinina e eletrólitos quando os sintomas forem clinicamente relevantes. Existe risco de injúria renal aguda associada à hipovolemia por eventos gastrointestinais e esse alerta específico consta em bula [17-20].
A associação entre agonistas de GLP-1 e obstrução intestinal ainda é incerta. Um estudo observacional em pessoas com obesidade encontrou maior risco de obstrução intestinal em comparação com bupropiona-naltrexona, mas uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados não encontrou aumento significativo desse desfecho [21,22].
Colelitíase, pancreatite e doença do refluxo gastroesofágico
Colelitíase e doenças biliares
Os aGLP-1 aumentam o risco de colelitíase e outros eventos biliares (tabela 2). Em revisões sistemáticas, o uso desses medicamentos foi associado a maior incidência de colelitíase e colecistite, porém sem aumento do risco de câncer de pâncreas ou de vias biliares (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40499738/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35344001/).
O risco é maior em uso para perda de peso, com doses mais altas e com maior tempo de uso (mais de 26 semanas). Parte desse risco pode ser mediada pela própria perda ponderal. Perda de peso rápida é fator de risco conhecido para formação de cálculos biliares e os estudos com indicação de obesidade usam doses mais altas e produzem maior redução de peso. Outros mecanismos diretos dessa própria classe de medicamentos podem estar envolvidos no risco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30137354/).
Pancreatite
A associação com pancreatite aguda permanece em debate. Estudos de alta qualidade ainda não confirmaram a associação com doenças do pâncreas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41324524/). Na revisão dos ensaios com aGLP-1 semanais, a incidência de pancreatite foi ≤ 1% e comparável ao placebo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32910487/). Metanálises de ensaios clínicos randomizados não encontraram aumento significativo do risco de pancreatite ou câncer de pâncreas com aGLP-1 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28244632/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24736555/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28105738/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24736555/).
Ensaios clínicos randomizados podem não ter poder estatístico suficiente para detectar eventos adversos raros. Dados de farmacovigilância indicam desproporcionalidade de notificações de aGLP-1 e pancreatite, o que pode ser interpretado como um sinal de segurança, mas que não é suficiente para provar causalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38860168/). Uma possibilidade é que parte desse eventual risco ocorra por aumento da formação de cálculos e consequente pancreatite biliar e não por toxicidade pancreática direta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41786617/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40358430/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41257737/).
Na prática, se houver suspeita de pancreatite aguda, o medicamento deve ser interrompido imediatamente. As bulas orientam a não reiniciar os medicamentos caso o diagnóstico de pancreatite seja confirmado (https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2022/209637s012lbl.pdf, https://pi.lilly.com/us/zepbound-uspi.pdf). Como pacientes com pancreatite prévia foram pouco representados ou excluídos de vários estudos, alguns especialistas evitam aGLP-1 em pacientes com esse antecedente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41324524/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32022600/).
Ensaios clínicos relataram aumento de amilase e lipase durante o uso de aGLP-1, geralmente discreto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32910487/). Raramente esse aumento ultrapassa três ou cinco vezes o limite superior da normalidade, com níveis retornando ao normal após a suspensão do medicamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36614945/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28473337/). O aumento não parece predizer o surgimento de pancreatite e não caracteriza o diagnóstico se ocorrer isoladamente. Não há recomendação de monitoramento de amilase e lipase durante o uso de aGLP-1.
As complicações pancreatobiliares devem ser tratadas de acordo com as orientações específicas para cada condição (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36614945/).
Doença do refluxo gastroesofágico
Uma revisão sistemática de ensaios clínicos de 2025 encontrou associação entre aGLP-1 e doença do refluxo gastroesofágico, além de colelitíase (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40499738/). O risco das complicações associadas à doença do refluxo, como esôfago de Barrett e esofagite erosiva, também aumenta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40658955/). Faltam evidências específicas para o tratamento da doença do refluxo associada aGLP-1. Medidas gerais, como evitar refeições volumosas, evitar deitar após as refeições e reduzir a velocidade de escalonamento, são razoáveis. O uso temporário de inibidores da bomba de prótons pode ser útil (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40728833/).
