Hidroxiureia na Anemia Falciforme

Criado em: 02 de Janeiro de 2023 Autor: Marcela Belleza

Em setembro de 2022, foi publicada pela Cochrane uma metanálise avaliando a hidroxiureia na doença falciforme [1]. Aproveitando a publicação, vamos revisar o tema e avaliar o impacto desse estudo.

Anemia falciforme: por que ocorrem desfechos negativos?

A doença falciforme (DF) pode ser causada pela homozigose do gene da hemoglobina S (Hb SS), condição chamada de anemia falciforme (AF). A DF também pode ocorrer pela heterozigose do gene da hemoglobina S com outra variante da cadeia beta de hemoglobina - como a doença da hemoglobina S-beta-talassemia ou doença de hemoglobina SC.

Situações de menor oxigenação causam polimerização da Hb S, dando forma de foice para a hemácia. A hemácia falciforme tem maior adesão ao endotélio e menor flexibilidade.

{Tabela1}

Essas alterações predispõem a vaso-oclusão, anemia hemolítica e outras complicações detalhadas na tabela 1. Na ausência de tratamento adequado, pessoas com DF têm menor sobrevida e diminuição da qualidade de vida [2].

Quais os tratamentos disponíveis para anemia falciforme?

A cura da AF no momento é possível apenas com o transplante de medula óssea. Essa é uma opção reservada para casos refratários. Estudos com terapia gênica são promissores [3].

Para a maioria dos pacientes, o tratamento se baseia em prevenção e manejo de complicações. No manejo entram os tratamentos para crises álgicas e síndrome torácica aguda por exemplo.

Na prevenção, um objetivo é reduzir infecções. As recomendações atuais priorizam o uso de penicilina profilática para crianças e atualização vacinal (focando na imunização contra microrganismos encapsulados - Neisseria meningitidis, Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae ) [4, 5]. Ainda na prevenção, a hidroxiureia tem papel relevante em reduzir crises álgicas.

{Tabela2}

O suporte transfusional tem muitas aplicações na AF. As indicações específicas estão detalhadas na tabela 2.

O papel da hidroxiureia

A hidroxiureia (HU) é um antineoplásico capaz de aumentar a hemoglobina fetal e a contagem de hemácias. Além disso, melhora o metabolismo de óxido nítrico e a interação das hemácias com o endotélio vascular [6].

Em setembro de 2022, a Cochrane revisou estudos que avaliaram o uso da hidroxiureia na DF, buscando desfechos como: controle de crise álgica, complicações graves (síndrome torácica aguda, sequestro visceral, AVC isquêmico) e mortalidade.

Os pesquisadores encontraram benefícios como redução da frequência de crises álgicas e aumento de hemoglobina fetal.

A metanálise não encontrou diferença significativa em relação à qualidade de vida, mortalidade e efeitos adversos graves da medicação - reforçando que a qualidade da evidência para esses desfechos é baixa.

A maioria dos estudos avaliou a população homozigótica (HbSS). As evidências para pessoas com heterozigose (HbSC, HbSβ+ ou HbSβº-talassemia) são geralmente extrapoladas dos estudos com homozigóticos. O tempo de seguimento dos estudos foi de no máximo 30 meses. Existe discussão quanto à segurança da medicação no uso a longo prazo.

Doses e efeitos adversos

Recomenda-se hidroxiureia para todos os indivíduos com AF.

A dose inicial é de 15mg/kg/dia para adultos, com alvo até a maior dose tolerada ou 30-35mg/kg/dia [7].

Efeitos adversos relatados incluem hiperpigmentação cutânea/ungueal, náuseas e diarreia. Os sintomas gastrointestinais podem ser melhor tolerados com fracionamento da medicação ou tomada noturna.

O efeito mielotóxico da hidroxiureia é dose-dependente, previsível e reversível. Seu uso necessita de monitorização com hemograma, especialmente quanto aos seguintes níveis:

  • Neutrófilos: tolerar até 1500/mm³
  • Plaquetas: tolerar até 80-150mil/mm³
  • Reticulócitos: tolerar até 100.000/mm³

As evidências são conflitantes a respeito de infertilidade e teratogenicidade com o uso de hidroxiureia, tanto em homens quanto em mulheres. Muitas diretrizes recomendam métodos contraceptivos seguros ou interrupção do uso caso haja desejo de concepção.

Na doença renal crônica, sugere-se redução da dose [8].

Compartilhe:
Aproveite e leia:
12 de Setembro de 2022

Profilaxia de Tromboembolismo após Artroplastia Eletiva

A partir da década de 1960, as artroplastias começaram a ser feitas de maneira mais efetiva e duradoura. Com isso, percebeu-se um grande risco de tromboembolismo venoso (TEV) associado a artroplastias de quadril e joelho. O recente estudo CRISTAL, publicado no Journal of the American Medical Association, jogou luz nessa questão. Aproveitando a publicação, vamos revisar o tema.

hourglass_empty 8 min
Ler Tópico
19 de Julho de 2023

Caso Clínico #10

Homem de 38 anos com dispneia há 2 meses e eosinofilia.

hourglass_empty 17 min
Ler Tópico
13 de Abril de 2023

Caso Clínico #7

Um homem de 65 anos com dispneia e cardiomegalia, evolui com hemorragia digestiva e hematomas.

hourglass_empty 24 min
Ler Tópico
13 de Junho de 2022

Tromboembolismo no Paciente com Câncer

Em 2021 a American Society of Hematology publicou uma diretriz sobre tromboembolismo venoso (TEV) em pacientes com câncer. Um tema comum na prática hospitalar e ambulatorial. Vamos checar as principais recomendações.

hourglass_empty 9 min
Ler Tópico
29 de Maio de 2022

Anemia Hemolítica Autoimune

Anemia hemolítica autoimune (AHAI) é o aumento da destruição de hemácias por mecanismos autoimunes, em geral autoanticorpos contra a superfície dos eritrócitos. Em 2020 foi publicado o primeiro consenso internacional sobre o tema e em 2021 o NEJM lançou uma revisão organizando o conhecimento sobre o tema. Vamos aproveitar para revisitar os principais pontos sobre o assunto.

hourglass_empty 10 min
Ler Tópico