Caso Clínico #48: Pneumonia de Repetição

Criado em: 28 de Setembro de 2026 Autor: Arthur Pires Revisor: João Mendes Vasconcelos

O caso clínico abaixo é apresentado em partes. O negrito é a descrição do caso, as partes que não estão em negrito são os comentários. Ao final, você encontrará a resolução e os pontos de aprendizagem resumidos.

Um homem de 61 anos procurou o pronto-socorro por piora da dispneia.

Relatava dispneia e tosse havia mais de cinco anos, com diagnóstico presumido de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), sem realização de espirometria. Utilizava salbutamol para alívio dos sintomas. Era ex-tabagista, com carga tabágica de 17 maços-ano e cessação havia oito anos. Tinha antecedente de tuberculose pulmonar tratada alguns anos antes.

Nos anos recentes, apresentou múltiplos episódios de piora respiratória diagnosticados como pneumonia, com internações recorrentes. No último ano foram quatro internações por esses quadros, uma delas com necessidade de intubação orotraqueal.

Uma semana antes da procura ao pronto-socorro, apresentou piora da dispneia, tosse com expectoração amarelada e sensação de febre, sem aferição da temperatura. Nos dois dias anteriores à admissão, passou a apresentar dispneia também em repouso.

Na admissão, estava consciente e orientado, com pressão arterial de 141/97 mmHg, frequência cardíaca de 71 batimentos por minuto, frequência respiratória de 24 incursões por minuto, temperatura de 37,0 °C e saturação periférica de oxigênio de 80–82% em ar ambiente. Não apresentava sinais de aumento do trabalho respiratório. A ausculta pulmonar revelava estertores grosseiros nas bases de ambos os hemitóraces. Não havia sinais de hipoperfusão ou edema. Foi iniciada oxigenoterapia ainda na triagem.


O paciente apresenta deterioração respiratória aguda com hipoxemia acentuada, sobreposta a uma doença pulmonar crônica ainda não caracterizada. Expectoração amarelada e sensação febril sugerem um desencadeante infeccioso. A prioridade é corrigir a hipoxemia e investigar pneumonia, sendo sepse uma hipótese provável, pois há disfunção orgânica. Paralelamente, as internações recorrentes exigem uma revisão do rótulo de DPOC presumido.

Tosse e dispneia crônicas em um paciente com histórico de tabagismo e tuberculose levantam naturalmente a hipótese de DPOC. Exposição ao tabagismo superior a 40 maços-ano favorece DPOC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10770147/). No caso, além da carga de 17 maços-ano, existe injúria adicional provocada pela tuberculose. A tuberculose pode contribuir para o desenvolvimento de DPOC, além de estar associada a outras sequelas como fibrose pulmonar, bronquiectasias, cavidades com risco de aspergilose e outras distorções arquiteturais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41974033/).

A suspeita de DPOC deve ser confirmada por espirometria com relação VEF1/CVF pós-broncodilatador menor que 0,7 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39638416/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40382791/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/). O rótulo de DPOC presumida sem confirmação é frequente e muitos não realizam espirometria no acompanhamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17550936/). Entre os pacientes com DPOC presumida, muitos não apresentam distúrbio obstrutivo na espirometria (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37130651/). O tratamento com broncodilatadores em pacientes com carga tabágica maior que 10 maços-ano, porém sem obstrução espirométrica, não parece conferir benefício (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36066078/). 

A centralidade exclusiva do critério espirométrico na definição de DPOC foi questionada recentemente. Em 2025, uma nova definição multidimensional foi proposta, integrando espirometria, sintomas e alterações estruturais na tomografia de tórax (TC). Essa proposta é baseada na coorte COPDGene e ainda não foi incorporada aos critérios diagnósticos vigentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40382791/). 

Exacerbação de DPOC é definida por piora da dispneia e/ou da tosse e expectoração em até 14 dias, representando uma mudança aguda em relação ao estado habitual do paciente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34570991/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34570991/). O diagnóstico de exacerbação de forma isolada presume que outras condições foram afastadas de maneira razoável. Pneumonia, insuficiência cardíaca e embolia pulmonar podem mimetizar, precipitar ou coexistir com uma exacerbação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41317736/). Veja mais sobre os diagnósticos diferenciais em "Dispneia no Pronto-Socorro". 

