Traqueostomia

Criado em: 27 de Setembro de 2026 Autor: Julia Miranda Revisor: João Mendes Vasconcelos

Entre 2011 e 2020, o SUS registrou mais de 170 mil traqueostomias em adultos [1]. Em uma auditoria britânica, 6,3% dos pacientes na enfermaria com uma nova traqueostomia tiveram decanulação acidental ou deslocamento da cânula [2]. O conhecimento de particularidades do dispositivo e a avaliação estruturada de intercorrências fazem parte do cuidado adequado desses pacientes. Esta revisão aborda dispositivos, cuidados de rotina, principais complicações, decanulação programada e outros tópicos sobre o tema.

Indicações e técnicas

Indicações

A traqueostomia cria uma abertura artificial (estoma) na traqueia que permite acesso à via aérea inferior. O estoma é geralmente mantido pérvio pela inserção de uma cânula [3].

As principais indicações de traqueostomia podem ser divididas em três:

  • Ventilação mecânica prolongada: em comparação ao tubo orotraqueal, pode facilitar higiene oral, mobilização, comunicação, manejo de secreções e redução da sedação durante o processo de desmame da ventilação [4-7]. A cânula mais curta também pode reduzir a resistência ao fluxo aéreo e o trabalho respiratório, contribuindo para o desmame [8].
  • Obstrução da via aérea superior: estabelece uma via aérea abaixo do ponto de obstrução, como em tumores, estenoses ou trauma de cabeça e pescoço [9,10].
  • Proteção da via aérea e manejo de secreções: em pacientes com perda persistente dos mecanismos de proteção da via aérea, tosse ineficaz ou incapacidade de eliminar secreções, como em algumas doenças neurológicas [11,12]. A traqueostomia facilita a aspiração de secreções, mas não elimina o risco de broncoaspiração, mesmo com o balonete insuflado.

Quando a indicação é ventilação mecânica prolongada, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) sugerem adiar a traqueostomia por cerca de 10 a 14 dias após o início da insuficiência respiratória aguda [13]. Os estudos apresentam resultados variáveis quanto ao efeito na duração da ventilação, em pneumonia associada à ventilação e à permanência na unidade de terapia intensiva (UTI), sem benefício consistente em mortalidade. Além disso, a capacidade de prever precocemente quais pacientes realmente necessitarão de ventilação prolongada é limitada [14,15].

A realização mais precoce pode ser considerada em pacientes com lesão medular cervical alta e comprometimento respiratório, falhas repetidas de extubação ou via aérea difícil em que uma eventual reintubação seria arriscada. A decisão deve considerar a probabilidade de necessidade prolongada de via aérea artificial e a possibilidade de corrigir os fatores que impedem a extubação.

Técnicas

Existem duas técnicas principais para realização de traqueostomia [16,17]:

  • Traqueostomia cirúrgica aberta: realizada por incisão cervical e dissecção dos planos até exposição direta da traqueia. Em seguida, é realizada a abertura da parede traqueal, habitualmente na altura do segundo e terceiro anéis traqueais, e inserida a cânula.
  • Traqueostomia percutânea por dilatação: realizada por punção da traqueia, geralmente entre o segundo e terceiro anéis traqueais. Em seguida, é passado um fio-guia pela técnica de Seldinger e dilata-se o trajeto até a inserção da cânula.

A traqueostomia percutânea é frequentemente preferida em pacientes críticos com anatomia cervical favorável. Envolve menor dissecção de tecidos e menor incidência de infecção do estoma. A técnica cirúrgica pode ser preferida diante de anatomia cervical desfavorável, como em pacientes com massas ou tumores locais [18-20].

No adulto com falha de intubação por laringoscopia e falha nos métodos de oxigenação, a cricotireoidostomia cirúrgica é o acesso cervical de resgate preferido (figura 1). O acesso pela membrana cricotireoidea estabelece uma via aérea mais rapidamente e com menor dissecção que a traqueostomia [21]. A Sociedade Brasileira de Anestesiologia e a Difficult Airway Society apoiam essa abordagem [22,23]. Se a intubação por laringoscopia falhou, mas a oxigenação puder ser mantida, a escolha do acesso pode ser mais planejada, incluindo a possibilidade de traqueostomia. Após uma cricotireoidostomia, a conversão para traqueostomia pode ser considerada quando houver necessidade de manutenção prolongada da via aérea artificial.

