Hiperplasia Prostática Benigna: Nova Diretriz de 2026
Os sintomas de hiperplasia prostática benigna (HPB) afetam 1 em cada 4 homens. A American Urological Association (AUA) lançou em 2026 novas diretrizes sobre o manejo de HPB. Este tópico revisa o tema e traz atualizações da diretriz.
Avaliação clínica
Anamnese
Os pacientes com HPB podem apresentar um conjunto de sintomas urinários chamados de LUTS (Lower Urinary Tract Symptoms). Prostatismo é um termo em desuso para se referir ao que hoje é chamado de LUTS [1]. Eles afetam em torno de 15% dos homens entre 40 e 49 anos e quase 40% dos homens acima de 80 anos [2].
Esses sintomas se dividem em três categorias [3]:
- Armazenamento: ocorrem quando a bexiga está cheia, como polaciúria, noctúria, urgência e incontinência urinária
- Esvaziamento: ocorrem durante a micção, como hesitação, disúria, esforço para urinar, jato lento e intermitente e retenção urinária
- Pós-esvaziamento: ocorrem após a micção, como sensação de esvaziamento incompleto e gotejamento urinário
A AUA recomenda o uso de questionários, como o International Prostate Symptom Score (IPSS), para avaliar a gravidade dos sintomas e resposta ao tratamento dos pacientes [4] (tabela 1). Uma pontuação menor do que 8 indica sintomas leves, de 8 a 19, moderados, e de 20 a 35, graves. Você pode baixar o arquivo do IPSS em português aqui.
É importante questionar sobre comorbidades e uso de medicações para diagnóstico diferencial e avaliação de condições que possam exacerbar os sintomas de LUTS (tabela 2) [3]. Também deve-se avaliar possíveis complicações da HPB, como cálculos vesicais, hematúria e retenção urinária.
Exame físico
Pode incluir:
- Palpação do abdome
- Avaliação do meato uretral e pênis para sinais de lesão, fibrose ou estenose
- Toque retal digital para avaliar tônus pélvico, dor, retenção fecal e estimativa do tamanho da próstata.
A próstata é considerada aumentada a partir de aproximadamente 30 cc (equivalente a 30 g ou 30 ml) [3]. O toque retal não tem boa acurácia para estimar o tamanho da próstata abaixo de 50 cc e não deve ser usado isoladamente para decisões clínicas [5].
A medida da próstata é utilizada na indicação dos inibidores da 5-alfa-redutase. O tamanho da próstata não se correlaciona com a gravidade dos sintomas ou com a obstrução urodinâmica [6,7].
Exames Complementares
Os exames complementares podem ser solicitados para auxiliar no diagnóstico diferencial e acompanhamento dos pacientes com HPB, conforme descrito no fluxograma 1.
Exames de imagem
Os exames de imagem da próstata são indicados para planejamento cirúrgico ou diagnóstico e acompanhamento de HPB (tabela 3). A diretriz da AUA 2026 refere que não há diferença significativa em utilizar ultrassonografia abdominal ou transretal, tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/).
A ultrassonografia de próstata avalia a anatomia da próstata, sinais de esforço urinário e resíduo miccional (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35487713/).
Avaliação de obstrução urinária
A HPB pode levar à retenção urinária aguda ou crônica. A avaliação de sinais de obstrução vesical pode ser feita de três formas: medidas de resíduo pós-miccional, urofluxometria ou estudo urodinâmico.
A medida do resíduo pós-miccional está indicada antes de procedimentos cirúrgicos (opinião de especialistas) e pode ser considerada no acompanhamento dos pacientes (princípio clínico). Pode ser avaliado por ultrassonografia ou por cateterização após o término da micção (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/).
Resíduos pós-miccionais > 300 mL em duas medidas com pelo menos 6 meses de intervalo sugerem retenção urinária crônica e a cirurgia pode ser considerada nesses casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28163030/).
Não há consenso sobre níveis considerados perigosos para indicação de abordagem imediata. A medida da parede do detrusor ≥ 2mm também pode sugerir retenção urinária crônica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17207910/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12010318/). Leia mais em "Sondagem Vesical e Retenção Urinária no Paciente Internado".
A urofluxometria também pode ser considerada no acompanhamento dos pacientes. O paciente deve urinar em um funil equipado com sensores que medem a velocidade, o volume e a duração do fluxo urinário (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30614059/). A principal medida é o Qmax, que avalia o pico do fluxo urinário durante a micção e pode indicar sinais de obstrução da saída vesical se < 15 ml/s. Contudo, não é capaz de diferenciar de outras causas de hipofluxo urinário, como hipoatividade do detrusor.
O estudo urodinâmico é o padrão-ouro para diagnosticar obstrução da saída vesical. A AUA indica o exame nos casos de dúvida diagnóstica ou refratariedade (opinião de especialistas) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/).