Pneumonia merece atenção especial porque compartilha várias manifestações com a exacerbação de DPOC, embora sejam diagnósticos distintos. Febre, início mais abrupto e crepitações localizadas na ausculta podem aumentar a probabilidade de pneumonia, ao passo que sibilos expiratórios e prolongamento do tempo expiratório são mais característicos de DPOC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25443591/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29848051/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12377851/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36701677/). Para o diagnóstico de pneumonia, é necessário exame de imagem com opacidade pulmonar nova, associada a uma síndrome clínica compatível (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31573350/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39283629/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40679934/). Veja mais em "Diagnóstico e Erro Diagnóstico em Pneumonia Adquirida na Comunidade". 

A radiografia de tórax é especialmente útil quando há suspeita de pneumonia ou outro diagnóstico concomitante. O American College of Radiology (ACR) pontua que o exame é habitualmente apropriado na exacerbação de DPOC associada a febre, dor torácica, leucocitose ou antecedente de doença coronariana ou insuficiência cardíaca, mas não deve ser realizado de rotina em todas as exacerbações não complicadas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40409874/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2818109/). O Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) dá preferência para a tomografia de tórax (TC) diante de exacerbações persistentes ou frequentes, tosse com secreção excessiva e em pacientes com sintomas desproporcionais à gravidade espirométrica da DPOC. Veja mais em "Atualização de DPOC: GOLD 2025" e "Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC): GOLD 2026".

O relato do paciente é sugestivo de pneumonias de repetição. Deve-se confirmar se os eventos tiveram documentação clínica e radiológica compatível e procurar fatores predisponentes. Em um estudo de 2026, quase metade dos pacientes inicialmente diagnosticados com pneumonia no pronto-socorro recebeu outro diagnóstico na alta, sendo outras condições pulmonares o diagnóstico diferencial mais comum (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42286498/). Entre os pacientes com pneumonias recorrentes, muitos apresentam condições predisponentes associadas, como imunodeficiência, neoplasia ou alteração estrutural pulmonar, reforçando a importância de investigar tais fatores (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1589728/).

Recorrência de pneumonia na mesma região pulmonar sugere causas locais, como obstrução brônquica ou alterações anatômicas. Quando acomete diferentes regiões, devem ser consideradas condições difusas, como bronquiectasias, distúrbios da depuração mucociliar, aspiração ou imunodeficiências. As bronquiectasias cursam tipicamente com tosse crônica, expectoração e infecções recorrentes, sendo a TC o principal exame para investigação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19249457/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/).

É necessária uma gasometria arterial para avaliar oxigenação, hipercapnia e acidose. Pela possibilidade de doença obstrutiva com retenção de gás carbônico, uma meta inicial de saturação de 88–92% é razoável. A suspeita de infecção com possível disfunção respiratória aguda justifica acionar o protocolo de sepse. Na ausência de hipoperfusão, não há indicação de expansão volêmica protocolar. Para pneumonia sem indicação de cobertura ampliada, ceftriaxona associada à azitromicina é uma opção inicial. Seria útil saber quando ocorreu a última internação, se recebeu antibióticos parenterais nos últimos 90 dias e se houve isolamento respiratório prévio de Pseudomonas aeruginosa ou Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), pois esses dados impactam na escolha do antibiótico. As internações recorrentes com passado de tuberculose reforçam a indicação de TC de tórax para estudar o parênquima pulmonar. 

Foram iniciados no pronto-socorro broncodilatadores, oxigenoterapia, corticoide sistêmico e antibioticoterapia com ceftriaxona e azitromicina. O paciente foi internado, considerando a hipoxemia e necessidade de oxigênio suplementar.

Foi solicitada uma TC que evidenciou bronquiectasias e bronquiolectasias cilíndricas, varicosas e císticas difusas, discretamente menos proeminentes nos ápices, com espessamento brônquico, impactação mucoide, opacidades centrolobulares em árvore em brotamento e tênues opacidades em vidro fosco, sugerindo sobreposição de processo inflamatório ou infeccioso (figura 1).