Figura 1
Local do acesso para traqueostomia e cricotireoidostomia.
Local do acesso para traqueostomia e cricotireoidostomia.

Características dos dispositivos

As cânulas de traqueostomia variam em dimensões, material e presença de balonete (cuff), endocânula e fenestrações (figura 2 e tabela 1) [24,25]. Para ventilação com pressão positiva, geralmente são utilizadas cânulas não fenestradas, com balonete e conector compatível com o circuito ventilatório. A endocânula removível facilita o manejo de obstruções por secreções, mas reduz o calibre disponível para passagem de ar.

Figura 2
Exemplos de cânulas de traqueostomia e seus componentes.
Exemplos de cânulas de traqueostomia e seus componentes.
Tabela 1
Componentes da cânula de traqueostomia.
Componentes da cânula de traqueostomia.

Tamanho da cânula

Três medidas devem ser conferidas na placa de fixação, na embalagem ou na ficha técnica (figura 3):

  • Diâmetro interno (ID): calibre do lúmen da cânula. Quanto menor, maior a resistência ao fluxo e menor o espaço disponível para cateteres de aspiração e broncoscópios. Nas cânulas com endocânula, é necessário conferir o diâmetro interno disponível com a endocânula instalada, que pode ser inferior ao ID destacado pelo fabricante.
  • Diâmetro externo (OD): determina quanto espaço a cânula ocupa na traqueia. Um OD excessivo pode traumatizar a parede traqueal e dificultar a passagem de ar ao redor da cânula, necessária para a fonação com válvula de fala e cuff desinsuflado.
  • Comprimento (L): influencia a posição da extremidade distal. Cânulas muito curtas favorecem deslocamento, enquanto as longas demais podem tocar a carina. Pacientes com maior distância entre a pele e a traqueia, como em alguns casos de obesidade ou edema cervical, podem precisar de maior comprimento proximal. Doenças traqueais, como estenose ou traqueomalácia, podem exigir maior comprimento distal.

Figura 3
Medidas da cânula de traqueostomia.
Medidas da cânula de traqueostomia.

A numeração não é padronizada entre modelos e fabricantes. A escolha e a substituição de uma cânula devem considerar suas medidas reais e não o número descrito pelo fabricante. Esta ferramenta permite comparar modelos, incluindo o ID da endocânula.

Material da cânula

As cânulas podem ser confeccionadas em policloreto de vinila (PVC), silicone ou metal.

  • Cânulas de PVC ou silicone: oferecem diferentes configurações de balonete, endocânula, comprimento e flexibilidade. Podem ser utilizadas tanto em traqueostomias temporárias quanto de longa duração [26].
  • Cânulas metálicas: utilizadas principalmente em pacientes estáveis, respirando espontaneamente e com traqueostomia de longa duração. São rígidas, duráveis e, conforme o modelo, reutilizáveis. Geralmente não possuem balonete. O material metálico permite paredes mais finas, o que confere um ID relativamente amplo para o OD. Muitos modelos também não apresentam conector de 15 mm, o que limita a conexão direta ao ventilador e a acessórios. Existem modelos metálicos com esse conector e a compatibilidade deve ser verificada em cada caso [3,24].

Complicações emergenciais: obstrução, deslocamento, decanulação e sangramento

Hemorragia, perda da via aérea (por obstrução, deslocamento ou decanulação) e falso trajeto estão entre as principais causas de óbito relacionado à traqueostomia [27].

Desconsiderando intercorrências do intraoperatório, as complicações com maior potencial de deterioração imediata que podem ser inicialmente atendidas pelo clínico são deslocamento, decanulação acidental, obstrução da cânula e sangramento [28,29]. Outras complicações relevantes incluem infecções e alterações estruturais da traqueia, abordadas abaixo em ‘Outras complicações: infecções e complicações estruturais’ [28,30].

Deslocamento e obstrução da cânula

Obstrução e deslocamento devem ser avaliados conjuntamente diante de deterioração respiratória aguda no paciente com traqueostomia. Podem se manifestar como dispneia, hipoxemia, dificuldade para ventilar, aumento das pressões ventilatórias ou redução do volume corrente.