É feito pela cateterização da uretra e do reto com medidas de pressão, fluxo e resíduo pós-miccional durante enchimento vesical e micção. É um exame pouco disponível, de custo elevado e invasivo. O seu uso não reduziu cirurgia em relação aos cuidados habituais no ensaio clínico UPSTREAM (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32616406/).
Exames urinários
A AUA recomenda urina tipo 1 na avaliação inicial de todos os pacientes (princípio clínico). A presença de hematúria, proteinúria e glicosúria pode sugerir diagnósticos diferenciais de LUTS. Urocultura deve ser solicitada se houver sintomas típicos de infecção urinária, como início agudo de disúria (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/).
Antígeno Prostático Específico (PSA)
Pode ser solicitado para diagnóstico e prognóstico após decisão compartilhada com o paciente (opinião de especialistas) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/). Sua acurácia é superior ao toque retal para estimar o tamanho da próstata (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15548443/). Um valor >2ng/mL sugere aumento do volume prostático (> 30 cc) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14644122/). Pode predizer também risco de retenção urinária (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10096369/).
Nos casos em que o PSA estiver acima de 3 ou 4 ng/mL, o paciente deve ser avaliado para câncer de próstata. Veja mais em "Rastreio de Câncer de Próstata".
Diagnóstico diferencial
Alguns achados sugerem a pesquisa de diagnósticos diferenciais de LUTS (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/):
- Sintomas que não melhoram apesar de Qmáx crescente ou persistentemente elevado (≥ 12 mL/s) e baixo resíduo pós-miccional.
- Pequeno volume prostático (<30 cc) ou PSA baixo.
- Presença de multimorbidade significativa, fragilidade ou polifarmácia.
- Predomínio de noctúria ou de sintomas de armazenamento (storage LUTS).
A cistoscopia tem como objetivo avaliar diagnósticos diferenciais, como estenose de uretra e neoplasia urotelial. Pode ser considerada nos casos de piora dos sintomas urinários, hematúria nova ou no pré-operatório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/).
Tratamento farmacológico
A diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) de 2026 recomenda terapia medicamentosa para pacientes com LUTS moderada a grave (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41997777/). Pode ser feita com as seguintes medicações de forma isolada ou combinada (tabela 4):
- Alfa-bloqueadores para controle de sintomas
- Inibidores da 5-alfa-redutase para controle de sintomas, redução do risco de retenção urinária e cirurgia, em pacientes com próstatas aumentadas.
- Tadalafila para controle de sintomas
- Agonistas beta-3 e anticolinérgicos para controle de sintomas de armazenamento
[tabela id=2159 index=5]
As diretrizes americanas e europeias não especificam quando preferir cada uma das drogas ou quando utilizar terapias combinadas. É importante atentar que a adesão aos medicamentos na HPB é de menos de 30% em um ano, sendo pior para pacientes em terapia combinada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26391357/).
A reavaliação de sintomas usando escores padronizados (como o IPSS) e de efeitos adversos deve ser feita a cada 6 meses (princípio clínico).
Alfa-bloqueadores
Os alfabloqueadores urosseletivos, como alfuzosina, silodosina ou tansulosina, são a primeira linha de tratamento para pacientes com LUTS (recomendação forte, nível de evidência A). Essas medicações apresentam rápido início de ação e baixa incidência de eventos adversos graves (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27336104/). Podem reduzir sintomas e melhorar o fluxo urinário, porém não reduzem retenção urinária ou necessidade de cirurgia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14681504/).
A eficácia dos diferentes alfa-bloqueadores é similar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27336104/). Caso o paciente não responda ao tratamento, outras classes de drogas podem ser tentadas. A troca entre alfa-bloqueadores é recomendada apenas em caso de efeitos adversos.
Doxazosina não é considerada primeira escolha por causar maiores taxas de hipotensão ortostática e tontura, apesar de eficácia semelhante (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26678956/). Ela pode ser mantida se o paciente que já a utiliza apresentar boa tolerância.
Inibidores da 5-alfa-redutase
A diretriz da AUA recomenda inibidores da 5-alfa-redutase para pacientes com próstata aumentada (> 30 cc e/ou PSA > 1,5 ng/mL) para alívio de sintomas (recomendação moderada, nível de evidência A) e redução do risco de progressão da doença (princípio clínico). A diretriz europeia usa como ponto de corte próstatas > 40 cc (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41997777/). São sugeridos também para hematúria prostática, apesar de menor grau de evidência.
Ensaios clínicos prévios encontraram que essas medicações reduzem pela metade o risco de retenção urinária e cirurgia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9475762/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12350480/). A dutasterida e a finasterida têm benefícios semelhantes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21631695/).