A traqueia estava aumentada, com até 3,4 cm, associada a aumento no calibre dos brônquios principais e divertículos traqueais e brônquicos. Havia ainda ectasia do tronco da artéria pulmonar (3,8 cm) e aumento das câmaras cardíacas direitas, sugerindo hipertensão pulmonar.


A tomografia demonstra bronquiectasias difusas que ajudam a explicar os sintomas respiratórios crônicos e as internações recorrentes. A piora recente é compatível com uma exacerbação, provavelmente infecciosa. Impactação mucoide e as opacidades em árvore em brotamento reforçam o acometimento das vias aéreas, mas não definem o agente infeccioso. 

Figura 1
Tomografia de tórax à admissão.
Tomografia de tórax à admissão.

Bronquiectasias se apresentam radiologicamente por dilatação e espessamento anormal da parede brônquica, geralmente permanente. Quando geram achados clínicos, pode ocorrer tosse crônica, expectoração e infecções respiratórias recorrentes. A TC de tórax é o exame de escolha para o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35947710/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40293759/). Veja mais em "Bronquiectasia". 

A doença apresenta elevada carga de exacerbações e hospitalizações. Em um grande registro europeu, a mediana foi de duas exacerbações por ano e um quarto dos pacientes havia sido hospitalizado por exacerbação no ano anterior (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37105206/). É possível que parte das pneumonias de repetição do paciente fossem exacerbações infecciosas das bronquiectasias evidenciadas.

Uma exacerbação de bronquiectasia pode ser definida como (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28596426/):

  • Piora, por 48 horas ou mais, de três ou mais entre seis manifestações: tosse, alterações de volume/consistência da expectoração, purulência da expectoração, dispneia/intolerância ao exercício, fadiga/mal-estar e hemoptise.
  • Associada à decisão médica de modificar o tratamento vigente.

Uma exacerbação infecciosa de bronquiectasia tem uma microbiologia particular que interfere na escolha do antibiótico. Haemophilus influenzae e Pseudomonas aeruginosa estão entre os agentes mais frequentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37105206/). Sempre que possível, deve-se coletar escarro para cultura antes do tratamento. A escolha empírica deve considerar culturas prévias e exposições recentes a antibióticos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/). Sem microbiologia prévia, casos leves podem receber cobertura para patógenos respiratórios habituais.

A cobertura empírica para P. aeruginosa não é obrigatória. A escolha deve considerar culturas prévias, uso recente de antibióticos e epidemiologia local (tabela 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30687502/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40293759/). Fatores associados à resistência incluem internação recente, cultura prévia com agente multirresistente, doença renal crônica, uso prévio de antibióticos, exacerbações frequentes e maior extensão radiológica da doença (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28964261/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29386892/). 

Tabela 1
Estratégias de antibioticoterapia empírica e direcionada por cultura na bronquiectasia exacerbada.
Estratégias de antibioticoterapia empírica e direcionada por cultura na bronquiectasia exacerbada.

A evidência para guiar a duração ideal da antibioticoterapia nesse contexto ainda é limitada. O tempo de tratamento deve ser ajustado conforme gravidade e resposta clínica. O consenso brasileiro recomenda 14 a 21 dias de tratamento, admitindo cursos mais curtos em exacerbações leves com rápida recuperação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/). 

Neste momento, deve-se coletar escarro para cultura bacteriana, recuperar resultados microbiológicos anteriores e esclarecer quais antibióticos foram utilizados nas últimas internações. Pela hipoxemia acentuada, extensão das bronquiectasias e hospitalizações recorrentes, é razoável ampliar a cobertura empírica, substituindo a ceftriaxona por um betalactâmico intravenoso com atividade antipseudomonas, como piperacilina-tazobactam ou cefepima, com revisão conforme novas culturas e evolução.