A obstrução pode ocorrer por secreções, coágulos, tecido de granulação ou impactação da cânula contra a parede traqueal. No deslocamento, a cânula perde sua posição adequada e pode ficar com a extremidade nos tecidos pré-traqueais, mesmo que ainda pareça inserida no estoma. Exteriorização da cânula, grande escape de ar, perda do traçado capnográfico e enfisema subcutâneo reforçam essa suspeita.

A abordagem está no fluxograma 1, com reavaliação do paciente após cada intervenção. A passagem livre de um cateter de aspiração além da extremidade da cânula torna uma obstrução completa menos provável, mas não exclui obstrução parcial ou deslocamento. Se a deterioração persistir, também devem ser consideradas falhas do circuito ventilatório e outras causas clínicas, como pneumotórax e tromboembolismo pulmonar.

Fluxograma 1
Abordagem da dificuldade respiratória aguda em pacientes em uso de traqueostomia.
Abordagem da dificuldade respiratória aguda em pacientes em uso de traqueostomia.

Bougies e outros introdutores rígidos não devem ser utilizados para testar a permeabilidade, pois podem criar um falso trajeto. Também não se deve insistir em ventilação com pressão positiva por uma cânula possivelmente deslocada, pelo risco de insuflar os tecidos cervicais.

A técnica de aspiração e seus cuidados de segurança são descritos na seção “Cuidados com a traqueostomia: aspiração e endocânula”.

Decanulação acidental

A prioridade é manter a oxigenação e acionar ajuda experiente em via aérea. O paciente deve receber oxigênio conforme necessário e permanecer sob monitorização.

O paciente que respira espontaneamente sem esforço e mantém a oxigenação pode aguardar sob monitorização a chegada da equipe que fará a recolocação da cânula. Esse paciente não precisa de intubação apenas porque perdeu a cânula. A ajuda deve ser acionada mesmo na ausência de desconforto, porque o estoma pode estreitar e dificultar a reinserção

O paciente com ventilação insuficiente precisa ser ventilado imediatamente. A escolha entre recolocar a cânula ou intubar pela boca depende do tempo desde a traqueostomia e da possibilidade de utilizar a via aérea superior (tabela 2) [31].

Nos primeiros dias após a confecção da traqueostomia, a reinserção pode direcionar a cânula para os tecidos pré-traqueais. O risco é maior durante os primeiros 7–10 dias, especialmente nas traqueostomias percutâneas. Com a cicatrização após esse período, forma-se um trajeto mais estável entre a pele e a traqueia, o que facilita a reinserção da cânula e reduz o risco de direcioná-la para os tecidos do pescoço. Trocas de cânula sem dificuldade também sugerem que o trajeto esteja amadurecido.

As condutas da tabela 2 pressupõem oxigenação em curso e ajuda especializada acionada. Para esta abordagem, considera-se recente a traqueostomia com menos de 10 dias ou tempo de realização desconhecido. 

Tabela 2
Decanulação acidental: avaliação e conduta inicial.
Decanulação acidental: avaliação e conduta inicial.

Se não for possível recolocar a cânula e o paciente precisar de ventilação invasiva, deve-se realizar intubação orotraqueal quando essa via puder ser utilizada. Ventilação de resgate pode ser feita com bolsa-máscara pela face com oclusão do estoma para reduzir o escape. Após a inserção de uma nova via aérea, deve-se avaliar a ventilação clinicamente e confirmar com capnografia.

Na laringectomia total, a traqueia termina no estoma e não se comunica com boca ou nariz. Oxigenação e ventilação desses pacientes devem ocorrer pelo estoma e uma eventual intubação também deve ser realizada por essa abertura. A confusão entre o estoma de traqueostomia habitual e o de laringectomia é reconhecidamente subvalorizada e fonte de eventos fatais. Recomenda-se sinalização à beira-leito do tipo de estoma do paciente.

Sangramento

A complicação mais grave é a fístula entre a traqueia e a artéria inominada/tronco braquicefálico (fístula traqueoinominada) [28]. É rara, porém potencialmente fatal. Costuma se apresentar semanas após o procedimento e se desenvolve por erosão progressiva da parede traqueal e do vaso, favorecida por pressão ou trauma pela cânula e/ou pelo balonete [32]. Pode ocorrer a qualquer momento, apesar de a maioria surgir nas primeiras semanas.

