Miopatias Inflamatórias Imunomediadas

Criado em: 20 de Julho de 2026 Autor: Arthur Goulart Pagani Revisor: Nordman Wall

As miopatias inflamatórias imunomediadas são doenças autoimunes multissistêmicas com apresentação clínica heterogênea e que varia conforme o subtipo [1]. O reconhecimento de padrões pode auxiliar no diagnóstico e manejo da doença. Este tópico revisa os principais aspectos para o reconhecimento, investigação e subclassificação das miopatias inflamatórias imunomediadas.

Definições, padrões de acometimento muscular e extramuscular

As miopatias inflamatórias imunomediadas (MII) são um grupo de doenças crônicas e multissistêmicas caracterizadas por fraqueza muscular. Há envolvimento de outros órgãos como pele, pulmões, articulações e coração com frequência e intensidade variáveis de acordo com o subtipo de miopatia (tabela 1) [1]. 

Tabela 1
Características clínicas e epidemiológicas das miopatias inflamatórias imunomediadas.
Características clínicas e epidemiológicas das miopatias inflamatórias imunomediadas.

Os padrões de acometimento das MII, suas diferentes apresentações clínicas e positividade de auto-anticorpos levam a diferentes propostas de classificação dos tipos de MII [2]. Uma proposta amplamente utilizada divide essas doenças em 5 subgrupos [1,2]: 

  • Dermatomiosite (DM)
  • Miopatia necrosante imunomediada (MNI)
  • Síndrome antissintetase (SAS)
  • Miosite por corpos de inclusão (MCI) 
  • Miosite de sobreposição (MS)

A polimiosite (PM) é uma doença considerada cada vez mais rara e alguns autores recomendam que esse termo seja abandonado [3,4]. Até 75% dos casos antes diagnosticados como PM foram reclassificados como outras entidades (mais comumente MNI, MS ou MCI) após a descoberta de novos padrões histopatológicos e autoanticorpos [3,5]. Algumas séries mais recentes mostram que a polimiosite representa apenas 3% dos casos de MII [5]. No entanto, a recomendação de não classificar mais a PM é controversa e necessita de maior validação antes que seja universalmente adotada [3]. 

O quadro clínico típico associado às MII é de fraqueza muscular proximal e simétrica, de início subagudo e progressão ao longo de semanas a meses [1]. Por muito tempo, o comprometimento muscular nas MII foi descrito como indolor. No entanto, revisões recentes mostram que a dor muscular está presente em 60-80% dos pacientes (em geral com intensidade leve a moderada) [6]. Os principais acometimentos extramusculares associados estão descritos na tabela 1 e na figura 1.

Figura 1
Manifestações extramusculares selecionadas das miopatias inflamatórias imunomediadas.
Manifestações extramusculares selecionadas das miopatias inflamatórias imunomediadas.

Pacientes com DM ou SAS podem apresentar pouco ou nenhum comprometimento muscular (doenças clinicamente amiopáticas/hipomiopáticas) [1]. Até 10% dos casos de dermatomiosite não apresentarão comprometimento cutâneo (DM sine dermatitis) [7].

A investigação das MII deve descartar mimetizadores (tabela 2) [8]. Miopatias induzidas por drogas, infecciosas, endocrinológicas e hereditárias podem cursar com quadros clínico, laboratorial, radiológico e até mesmo histológico semelhantes às MII [8]. Alguns dados indicam diagnósticos alternativos [8]:

  • Idade do início dos sintomas (quanto mais precoce, maior a chance de doença hereditária)
  • História familiar positiva para miopatia
  • Envolvimento de musculatura da face e/ou da motilidade ocular extrínseca
  • Fraqueza muscular distal e/ou assimétrica (exceto se MCI)
  • Exposição a drogas potencialmente miotóxicas (tabela 2)
  • Ausência de autoanticorpos relacionados às MII (ou positividade para autoanticorpos em níveis baixos)
  • Eletroneuromiografia (ENMG) mostrando potenciais de unidade motora miopáticos sem potenciais de fibrilação (sugere doença muscular já instalada, com pouca lesão em curso)
  • Refratariedade ao tratamento com imunossupressores (exceto se MCI)
Tabela 2
Mimetizadores das miopatias inflamatórias imunomediadas.
Mimetizadores das miopatias inflamatórias imunomediadas.

O tempo e a forma de evolução são outros indicadores importantes de possível mimetizador. Quadros de início agudo associados a fraqueza de progressão rápida sugerem miopatia infecciosa, tóxica ou distúrbio hidroeletrolítico [8]. Nesses casos as enzimas musculares costumam retornar à normalidade após a resolução do quadro. 

Por outro lado, casos com início subagudo ou crônico associados a fraqueza de progressão ao longo de anos levantam a possibilidade de doenças hereditárias [8]. Essas doenças apresentam-se com longos períodos pré-clínicos caracterizados por aumento assintomático das enzimas musculares. Muitos pacientes não apresentam história familiar positiva para miopatia e iniciam com sintomas apenas na idade adulta [8-10].

