Encefalopatia Hepática - Diretriz ACG 2026
Encefalopatia hepática é um forte preditor independente de alta carga de sintomas físicos, depressão e sobrecarga do cuidador [1]. Em março de 2026, o American College of Gastroenterology publicou uma nova diretriz sobre diagnóstico, manejo e prevenção dessa condição [2]. Este tópico aborda as recomendações trazidas pela nova diretriz.
Esse tema já foi abordado em "Encefalopatia Hepática".
Diagnóstico e classificação
Encefalopatia hepática (EH) é a disfunção cerebral resultante do comprometimento da função hepática e/ou da presença de shunts portossistêmicos. Suas manifestações envolvem um amplo espectro de alterações neuropsiquiátricas [3]. O diagnóstico é clínico e de exclusão e não existe exame complementar capaz de confirmá-lo isoladamente.
A gravidade da EH pode ser estratificada pelos critérios de West Haven (tabela 1) [4,5]. Os termos utilizados são EH encoberta (tradução livre para covert hepatic encephalopathy), que engloba a EH mínima e grau I, e EH evidente ou clinicamente evidente (overt hepatic encephalopathy), que inclui os graus II a IV [6]. A EH não evidente apresenta alterações clínicas sutis, cuja identificação depende de testes neurocognitivos específicos em contexto clínico compatível e após exclusão de outras causas. Asterixis (flapping) isolada, sem alterações de comportamento ou nível de consciência, não é suficiente para diagnosticar EH evidente.
Pacientes com cirrose e pelo menos uma das características abaixo devem ser rastreados para EH mínima ou não evidente [7-11]:
- Hipoalbuminemia.
- Cirrose descompensada, como pacientes com ascite, sangramento varicoso ou icterícia. Veja mais em "Cirrose: Como Diagnosticar".
- Hipertensão portal clinicamente significativa ou presença de shunts portossistêmicos em exames de imagem, especialmente se maiores que 8 mm.
- Presença de queixas cognitivas inespecíficas, dificuldade de concentração, piora da qualidade de vida, infrações de trânsito ou quedas.
- Dificuldade para operar maquinaria pesada.
- Pilotos e motoristas profissionais/comerciais.
A diretriz sugere que o rastreio seja realizado em cenário ambulatorial com testes validados (como Stroop EncephalApp, QuickStroop e teste de nomeação de animais), utilizando uma estratégia de teste único em vez de combinação de dois testes (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza) [12-15]. A amônia sérica isolada não deve ser utilizada para diagnosticar EH mínima/não evidente (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza). Muitos pacientes com cirrose e queixas cognitivas têm outras causas de comprometimento neurocognitivo, como demência, apneia do sono, transtornos psiquiátricos, medicamentos psicotrópicos e condições metabólicas. Em uma coorte de 286 pacientes com cirrose e queixas cognitivas avaliados por via multidisciplinar, mais de 50% não tinham EH mínima [16].
Fatores precipitantes contribuem com a impressão diagnóstica. Constipação, sangramento gastrointestinal, desidratação, infecções, drogas sedativas e distúrbios hidroeletrolíticos devem ser pesquisados [17-19]. O diagnóstico de EH na ausência de precipitantes claros costuma exigir uma exclusão mais ampla de explicações alternativas.
A dosagem de amônia no sangue não deve ser realizada rotineiramente para diagnosticar, estratificar a gravidade ou orientar o tratamento da EH (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza) [20,21]. Em um estudo com 551 pacientes diagnosticados com EH, 40% apresentavam níveis normais de amônia sérica [22]. No entanto, em um paciente com suspeita de EH evidente, especialmente quando há redução significativa do nível de consciência, uma amônia normal deve levar à reavaliação do diagnóstico e à investigação de outras causas de encefalopatia.
A diretriz orienta contra a realização de neuroimagem de rotina em pacientes com cirrose e alteração do estado mental se não existirem déficits neurológicos focais (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza). O exame pode ser reservado para pacientes com suspeita de lesão neurológica estrutural, como na presença de déficits neurológicos focais novos, convulsões ou trauma [23-25]. A diretriz de 2024 de acute on chronic liver failure (ACLF) acrescenta como indicação de neuroimagem o primeiro episódio de alteração do estado mental ou ausência de resposta ao tratamento adequado [26]. Veja mais em "Encefalopatia Hepática".