A fístula pode causar hemorragia volumosa, com risco de choque hemorrágico e comprometimento da via aérea por sangue e coágulos. Até metade dos pacientes pode apresentar um pequeno sangramento precedendo o episódio grave (sangramento sentinela).

Diante de hemorragia importante, devem ocorrer simultaneamente ressuscitação volêmica, oxigenação, aspiração do sangue e acionamento da equipe de via aérea e cirúrgica (fluxograma 2). Se a cânula estiver funcionando, ela não deve ser retirada nem seu balonete desinsuflado. Ambos podem estar contribuindo para o tamponamento do sangramento.

Fluxograma 2
Abordagem do sangramento pela traqueostomia.
Abordagem do sangramento pela traqueostomia.

A hiperinsuflação do balonete pode controlar temporariamente o sangramento. Se essa conduta for insuficiente, a compressão digital da artéria contra a face posterior do esterno pelo estoma (manobra de Utley) pode ser utilizada por profissional habilitado, com manutenção da via aérea. Essas medidas são temporárias e o tratamento definitivo é cirúrgico ou endovascular.

Sangramentos menores frequentemente se originam da pele, dos tecidos periestoma ou da mucosa traqueal. Podem decorrer do próprio procedimento, trauma por aspiração, atrito da cânula e tecido de granulação. Um pequeno sangramento com origem superficial evidente e em paciente estável pode ser inicialmente manejado com inspeção, compressão local e revisão de anticoagulação e coagulopatias. Persistência ou recorrência exige reavaliação e pode demandar hemostasia local ou avaliação cirúrgica [33].

Sangramento sem origem superficial clara, recorrente ou desproporcional à manipulação requer avaliação especializada urgente, mesmo que pequeno ou já interrompido.

Outras complicações: infecções e complicações estruturais

Infecções

Pacientes traqueostomizados estão sujeitos a infecções do estoma e dos tecidos adjacentes, além de apresentarem maior risco de infecções do trato respiratório inferior [33,34]. Mais raramente, podem ocorrer infecções profundas, como mediastinite.

Colonização traqueal é muito comum em pacientes traqueostomizados, com frequência alta de Pseudomonas aeruginosa [35]. Contudo, para interpretar um quadro como infecção são necessários achados clínicos compatíveis e uma cultura positiva isoladamente deve ser interpretada como colonização.

As principais apresentações são:

  • Infecção do estoma e partes moles: deve ser suspeitada diante de eritema progressivo, dor, calor, edema, enduração ou secreção purulenta. Casos superficiais limitados podem ser manejados com cuidados locais. Em casos de celulite ou manifestações sistêmicas é indicada antibioticoterapia sistêmica. Coleções devem ser drenadas [33,34].
  • Traqueíte/traqueobronquite: pode se manifestar com aumento ou mudança do aspecto das secreções e sinais sistêmicos de infecção, sem nova opacidade pulmonar. O benefício da antibioticoterapia permanece incerto. A diretriz da American Thoracic Society/Infectious Diseases Society of America (ATS/IDSA) sugere não tratar rotineiramente a traqueobronquite associada à ventilação mecânica, baseado em evidência de baixa qualidade [36]. Piora da oxigenação ou necessidade de maior suporte ventilatório associada a sinais de infecção deve levantar a suspeita de pneumonia, mesmo sem nova opacidade na radiografia. Nessa situação, pode ser apropriado iniciar antibióticos.
  • Pneumonia: o diagnóstico envolve nova opacidade pulmonar com manifestações compatíveis com infecção, como febre, leucocitose, aumento/purulência de secreções respiratórias e piora da oxigenação. Nesse cenário, o início da antibioticoterapia é indicado. O aspirado traqueal pode auxiliar na identificação microbiológica e no direcionamento do antibiótico, mas deve ser interpretado com cautela devido à elevada frequência de colonização [36].
  • Infecções profundas/necrosantes: são raras, mas potencialmente graves, incluindo infecção necrosante dos tecidos do estoma, fasciíte necrosante e mediastinite. Devem ser consideradas diante de progressão rápida das alterações locais, edema cervical importante, dor desproporcional, crepitação ou toxicidade sistêmica. Exigem antibioticoterapia intravenosa e avaliação cirúrgica urgente para drenagem e desbridamento. A retirada da cânula pode ser necessária, com estabelecimento de outra forma de ventilação antes da retirada [33,34].

