Diagnóstico da Doença de Parkinson

Criado em: 07 de Setembro de 2026 Autor: Revisor: Raphael Coelho

A doença de Parkinson aumentou em prevalência nas últimas décadas [1]. Pode se manifestar com sintomas motores e não motores, que precisam ser diferenciados de doenças mimetizantes para tratamento correto [2]. Este tópico aborda os sintomas, a investigação, os critérios diagnósticos e sinais de alarme para diagnósticos diferenciais da doença de Parkinson.

O que é Parkinsonismo e doença de Parkinson?

Parkinsonismo é um termo utilizado para uma síndrome motora caracterizada por bradicinesia, tremor de repouso e/ou rigidez, podendo incluir instabilidade postural [3-5].

A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa que apresenta degeneração de neurônios dopaminérgicos da substância nigra e se caracteriza por sintomas motores e não motores [5,6].

A DP é a principal causa de parkinsonismo, representando até aproximadamente metade dos casos [7,8]. Outras causas incluem parkinsonismo induzido por drogas, doenças cerebrovasculares e doenças do grupo do parkinsonismo atípico, como atrofia de múltiplos sistemas (AMS), paralisia supranuclear progressiva (PSP) e degeneração corticobasal (DCB) [7,8]. A tabela 1 traz diagnósticos diferenciais de parkinsonismo e a tabela 2, os medicamentos associados ao parkinsonismo [2].

Tabela 1
Causas de parkinsonismo secundário.
Causas de parkinsonismo secundário.
Tabela 2
Medicamentos selecionados associados a parkinsonismo induzido por drogas.
Medicamentos selecionados associados a parkinsonismo induzido por drogas.

A DP costuma ser identificada entre 65 e 70 anos com o pico da incidência entre 80 e 84 anos [3,5,9,10]. Cerca de 25% dos pacientes adoecem antes dos 65 anos, 5 a 10% antes dos 50 anos [5] e menos de 5% antes dos 40 anos [9]. 

A DP é classificada como de início precoce quando iniciada antes dos 40 a 50 anos, sendo mais comum em doenças genéticas monogênicas. Nessa idade, diagnósticos diferenciais devem ser avaliados, como doenças genéticas, metabólicas (por ex. doença de Wilson), medicamentosas, tóxicas e estruturais [2,5].

Manifestações clínicas

A DP é uma doença progressiva e os sintomas motores cardinais são bradicinesia, rigidez e tremor de repouso [5,11]. Incluem constipação, dor, hiposmia, distúrbios do sono (em especial, o transtorno comportamental do sono REM ou TCSREM), sintomas neuropsiquiátricos e declínio cognitivo [5]. São chamados de prodrômicos quando precedem os sintomas motores [3-6] (tabela 3). 

Tabela 3
Sintomas da doença de Parkinson.
Sintomas da doença de Parkinson.

Subtipos da doença de Parkinson

A DP tem apresentações variáveis e pode ser classificada em subtipos, com prognósticos diferentes [3].

Por fenótipo, pode ser classificada em tremor-predominante, rígido-acinética ou instabilidade postural com alteração de marcha (do inglês, postural instability-gait disturbance ou PIGD). A forma tremor-predominante é associada à progressão mais lenta e menor declínio cognitivo [2,4].

Uma proposta de classificação recente identificou três fenótipos [3,12-14]:

  • Predomínio motor leve (49-53%): idade de início mais jovem (média de 58 anos), sintomas motores predominantes, sintomas não motores leves, progressão lenta e melhor resposta à levodopa;
  • Difuso maligno (9-16%): sintomas motores mais graves com problemas de marcha mais precoces e de evolução rápida, pior resposta à levodopa, maior frequência de TCSREM, declínio cognitivo leve e hipotensão ortostática;
  • Intermediário (35-39%): caracterizada por uma resposta moderada a boa à levodopa e progressão mais lenta da doença em relação ao fenótipo difuso.

 
Não existe consenso sobre uma classificação de subtipos clínicos da DP. Os fenótipos podem mudar ao longo da evolução e diferentes métodos de análise produzem agrupamentos distintos. Essas classificações são mais úteis para pesquisa e para estimativa prognóstica [2].

Sintomas motores: bradicinesia, rigidez, tremor e instabilidade postural

O início dos sintomas motores costuma ser assimétrico e predominar em membros superiores [15]. Instabilidade postural é mais comum em fases tardias [16-20].

Na DP, os pacientes geralmente apresentam resposta clara e sustentada à terapia dopaminérgica, ao contrário de parkinsonismos atípicos [11,16]. Pode ocorrer discinesia induzida por levodopa, caracterizada por movimentos anormais e involuntários em resposta ao tratamento, que é critério de suporte ao diagnóstico de DP, segundo a Movement Disorder Society (MDS) [4,16]. 

