Edição #128

Nutrição Enteral no Paciente Crítico

Criado em: 07 de Julho de 2025 Autor: Revisor: Nordman Wall

A nutrição enteral é a forma mais comum de suporte nutricional nos pacientes críticos intubados. Este tópico aborda como fazer nutrição enteral em pacientes críticos.

Quando iniciar e contraindicações

A dieta enteral deve ser considerada em pacientes com impossibilidade de dieta via oral na UTI. A introdução de dieta enteral deve ser feita nas primeiras 24 a 48 horas de internação quando não houver contraindicação [1]. O início tardio (mais de 48 horas) pode estar associado a maior risco de morte, infecções e de aumento do tempo de internação [2].

As principais contraindicações à dieta enteral são:

  • Instabilidade hemodinâmica — pacientes em uso de noradrenalina em doses acima de 0,3 a 0,5 mcg/kg/min têm risco aumentado de isquemia mesentérica, principalmente quando associado a sinais de má perfusão [3]. Pacientes com doses baixas de vasopressores sem má perfusão podem ser considerados para dieta enteral.
  • Obstrução intestinal.
  • Sangramento gastrointestinal alto não controlado.
  • Isquemia mesentérica.
  • Síndrome compartimental abdominal.

Quando a contraindicação é relacionada ao trânsito gastrointestinal, pode-se considerar o início da dieta parenteral. Em pacientes com instabilidade hemodinâmica significativa, dieta parenteral precoce não apresenta benefício [4].

Cirurgias do trato gastrointestinal não são contraindicações para o início precoce de dieta enteral, contanto que não existam complicações no pós-operatório. O início de dieta oral ou enteral deve ser considerado nas primeiras 24 horas após a cirurgia. A introdução precoce está associada a menor risco de íleo paralítico, deiscência de anastomoses e mortalidade [5,6]. 

Posição prona ou bloqueio neuromuscular não são contraindicações à dieta enteral [7,8]. 

Formulações e metas nutricionais

Formulações

As fórmulas de nutrição enteral podem ser categorizadas conforme densidade calórica, grau de hidrólise dos nutrientes e osmolaridade (tabela 1):

  • Densidade calórica — as dietas normocalóricas apresentam aproximadamente 1 kcal/mL e as hipercalóricas entre 1,2 a 2 kcal/mL. Dietas hipercalóricas podem auxiliar no controle de balanço hídrico de pacientes críticos, por precisarem de menor volume infundido. Contudo, não há evidência de melhores desfechos com seu uso (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30346225/).
  • Grau de hidrólise dos nutrientes — classificadas como polimérica, oligomérica e elementar. Dietas poliméricas são a escolha de rotina. Pode-se considerar o uso de dietas hidrolisadas em pacientes com diarreia persistente ou malabsorção, apesar de não haver benefício claro (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27161892/).
  • Osmolaridade — isotônicas (< 350 mOsm/kg) e hipertônicas. Quanto maior a osmolaridade, maior o risco de diarreia.
[tabela id=1366 index=1]

A maioria das formulações já contém a dose diária padrão de micronutrientes (vitaminas e eletrólitos).

Metas nutricionais: calorias

O gasto energético é utilizado para guiar a prescrição de calorias e pode ser estimado com calorimetria indireta ou equações preditivas. As diretrizes da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37517372/) e da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34784064/) recomendam a calorimetria indireta. Como a calorimetria é pouco disponível, frequentemente utiliza-se equações preditivas para estimar a meta calórica e a proteica (tabela 2). Apesar disso, as equações preditivas apresentam baixa acurácia para estimar o gasto energético e frequentemente se associam à administração insuficiente ou excessiva de calorias (underfeeding e overfeeding, respectivamente).

[tabela id=1367 index=2]

De forma geral, a nutrição enteral deve ser iniciada abaixo da meta calórica, com progressão gradual nos dias seguintes. A ESPEN recomenda uma nutrição inicial hipocalórica (< 70% da meta calórica estimada) nos primeiros três dias, com aumento progressivo do 3º ao 7º dia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37517372/). A ASPEN recomenda iniciar com 12 kcal/kg/dia e progredir conforme tolerância (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34784064/). 

O início de nutrição enteral com meta isocalórica (acima de 70% da meta calórica estimada) deve ser evitado na fase aguda da doença crítica (primeiras 48 a 72 horas). A nutrição com meta agressiva nesse período associa-se a maior risco infeccioso e mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24722769/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25632058/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36958363/).

Portanto, a recomendação atual do planejamento de metas envolve (fluxograma 1):

  • Iniciar nutrição enteral nas primeiras 24 a 48 horas de UTI.
  • Progredir de forma gradual, iniciando com doses hipocalóricas nos primeiros 3 dias e evitando doses plenas nas primeiras 72 horas.
  • Alcançar entre 60% a 80% da meta calórica entre o 4º e o 7º dia.
  • Pacientes com desnutrição podem ter a escalada para o alvo calórico de forma mais rápida.
[tabela id=1368 index=3]

Metas nutricionais: proteínas

A meta proteica recomendada pela ESPEN é de 1,3 g/kg/dia (tabela 2). Três estudos randomizados não mostraram benefício de dieta hiperproteica (meta por volta de 2 g/kg/dia) em tempo de sobrevida, tempo de hospitalização ou funcionalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39153816/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36708732/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40495743/). O estudo EFFORT encontrou uma tendência de aumento de mortalidade na análise de subgrupo de pacientes com injúria renal sob dieta hiperproteica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36708732/).