Exames laboratoriais e autoanticorpos

A avaliação laboratorial pode auxiliar nos diferenciais de MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7719899/). Alterações associadas à inflamação, como anemia de doença crônica, trombocitose, aumento de PCR e VHS podem estar presentes, mas são menos comuns nas MII do que em outras doenças autoimunes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27242652/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38241913/). 

A elevação sustentada das “enzimas musculares” como creatinoquinase (CK), aldolase, transaminases (AST e ALT) e LDH é comum a todas as MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27242652/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42127392/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/). Não há consenso sobre a necessidade de dosar de rotina outras enzimas além da CK, uma vez que ela é o marcador sérico mais sensível de lesão muscular (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27242652/). Apesar disso, alguns pacientes com DM e SAS apresentam elevação isolada de aldolase, o que mostra a necessidade de solicitar um perfil mais completo de marcadores de dano muscular em situações especiais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37922500/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25641317/). 

O fator antinuclear (FAN) por imunofluorescência indireta é amplamente utilizado na avaliação do paciente com suspeita de autoimunidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28541299/). Sua interpretação exige cuidado, pois ele pode estar presente em até 30% da população saudável (especialmente em mulheres e idosos) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28541299/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9324014/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26524640/). Quanto maiores os títulos, maior a probabilidade de doença autoimune associada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9324014/). Veja mais em "Fator Antinuclear (FAN): O Que o Clínico Precisa Saber".

Dentre as MII, 70% apresentam FAN positivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41505967/). Os padrões mais comumente observados são o citoplasmático pontilhado e o nuclear pontilhado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41505967/). 

A descoberta de autoanticorpos específicos para miosites e associados a miosites foi um avanço recente que auxiliou no diagnóstico e subclassificação das MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42127392/). Alguns estudos mostram que até 70% dos portadores de MII apresentam algum desses autoanticorpos detectável (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30208379/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33360322/). A presença de cada tipo específico fornece informações sobre apresentação clínica, prognóstico e risco de associação com neoplasias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37945774/). As principais correlações descritas até o momento estão na tabela 3.

[tabela id=2096 index=4]

Exames de imagem e biópsias

A ressonância magnética muscular (RMM) é o principal exame de imagem para avaliação do comprometimento miopático nas MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/). Além de apresentar boa sensibilidade (85%) e especificidade (60-80%), ela ajuda a afastar mimetizadores, a definir se a doença está ativa ou inativa, a escolher o melhor sítio de biópsia (quando indicada) e a estabelecer prognóstico muscular (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38197490/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37770338/). A RMM pode ser realizada sem contraste e deve incluir imagens em T1 + sequência sensível a líquido com supressão de gordura (STIR, TIRM ou T2 fat sat) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38197490/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37770338/). 

O principal achado que indica inflamação e doença ativa é o edema muscular, caracterizado por hipossinal em T1 e hipersinal em sequências sensíveis a líquido com supressão de gordura (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37770338/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38410065/) (figura 2). Os achados que indicam doença sequelar, com dano muscular já instalado e menor probabilidade de recuperação são a atrofia, reconhecida por redução do volume muscular e a lipossubstituição, definida por hipersinal em T1 e hipossinal em sequências sensíveis a líquido com supressão de gordura (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37770338/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38410065/).

[tabela id=2097 index=5]

Não há definição clara na literatura sobre quais segmentos devem ser avaliados pela RNM (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25903718/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37770338/). Alguns autores defendem que a avaliação exclusiva de coxas é o suficiente para a maioria dos casos enquanto outros recomendam realizar RM de corpo inteiro de rotina (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38197490/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37770338/). Uma estratégia muito utilizada, que representa o meio termo entre essas duas abordagens, é a solicitação de RNM de cintura escapular, braços, cintura pélvica, coxas e pernas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25903718/).

A biópsia muscular possui rendimento variável para o diagnóstico de MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42127392/). Pacientes com alta probabilidade pré-teste possuem diagnóstico após biópsia em cerca de 65% dos casos e até 20% das amostras podem apresentar resultado inconclusivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38428109/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/). O redimento do exame pode melhorar a depender da escolha adequada do sítio. Algumas dicas clínicas podem ajudar a escolher o local adequado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/):

  • Não biopsiar músculos que tenham sido submetidos a ENMG recentemente (escolher o lado oposto ao da realização da ENMG)
  • Utilizar dados da RNM: preferir músculos com presença de edema/inflamação, sem atrofia avançada ou substituição gordurosa completa
  • Caso não tenha RNM disponível: escolher músculos que tenham força reduzida, mas que não estejam completamente atróficos e que ainda mantenham algum grau de funcionalidade

Os principais achados de RNM e biópsia muscular que favorecem o diagnóstico de MII e auxiliam na diferenciação entre os subtipos de MII estão representados na tabela 4.

