Holter: Como Interpretar os Resultados

Criado em: 06 de Julho de 2026 Autor: Jessica Nicolau Revisor: Marcela Belleza

Holter é uma monitorização eletrocardiográfica ambulatorial que permite a detecção, documentação e caracterização de arritmias. É uma ferramenta para investigação diagnóstica de síncope e palpitações [1]. Este tópico esclarece características do exame, indicações e interpretações de resultados.

Características e técnica do exame

O que é o Holter?

O Holter é um dispositivo portátil usado para registro contínuo de atividade elétrica cardíaca por 24 a 48 horas, enquanto o paciente realiza suas atividades diárias (figura 1) [2]. Esse exame permite correlacionar alterações detectadas a sintomas descritos em um diário realizado pelo paciente [3].

Figura 1
Exemplo de instalação do Holter de 3 canais.
Exemplo de instalação do Holter de 3 canais.

As principais indicações de Holter são [2,4,5]:

  • Monitoramento eletrocardiográfico de indivíduos sintomáticos (síncope ou palpitações) e investigação etiológica de AVC isquêmico. Veja mais em "Síncope: Investigação e Manejo" e "AVC Isquêmico: Etiologias e Manejo do Forame Oval Patente".
  • Avaliação de resposta a tratamento de arritmias
  • Definição de prognóstico em contextos específicos, como cardiomiopatia hipertrófica e síndrome de Brugada. Veja abaixo em “Quando indicar Holter em pacientes assintomáticos?”

O período prolongado de registro é importante para observar arritmias ocasionais que seriam difíceis de identificar em um intervalo mais curto. O Holter habitualmente é realizado em um período de 24 horas, mas pode registrar até 7 dias [5].

Outras formas de realizar o monitoramento eletrocardiográfico do paciente estão descritas na tabela 1. A escolha do método deve ser baseada na frequência dos sintomas descritos pelos pacientes [4,5]. O Holter tradicional é mais adequado para pacientes com sintomas diários ou muito frequentes. Para sintomas semanais ou mensais, dispositivos de monitorização prolongada, como looper externo, looper implantável e patches, apresentam maior rendimento diagnóstico [4,6].

Tabela 1
Formas de monitoramento eletrocardiográfico.
Formas de monitoramento eletrocardiográfico.

Orientações gerais para o exame

Durante a realização do exame é necessário que o paciente registre sintomas, como palpitações, em um diário e pressione um botão integrado ao gravador, para que se possa correlacionar arritmias encontradas com as queixas do indivíduo [7]. 

Recomenda-se não tomar banho e não molhar o dispositivo, visto que os cabos e eletrodos não são à prova d’água. Para melhor fixação dos eletrodos ao tórax, a pele deve estar limpa e seca, idealmente sem cremes e loções. Tricotomia local pode ser necessária [8].

É sugerido manter a rotina e esforços habituais, pois permite a detecção de arritmias em atividades diárias e avaliação de arritmias induzidas por exercício, otimizando o rendimento diagnóstico do exame [9].

Não há recomendação rotineira para suspensão de antiarrítmicos antes do Holter, principalmente quando o objetivo é avaliar sintomas com terapia atual, monitorar segurança do uso de antiarrítmicos e correlacionar sintomas na vigência do tratamento [7]. A decisão deve ser individualizada conforme o objetivo do exame. A suspensão de medicamentos pode ser necessária em cenários de suspeita de efeito pró-arrítmico de terapia antiarrítmica [4,7]. 

Parâmetros avaliados no Holter

O Holter tem a capacidade de registrar e documentar sinais eletrocardiográficos contínuos, sendo a forma de registro mais comum a realizada por eletrodos bipolares em três canais (derivações) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24030077/). O uso de 3 derivações atende à maioria das situações. O maior número de eletrodos, apesar de aumentar a chance de flagrar arritmias, pode tornar o exame mais desconfortável para o paciente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24030077/). 

Os canais eletrocardiográficos mais utilizados são V5, V1/V3 e derivação inferior, que passam a representar canal 1, 2 e 3 no traçado do Holter (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10483977/). A figura 2 mostra um exemplo de Holter de 3 canais. 

[tabela id=2079 index=3]

Os seguintes parâmetros são analisados nos dados do Holter (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23634400/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24030077/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26626443/):

  • Ritmo cardíaco (sinusal, fibrilação atrial - FA, flutter atrial, etc)
  • Frequência cardíaca mínima, média e máxima
  • Variabilidade de frequência cardíaca (análise do sistema nervoso autônomo)
  • Presença de pausas superiores a 2,5 - 3 segundos
  • Ocorrência de bloqueio atrioventricular
  • Número total e carga (%) de extrassístoles supraventriculares/ventriculares
  • Ocorrência de taquicardias ventriculares / supraventriculares
  • Alterações do segmento ST

Artefatos são causas comuns de erros de diagnóstico. Eles ocorrem por movimentação corporal, mau contato dos eletrodos, contrações musculares e interferências elétricas, podendo simular fibrilação/flutter atrial, taquicardia ventricular e pausas significativas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25367291/). A densidade de artefatos durante a monitorização deve ser menor que 5%. Valores que ultrapassam esse limite podem indicar a repetição do exame (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24030077/).