Complicações estruturais

Entre as principais complicações estruturais estão estenose traqueal, traqueomalácia e fístula traqueoesofágica.

  • Estenose traqueal: estreitamento cicatricial relacionado a trauma local ou pressão excessiva do balonete. Pode causar dispneia, estridor e dificuldade durante a oclusão da cânula ou a decanulação. Casos sintomáticos podem necessitar de tratamento endoscópico ou até mesmo cirúrgico em caso de lesões extensas ou complexas.
  • Traqueomalácia: enfraquecimento da parede traqueal com colapso expiratório da via aérea. Pode levar à dificuldade ventilatória, falha no desmame da ventilação mecânica e dificuldade para obter vedação adequada com o balonete. O manejo pode incluir uma cânula mais longa para ultrapassar o segmento comprometido. Em casos selecionados, uma prótese traqueal ou correção cirúrgica pode ser necessária.
  • Fístula traqueoesofágica: complicação rara e grave que consiste na comunicação entre esôfago e via aérea por lesão da parede posterior da traqueia. Manifesta-se com aspiração recorrente, pneumonia de repetição, conteúdo alimentar nas secreções traqueais ou distensão gástrica durante ventilação mecânica. O tratamento definitivo é geralmente cirúrgico.

Cuidados: aspiração e endocânula

Aspiração

A aspiração deve ser realizada conforme necessidade clínica e não em horários fixos [37]. Secreções visíveis, ruídos respiratórios relacionados a secreções e padrão serrilhado nas curvas do ventilador sugerem necessidade do procedimento [38,39]. O paciente capaz de eliminar secreções pela tosse pode não precisar de aspiração.

Sistemas abertos ou fechados podem ser utilizados em adultos sob ventilação mecânica. O sistema fechado permite aspirar sem desconectar o circuito do ventilador. A tabela 3 descreve o passo a passo da aspiração aberta.

Tabela 3
Aspiração aberta pela traqueostomia: passo a passo no adulto hospitalizado.
Aspiração aberta pela traqueostomia: passo a passo no adulto hospitalizado.

A aspiração deve utilizar a menor pressão negativa capaz de remover as secreções. Os valores recomendados variam entre as referências. Uma faixa inicial razoável em adultos é de −80 a −120 mmHg com ajuste até −150 mmHg, se necessário. A diretriz da American Association for Respiratory Care de 2022 admite um limite de 200 mmHg de pressão negativa que não deve ser ultrapassado. Esse valor não é uma meta de aspiração e a evidência que sustenta o limite é limitada [37,40,41].

A instilação rotineira de solução salina diretamente pela cânula antes da aspiração não é recomendada. Não há benefício consistente dessa intervenção e podem ocorrer eventos adversos, como piora transitória da oxigenação [40].

Em pacientes com desconforto respiratório, deve-se seguir o fluxograma 1.

Cuidados com a endocânula

A endocânula é um tubo removível que reveste o interior da cânula de traqueostomia. Também é chamada de cânula interna ou “intermediário”. Parte das secreções adere à sua superfície e a retirada da endocânula permite remover essas secreções enquanto a cânula externa permanece na traqueia. Assim é possível limpar ou substituir a peça sem trocar todo o dispositivo.

Endocânulas descartáveis devem ser substituídas. As reutilizáveis podem ser higienizadas fora do paciente e recolocadas. Recomenda-se inspecionar a endocânula pelo menos a cada 8 horas e com maior frequência quando houver acúmulo de secreções. A necessidade de limpeza ou substituição depende dos achados e das instruções do fabricante.

A tabela 4 descreve a sequência de cuidados com a endocânula. Deve haver uma endocânula reserva compatível e pronta para uso à beira do leito. Alguns modelos dependem da endocânula para conexão ao ventilador ou à bolsa de ventilação. Isso deve ser verificado previamente para evitar atrasos em caso de intercorrências.