A tabela 4 traz orientações adaptadas da Movement Disorder Society (MDS) para a avaliação dos principais sintomas motores da doença de Parkinson.

Tabela 4
Exame neurológico no paciente com suspeita de doença de Parkinson.
Exame neurológico no paciente com suspeita de doença de Parkinson.

Sintomas motores cardinais

Bradicinesia é definida como lentidão de movimento combinada à redução de amplitude e/ou velocidade à medida que o movimento é continuado [16]. O paciente pode queixar-se de lentidão nas tarefas diárias e diminuição de destreza manual fina, como ao abotoar a camisa ou manusear talheres [17]. Diagnósticos diferenciais incluem fraqueza motora, lentificação psicomotora (psíquica ou associada a declínio cognitivo) e condições sistêmicas como hipotireoidismo [21,22]. 

Rigidez é a resistência ao movimento passivo das articulações, contínua e uniforme, independentemente da velocidade [16]. Na DP, é caracterizada pelo aspecto de "cano de chumbo" [17]. Pode acometer articulações proximais e distais e manifestar-se como dor, sendo confundida com problemas ortopédicos [23,24]. A manobra de coativação pode aumentar a sensibilidade de casos leves e consiste na realização de movimentos voluntários no membro contralateral [17]. Também pode ocorrer o fenômeno da "roda denteada", com interrupções intermitentes e bruscas à movimentação passiva, mas que não configura isoladamente rigidez [16,25]. Um diagnóstico diferencial de rigidez é a espasticidade, que também é uma forma de hipertonia (tabela 5) [26].

Tabela 5
Diferenciação entre rigidez e espasticidade.
Diferenciação entre rigidez e espasticidade.

O tremor de repouso costuma ser distal, unilateral, e com frequência de 4 a 6 Hz [16]. A tremulação em pronação-supinação, como contar moedas, é típica da DP [17]. Pode haver também tremor de mandíbula e membros inferiores [17]. Tipicamente, o tremor é suprimido durante o movimento e no sono [16,17]. Tremor cinético (associado ao movimento) e postural (associado à postura sustentada) não são definidores da DP, mas podem ocorrer em até metade dos pacientes [16,27]. O tremor reemergente pode ocorrer quando o tremor de repouso, suprimido ao se assumir uma nova postura, retorna após segundos de latência com os braços estendidos horizontalmente [16,17].

Apesar de cardinal, o tremor pode estar ausente em até 20 a 30% dos pacientes [3,15,17]. Um diagnóstico diferencial é o tremor essencial que costuma ser mais rápido (5-10 Hz). Características que favorecem tremor essencial incluem predomínio postural ou no movimento, maior simetria, acometimento cefálico ou vocal e ausência de outras manifestações parkinsonianas [17].

Instabilidade postural e marcha

Instabilidade postural é caracterizada pela redução de reflexos posturais e dificuldade de recuperar o equilíbrio após estímulo externo. Pode ser avaliada pelo "pull-test", no qual o examinador aplica um deslocamento abrupto para trás, pelos ombros do paciente, observando o número de passos corretivos necessários para recuperar o equilíbrio [28]. 

A instabilidade postural é causa frequente de quedas e ambas geralmente ocorrem em fases tardias na DP [11,16,17]. Quedas recorrentes nos primeiros 3 anos da doença são sinais de alarme para parkinsonismos atípicos [2,11,16,17]. Em um estudo retrospectivo, a mediana de tempo entre início dos sintomas e a primeira queda foi de 108 meses na DP, contra 12 na paralisia supranuclear progressiva e 42 na atrofia de múltiplos sistemas [29].

A marcha típica da DP é de passos curtos e base estreita, com viradas "em bloco", redução do balanço passivo dos braços e postura fletida. Pode ocorrer camptocormia, que é uma postura encurvada em ortostase, sem deformidade fixa, que desaparece em posição supina [30,31]. O "freezing" da marcha, caracterizado por hesitação súbita para iniciar, virar ou superar obstáculos, torna-se mais frequente com a progressão da doença [17,31]. A marcha da hidrocefalia de pressão normal (HPN) pode ser diferenciada daquela da DP pelo acometimento predominantemente em membros inferiores. A base é alargada, de passos curtos e aspecto magnético (impressão de estar com os pés “grudados” no chão), enquanto o tremor é incomum e o balanço passivo dos membros superiores tende a estar preservado [2,31].

