Desordens Intestinais: Abordagem do ROMA V de 2026
O consenso de ROMA é um sistema de critérios diagnósticos, desenvolvido pela Rome Foundation, para classificar e diagnosticar as desordens da interação intestino-cérebro. Em maio de 2026 o consenso de ROMA atualizou os critérios de 2016, lançando o ROMA V. Este tópico aborda os principais conceitos do capítulo de desordens intestinais do consenso [1].
Principais mudanças e algoritmo diagnóstico
O Roma V reforça a revisão da nomenclatura das desordens gastrointestinais. O termo funcional foi substituído por interação intestino-cérebro. O termo “funcional” era frequentemente interpretado como ausência de doença orgânica ou como uma condição psiquiátrica. Apesar disso, algumas condições, como a diarreia funcional e a distensão abdominal funcional, mantiveram essa nomenclatura por falta de alternativas adequadas [1,2].
O termo desordens da interação intestino-cérebro compõe um grupo caracterizado por sintomas gastrointestinais relacionados a motilidade, hipersensibilidade visceral, processamento do sistema nervoso central (SNC), alteração de microbiota ou alteração da função mucosa e imune [3].
A classificação das desordens intestinais passou a incluir seis categorias:
- Síndrome do intestino irritável (SII)
- Constipação crônica
- Diarreia funcional
- Distensão abdominal funcional
- Desordem intestinal não classificada
- Constipação induzida por opioides
A constipação induzida por opioides frequentemente apresenta sobreposição clínica com outros distúrbios intestinais, especialmente SII e constipação crônica [1].
Mudanças nos critérios da síndrome do intestino irritável
A principal modificação do novo consenso ocorreu com os critérios diagnósticos de SII, que se aproximam da versão do ROMA III. Foi reintroduzido o termo desconforto abdominal (ausente no Roma IV) e reduzida a frequência mínima dos sintomas de dor de uma vez por semana para pelo menos três dias por mês. Essas mudanças foram motivadas por estudos epidemiológicos que demonstraram uma redução da prevalência com os critérios do ROMA IV em relação ao III (4% e 10%, respectivamente), com impacto negativo na carga da doença. O ROMA V adotou critérios mais próximos ao roma III buscando aumentar a sensibilidade de identificação da doença [2,4].
A SII é definida pela presença de dor ou desconforto abdominal recorrente, mas não contínuo, ocorrendo em média pelo menos três dias por mês nos últimos três meses, associado a pelo menos dois dos seguintes critérios [1]:
- Relação com a evacuação
- Alteração da frequência das evacuações
- Alteração da forma das fezes
Os sintomas devem ter iniciado há pelo menos seis meses antes do diagnóstico. Como critério de suporte, a dor ou desconforto não devem estar relacionados exclusivamente ao período menstrual. A exigência de sintomas não contínuos foi incluída para diferenciar da síndrome da dor abdominal mediana centralmente [1].
A SII é subdividida em quatro subtipos com o predomínio de constipação, predomínio de diarreia, misto e não classificada ou indeterminada (tabela 1). A classificação é realizada com auxílio da escala Bristol de consistência das fezes nos dias em que há alteração do hábito intestinal (figura 1) [1].
Algoritmo diagnóstico
O ROMA V reforça que as desordens intestinais devem ser diagnosticadas com base em sintomas característicos, e não como diagnósticos de exclusão. A avaliação inicial deve incluir história clínica detalhada, com caracterização dos sintomas e dos padrões de fezes, revisão de comorbidades, medicações em uso, além de possíveis fatores precipitantes [1].
Os principais sinais de alarme incluem anemia, perda ponderal involuntária, sangramento retal, diarreia noturna, início dos sintomas após 50 anos de idade, história familiar de doença inflamatória intestinal, doença celíaca ou câncer colorretal [1,5]. A presença desses achados deve motivar investigação adicional para exclusão de doenças orgânicas. Na ausência de sinais de alarme, a investigação complementar deve ser seletiva. O fluxograma 1 traz as etapas da avaliação diagnóstica [1].
Exames complementares e diagnósticos diferenciais
O ROMA V sugere que a avaliação inicial deve incluir hemograma para pesquisa de anemia, proteína C reativa (PCR) e sorologia para doença celíaca nos pacientes com suspeita de SII.