Tabela 4
Cuidados com a endocânula: inspeção, substituição e limpeza.
Cuidados com a endocânula: inspeção, substituição e limpeza.

A cânula externa deve ser estabilizada durante a retirada e a colocação da endocânula. Não se deve aplicar força diante de dificuldade para remover ou encaixar a endocânula, pelo risco de deslocar ou danificar o equipamento.

Este vídeo do National Tracheostomy Safety Project ilustra o manuseio da endocânula.

Cuidados: balonete e válvula fonatória

Balonete

A principal função do balonete é a vedação para reduzir o escape de ar durante a ventilação com pressão positiva. Quando insuflado, sua pressão deve ser medida com manômetro (cuffômetro) e mantida entre 20 e 30 cmH₂O, de forma geral (figura 4) [42]. O balonete insuflado não elimina o risco de aspiração.

Figura 4
Cuffômetro.
Cuffômetro.

A pressão não deve ser estimada apenas pela palpação do balão piloto. Essa estratégia apresenta baixa acurácia e expõe pacientes ao risco de lesão traqueal por pressões excessivas [43].

Quando não há mais necessidade de vedação para ventilação, deve-se avaliar precocemente a desinsuflação do balonete. Isso permite a restauração do fluxo pela via aérea superior e facilita a comunicação, avaliação da deglutição e progressão do processo de decanulação [42,44]. A desinsuflação também pode ser testada durante a ventilação mecânica em pacientes selecionados. Nesse cenário são necessários ajustes do ventilador e acompanhamento de equipe experiente.

Se houver vazamento de ar, deve-se avaliar a pressão do balonete e corrigi-la se estiver baixa. Persistência de vazamento com pressão do balonete adequada deve levar à consideração de mal posicionamento da cânula, cânula de dimensões inadequadas, defeito do balonete e pressões ventilatórias elevadas (tabela 5) [24].

Tabela 5
Dúvidas sobre cuidados com o balonete.
Dúvidas sobre cuidados com o balonete.

Válvula fonatória

A válvula fonatória permite entrada de ar pela cânula durante a inspiração e fecha durante a expiração, direcionando o ar ao redor da cânula e pela laringe, o que possibilita a fonação (figura 5) [45].

Figura 5
Válvula fonatória para uso em indivíduos com traqueostomia.
Válvula fonatória para uso em indivíduos com traqueostomia.

Para seu uso, o balonete deve estar desinsuflado e deve existir passagem adequada de ar pela via aérea superior. Uma válvula fonatória colocada com balonete insuflado impede a saída do ar expirado e pode causar rápida deterioração respiratória [3,44].

Além de permitir comunicação, estudos sugerem benefícios sobre olfação, manejo de secreções e alguns parâmetros da deglutição, embora a qualidade da evidência para esses efeitos seja menor [45].

Dispneia, taquipneia ou aumento do trabalho respiratório após a colocação da válvula devem motivar sua retirada. Alguns motivos para essa ocorrência são balonete parcialmente insuflado, cânula com grande diâmetro externo ou obstrução da via aérea superior.

O fluxograma 3 estrutura a avaliação para colocação da válvula fonatória. Este vídeo do National Tracheostomy Safety Project ilustra o teste. 

Fluxograma 3
Teste de válvula fonatória.
Teste de válvula fonatória.

Cuidados: umidificação e outros

A traqueostomia desvia o fluxo da via aérea superior, responsável por aquecer e umidificar o ar inspirado. Sem umidificação adequada ocorre ressecamento das secreções, prejuízo do transporte mucociliar e maior risco de rolhas e obstrução da cânula [46,47].

As principais estratégias de umidificação são:

  • Umidificação passiva — trocador de calor e umidade (HME, do inglês heat and moisture exchanger): retém parte do calor e da umidade do ar expirado e os devolve na inspiração seguinte. Em pacientes respirando espontaneamente é conectado à extremidade externa da cânula. Na ventilação mecânica fica entre a cânula e a peça em Y do circuito, no trecho por onde passam tanto o ar inspirado quanto o expirado. Alguns modelos também incorporam filtro bacteriano/viral.
  • Umidificação ativa: utiliza uma fonte externa de água. Nos umidificadores aquecidos, o gás passa por uma câmara que acrescenta calor e vapor de água. Outra opção é a macronebulização sem aquecimento, que produz um aerossol de gotículas a partir do líquido no reservatório.