A diretriz da AUA recomenda informar os pacientes de que é improvável que os inibidores da 5-alfa-redutase aumentem o risco de progressão do câncer de próstata (opinião de especialistas). Os estudos PCPT e REDUCE encontraram redução na incidência de neoplasia de próstata, porém com aumento nos tumores de alto grau (escore de Gleason ≥ 8). (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12824459/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20357281/). Não houve diferença de mortalidade no seguimento de 18 anos do PCPT (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23944298/).
Os inibidores da 5-alfa redutase reduzem o PSA em torno de 50% após cerca de 3 a 6 meses de uso, podendo impactar na interpretação de rastreio de neoplasia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9649261/).
Outras medicações
A tadalafila pode ser usada para pacientes com LUTS com ou sem disfunção erétil (Recomendação moderada, nível de evidência B). Ela melhora os sintomas e a qualidade de vida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22405510/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27336104/). A diretriz europeia recomenda priorizar seu uso em pacientes com disfunção erétil associada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41997777/).
Anticolinérgicos e agonistas beta-3 podem ser utilizados isoladamente ou associados a um alfabloqueador para pacientes com sintomas de armazenamento predominantes (recomendação condicional, evidência C). Essas medicações podem agravar a retenção urinária, com contraindicação relativa para pacientes com resíduo pós-miccional superior a 150 a 200 mL. Os critérios de Beers da Sociedade Americana de Geriatria orientam priorizar agonistas beta-3 e evitar anticolinérgicos pelo melhor perfil de segurança (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40697073/). Veja mais em "Critérios de Beers de 2023 e Prescrição Segura em Idosos".
A diretriz europeia considera que fitoterápicos possam ser uma opção de tratamento conforme a preferência do paciente, considerando o baixo risco de efeitos adversos. Contudo, a diretriz americana não traz recomendações sobre essa classe.
Uma meta-análise da Cochrane demonstrou ausência de benefício com essas medicações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37345871/).
Terapias combinadas
A terapia combinada de alfa-bloqueadores e inibidores da 5-alfa-redutase reduziu o risco de retenção urinária e cirurgia em ensaios clínicos como CombAT e CONDUCT (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21502969/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25565364/). Entretanto, a melhora sintomática é discreta em relação à monoterapia e há maior custo e risco de efeitos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41764570/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25216271/).
A combinação de tadalafila e alfabloqueadores é recomendada como opção, baseada em múltiplos estudos que demonstraram melhora dos sintomas em relação ao uso dessas drogas isoladamente (recomendação condicional, nível de evidência C) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35773357/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27336104/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27928815/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28760246/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21602833/). Uma meta-análise em rede de 2014 sugere que a combinação de tadalafila com alfabloqueadores possa reduzir discretamente mais os sintomas comparada aos demais tratamentos, embora não seja abordada pela diretriz (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25216271/).
A diretriz não comenta sobre a combinação dos três medicamentos. É controverso o impacto da suspensão de uma das drogas após um período de terapia combinada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38149792/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24332123/).
Tratamento não farmacológico e cirúrgico
Não farmacológico
Está indicado para todos os pacientes com LUTS, associado ou não à terapia medicamentosa (recomendação moderada, nível de evidência B). É a primeira linha de tratamento por sua facilidade e baixo risco de malefícios.
As principais medidas indicadas pela diretriz estão na tabela 5. Envolvem controle de comorbidades, exercícios pélvicos e redução de possíveis desencadeantes.
O manejo comportamental parece ter efeito semelhante ou superior aos medicamentos no controle de LUTS (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33685877/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22092152/).
Cirúrgico
A AUA recomenda o tratamento cirúrgico nos seguintes casos (princípio clínico) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/):
- Insuficiência renal pós renal por HPB
- Retenção urinária refratária por HPB
- Infecções recorrentes do trato urinário
- Cálculos vesicais recorrentes
- Hematúria macroscópica recorrente ou significativa
- Refratariedade ao tratamento
- Desejo do paciente de não utilizar outras terapias.
O impacto dos sintomas na qualidade de vida do paciente deve ser um dos elementos na indicação cirúrgica.
A ressecção transuretral da próstata é a técnica mais utilizada. A decisão do método cirúrgico envolve a experiência dos urologistas com diferentes tecnologias, risco cirúrgico, anticoagulação, prioridade do paciente em preservar ejaculação e dados anatômicos prostáticos como volume, presença de lobo médio e elevação do colo vesical (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42095481/). Procedimentos que removem mais tecido tendem a oferecer maior durabilidade e menor retratamento, enquanto técnicas poupadoras de tecido tendem a preservar melhor a ejaculação, mas com maior chance de retratamento.
A tabela 6 resume os métodos e suas principais vantagens e desvantagens.
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