Uma metanálise com 12 estudos (2.145 pacientes) identificou PCR e calprotectina fecal como marcadores com altos valores preditivos negativos para exclusão de doença inflamatória intestinal (DII) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25732419/). Valores de PCR < 0,2 mg/dL e calprotectina fecal < 40 mcg/g foram associados com probabilidade pós teste < 1% de DII. Valores elevados de calprotectina não são sensíveis para indicar DII, sendo encontrados em indivíduos obesos, infecção ou uso de inibidores de bomba de prótons. ROMA V sugere o teste de calprotectina de forma selecionada em pacientes com suspeita de SII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25732419/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Uma outra metanálise avaliou a prevalência de doença celíaca em paciente com SII e encontrou prevalência de 6% (IC95% 5-8%) em pacientes com sorologia positiva e 2% (IC95% 2-3%) em doença confirmada com biópsia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40493044/). Embora a prevalência varie em relação ao pais, doença celíaca esteve associada positivamente (OR 4,42; IC95% 2,82-6,92) com SII, independente do sexo ou subtipo de SII. As principais recomendações de exames adicionais estão resumidas na tabela 2 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40493044/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
A colonoscopia não é recomendada rotineiramente em pacientes com SII sem sinais de alarme, especialmente em pacientes com constipação. Em indivíduos com sintomas não constipantes e ausência de sinais de alarme, a taxa de diagnóstico de doenças orgânicas é de aproximadamente de 2%, sendo a colite microscópica o principal diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25636675/). Quando a colonoscopia for indicada, recomenda-se a obtenção de biópsias para exclusão de colite microscópica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Em pacientes com sintomas de constipação, sintomas sugestivos de distúrbio evacuatório ou suspeita de disfunção anorretal, o toque retal deve ser realizado. Quando houver suspeita de distúrbio evacuatório, a investigação funcional anorretal pode ser indicada. O ROMA V recomenda que esses testes sejam reservados preferencialmente para pacientes com persistência dos sintomas após falha das medidas terapêuticas iniciais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Após a exclusão de distúrbios evacuatórios, pacientes com constipação refratária podem ser submetidos à avaliação do trânsito colônico por cintilografia ou cápsula de motilidade. O achado de trânsito colônico lento sugere distúrbio de motilidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Nos pacientes com sintomas predominantemente constipantes, exames de imagem como enema opaco, ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética possuem valor diagnóstico limitado na ausência de sinais de alarme, não sendo recomendados rotineiramente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Diagnósticos diferenciais
Nos pacientes com sintomas predominantemente diarreicos, os principais diagnósticos diferenciais incluem má absorção de ácidos biliares, intolerância ou má digestão de carboidratos, supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO). Veja mais em "Abordagem à Diarreia Crônica".
No polo constipante, diagnósticos diferenciais como distúrbios evacuatórios, particularmente a dissinergia do assoalho pélvico, hipotireoidismo e hipercalcemia. Além da avaliação para distúrbios orgânicos, outros distúrbios funcionais devem ser considerados. A tabela 3 contém os principais diagnósticos diferenciais.
Terapias para desordens intestinais
O ROMA V enfatiza que o tratamento individualizado e a relação médico-paciente são os dois pilares do manejo. Um estudo qualitativo, realizado em conjunto a um ensaio clínico randomizado, entrevistou 52 pacientes com SII refratária no Reino Unido e identificou a percepção de conhecimento insuficiente dos médicos sobre SII e a falta de empatia como principais pontos que comprometem a relação médico paciente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30061195/).
Medidas relacionadas ao estilo de vida representam o primeiro passo terapêutico na maioria dos pacientes, embora as evidências disponíveis sejam de baixa qualidade. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Entre as estratégias dietéticas, a dieta pobre em FODMAPs (fermentable oligosaccharides, disaccharides, monosaccharides and polyols) foi a única estratégia que apresentou redução estatisticamente significativa para sintomas de plenitude abdominal e distensão abdominal com RR 0,55 (IC95% 0·37–0·80) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40258374/). Mais em "Tratamento de Síndrome do Intestino Irritável".
A escolha de tratamento medicamentoso varia conforme a predominância dos sintomas (tabela 4). Entre os pacientes com SII e diarreia predominante (SII-D), as principais classes utilizadas incluem agonistas/antagonistas opioides, rifaximina, antagonistas de receptores 5-HT3 e sequestradores de ácido biliares. Em pacientes com dor abdominal predominante, opções incluem antiespasmódicos, óleo de menta (hortelã-pimenta), neuromoduladores centrais e antagonistas 5-HT3 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
As principais classes farmacológicas utilizadas na constipação crônica (CC) e na SII com predomínio de constipação (SII-C) incluem suplementação de fibras, laxativos osmóticos e estimulantes, secretagogos, moduladores de transporte de ácidos biliares e agentes pró cinéticos. Os tratamentos da SII-C são semelhantes aos utilizados na constipação crônica, porém na SII-C é desejável que a terapia promova também melhora da dor abdominal e distensão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
A suplementação com fibras (especialmente psyllium) é uma estratégia dietética segura e potencialmente benéfica nos pacientes com constipação, sendo recomendado 20-30 g/dia. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35816465/).
Quando medidas comportamentais e dietéticas não são suficientes, laxantes osmóticos como lactulose podem melhorar constipado, mas estão associados a maior distensão abdominal. Polietilenoglicol é mais estudado na CC, mas também é recomendado na SII-C, sem melhora na dor abdominal e distensão. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23835436/)
Outras opções terapêuticas incluem agentes pró-cinéticos (agonistas 5 HT4), como prucaloprida, embora com evidência limitada a poucos estudos da fase II e secretagogos e inibidores do NHE3, embora não estejam disponíveis no Brasil (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/).
Os probióticos são outra estratégia citada no ROMA V como terapia para SII, independente do subtipo. Uma metanálise de 2023 com 82 ensaios clínicos demonstrou que probióticos apresentou benefício RR 0.78 (IC95% 0.71-0.87) em relação ao placebo para melhora global de sintomas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37541528/).
Muitas das terapias não estão disponíveis no Brasil, a tabela 4 traz as principais medicações citadas no ROMA V e avaliação de força de evidência correspondente a diretriz americana da gastroenterologia de 2022 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41713703/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35738725/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35738724/).
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- Avaliação clínica inicial
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