Após a caracterização de EH como principal hipótese, a classificação de gravidade orienta a decisão de internação hospitalar e avaliação da resposta terapêutica.
Decisão de internação
A necessidade de avaliação em pronto-socorro ou internação hospitalar deve considerar a gravidade da encefalopatia, o grau de certeza diagnóstica, a presença de fatores precipitantes que demandem investigação ou tratamento hospitalar e a capacidade do paciente e da família de manejarem o quadro com segurança fora do hospital. A diretriz propõe alguns princípios orientadores dessa decisão, expostos abaixo.
Pacientes com EH graus 3 ou 4 devem ser internados. Nos demais cenários, a internação hospitalar deve ser considerada quando houver (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41773757/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17520742/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23474970/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28560484/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28560484/):
- EH grau 2 com dúvida diagnóstica, suspeita de fator precipitante que demande investigação/tratamento hospitalar ou suporte domiciliar insuficiente.
- Primeiro episódio de alteração do estado mental, especialmente quando houver necessidade de excluir outras etiologias.
- Necessidade de investigação ou tratamento de precipitantes, como infecção, sangramento gastrointestinal ou desidratação.
- Paciente agitado, pouco colaborativo ou sem cuidador confiável disponível.
O manejo ambulatorial é o cenário habitual para a maioria dos pacientes com EH não evidente (graus 0 e 1). Em pacientes selecionados com EH grau 2, quando a apresentação for semelhante a episódios prévios, sem sinais de gravidade e com suporte domiciliar adequado, o tratamento domiciliar também é possível, com ajuste terapêutico e reavaliação em curto prazo.
Tratamento
Lactulose
Lactulose é recomendada como primeira linha para pacientes com EH clinicamente evidente (recomendação forte, evidência de moderada certeza). Para EH não evidente, a diretriz sugere lactulose como tratamento inicial (recomendação condicional, evidência de baixa certeza).
O mecanismo de ação da lactulose não é completamente esclarecido. Parece envolver efeitos sobre a microbiota intestinal, acidificação do lúmen intestinal, redução da absorção de amônia e maior eliminação fecal de compostos nitrogenados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37820287/).
A prescrição de lactulose depende do contexto clínico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3319453/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41773757/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17893628/):
- EH grau 2, paciente com via oral possível: lactulose 10 a 20 g (15 a 30 mL) a cada 2 horas, até ocorrerem duas evacuações pastosas ou amolecidas. Posteriormente, a frequência deve ser reduzida para 2 a 4 vezes ao dia, titulada para manter 2 a 3 evacuações pastosas ou amolecidas por dia.
- EH graus 3 ou 4, incapaz de deglutir com segurança: lactulose pode ser administrada via sonda nasogástrica ou enteral, em dose similar à via oral.
- Via oral e enteral contraindicadas: pode-se utilizar enema de lactulose se o tônus esfincteriano anal estiver preservado. O enema pode ser preparado com 300 mL de solução de lactulose diluída em 700 mL de água ou solução salina 0,9%. A solução deve ser retida por 30 a 60 minutos e pode ser repetida a cada 4 a 6 horas até a melhora do quadro.
A titulação cuidadosa da lactulose auxilia a evitar eventos adversos. O uso excessivo pode causar diarreia, desidratação e distúrbios hidroeletrolíticos (como hipernatremia e hipocalemia) que podem precipitar novos episódios de EH e levar secundariamente a íleo paralítico. Aspiração e irritação/infecção perianal são outros efeitos adversos relevantes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34738545/).
Em pacientes com desconforto abdominal, distensão gasosa ou íleo associados à lactulose, soluções à base de polietilenoglicol (PEG 3350) são uma alternativa (recomendação condicional, evidência de baixa certeza). Em um ensaio clínico randomizado, o PEG 3350 levou à resolução mais rápida da EH do que a lactulose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25243839/).
Rifaximina
Rifaximina é sugerida pela diretriz em associação com lactulose nos episódios agudos de EH manifesta (recomendação condicional, evidência de baixa certeza). A dose de rifaximina é de 550 mg, via oral, duas vezes ao dia.
A rifaximina é um antibiótico não absorvível que atua predominantemente no lúmen intestinal, modulando a microbiota e reduzindo a produção e a absorção de amônia. O benefício está mais bem estabelecido na prevenção de recorrência. Alguns estudos sugerem que seu uso associado à lactulose em episódios agudos pode aumentar a taxa de resolução da EH e reduzir o tempo de internação e a mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37467180/). No Brasil, o alto custo pode limitar o acesso.