Efeitos oculares e neurológicos
Alterações oculares
O principal alerta ocular dos aGLP-1 é a possibilidade de piora transitória de retinopatia diabética após melhora glicêmica rápida. Um ensaio clínico com semaglutida em pacientes com diabetes encontrou maior incidência de complicações retinianas, incluindo hemorragia vítrea, perda visual associada ao diabetes e necessidade de fotocoagulação retiniana ou tratamento intravítreo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27633186/). O risco foi maior em quem já tinha retinopatia prévia, pior controle glicêmico basal ou uso de insulina. Estes achados podem ser explicados pela rápida melhora glicêmica com o uso do medicamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33444163/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41701611/). Revisões de ensaios clínicos não encontraram associação entre a semaglutida e o aumento de risco de retinopatia diabética quando analisados todos os trabalhos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34894326/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40156846/).
O risco é mais significativo em pacientes que já têm o risco basal aumentado, como retinopatia prévia, maior duração do diabetes, pior controle glicêmico inicial e uso de insulina. Nesses grupos, é prudente garantir seguimento oftalmológico adequado e orientar procura imediata de atendimento diante de perda visual, escotomas ou moscas volantes novas.
A American Diabetes Association (ADA) recomenda avaliação de retinopatia ao intensificar a terapia hipoglicemiante, incluindo com aGLP-1. O American College of Cardiology sugere exame oftalmológico apropriado antes do início do tratamento se o paciente não tiver sido avaliado nos últimos 12 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32771263/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358886/). Um consenso multidisciplinar sugeriu rastreio de retinopatia antes do início da terapia para pacientes com mais de 10 anos de diabetes ou hemoglobina glicada > 10% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41058255/).
Em estudos observacionais, foi encontrado aumento do risco de neuropatia óptica isquêmica não arterítica (NOIA-NA) e degeneração macular relacionada à idade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41701611/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40383360/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38958939/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40471562/). Os dados são limitados e observacionais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358886/). Em uma coorte retrospectiva, não foi encontrada associação entre semaglutida e NOIA-NA nas pessoas com diabetes tipo 2, obesidade ou ambos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39491755/). A Agência Europeia de Medicamentos avaliou esse evento e concluiu que o efeito é muito raro, surgindo em 1 pessoa para cada 10.000 pessoas-ano em uso do medicamento (https://www.ema.europa.eu/en/news/prac-concludes-eye-condition-naion-very-rare-side-effect-semaglutide-medicines-ozempic-rybelsus-wegovy/). Se houver perda súbita de visão ou piora visual rápida durante o tratamento, o paciente deve procurar atendimento rapidamente.
Há estudos observacionais sugerindo possíveis benefícios oculares dos aGLP-1, como menor pressão intraocular e possível redução do risco de glaucoma (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39732312/).
Alterações neurológicas
Dados de farmacovigilância sugerem efeitos adversos neurológicos com uso de aGLP-1, como tontura, tremores, disgeusia e alterações olfatórias ou sensitivas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40413246/). Nos ensaios STEP UP e STEP UP T2D, que testaram doses de semaglutida de 7,2 mg/semana, houve aumento de eventos como parestesia, hiperestesia, alodinia, dor ou queimação cutânea e pele sensível. Os eventos não foram graves, com resolução na maior parte dos casos ao longo do estudo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40961952/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40961953/).
Perda de massa magra, sarcopenia e fragilidade
Pacientes em uso de aGLP-1 devem ser monitorados quanto à perda de peso excessiva, que pode levar à perda de massa muscular e de massa óssea (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358888/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41511769/). Grupos de risco relevantes para esse evento são os idosos, principalmente aqueles com fragilidade e sarcopenia, pacientes com baixa ingestão proteica e aqueles com doenças crônicas avançadas.
No estudo STEP 1, aproximadamente 40% da perda total de peso por semaglutida foi atribuída à perda de massa magra (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33567185/). Apesar de certa variação, o componente de massa muscular corresponde a aproximadamente metade da massa magra total. Contudo, a proporção de massa magra em relação ao peso corporal total aumentou (https://academic.oup.com/jes/article/5/Supplement_1/A16/6240360/).
O significado clínico da redução de massa magra e um possível impacto em força muscular são incertos. Um estudo prospectivo de um centro de referência acompanhou 106 pacientes com índice de massa corpórea acima de 40 kg/m² e idade média de 52 anos em uso de semaglutida 2,4 mg/semana. A análise por absorciometria de raios X de dupla energia (também conhecida como densitometria, DXA ou DEXA) encontrou que 60% perderam mais de 10% do peso corporal em um ano, com perda de 3 kg de massa magra em 7 meses, que estabilizou após. Houve aumento da força de preensão palmar e redução de obesidade sarcopênica na amostra. O estudo não foi cego e não houve grupo controle (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41068996/).