Além da oxigenoterapia, devem ser instituídas medidas de higiene brônquica com fisioterapia, particularmente pela impactação mucoide. A necessidade de manter o corticosteroide sistêmico deve ser revista, procurando uma indicação associada, como exacerbação de asma ou DPOC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/). Um ecocardiograma está indicado para avaliar a probabilidade de hipertensão pulmonar e a repercussão sobre o ventrículo direito, diante dos sinais tomográficos descritos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36028254/).

Bronquiectasias possuem diversas causas e a identificação da etiologia pode modificar o tratamento e o prognóstico. Após a alta hospitalar, o paciente deve realizar uma investigação etiológica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35947710/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30687502/).

Após ajuste da antibioticoterapia e cuidados de suporte, o paciente apresentou melhora clínica progressiva, com redução da dispneia e desmame do oxigênio. Recebeu alta hospitalar com consulta ambulatorial agendada para reavaliação e investigação da etiologia das bronquiectasias.


Após a recuperação, permanece uma doença brônquica difusa associada a episódios respiratórios graves e recorrentes, cuja etiologia ainda precisa ser esclarecida. A tuberculose prévia pode ter contribuído, mas a dilatação da traqueia e dos brônquios principais com divertículos é uma pista adicional que deve ser valorizada. 

Algumas perguntas ajudam a direcionar a investigação etiológica das bronquiectasias (tabela 2). Infecções respiratórias desde a infância, sinusites ou otites recorrentes e infertilidade podem sugerir discinesia ciliar primária com alteração da depuração mucociliar. Sintomas de má absorção, pancreatite ou infertilidade masculina levantam a possibilidade de fibrose cística. Disfagia, engasgos e refluxo sugerem aspiração crônica como causa. Infecções recorrentes em outros sítios podem indicar imunodeficiência sistêmica. 

Tabela 2
Causas de bronquiectasia e seus achados clínico-radiológicos.
Causas de bronquiectasia e seus achados clínico-radiológicos.

Manifestações extrapulmonares também orientam a investigação. Artrite, síndrome seca (sicca) ou sinais de vasculite sugerem, respectivamente, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren ou vasculites associadas ao anticorpo anticitoplasma de neutrófilos (ANCA) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/). A investigação deve ser orientada por manifestações clínicas compatíveis.

Mesmo quando há uma causa aparente, a avaliação inicial deve incluir hemograma com contagem de eosinófilos, dosagem de IgG, IgA e IgM, IgE total e IgE e IgG específicas para Aspergillus fumigatus (fluxograma 1). As imunoglobulinas pesquisam deficiências humorais, enquanto os eosinófilos, a IgE total e os anticorpos específicos para Aspergillus compõem a investigação de aspergilose broncopulmonar alérgica (ABPA) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40293759/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31411280/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38423624/). 

Fluxograma 1
Investigação etiológica da bronquiectasia.
Investigação etiológica da bronquiectasia.

Culturas de escarro para bactérias, fungos e micobactérias também são recomendadas. Esses exames podem identificar infecções associadas às bronquiectasias e orientar o tratamento de futuras exacerbações. 

Bronquiectasias podem causar limitação ao fluxo aéreo na espirometria. O achado de um distúrbio obstrutivo não confirma DPOC, que exige integração com a história de exposição, os achados clínicos e radiológicos e a demonstração de obstrução persistente após broncodilatador (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38423624/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40293759/). A dosagem de alfa-1-antitripsina também pode ser considerada, principalmente na presença de enfisema ou doença hepática sem etiologia definida.

Deve-se solicitar o painel laboratorial inicial, as culturas de escarro e a espirometria, recuperar exames anteriores para esclarecer a relação das alterações com a tuberculose e revisar a TC com atenção às medidas e à morfologia da traqueia e dos brônquios principais.

O paciente compareceu ao ambulatório para reavaliação e investigação etiológica cinco dias após a alta. Relatava melhora do quadro respiratório, sem febre ou piora aguda da tosse. Mantinha dispneia aos esforços moderados, pouca expectoração e tosse noturna. 

Na anamnese dirigida, não sabia informar bem antecedentes da infância ou familiares, mas não se recordava de infecções frequentes quando jovem. Negava dor abdominal, diarreia ou outros sintomas de má absorção. Também negava disfagia, engasgos, episódios de broncoaspiração ou sintomas de doença do refluxo gastroesofágico. Não apresentava história de artrite, xerostomia, xeroftalmia ou uso de medicamentos.