Refratariedade
Em pacientes que não apresentam melhora do estado mental após 48 a 72 horas de tratamento adequado, incluindo evacuações satisfatórias e correção dos precipitantes, recomenda-se reavaliar:
- Diagnósticos alternativos.
- Precipitantes ou contribuintes não identificados, não tratados ou inadequadamente controlados, como infecções, sangramentos, uso de sedativos ou distúrbios hidroeletrolíticos.
- Shunts portossistêmicos, sejam espontâneos ou relacionados à derivação portossistêmica intra-hepática transjugular prévia (transjugular intrahepatic portosystemic shunt, TIPS).
A diretriz sugere a investigação de shunts portossistêmicos com tomografia ou ressonância do abdome com contraste em pacientes com EH refratária apesar de tratamento clínico otimizado. Shunts portossistêmicos espontâneos estão presentes em até 60% dos pacientes com cirrose e são encontrados em 46% a 71% dos casos de EH refratária. Eles ocorrem por hipertensão portal significativa e desviam parte do fluxo sanguíneo portal para a circulação sistêmica, reduzindo a depuração hepática de substâncias potencialmente neurotóxicas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23401201/).
A embolização pode ser considerada em casos selecionados, especialmente com MELD < 15 e shunts ≥ 8 mm, levando em conta a função hepática, características anatômicas e ausência de contraindicações (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza). A decisão deve envolver as equipes de hepatologia e radiologia intervencionista, pois a embolização pode aumentar o risco de formação de varizes e ascite.
EH mínima e EH não evidente
O manejo inicial deve incluir lactulose, identificação e tratamento dos precipitantes e otimização do estado nutricional (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27089005/). A lactulose pode ser iniciada na dose de 15 a 30 mL (10 a 20 g), 2 a 3 vezes ao dia, titulada para manter 2 a 3 evacuações pastosas diárias, a mesma meta de titulação utilizada na manutenção da EH clinicamente evidente. A rifaximina pode ser considerada em casos selecionados, embora seu papel esteja mais consolidado na prevenção de recorrência da EH manifesta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21971378/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36730910/).
Como o diagnóstico de EH mínima ou EH não evidente carrega mais incerteza, um teste terapêutico com lactulose pode ser utilizado. Deve-se avaliar a adesão e a resposta após quatro a oito semanas, mantendo o tratamento apenas se houver benefício perceptível. O diagnóstico diferencial nesse contexto é amplo e a reavaliação é importante para evitar uma intervenção sem benefício. Quadros demenciais, apneia obstrutiva do sono, transtornos relacionados ao uso de álcool, alterações do humor, distúrbios endócrino-metabólicos e efeitos adversos medicamentosos podem causar sintomas inicialmente atribuídos a EH não evidente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973133/).
Prevenção de recorrência e profilaxia
A profilaxia secundária com lactulose é recomendada após o primeiro episódio de EH evidente (recomendação forte, evidência de alta certeza) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27089005/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19501587/). O risco de recorrência é elevado, com cerca de 40% a 60% dos pacientes apresentando um novo episódio em até 1 ano.
A dose de lactulose deve ser titulada com o objetivo de manter 2 ou 3 evacuações pastosas ou amolecidas ao dia. O documento sugere o uso da escala de Bristol em conjunto com a frequência evacuatória para orientar a titulação de lactulose (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza, figura 1). Fezes classificadas como Bristol ≥ 5 podem indicar necessidade de redução da dose de lactulose ou, naqueles já em uso de lactulose, adição de rifaximina. Se o paciente já apresenta Bristol ≥ 5 antes de iniciar lactulose, terapias alternativas não laxativas devem ser consideradas desde o início (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34738545/).
Quando a EH recorre em pacientes em uso de lactulose de manutenção, recomenda-se adicionar rifaximina ao esquema profilático, na dose de 550 mg duas vezes ao dia (recomendação forte, evidência de alta certeza) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20335583/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24849268/). A associação de lactulose e rifaximina parece ser mais eficaz para prevenção de recorrência e de hospitalizações do que a lactulose em monoterapia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38727685/). Adicionalmente, o documento sugere a rifaximina associada à lactulose para prevenir recorrência já após o primeiro episódio de EH clinicamente evidente (recomendação condicional, baixo grau de certeza) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41604558/).