Em uma análise do SURPASS-3 com ressonância magnética, a tirzepatida reduziu o volume muscular da coxa, mas também reduziu a infiltração gordurosa muscular. A redução do volume muscular pareceu compatível com o esperado para a perda ponderal, enquanto a redução da infiltração gordurosa sugere possível melhora da qualidade muscular. Esse achado reforça que medidas quantitativas de massa magra ou volume muscular podem não refletir bem alguns desfechos com valor clínico para o paciente (como mobilidade), especialmente quando interpretadas sem avaliação de força muscular e desempenho físico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40318682/).
A prevenção deve priorizar medidas nutricionais (ingestão proteica adequada e correção de déficits nutricionais) e exercícios contra resistência (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38374703/). O acompanhamento nutricional é especialmente útil para implementar essas intervenções e monitorar adequadamente a perda de peso em pacientes de alto risco. Recomendações do American College of Lifestyle Medicine, American Society for Nutrition, Obesity Medicine Association e Obesity Society incluem a avaliação antes de iniciar o tratamento de fatores de risco para perda rápida de peso, como doenças crônicas gastrointestinais, psiquiátricas e fatores sociais para desnutrição. Medidas de força muscular, como força de preensão palmar e teste do senta e levanta, são sugeridas para monitoramento dos pacientes.
Veja mais em "Fragilidade e Sarcopenia: Diagnóstico e Manejo".
Interações medicamentosas e hipoglicemia
A maior parte das interações relevantes dos aGLP-1 ocorre por atraso do esvaziamento gástrico, redução da ingestão alimentar e melhora do controle glicêmico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38273155/). Muitos medicamentos não sofrem interferência clinicamente relevante com esses efeitos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28349387/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30945118/).
O risco de hipoglicemia é baixo quando esses medicamentos são usados isoladamente, mas aumenta quando são combinados com insulina ou sulfonilureias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35831767/). Ao introduzir um aGLP-1, alguns autores recomendam suspender as sulfonilureias se a hemoglobina glicada (HbA1c) estiver menor que 7,5% ou se o paciente apresentar hipoglicemias e reduzir a dose em 50% se HbA1c entre 7,6–8,5% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32584928/). Para insulina, pode-se reduzir a dose em 20 a 30% se houver hipoglicemias. Em pacientes em uso de sulfonilureias ou insulina, pode-se intensificar o monitoramento da glicemia nas primeiras 4 semanas após a introdução do aGLP-1 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32771263/).
A bula da semaglutida oral exige administração pelo menos 30 minutos antes de outros medicamentos orais. A semaglutida oral aumentou a exposição total à levotiroxina em 33% quando administrada em conjunto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34289755/). Um estudo observacional de 2025 com pacientes em dose estável de levotiroxina encontrou aumento do risco de fibrilação atrial e flutter após início do aGLP-1, um achado possivelmente relacionado a esse efeito (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41444586/).
A bula da tirzepatida recomenda cautela com medicamentos dependentes de concentração mínima para eficácia e com índice terapêutico estreito, como varfarina. A bula também recomenda trocar anticoncepcionais hormonais orais por método não oral por 4 semanas após o início e por 4 semanas após cada aumento de dose (https://pi.lilly.com/us/zepbound-uspi.pdf). O efeito sobre os anticoncepcionais é relevante com tirzepatida, mas não parece ter a mesma relevância no caso da semaglutida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37940101/).
Por conta dos efeitos conhecidos de tirzepatida com contraceptivos orais, existe dúvida se esse medicamento poderia impactar a absorção de progestágenos orais para proteção endometrial em mulheres em terapia hormonal na menopausa. Não existem estudos farmacocinéticos avaliando especificamente esse cenário até o momento. A British Menopause Society sugere progestagênio não oral nesse contexto, como um dispositivo intrauterino liberador de 52 mg de levonorgestrel (https://thebms.org.uk/wp-content/uploads/2025/05/23-BMS-TfC-Use-of-incretin-based-therapies-APRIL2025-E.pdf).