Holter em pacientes com cardiodesfibrilador implantável (CDI)

O aparelho de CDI monitora o ritmo cardíaco por meio de registro intracavitário de eletrocardiogramas contínuos. Um estudo evidenciou menor taxa de detecção de arritmias ventriculares com o uso do monitor de eventos do dispositivo em comparação ao Holter (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29064614/). Até o momento não há padronização de algoritmos para detecção de arritmias entre os aparelhos implantáveis e de monitorização externa. 

Holter na avaliação de síncope

Uma das principais indicações do Holter é na avaliação de síncope de provável etiologia arrítmica ou inexplicada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28280231/). O objetivo é detectar bradiarritmias (como pausas sinusais na doença do nó sinusal ou bloqueios atrioventriculares avançados) ou taquiarritmias supraventriculares e/ou ventriculares detectadas em eletrocardiograma (ECG) ou em telemetria (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24469879/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28495301/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28495301/).

A correlação entre sintoma e ritmo é o padrão-ouro para o diagnóstico. Quando a frequência dos episódios de síncope é baixa, o rendimento do Holter costuma ser menor. Um estudo demonstrou correlação sintoma-ritmo nos casos de síncope em 22% dos pacientes avaliados com Holter de 48 horas. A correlação foi de 56% em pacientes que usaram looper por um mês (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12867227/). 

O valor do monitoramento de arritmias para síncope é tanto na identificação de uma arritmia como causa da síncope quanto na documentação de um evento sincopal sem uma arritmia correspondente, sugerindo, assim, uma causa não arrítmica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20956237/). 

A investigação de síncope de provável etiologia cardíaca requer um período de monitoramento mais longo e o rendimento diagnóstico de qualquer tipo de monitoramento ambulatorial é limitado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2190517/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20956237/). Pacientes com síncope e fatores de alto risco devem fazer investigação em ambiente hospitalar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29562304/). Veja mais em "Síncope: Investigação e Manejo".

Os sinais no Holter que diagnosticam síncope arrítmica são (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36013018/):

  • Taquicardia supraventricular (TSV) ou FA com resposta ventricular > 150 bpm com duração superior a 32 batimentos
  • Taquicardia ventricular (TV) com duração superior a 32 batimentos
  • Pausas sinusais superiores a 3 segundos
  • Bradicardia inferior a 40 bpm
  • Bloqueio atrioventricular (BAV) terceiro grau ou segundo grau Mobitz II
  • Bloqueio de ramo alternante

Quando há evidências diretas de correlação entre sintomas e bradicardia ou pausas sinusais, o implante de marca-passo permanente leva à melhora clínica. Pausas sinusais prolongadas podem ser debilitantes e estão associadas a morbidade significativa devido à pré-síncope recorrente ou síncope de início súbito e imprevisível (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30412710/).

Estudos observacionais documentaram a história natural de pacientes não tratados com bloqueio atrioventricular (BAV) de 2° grau tipo Mobitz II e de 3° grau, demonstrando que esses pacientes apresentam sintomas recorrentes, incluindo síncope e insuficiência cardíaca (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/4817704/). A estimulação cardíaca com marca-passo definitivo é eficaz na prevenção de recorrências de síncope quando o bloqueio AV é documentado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26851815/).

Holter na avaliação de palpitações

Palpitações podem motivar a realização do Holter. O exame é bem indicado quando as queixas são frequentes (diárias) ou reproduzidas consistentemente, com mudanças posturais ou com esforço, por exemplo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29255505/). Outras indicações no contexto de palpitação incluem:
Exame físico e ECG de 12 derivações que sugerem possibilidade de arritmia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8629647/)
Doença cardíaca estrutural diagnosticada, histórico familiar de morte súbita cardíaca ou canalopatia hereditária com risco conhecido de arritmia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28495301/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36287420/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36017572/)

Nos pacientes com queixa de palpitações, por vezes são observadas ectopias ventriculares (EV) e supraventriculares (ESV). Extrassístoles ventriculares podem ocorrer mesmo em pacientes saudáveis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27798051/). A densidade de EV elevada (acima de 10-15% do número total de batimentos em 24 horas) pode sugerir doença cardíaca ou não cardíaca subjacente, que devem ser investigadas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30882141/). 