Outra opção é a suplementação com zinco em pacientes com deficiência documentada, especialmente em casos de EH evidente que persiste apesar do uso de lactulose e rifaximina (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza). O zinco é um cofator no metabolismo do nitrogênio e sua deficiência pode prejudicar o metabolismo da amônia. A diretriz reconhece que os estudos são conflitantes, mas aponta que a suplementação é geralmente segura e pode proporcionar melhora cognitiva em pacientes selecionados com baixos níveis de zinco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23742732/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31279342/). Se indicada, a suplementação pode ser feita com até 50 mg de zinco elementar por via oral, uma vez ao dia, junto à refeição, para reduzir o risco de náusea e deficiência de cobre como eventos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40314389/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34582657/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27582881/). Uma opção disponível no Brasil é o sulfato de zinco monoidratado, com 20 mg de zinco elementar por comprimido.
Diversas drogas podem alterar o estado mental e dificultar a avaliação ou aumentar o risco de novos episódios de EH. Entre os exemplos citados pela diretriz estão opioides, benzodiazepínicos, gabapentinoides, zolpidem e inibidores de bomba de prótons. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29872220/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33226300/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35493764/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24482035/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27868217/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31701074/). A prescrição médica de pacientes com EH deve ser revisada.
Com base em consenso de especialistas, a diretriz recomenda que pacientes com episódio de EH evidente nos últimos 3 meses recebam orientação verbal e escrita para evitar dirigir (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19686744/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39976071/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19277025/).
Recorrências múltiplas
Recomenda-se a investigação de shunts portossistêmicos em pacientes com múltiplas recorrências de EH apesar de terapia medicamentosa otimizada. Quando um shunt relevante é identificado e existe a suspeita de que contribua para os episódios de EH, sua oclusão pode ser considerada em pacientes selecionados, especialmente com shunts ≥ 8 mm e MELD geralmente < 15. Um estudo encontrou que a embolização desses shunts manteve cerca de 60% dos pacientes sem novos episódios de EH em 100 dias após o procedimento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23401201/). A decisão deve ser tomada em conjunto com hepatologia e radiologia intervencionista, considerando o risco de formação de varizes e ascite após o procedimento.
O que fazer em pacientes com TIPS ou indicação de TIPS?
Cerca de 30 a 40% dos pacientes submetidos a TIPS desenvolvem EH, complicação associada a pior prognóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34274511/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33238576/).
Quando houver indicação de TIPS eletivo em paciente com cirrose descompensada, a diretriz recomenda iniciar rifaximina 14 dias antes do procedimento e mantê-la por pelo menos 6 meses para diminuir o risco de novos episódios de EH (recomendação forte, evidência de moderada certeza) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33524293/). Outra estratégia sugerida é a embolização de colaterais extra-hepáticas no momento do TIPS, também com o objetivo de reduzir o risco de EH pós-procedimento (recomendação condicional, evidência de baixa certeza) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37524443/). O uso de lactulose com finalidade de profilaxia primária após TIPS não demonstrou benefício consistente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37746955/). Quando a EH pós-TIPS é refratária ao tratamento clínico, a redução do diâmetro do stent pode ser considerada.
Nutrição e sarcopenia
Sarcopenia e fragilidade são altamente prevalentes em pacientes com EH e se associam a piores desfechos em pacientes com cirrose, incluindo maior risco de descompensações e pior prognóstico global (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34039486/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34039486/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30668935/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38268669/). A diretriz recomenda que todos os pacientes com EH sejam avaliados quanto à saúde muscular e aptidão física, com ferramentas como o Liver Frailty Index (LFI) ou Short Physical Performance Battery (SPPB), repetidas ao longo do acompanhamento. Veja mais em "Fragilidade e Sarcopenia: Diagnóstico e Manejo".
A diretriz recomenda ingestão proteica de 1,2–1,5 g/kg/dia em pacientes ambulatoriais com EH (recomendação forte, moderado grau de certeza). A meta calórica sugerida é de pelo menos 35 kcal/kg/dia para pacientes não obesos, com ajuste para obesos (25–35 kcal/kg/dia para IMC entre 30 e 40 e 20–25 kcal/kg/dia para IMC ≥ 40) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34233031/). As metas devem ser calculadas com base no peso corporal ideal (baseado na altura), especialmente em pacientes com ascite ou edema. A restrição proteica é contraindicada, mesmo durante episódios agudos de EH, pois aumenta o catabolismo muscular sem reduzir a duração do quadro (recomendação condicional, evidência de muito baixa certeza).