Ao exame, apresentava pressão arterial de 128/74 mmHg, frequência cardíaca de 90 batimentos por minuto e SpO2 93% em ar ambiente, afebril e sem sinais de desconforto respiratório. Apresentava crepitações difusas bilateralmente na ausculta e não tinha baqueteamento digital ou edema periférico.

Diante das bronquiectasias difusas sem etiologia definida, foram solicitados hemograma, imunoglobulinas, investigação de aspergilose broncopulmonar alérgica, alfa-1-antitripsina, autoanticorpos, culturas de escarro e espirometria.

O paciente retornou dois meses depois. Os resultados mostraram alfa-1-antitripsina, IgA, IgG e IgM normais e fator reumatoide, ANCA e fator antinúcleo (FAN) negativos. A IgE total estava elevada, no valor de 681,9 UI/mL (valor de referência do laboratório até 100 UI/mL). A pesquisa sorológica por imunodifusão para Aspergillus fumigatus foi negativa. A espirometria evidenciou um distúrbio ventilatório obstrutivo grave.


A associação de bronquiectasias difusas, traqueobroncomegalia e divertículos torna a síndrome de Mounier-Kuhn a principal hipótese etiológica. A investigação laboratorial não estabeleceu outra causa. O distúrbio ventilatório obstrutivo grave caracteriza comprometimento funcional significativo, mas não confirma isoladamente o diagnóstico prévio de DPOC.

A IgE total de 681,9 UI/mL é inespecífica. A imunodifusão para Aspergillus pesquisa anticorpos precipitantes, predominantemente IgG. Um resultado negativo não exclui ABPA nem substitui a avaliação de sensibilização por IgE específica. Os critérios atuais de ABPA incluem demonstração de sensibilização com IgE específica, IgE total ≥ 500 UI/mL e pelo menos dois entre IgG específica elevada, eosinofilia e imagem compatível, em contexto clínico adequado. Bronquiectasias estão entre as condições predisponentes reconhecidas, mesmo na ausência de asma. A investigação precisa ser complementada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38423624/).

A síndrome de Mounier-Kuhn é uma condição rara e provavelmente subdiagnosticada, cuja prevalência permanece desconhecida. Caracteriza-se por dilatação acentuada da traqueia e dos brônquios principais, associada à redução das fibras elásticas e ao adelgaçamento da musculatura lisa de suas paredes. Essas alterações prejudicam a eliminação de secreções e favorecem infecções recorrentes e bronquiectasias. Como os sintomas são inespecíficos, o reconhecimento depende principalmente dos achados de imagem (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25130790/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39710278/).

O diagnóstico é predominantemente tomográfico. Há diferentes critérios de dilatação, sem um padrão universalmente aceito. Entre os limites publicados para adultos estão diâmetro traqueal > 30 mm, brônquio principal direito > 20 mm e esquerdo > 18 mm. Divertículos traqueobrônquicos são achados associados que reforçam a suspeita (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21494536/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1856895/).

Neste paciente, os achados de traqueia de 34 mm, broncomegalia, divertículos e bronquiectasias difusas são fortemente sugestivos da síndrome. Deve-se atentar para possível traqueobroncomalácia associada, em que o colapso expiratório das vias aéreas centrais pode contribuir para os sintomas e exigir manejo específico. Os resultados das culturas de escarro são necessários para o acompanhamento.

Veja o desfecho do caso

Desde a última consulta, o paciente apresentou nova piora da dispneia, agora aos mínimos esforços, acompanhada de tosse produtiva e necessidade de salbutamol de resgate. Ao exame físico, apresentava SpO₂ de 78% em ar ambiente, frequência cardíaca de 90 batimentos por minuto e frequência respiratória de 22 incursões por minuto, sem sinais evidentes de desconforto respiratório. Diante da hipoxemia grave e da piora clínica, foi indicada nova internação hospitalar para investigação e tratamento da descompensação respiratória.