Não se deve associar HME e umidificador aquecido no mesmo circuito. O acúmulo de água pode obstruir o HME. Ele também deve ser retirado ou colocado em modo próprio de desvio durante a administração de aerossóis pelo circuito [48,49].

O HME convencional deve ser retirado durante o uso da válvula fonatória, pois o ar expirado sai pela via aérea superior e não devolve calor e umidade ao dispositivo. A umidificação ativa pode ser utilizada conforme a necessidade e a compatibilidade do sistema.

No Brasil, a umidificação fria por macronebulização é comum na prática hospitalar. O nebulizador é conectado a uma fonte de gás com o fluxo suficiente para geração de aerossol. Deve-se seguir o fluxo recomendado pelo fabricante, mas um fluxo em torno de 6–8 L/minuto costuma ser adequado. O aerossol chega à traqueostomia por uma máscara própria ou peça em T. Pacientes sem indicação de oxigenoterapia podem receber macronebulização apenas com ar comprimido [50].

Quando há necessidade de oxigênio suplementar, a sua concentração deve ser ajustada à meta de saturação do paciente. Um misturador de gases (blender) recebe ar comprimido e oxigênio por duas entradas e permite selecionar a concentração de O₂ da mistura fornecida ao nebulizador [51,52]. O uso de oxigênio como único gás propulsor pode fornecer O₂ em excesso e agravar a hipercapnia em pacientes suscetíveis [53,54].

Estudos em pacientes sob ventilação mecânica não demonstraram diferença consistente entre HME e umidificação aquecida na ocorrência de pneumonia ou obstrução da via aérea. Secreções espessas, formação de rolhas ou necessidade crescente de aspiração podem justificar a substituição do HME por umidificação aquecida [46,49].

O manejo das secreções também envolve hidratação adequada, mobilização, aspiração traqueal quando indicada e técnicas de fisioterapia respiratória nos pacientes com retenção de secreções ou tosse ineficaz [3,40]. A nebulização com solução salina isotônica é utilizada em alguns protocolos para secreções espessas, mas não há evidência de benefício clínico que sustente seu uso de rotina [55].

N-acetilcisteína e solução salina hipertônica não devem ser prescritas rotineiramente para facilitar a eliminação de secreções. Em um ensaio com pacientes ventilados por insuficiência respiratória aguda, a salina hipertônica não reduziu a duração da ventilação e provocou mais episódios de broncoconstrição e hipoxemia durante a nebulização[55,56].

Outros cuidados

Higiene oral continua necessária apesar da traqueostomia. O estoma deve permanecer limpo e seco, com troca do curativo quando úmido ou contaminado. Devem ser avaliados regularmente a posição da cânula, a tensão dos fixadores e os pontos de contato da placa de fixação com a pele [33]. Material para intercorrências deve estar prontamente disponível, incluindo sistema de aspiração, oxigênio, bolsa-válvula e uma cânula reserva do mesmo tamanho e outra de menor calibre [3].

Decanulação programada e desmame ventilatório

O desmame ventilatório pode ser realizado com períodos progressivamente maiores de respiração espontânea sem assistência do ventilador. Oxigênio e umidificação adequados são fornecidos pela cânula durante esses períodos, que inicialmente são intercalados com momentos de retorno ao suporte ventilatório. Em um estudo, essa estratégia resultou em menor tempo de desmame em pacientes sob ventilação prolongada quando comparada à redução progressiva da pressão de suporte no ventilador [42,57].

Quando possível, o balonete pode permanecer desinsuflado durante esses períodos, desde que haja passagem adequada de ar pela via aérea superior e o paciente tolere. Isso favorece a comunicação e a progressão do processo de decanulação [42].

Decanulação programada

A avaliação para decanulação deve ser considerada quando a condição que motivou a traqueostomia foi resolvida ou melhorada suficientemente. Costumam ser considerados os seguintes fatores [42,58]:

  • Estabilidade da função respiratória.
  • Via aérea superior pérvia.
  • Capacidade de proteger a via aérea.
  • Tosse eficaz.
  • Baixo volume de secreções/necessidade de aspiração.

