Carvão Ativado em Intoxicações Exógenas: Como Fazer
O carvão ativado é o método de descontaminação mais frequentemente utilizado em cenários de emergências [1]. Sua indicação depende da substância ingerida, da dose e do tempo desde a intoxicação. Este tópico revisa as principais recomendações da nova diretriz internacional de 2026 e comenta aspectos práticos do tratamento de intoxicações exógenas com carvão ativado [2].
Técnicas de descontaminação gástrica e eliminação de toxinas
A descontaminação gastrointestinal é o conjunto de estratégias que visam a reduzir o efeito tóxico de uma substância ingerida por meio da redução de sua absorção sistêmica [3]. Os principais métodos de descontaminação podem ser divididos em carvão ativado, lavagem gástrica, irrigação intestinal e alcalinização da urina e desobstrução com endoscopia digestiva alta (EDA) para remoção de corpos estranhos (tabela 1) [1].
O uso do carvão ativado consiste na administração oral ou por sonda de uma suspensão do medicamento. Pode ser utilizado em dose única ou em múltiplas doses, com o objetivo de aumentar o tempo de adsorção da substância tóxica e impedir a absorção pela mucosa gastrointestinal [2].
A lavagem gástrica consiste na introdução de uma sonda orogástrica de grosso calibre (32-36 fr em adultos) até o estômago, seguida de instilação e aspiração repetida de alíquotas de volume (geralmente água morna) com cerca de 250-500 mL. Não é recomendada para realização de rotina, devido ao risco de broncoaspiração e perfuração, e está contraindicada em casos de ingestão de cáusticos e hidrocarbonetos [2]. Sua indicação é restrita a casos de ingesta de substâncias em doses potencialmente letais, em menos de uma hora do ocorrido [2,3].
A lavagem gástrica difere da irrigação intestinal que consiste na administração contínua de solução de polietilenoglicol (PEG) isotônica por sonda nasogástrica, em volumes elevados (1.000 a 2.000 mL/h em adultos). O mecanismo é a limpeza mecânica de todo o trato gastrointestinal, "empurrando" a substância tóxica ao longo do intestino de modo a evitar absorção significativa. É reservada para substâncias não adsorvidas pelo carvão (como ferro, lítio e chumbo), formulações de liberação prolongada ou com revestimento entérico, além de pacientes que ingeriram pacotes com drogas ilícitas (body packers). Está contraindicada em casos de obstrução intestinal, íleo paralítico, perfuração e instabilidade hemodinâmica [1,3].
Pacientes com risco de intoxicação por salicilatos podem ter benefício do uso da alcalinização urinária, que consiste na infusão intravenosa de bicarbonato de sódio com o objetivo de elevar o pH urinário para ≥ 7,5. O mecanismo baseia-se no princípio de ion trapping: substâncias que são ácidos fracos (como salicilatos e fenobarbital) tornam-se ionizadas em urina alcalina, o que impede sua reabsorção tubular renal e acelera sua eliminação na urina. Requer monitorização frequente de pH urinário, potássio sérico (a hipocalemia impede a alcalinização urinária) e pH arterial (manter < 7,6). Está contraindicada em caso de insuficiência renal, edema pulmonar e edema cerebral [1].
Em casos de ingesta de corpos estranhos como baterias ou pacotes de drogas ilícitas, o uso de EDA e cirurgia pode ser necessário para condições de obstrução intestinal, perfuração ou presença de pacotes em grande quantidade com risco elevado de ruptura [3].
Estão contraindicados o uso de métodos para indução de vômitos, como o xarope de ipeca e de catárticos isolados [1,3].
Para escolha do método de descontaminação, deve-se responder a três perguntas [2,3]:
- Tempo desde a ingestão: a substância ainda está no trato gastrointestinal em quantidade suficiente para que a descontaminação traga benefício?
- Quantidade ingerida: a dose é potencialmente tóxica? Ingestões em quantidade subterapêutica ou não tóxica não justificam o procedimento.
- Contraindicações: existem condições que tornam a descontaminação mais arriscada do que benéfica (via aérea desprotegida, obstrução intestinal, ingestão de cáusticos)?
A decisão deve considerar a substância ingerida, a formulação (liberação imediata ou prolongada), a gravidade esperada e a disponibilidade de antídotos ou outros tratamentos.
Para detalhes sobre intoxicações específicas e seus respectivos antídotos, veja os tópicos "Intoxicações Ameaçadoras à Vida", "Consenso de Intoxicação por Paracetamol", "Intoxicação por Antidepressivos e Síndrome Serotoninérgica", "Intoxicação por Varfarina" e "Intoxicação por Metanol".