EV frequentes podem prejudicar a função do ventrículo esquerdo e levar a cardiomiopatia, que pode ser reversível com tratamento medicamentoso (betabloqueadores e bloqueadores de canais de cálcio) ou ablação por cateter, além do tratamento de insuficiência cardíaca (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29084731/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26282347/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30882141/). O magnésio pode ser utilizado para controle de sintomas e melhora de densidade de extrassístoles (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25590926/). Pacientes assintomáticos com EV frequentes (> 500 episódios em 24 h ou densidade > 10 - 15% em 24 h) devem ser avaliados por especialistas e aqueles com EV com densidade superior a 20% possuem marcador de mortalidade por todas as causas e cardiovascular, devem ter acompanhamento mais próximo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30882141/). 

Pacientes com EV possuem pior prognóstico (aumento do risco de morte súbita ou arritmias ventriculares complexas) quando (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30882141/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28123456/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27548469/):

  • Presença de doença cardíaca subjacente
  • Acima de 2.000 extrassístoles ventriculares em 24 h
  • EV complexas (pareadas, triplex, TVNS)
  • EV com várias morfologias
  • EV que aumentam com exercício
  • EV que não se originam na via de saída dos ventrículos
  • EV com acoplamento ultra curto (risco de fenômeno R sobre T)

Com relação às ESV, principalmente contrações atriais precoces, a atividade ectópica é considerada elevada quando a carga é > 500 episódios em 24h. Nesse cenário, há maior risco de desenvolvimento de FA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30882141/). Um estudo demonstrou que a probabilidade de FA aumentou de menos de 9% em pacientes com < 100/24h de ESV para mais de 40% em carga > 1500/24h (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25700289/). 

Holter no AVCi criptogênico e doença coronariana

AVCi

Na avaliação de pacientes com AVCi criptogênico, a detecção de FA determina a necessidade de anticoagulação em substituição à antiagregação plaquetária. 

O estudo EMBRACE mostrou que quanto maior o tempo de monitorização eletrocardiográfica em até 30 dias após o AVCi ou ataque isquêmico transitório, maior a possibilidade de detecção de FA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24963566/). O uso de looper de 30 dias foi superior ao Holter na detecção de FA com duração superior a 30 segundos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24963566/). O estudo CRYSTAL-AF mostrou que a monitorização com looper implantável por 1 ano detectou FA em 12,4% dos pacientes com AVC criptogênico vs. 2,0% nos que usaram monitorização padrão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20598970/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24963567/). 

Para mais detalhes de Fibrilação Atrial e AVCi criptogênico, veja mais em "AVC Isquêmico: Etiologias e Manejo do Forame Oval Patente", no subtópico 'Como investigar a etiologia de um AVC isquêmico?'.

Doença coronariana

O Holter não deve fazer parte da investigação inicial de angina. Nessa situação, um teste ergométrico seria mais apropriado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41294178/). Mais detalhes sobre teste ergométrico estão no tópico “Ergométrico, Eco com Estresse, Cintilografia e AngioTC: Quando Pedir e Como Interpretar”. O Holter está contraindicado quando atrasa um tratamento/procedimento urgente. 

Quando indicar Holter em pacientes assintomáticos?

Não há indicação de rotina para realização de Holter em pacientes assintomáticos, porém pode ser considerado nos casos de estratificação de risco e definição de prognóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28495301/). 

Em pacientes com cardiomiopatia hipertrófica (CMH), a presença de taquicardia ventricular não sustentada (TVNS) é marcador importante para risco de morte súbita (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39082572/). O Holter também pode ser solicitado em situações como cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito, cardiomiopatia dilatada e síndrome de Brugada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37622657/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37830188/). Veja mais sobre CMH no tópico "Cardiomiopatia Hipertrófica: Diretrizes de 2024".

Os dispositivos de monitoramento contínuo de pulso, os wearables, permitem a avaliação de frequência cardíaca e ritmo cardíaco e receberam aprovação regulatória em alguns países para detecção de fibrilação atrial (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35368065/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38265646/). As cintas torácicas geralmente usam métodos de ECG baseados em eletrodos para medir a frequência cardíaca, que são mais precisos do que a medição de dispositivos de pulso baseados em fotopletismografia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28709155/). Embora alguns wearables possuam recursos de ECG, eles exigem normalmente ativação sob demanda e, portanto, não oferecem medições contínuas de frequência cardíaca (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37438010/). A precisão dos dispositivos é variável, tanto para detecção de frequência quanto de ritmo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32897239/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36858690/).

Os algoritmos de detecção de FA disponíveis nos wearables usam dados de fotopletismografia para detectar pulso irregular e aumentar a especificidade de detecção, precisando avaliar múltiplos períodos de irregularidade antes de notificar o usuário de uma possível arritmia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31722151/). Esses algoritmos foram projetados inicialmente para triagem de FA, não para detectar outras arritmias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37438010/). A técnica padrão-ouro para avaliar frequência cardíaca e eventuais arritmias continua sendo o ECG convencional e, a depender de frequência, outras formas de monitorização eletrocardiográfica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32897239/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36858690/) 

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