[tabela id=2098 index=6]

A biópsia de pele pode ser útil em casos suspeitos para dermatomiosite, que não apresentam autoanticorpos específicos, e cujos achados cutâneos não permitem fechar o diagnóstico de forma definitiva (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/). O achado mais importante é a dermatite de interface vacuolar (presente em 70-95% dos casos) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35080246/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41128466/). A interpretação deve ser cuidadosa, pois esse padrão também está presente no lupus cutâneo (as duas entidades são histologicamente indistinguíveis) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19155727/).

Com exceção dos casos suspeitos para MCI (que quase sempre requerem biópsia para confirmação), pacientes com apresentação clínica típica e presença de autoanticorpos compatíveis podem ser diagnosticados com MII sem necessidade de avaliação histológica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42127392/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30208379/).

A ENMG tem papel mais limitado se comparada à RNM e à biópsia muscular (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/). Suas principais indicações no contexto das MII são:

  • Auxiliar na diferenciação entre miopatias, doenças da junção neuromuscular e neuropatias periféricas quando o quadro clínico é duvidoso (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40818476/).
  • Distinguir entre atividade de MII (caracterizada por sinais de irritabilidade de membrana como fibrilações, ondas agudas positivas e descargas miotônicas) e miopatia induzida por glicocorticoides (ENMG normal) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25923553/).

Manifestações extramusculares e doenças associadas

As doenças pulmonares intersticiais (DPI) são muito frequentes entre os pacientes com MII, especialmente na DM, SAS e alguns tipos de MS (quando relacionada à esclerose sistêmica, doenças mista do tecido conjuntivo ou artrite reumatoide) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/). As formas mais comuns de DPI nesse contexto são a pneumonia intersticial não específica (PINE), a pneumonia em organização, e a associação entre essas duas entidades (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42127392/). As recomendações para screening e seguimento de DPI variam conforme a referência (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40912974/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/). Veja mais em “"Doenças do Interstício Pulmonar: Abordagem Inicial e Novas Classificações de 2025".

A diretriz da American College of Rheumatology (ACR) de 2023 se posiciona favorável ao rastreio de DPI no momento do diagnóstico de MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/). O rastreio deve ser feito com uma combinação de exames (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/):

  • Tomografia de tórax de alta resolução (TCAR)
  • Provas de função pulmonar (PFP) incluindo espirometria, volumes pulmonares (em geral por pletismografia) e difusão do monóxido de carbono (DLCO) 

Caso seja feito diagnóstico de DPI, os pacientes devem realizar as PFP a cada 3-6 meses no primeiro ano, e repetir periodicamente (com menor frequência) nos anos subsequentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/). Se houver piora clínica e/ou alteração das PFP, devem realizar nova TCAR (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/).

Quando o rastreio inicial é negativo, os próximos passos vão depender do risco individual de desenvolver DPI. Pacientes de alto risco (ou seja, que apresentam positividade para anti-MDA5 ou para qualquer anticorpo anti-sintetase) devem repetir as PFP anualmente, e realizar nova TCAR em caso de piora clínica e/ou alteração das PFP  (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/). Pacientes que não se enquadram como alto risco devem repetir os exames (incluindo TCAR e PFP) caso apresentem sintomas sugestivos de envolvimento pulmonar, como tosse, dispneia ou baqueteamento digital (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973714/).

A associação com neoplasias malignas é outro ponto importante na avaliação dos portadores de MII (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37945774/). Com exceção da MCI e das MII juvenis, todos os outros subtipos de MII apresentam risco aumentado de câncer (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26190563/). Uma coorte que acompanhou pacientes por um período médio de 7 anos mostrou que até 25% dos pacientes com diagnóstico de MII desenvolveu alguma neoplasia maligna durante o seguimento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26190563/). O risco inicia anos antes do diagnóstico da MII, e persiste mesmo após 5 anos embora o período de maior risco seja nos primeiros 3 anos após o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16010208/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27247435/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27534779/). 

Pacientes com MII costumam apresentar cânceres em estágios mais avançados quando comparados à população geral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27247435/). As localizações e os tipos de neoplasias variam conforme diferentes estudos. São recorrentes as menções dos seguintes tipos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27247435/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26190563/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27534779/):

  • Pele: melanoma, não melanoma
  • Vias aéreas: nasofaringe, traquéia, pulmões 
  • TGI: esôfago, estômago, pâncreas, colorretal
  • Ginecológicos: mama, ovário, colo uterino
  • Próstata
  • Hematológicos: Linfoma não-Hodgkin, mieloma múltiplo

Uma diretriz publicada em 2023 recomenda que todos os portadores de MII passem por estratificação inicial do risco de câncer (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37945774/). A investigação complementar deve se basear na categoria de risco em que o paciente se enquadra, conforme apresentado no fluxograma 1 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37945774/).

[tabela id=2099 index=7]

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