A diretriz sugere um lanche noturno contendo carboidratos complexos e proteína para reduzir fragilidade e EH (recomendação condicional, muito baixo grau de certeza). Quando a meta proteica não puder ser atingida apenas com a alimentação, a diretriz recomenda suplementação com aminoácidos de cadeia ramificada (branched-chain amino acids, BCAA) (recomendação forte, moderado grau de certeza). Uma revisão sistemática da Cochrane com 16 ensaios clínicos encontrou redução de EH com BCAA oral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28518283/).
A prática de exercícios físicos é sugerida em pacientes com EH, com potenciais benefícios sobre risco de quedas, pressão portal e capacidade do músculo esquelético de metabolizar amônia (recomendação condicional, baixo grau de certeza). A prescrição deve ser individualizada e a prática deve ser supervisionada, pois pacientes com EH podem apresentar maior risco de lesões durante a atividade física (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35973182/).
Indicação de transplante hepático
O transplante hepático é o único tratamento definitivo para a EH que não responde a outras terapias. A diretriz sugere considerar avaliação precoce para transplante hepático em pacientes com EH nos seguintes cenários:
- Escore de MELD 3.0 elevado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39836914/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34481845/).
- EH graus 3 ou 4 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27434824/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27720916/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25155379/).
- Episódios frequentes ou recorrentes de EH evidente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27434824/)
O escore de MELD, incluindo o MELD 3.0, não incorpora a EH no cálculo, apesar do impacto prognóstico dessa complicação. A diretriz destaca que a adição de 4 ou 5 pontos ao MELD refletiria melhor a mortalidade em 90 dias de pacientes com EH, especialmente em casos de EH evidente em ambiente hospitalar. Essa pontuação adicional deve ser interpretada como uma proposta para aprimorar modelos futuros, e não como uma regra de pontuação no sistema atual de alocação para transplante hepático (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39836914/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27434824/).
Em pacientes com múltiplos episódios de EH e MELD < 15, a diretriz sugere avaliar candidatura para transplante hepático de doador vivo (recomendação condicional, evidência de baixa certeza) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21688284/). Essa opção pode oferecer benefício de sobrevida mesmo em pacientes com MELD mais baixo. Episódios recorrentes de EH levam a déficits cognitivos cumulativos e potencialmente irreversíveis, e o transplante precoce pode preservar a função cerebral. Por isso, em pacientes selecionados com EH recorrente e MELD < 15, a avaliação precoce para transplante pode ser considerada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40131001/).
A diretriz considera que a persistência de alteração do estado mental em ambiente hospitalar, apesar de tratamento adequado da EH e correção dos precipitantes, pode representar uma contraindicação relativa ao transplante hepático. Essa orientação se baseia na possibilidade de que a alteração neurológica persistente reflita dano cognitivo não completamente reversível ou outra etiologia associada. Existe associação entre EH grave pré-transplante, complicações neurológicas perioperatórias, recuperação cognitiva incompleta e piores desfechos após o transplante (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17928960/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25902933/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21254343/).
Aproveite e leia
- Definições de cirrose e estágios de fibrose
- Manifestações clínicas e exames laboratoriais
- Exames de imagem: USG, TC e RM
- Elastografia hepática
- Investigação no paciente assintomático (cirrose compensada)
- Investigação no paciente com possível descompensação
- Definição de fragilidade
- Suspeita, rastreio e diagnóstico de fragilidade
- Sarcopenia
- Manejo de fragilidade e sarcopenia
- Fragilidade e decisões terapêuticas
- Definição de encefalopatia hepática
- Apresentação clínica e graduação
- Fatores precipitantes
- Avaliação inicial e diagnósticos diferenciais de encefalopatia hepática
- Tratamento inicial de encefalopatia hepática
- O que fazer em casos refratários?
- Profilaxia secundária de encefalopatia hepática
- Sobre a diretriz e conceitos
- Hemorragia digestiva alta
- Peritonite bacteriana espontânea
- Outras sugestões da diretriz
- Nova nomenclatura e contexto do estudo
- O estudo MAESTRO-NASH
- Como prescrever e perspectiva