Manejo perioperatório
Pacientes em uso de aGLP-1 podem apresentar conteúdo gástrico residual aumentado, apesar do jejum habitual. Esse achado não significa necessariamente aumento do risco de broncoaspiração. Estudos observacionais não encontraram associação clara com pneumonia aspirativa e complicações respiratórias no perioperatório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38446466/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40036031/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39142543/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38648036/).
Um ensaio clínico randomizado de 2026 avaliou pacientes em uso de aGLP-1 antes de endoscopia digestiva alta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41837981/). Conteúdo gástrico residual clinicamente significativo ocorreu em 25,0% dos pacientes que mantiveram o medicamento contra 3,1% dos que suspenderam uma dose antes do procedimento. Contudo, não ocorreram mais eventos de aspiração, internação ou necessidade inesperada de intubação no grupo que manteve o medicamento. No subgrupo que realizou endoscopia e colonoscopia, recebendo líquidos claros e preparo intestinal no dia anterior, não houve casos de conteúdo gástrico residual clinicamente significativo.
As recomendações de manejo perioperatório mudaram nos últimos anos e ainda não são uniformizadas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40379536/). Consensos recentes tendem a evitar a suspensão universal e orientar a avaliação de risco, com estratégia de mitigação para pacientes de maior risco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40814081/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38290906/). O Standards of Care in Diabetes de 2026 comenta que não há informações suficientes para recomendar medidas universais sobre a suspensão de aGLP-1 no pré-operatório. Estratégias possíveis incluem liberar o procedimento sem suspensão, aumentar o tempo de jejum, orientar dieta líquida por 24 horas antes do procedimento e ultrassonografia para avaliação de resíduo gástrico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39370500/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358892/).
Em posicionamento de 2025, a Sociedade Brasileira de Diabetes, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica recomendam a manutenção da dose e do intervalo habitual dos aGLP-1 e tirzepatida nos pacientes com esquema estável há mais de 12 semanas e sem fatores de risco para estase gástrica (tabela 3) (https://diretriz.diabetes.org.br/rastreamento-e-controle-da-hiperglicemia-no-perioperatorio/). Conforme esse posicionamento, a suspensão dos aGLP-1 e tirzepatida é recomendada nos pacientes em fase de escalonamento de dose ou que ainda não atingiram estabilidade há pelo menos 12 semanas ou em pacientes com fatores de risco para broncoaspiração.
[tabela id=1934 index=3]
Quando se opta pela suspensão, o tempo ideal para suspender antes do procedimento permanece incerto. A decisão deve equilibrar o risco de estase gástrica com o risco metabólico de interromper o tratamento, incluindo piora do controle glicêmico. O tempo de suspensão recomendado no posicionamento brasileiro é:
- Medicamentos de longa duração (semaglutida oral ou subcutânea, dulaglutida e tirzepatida): sete dias antes do procedimento.
- Medicamentos de curta duração (liraglutida, lixisenatida): um dia antes do procedimento.
A diretriz brasileira recomenda iniciar dieta líquida 24 horas antes de procedimentos com sedação ou anestesia geral, com jejum de 8 a 12 horas. Ultrassonografia gástrica point-of-care (POCUS) é recomendada sempre que disponível, pela capacidade de estimar o conteúdo gástrico. O volume residual gástrico aumentado pode ser definido pela presença de qualquer resíduo sólido ou pelo menos 1,5 mL/kg de líquidos claros na ultrassonografia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24893784/). Este achado pode auxiliar na tomada de decisão quanto à suspensão do procedimento ou à realização de aspiração gástrica, a depender da urgência e do risco associado ao procedimento.
Se o medicamento tiver sido suspenso, a retomada no pós-operatório pode ocorrer quando o paciente estiver clinicamente estável, tolerando dieta habitual e sem sintomas gastrointestinais relevantes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40379536/). Em procedimentos maiores, especialmente gastrointestinais, a retomada deve ser mais conservadora. Se a interrupção tiver sido prolongada, pode ser necessário reiniciar em dose menor ou repetir parte do escalonamento para reduzir a intolerância gastrointestinal.
Veja mais em "Diabetes Mellitus: Atualização da ADA de 2026".
Aproveite e leia
- Apresentações e formulações
- Aplicação e armazenamento
- Posologia e progressão de doses
- Contraindicações e cuidados
- Uso perioperatório
- Atualizações dos últimos 5 anos da ADA
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