Carvão ativado: indicações e estratégias
O carvão ativado é um pó negro, não absorvível, com enorme área de superfície (entre 1.000 e 3.000 m² por grama). Essa superfície permite a adsorção de moléculas, reduzindo a quantidade da substância tóxica livre disponível para absorção pela mucosa gastrointestinal e formando um produto eliminado nas fezes.
Em junho de 2026, a Clinical Toxicology Recommendations Collaborative, formada por três sociedades de toxicologia clínica internacionais, publicou recomendações para o manejo de intoxicações por meio da administração de carvão ativado para descontaminação gastrointestinal e eliminação aprimorada (enhanced elimination) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
O consenso definiu três regimes distintos de uso do carvão ativado:
- Carvão ativado em dose única (SDAC): uma dose padrão é administrada com o objetivo de prevenir a absorção da substância tóxica presente no trato gastrointestinal. É o regime mais utilizado na prática clínica.
- Carvão ativado em dose adicional (ADAC): uma segunda dose padrão é administrada para aumentar a proporção carvão/tóxico e prevenir a absorção contínua de substâncias que permanecem no trato gastrointestinal por tempo prolongado, como formulações de liberação modificada. Esse conceito é novo e foi introduzido por esse consenso. As substâncias para as quais a dose adicional é apropriada incluem carbamazepina, paracetamol, paraquat, fenobarbital, salicilatos, tálio, teofilina, ácido valproico e verapamil.
- Carvão ativado em doses múltiplas (MDAC): doses repetidas são administradas com o objetivo de aumentar a eliminação de substâncias já absorvidas que possuem circulação êntero-hepática ou êntero-entérica (enhanced elimination). Nesse mecanismo, o carvão presente no lúmen intestinal cria um gradiente de concentração que favorece a difusão passiva do tóxico do sangue de volta para o intestino. As principais indicações são intoxicações graves por carbamazepina, fenobarbital, teofilina, digitálicos, colchicina, dapsona, fenitoína e tálio.
O carvão ativado é eficaz para a maioria dos medicamentos e substâncias orgânicas. A tabela 2 resume as principais substâncias tóxicas para as quais o carvão ativado é apropriado e aquelas para as quais é ineficaz, incluindo a dose mínima da substância considerada potencialmente tóxica, o tempo máximo após a ingestão com evidência de benefício e a estratégia recomendada (dose única, dose adicional ou doses múltiplas) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/). É possível baixar esse arquivo aqui.
Com exceção do paracetamol, que possui nível moderado de evidência (Grade B), todas as demais recomendações de uso do carvão ativado são baseadas em evidência de nível baixo ou muito baixo (Grade C e D) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/). Os estudos de maior qualidade avaliaram paracetamol, fenobarbital, carbamazepina, digitálicos, salicilatos, teofilina, antidepressivos tricíclicos e valproato (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34424785/).
Janela de administração
Historicamente, a administração do carvão ativado era recomendada apenas na primeira hora após a ingestão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9482427/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15822758/). Nas últimas décadas, estudos com fármacos mais novos e formulações de liberação modificada demonstraram que substâncias tóxicas, principalmente quando ingeridas em maiores quantidades, persistem no trato gastrointestinal por horas após a ingestão, permanecendo acessíveis à descontaminação. Além disso, estudos com voluntários e em pacientes intoxicados mostraram redução clinicamente significativa da exposição à substância tóxica com o uso de carvão ativado mesmo além da primeira hora (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39821212/).
Uma metanálise de estudos em voluntários saudáveis demonstrou que o carvão ativado é capaz de reduzir a exposição ao tóxico em pelo menos 25% até 4 horas após a ingestão, com eficácia ainda maior quando administrado mais precocemente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19194372/). Estudos com os inibidores do fator Xa apixabana e rivaroxabana demonstraram eficácia do carvão ativado em voluntários humanos até 6 a 8 horas após a ingestão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24277644/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27910037/).
As recomendações do Clinical Toxicology Recommendations Collaborative (2026) ampliaram significativamente a janela. Para muitas substâncias, o carvão ativado é apropriado até 4 a 6 horas após a ingestão de formulações de liberação imediata, com base em uma avaliação individualizada de risco (tabela 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
Em caso de suspeita de absorção prolongada, como em suspeita de formação de farmacobezoares, formulações de liberação prolongada ou entérica ou quantidade de droga que excede os limites de solubilidade, o carvão ativado pode ser administrado mesmo após 6 horas da ingestão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
Essa abordagem foi incorporada nas diretrizes mais recentes da Austrália e Nova Zelândia, que recomendam o uso rotineiro de carvão ativado até 2 horas após a ingestão de formulações de liberação imediata e até 4 horas após a ingestão de formulações de liberação modificada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33124195/).