Sintomas não motores e prodrômicos

Sintomas não motores são muito comuns na DP e reduzem a qualidade de vida [5,32]. Apesar de frequentes na DP, esses sintomas também são comuns na população geral e, isoladamente, apresentam baixa especificidade para o diagnóstico da doença. Em um estudo transversal, os mais frequentes foram fadiga, ansiedade, dor nas pernas, insônia e urgência miccional/noctúria [32]. Uma meta-análise identificou como os mais comuns a hiposmia, constipação, ansiedade, transtorno comportamental do sono REM (TCSREM), depressão e sonolência diurna excessiva [33].

Sintomas cognitivos e neuropsiquiátricos constituem o grupo de sintomas não motores mais prevalentes na DP. Pacientes podem apresentar depressão (35%), ansiedade (30%), apatia (35%), psicose/alucinações (25 a 40%) e sintomas associados à terapia dopaminérgica (14%) [32,34,35]..

A psicose costuma ser leve e piorar em frequência e gravidade durante a evolução da doença [34]. As alucinações são predominantemente visuais, caracterizadas por fenômenos ou ilusões de presença e passagem (sensação de que algo ou alguém está ou passou por perto) [34]. Alucinações complexas precoces (formas de animais ou pessoas bem formadas, por exemplo) sugerem diagnósticos alternativos, como doença por corpos de Lewy (DCL) [11].

Comprometimento cognitivo leve ocorre em até 20% dos pacientes no diagnóstico inicial, com progressão lenta nos primeiros 3 a 5 anos. É caracterizado principalmente por comprometimento de atenção, função executiva e visuoespacial [35]. Demência costuma surgir mais frequentemente em fases tardias e seu início precoce sugere outros diagnósticos [3,5].

Sintomas autonômicos, como hipotensão ortostática, constipação intestinal, disfunção sexual e urinária, e alterações da sudorese podem estar presentes durante todo o curso da doença e são mais intensos em fases avançadas [2,4,4,5,17]. Falência autonômica precoce, com hipotensão ortostática, disfunção termorregulatória, gastrintestinal, erétil e urinária graves sugerem diagnósticos diferenciais, como atrofia de múltiplos sistemas [2-4,17]. 

Sintomas prodrômicos podem iniciar décadas antes do diagnóstico e progredir mesmo após o início dos sintomas motores [6,36]. Em um estudo retrospectivo, 98,8% dos pacientes relataram algum sintoma prodrômico, com início médio recordado 10 anos antes do diagnóstico; porém, dada a inespecificidade dos sintomas, estes também podem estar presentes em pacientes sem DP [37]. Uma meta-análise identificou hiposmia (35,5%), depressão (23%), constipação (20%), ansiedade (18,8%) e TCSREM (17,9%) como os sintomas prodrômicos mais prevalentes [33]. A figura 1 ilustra a evolução temporal dos sintomas na DP. 

Figura 1
Linha do tempo dos sintomas na doença de Parkinson.
Linha do tempo dos sintomas na doença de Parkinson.

Exames complementares

O diagnóstico de DP é essencialmente clínico, segundo os critérios diagnósticos atuais da Movement Disorder Society (MDS) [16]. Exames complementares contribuem pouco na definição do diagnóstico dos quadros clínicos típicos, sendo importantes para pacientes com sinais sugestivos de diagnósticos diferenciais ou em situações de dúvida [2,4,5,16].  

Ressonância magnética (RM) de crânio é indicada por alguns autores na presença de sinais de alarme ou critérios de exclusão para DP [5]. É útil para afastar lesões estruturais ou achados sugestivos de parkinsonismos atípicos. RM de crânio com estudo de nigrossomo-1 (NS1) e neuromelanina (NM) são utilizadas para investigar parkinsonismos neurodegenerativos [2,4,5,11]. A RM com pesquisa de NS1 tem sensibilidade de 98% e especificidade de 95% para distinguir pacientes com DP de controles saudáveis [38]. Esse exame não é capaz de distinguir isoladamente DP de outras formas de parkinsonismo degenerativo e são examinador dependente [2,4,38].

A tomografia por emissão de fóton único (SPECT ou Cintilografia cerebral) com radiotraçador direcionado ao transportador de dopamina (DaT) é um exame que pode mostrar captação reduzida nos gânglios da base em parkinsonismos neurodegenerativos (figura 2) [3]. No Brasil, um marcador comum utilizado é o SPECT-TRODAT (99mTc-TRODAT-1). O SPECT é altamente acurado para diferenciar DP de etiologias não degenerativas que apresentam captação normal, como parkinsonismo medicamentoso ou tremor essencial [2,3,3-6]. Esse exame não é capaz de diferenciar etiologias neurodegenerativas de parkinsonismo. [2-4,6]. Nos critérios MDS, imagem funcional normal do sistema dopaminérgico pré-sináptico é critério absoluto de exclusão para DP.