O processo de decanulação inclui desinsuflação completa do balonete e avaliação da passagem de ar pela via aérea superior. Válvula fonatória e períodos de oclusão da cânula podem auxiliar nessa avaliação. Dispneia, estridor ou aumento importante do trabalho respiratório durante os testes devem levantar a hipótese de obstrução da via aérea superior ou resistência excessiva relacionada à cânula.

A oclusão contínua por 24 horas não é um requisito obrigatório para todos os pacientes. Após confirmar a permeabilidade da via aérea superior e excluir distúrbio importante da deglutição, pode-se considerar uma abordagem baseada na necessidade de aspiração traqueal [42,59].

Fluxograma 4
Avaliação para decanulação do paciente com traqueostomia.
Avaliação para decanulação do paciente com traqueostomia.

Uma estrutura de avaliação para decanulação em pacientes com traqueostomia por ventilação mecânica prolongada está no fluxograma 4.

Dúvidas práticas

O paciente com traqueostomia pode comer?

A traqueostomia não contraindica a alimentação oral, mas exige avaliação da deglutição pelo risco de disfagia e aspiração (fluxograma 5). A avaliação geralmente começa à beira do leito e deve incluir a fonoaudiologia [60,61].

Fluxograma 5
Avaliação para alimentação oral no paciente com traqueostomia.
Avaliação para alimentação oral no paciente com traqueostomia.

O balonete insuflado não impede a broncoaspiração. Sua desinsuflação também não autoriza automaticamente a alimentação oral. A definição da via de alimentação, consistência e volumes depende da avaliação da deglutição.

O teste do corante azul pode ser utilizado como método auxiliar. Durante uma avaliação supervisionada com o balonete desinsuflado são oferecidos líquidos ou alimentos corados de azul por via oral. Depois se pesquisa a presença do corante nas secreções aspiradas pela cânula. A presença de secreção corada sugere aspiração. Um resultado negativo não exclui aspiração e também não autoriza dieta oral isoladamente [62].

A aspiração pode ocorrer sem tosse ou engasgos. Diante de suspeita de aspiração ou dúvida sobre a segurança da alimentação deve-se considerar videoendoscopia ou videofluoroscopia da deglutição. Esses exames ajudam a identificar aspiração e resíduos e a orientar a alimentação [61,63].

O paciente com traqueostomia pode tomar banho?

Sim, desde que a cânula seja protegida da entrada de água sem obstruir a passagem de ar. Recomenda-se utilizar protetor próprio para banho e evitar direcionar o jato para a traqueostomia. Natação e submersão devem ser evitadas pelo risco de entrada de água diretamente na via aérea [64].

Como administrar medicamentos inalatórios via traqueostomia?

Em pacientes respirando espontaneamente o nebulizador pode ser conectado à cânula por uma peça em T ou utilizado com máscara/colar de traqueostomia [65,66].

Quando o medicamento é fornecido por inalador pressurizado dosimetrado (“bombinha”), deve-se utilizar uma câmara espaçadora ou câmara de retenção valvulada adaptada à traqueostomia. Existem modelos desenvolvidos especificamente para encaixe no conector de 15 mm da cânula, como AeroTrach Plus® e PARI VORTEX® Tracheo [67,68]. Deve-se administrar um jato de cada vez conforme as instruções do conjunto inalador/câmara.

O HME não deve ficar entre o gerador do aerossol e a cânula. A válvula fonatória deve ser retirada durante a nebulização do medicamento e recolocada ao término. O balonete não deve ser insuflado apenas para administrar o medicamento [67].

O paciente com traqueostomia pode viajar?

A traqueostomia por si só não é uma contraindicação para viagens. O planejamento deve ser individualizado conforme doença de base, necessidade de oxigênio, frequência de aspiração e dependência de ventilação [69]. Em viagens aéreas é necessário combinar previamente com a companhia o uso de equipamentos e prever autonomia suficiente das baterias [70]. 

Mudanças de altitude exigem atenção quando o balonete precisa permanecer insuflado. A redução da pressão atmosférica durante a subida pode aumentar a pressão dos balonetes preenchidos com ar e a descida pode reduzi-la. Deve-se verificar a pressão com manômetro e ajustá-la para a faixa habitual de 20–30 cmH₂O [71,72].

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