Prescrição de carvão ativado, efeitos colaterais e complicações
Ao indicar o carvão ativado, deve-se atentar para a dose, via de administração, estratégia proposta e possíveis contraindicações ou complicações (fluxograma 1).
Dose
- Carvão ativado em dose única e dose adicional: 50 g em adultos (ou 1 g/kg até 50 g) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
- Carvão ativado em dose adicional: mesma dose da dose única. A dose adicional pode ser administrada para completar a descontaminação em qualquer ponto do tempo após a dose única inicial quando houver evidência ou suspeita de absorção prolongada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
- Carvão ativado em doses múltiplas (eliminação aprimorada): dose inicial igual ao esquema em dose única em adultos, seguida da mesma dose a cada 4 horas ou metade da dose a cada 2 horas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
Apresentações disponíveis no Brasil e preparo
No Brasil, o carvão vegetal ativado para uso hospitalar é geralmente disponível em pó para suspensão oral (envelopes de 25 g e 50 g) (https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sectics/rename/, https://prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/atencao_basica/rela%C3%A7%C3%A3o-municipal-de-medicamentos-remume/). A proporção habitual é de aproximadamente 250 mL de água para cada 25 a 50 g de carvão ativado, formando uma suspensão. Para melhorar a palatabilidade, estudos demonstraram que a mistura com refrigerante de cola ou leite achocolatado pode aumentar a aceitação sem reduzir a eficácia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42484358/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10639545/). Não se recomenda diluir em soro fisiológico.
Via de administração
A via preferencial é a via oral, com o paciente ingerindo a suspensão voluntariamente. Essa é a forma mais segura e com menor risco de complicações.
Quando o paciente não consegue ou não aceita ingerir o carvão ativado por via oral, a administração pode ser feita por sonda nasogástrica (SNG) ou sonda orogástrica (SOG). No entanto, as recomendações de 2026 estabelecem que a passagem de sonda não deve ser realizada exclusivamente para administrar carvão ativado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
Contraindicações, efeitos adversos e complicações
O uso do carvão ativado está contraindicado na presença de via aérea comprometida, sinais de obstrução intestinal ou ingesta de substâncias cáusticas e não adsorvidas pelo carvão (tabela 3) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/).
Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos e constipação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10639545/). Cerca de 15% podem apresentar esses sintomas e são mais comuns com o uso de doses repetidas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20537361/).
A broncoaspiração e pneumonia aspirativa são as complicações mais temidas. Em um estudo prospectivo, broncoaspiração ocorreu em 6 de 575 pacientes (1%) e pneumonia em 2 (0,3%). O risco é significativamente maior em pacientes inconscientes e não intubados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20537361/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39798953/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12505738/).
Dados experimentais indicam que o carvão aspirado pode causar lesão do parênquima pulmonar, pneumonite ou bronquiolite obliterante. A instilação inadvertida de carvão por posicionamento incorreto de sonda no trato respiratório pode ser fatal se administrado nos pulmões (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10639545/).
Quando consultar um centro de intoxicações ou toxicologista
As principais diretrizes sobre o tema recomendam o contato com um Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), Centro de Controle de Intoxicações (CCI) ou toxicologista clínico local diante de qualquer caso de intoxicação aguda em que haja dúvida sobre a indicação, o momento ou a segurança da descontaminação gastrointestinal, incluindo a administração de carvão ativado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41906697/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38393798/).
Os centros de intoxicações funcionam 24 horas por dia e são compostos por profissionais com formação especializada em toxicologia clínica. Oferecem suporte para decisões sobre descontaminação, indicação e dosagem de antídotos e necessidade de métodos de eliminação extracorpórea.
No Brasil, o contato pode ser feito pelo DISQUE-INTOXICAÇÃO (0800-722-6001), que funciona 24 horas, ou diretamente com os CIATox ou CCI regionais. A lista atualizada dos centros está disponível no site da Associação Brasileira de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (ABRACIT) e no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Aproveite e leia
- Introdução e quando suspeitar
- Manifestações clínicas
- Diagnóstico
- Manejo
- Pacientes em uso de varfarina com sangramento
- Quando retornar a varfarina após o sangramento?
- RNI supraterapêutico sem sangramento
- Investigação da causa do sangramento e causa da alteração do RNI
- Identificação da intoxicação e suporte inicial
- Betabloqueadores e bloqueadores de canais de cálcio
- Opioides
- Benzodiazepínicos
- Outros destaques da diretriz
- Características da intoxicação por paracetamol
- Avaliação diagnóstica da intoxicação por paracetamol
- Manejo da intoxicação pelo paracetamol
- Quando considerar o transplante hepático?
- Intoxicação por inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS)
- Síndrome serotoninérgica
- O que o estudo encontrou?