Durante a internação, apresentou melhora após antibioticoterapia com piperacilina-tazobactam e suporte respiratório. Apesar da melhora clínica, manteve necessidade de oxigênio suplementar. Foi programada alta hospitalar com oxigenoterapia domiciliar e seguimento ambulatorial para a síndrome de Mounier-Kuhn.


A recorrência de internações, a obstrução ventilatória grave e a necessidade de oxigênio na alta reforçam a gravidade do quadro e a prioridade de prevenir novas exacerbações. A necessidade de oxigenoterapia domiciliar deve ser reavaliada após a recuperação da descompensação, pois a hipoxemia pode ser transitória (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33185464/).

O número de exacerbações prévias é um dos principais preditores de novos eventos, associando-se a hospitalizações, pior qualidade de vida e mortalidade. Menor VEF1, maior extensão radiológica e infecção por Pseudomonas aeruginosa também se associam a pior evolução. Escores como o bronchiectasis severity index (BSI) e o FACED podem auxiliar na estratificação prognóstica (tabela 3) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29357265/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24328736/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24232697/).

Tabela 3
Escore FACED para gravidade de pacientes com bronquiectasias.
Escore FACED para gravidade de pacientes com bronquiectasias.

Reduzir exacerbações é um dos principais objetivos do tratamento. A diretriz de 2025 da European Respiratory Society (ERS) recomenda técnicas de depuração das vias aéreas para a maioria dos pacientes e macrolídeos em tratamento prolongado para aqueles com alto risco de exacerbações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/). Em pacientes com infecção crônica por P. aeruginosa e alto risco de exacerbações, antibióticos inalatórios por longo prazo também são recomendados e reduzem a frequência de exacerbações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38309462/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41016738/).

O prognóstico específico da síndrome de Mounier-Kuhn é pouco definido. Em uma série multicêntrica com 17 pacientes, 88% apresentavam bronquiectasias, 67% traqueobroncomalácia e a taxa média foi de 1,5 exacerbação/paciente/ano (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27022925/).

Não existe tratamento curativo nem ensaios clínicos que definem uma terapia específica para a síndrome de Mounier-Kuhn. O manejo envolve otimização da depuração de secreções, fisioterapia respiratória e tratamento das bronquiectasias e das infecções recorrentes. Nos pacientes com traqueobroncomalácia sintomática e comprometimento significativo apesar do tratamento clínico, podem ser consideradas ventilação com pressão positiva, stents na via aérea ou traqueobroncoplastia em centros especializados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39710278/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21493699/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27022925/).

O caso reforça a importância de verificar um diagnóstico presumido de DPOC e de investigar a causa de infecções respiratórias recorrentes. 

Não saia sem saber!

Alguns pontos de aprendizagem sobre o caso que você não pode esquecer:

  • DPOC presumido é um rótulo possível para uma abordagem emergencial no pronto-socorro, mas precisa ser acompanhado de investigação. Pacientes com esse rótulo frequentemente não têm critério espirométrico para DPOC ou apresentam outro diagnóstico.
  • Pneumonias de repetição devem ser investigadas, especialmente para causas estruturais, aspiração e imunodeficiências. Eventos de piora respiratória sem opacidade nova podem corresponder a exacerbações de doenças pulmonares crônicas não diagnosticadas, como DPOC ou bronquiectasias.
  • Exacerbações de bronquiectasias devem ter avaliação microbiológica sempre que possível. A presença de bronquiectasia, por si só, não obriga cobertura empírica para Pseudomonas.
  • A investigação etiológica inicial das bronquiectasias deve incluir hemograma com eosinófilos, IgG, IgA, IgM, IgE total, IgE e IgG específicas para Aspergillus fumigatus e culturas de escarro para bactérias e micobactérias. Outros exames devem ser direcionados pela história clínica e pelos achados radiológicos.
  • Traqueobroncomegalia com divertículos sugere síndrome de Mounier-Kuhn. A associação com bronquiectasias e infecções recorrentes deve levar à revisão das medidas das vias aéreas centrais e à consideração de traqueobroncomalácia associada.

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