Figura 2
SPECT e ressonância magnética na doença de Parkinson.
SPECT e ressonância magnética na doença de Parkinson.

A cintilografia cardíaca com metaiodobenzilguanidina marcada com iodo-123 (MIBG) pode identificar alterações nas fibras simpáticas pós-ganglionares do coração, que são acometidas na DP e na demência por corpúsculos de Lewy, mas geralmente preservadas em parkinsonismos atípicos [5,39]. É usada em casos de dúvida diagnóstica, e serve como critério de suporte para o diagnóstico de DP [5,16]. A interpretação deve considerar fatores que podem alterar a captação, como insuficiência cardíaca, cardiomiopatia isquêmica, neuropatia autonômica diabética e determinados medicamentos [40].

Anosmia pode ser detectada no teste olfatório e está presente em cerca de 90% dos pacientes com DP. Anosmia confirmada por testes padronizados (UPSIT e “Sniffin Sticks”) é usada como critério de suporte para o diagnóstico de DP [2,5,16]. Dado o baixo custo e facilidade de aplicação, alguns autores sugerem que sejam realizados em todos pacientes com suspeita de DP [2]. 

A polissonografia pode identificar o transtorno comportamental do sono REM (TCSREM), que é fortemente associado ao risco de DP e está presente em aproximadamente 30 a 50% dos pacientes com DP [3,41]. Cerca de metade dos pacientes com TCSREM espontâneo converte para alguma forma de parkinsonismo em uma década e até 90% desenvolvem alguma doença neurodegenerativa durante a vida [41]. Segundo a MDS, TCSREM confirmado por PSG tem razão de verossimilhança positiva (RVP) de 130 e negativa (RVN) de 0,65 para diagnóstico de DP prodrômica. Em comparação, hiposmia confirmada por teste tem RVP de 6,4 e RVN de 0,40 e constipação tem RVP de 2,5 e RVN de 0,82 [42].

A amplificação de sementes de alfa-sinucleína é um exame laboratorial desenvolvido recentemente, de disponibilidade limitada comercialmente no Brasil até a data de publicação deste tópico [2-5]. Avanços em biomarcadores de α-sinucleína motivaram propostas recentes de classificação biológica da doença [43].

Em pacientes com DP de início precoce, com história familiar positiva ou provenientes de populações de alto risco, testes genéticos devem ser considerados [4].
 

Critérios diagnósticos

O diagnóstico definitivo da DP é anatomopatológico [4,5]. 

Em 2015, a Movement Disorder Society (MDS) propôs critérios diagnósticos, direcionados para pesquisa, mas que podem ser utilizados clinicamente para diagnóstico [3,5,16] (fluxograma 1).

Fluxograma 1
Fluxograma para diagnóstico clínico de doença de Parkinson, conforme critérios da Movement Disorder Society (MDS) de 2015.
Fluxograma para diagnóstico clínico de doença de Parkinson, conforme critérios da Movement Disorder Society (MDS) de 2015.

Para diagnóstico clínico de DP, o paciente deve (tabela 6):

  • Obrigatoriamente preencher o critério de parkinsonismo, definido por bradicinesia, associada a tremor de repouso e/ou rigidez
  • Não apresentar qualquer critério de exclusão
Tabela 6
Critérios de exclusão, critérios de suporte e sinais de alarme pelos critérios da MDS 2015.
Critérios de exclusão, critérios de suporte e sinais de alarme pelos critérios da MDS 2015.

Em seguida, avalia-se a quantidade de critérios de suporte e sinais de alarme. Há DP clinicamente estabelecida quando há pelo menos 2 critérios de suporte e nenhum sinal de alarme [16]. A DP é clinicamente provável quando há até 2 sinais de alarme e a mesma quantidade de critérios de suporte, no mínimo.

Sinais de alarme e critérios de exclusão devem ser analisados no contexto adequado, pois podem ocorrer no paciente com Parkinson e outra doença concomitante, como por exemplo um AVC prévio [11,44].

Em um estudo multicêntrico de 2018, em comparação com a opinião de especialistas com mais do que 10 anos de experiência no diagnóstico de DP, os critérios da MDS para diagnóstico de DP clinicamente provável tiveram sensibilidade de 94,5%, especificidade de 88,5%, e acurácia de 92,6%, em comparação com 98,4% de especificidade e 59,3% de sensibilidade para DP clinicamente estabelecida, nos primeiros 5 anos de doença [45].

Outro estudo retrospectivo que utilizou diagnóstico anatomopatológico como padrão-ouro identificou, para os critérios de DP provável, sensibilidade de 87,9% e especificidade de 91,3%, comparado a 58,2% e 99,2% para DP estabelecida [46].

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