Metas proteicas maiores (1,5 a 2,0 g/kg/dia) podem ser consideradas em pacientes obesos ou com queimaduras extensas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23976769/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33722450/).

Acompanhamento e complicações

As principais complicações relacionadas à dieta enteral são: intolerância, aspiração e diarreia.

Intolerância à dieta

O termo intolerância à dieta é aplicado quando ocorrem náuseas, vômitos, regurgitação de conteúdo gástrico em cavidade oral ou distensão e desconforto abdominal com a infusão de dieta enteral.

Diante dessas manifestações, deve-se confirmar a presença de ruídos hidroaéreos, verificar evacuações e passagem de flatos. Redução de ruídos, das evacuações e de flatos sugere íleo paralítico ou constipação, que respondem pela maioria dos casos de intolerância. Na presença de distensão, é prudente solicitar radiografia de abdome para avaliar abdome obstrutivo; se persistirem dúvidas, a tomografia com contraste ajuda a descartar obstrução mecânica, isquemia mesentérica ou pseudo-obstrução colônica.

Quando não se identifica uma causa específica para a intolerância, a diretriz da ESPEN recomenda iniciar procinéticos, como eritromicina ou metoclopramida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37517372/). Se, mesmo com essa intervenção, o volume residual gástrico ultrapassar 500 mL em seis horas, considera-se a colocação de sonda pós-pilórica. A dieta deve permanecer suspensa pelo menor tempo possível. Se houver melhora da intolerância após as medidas, os procinéticos devem ser reavaliados para suspensão após 48 horas.

A quantificação de rotina do volume residual gástrico já não é indicada. Reduzir a dieta com base nesse parâmetro sem um contexto clínico não se correlaciona de forma consistente com redução do risco de intolerância, aspiração ou pneumonia e pode levar à oferta calórica inadequada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23321763/).

Aspiração

A medida mais fácil que pode auxiliar a prevenir aspiração em pacientes intubados é a elevação da cabeceira da cama em 30 a 45 graus.

A sonda em posição gástrica (pré-pilórica) é a preferencial para o início da infusão de dieta. Apesar da posição pós-pilórica ter demonstrado associação com uma tendência de menor risco de pneumonia e broncoaspiração, não há evidência clara de melhora em desfechos como tempo de internação, intolerância e mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16570149/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12793890/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22809907/). Além disso, a sonda pós-pilórica necessita de endoscopia para passagem, o que pode atrasar o início da dieta. A sonda pós-pilórica pode ser considerada em pacientes com alto risco de broncoaspiração ou com intolerância à dieta apesar de medidas procinéticas.

Diarreia

Pacientes hospitalizados que estão recebendo dieta enteral frequentemente apresentam diarreia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10470748/). A diarreia nesse grupo costuma ser multifatorial e a diarreia secundária à dieta enteral é um diagnóstico de exclusão.

Fatores que comumente contribuem para a diarreia nessa população são antibióticos (principalmente beta-lactâmicos), laxativos, procinéticos e preparações enterais contendo sorbitol (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40459385/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23883438/). A infecção por Clostridioides difficile deve ser considerada se o paciente apresentar fatores de risco (veja tópico "Diagnóstico de Infecção pelo Clostridioides difficile").

Administrar a dieta enteral em infusão contínua é uma medida que pode auxiliar no controle de diarreia quando comparada com infusões em bolus. O uso rotineiro de dieta enteral contínua não parece acrescentar benefício em outras complicações associadas à dieta enteral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37671198/).

A diretriz do American College of Gastroenterology (ACG) recomenda tentar outras medidas em casos refratários de diarreia, apesar do baixo nível de evidência, como terapia suplementar com fibra solúvel e fórmulas hidrolisadas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11478826/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15556256/).

Edição #128

Semaglutida contra Tirzepatida para Obesidade

Criado em: 07 de Julho de 2025 Autor: Revisor: Nordman Wall

Semaglutida (análogo da GLP-1) e tirzepatida (agonista dual da GLP-1 e GIP) são medicamentos altamente eficazes para a perda de peso. Estudos independentes demonstravam perdas de peso maiores com a tirzepatida, porém as drogas nunca haviam sido comparadas em um ensaio clínico randomizado. O estudo SURMOUNT-5 comparou ambos os medicamentos para tratamento de obesidade, sendo publicado no New England Journal of Medicine em maio de 2025 [1]. Este tópico aborda os resultados do estudo e novidades no tratamento de obesidade.
 

Tratamento medicamentoso de obesidade em 2025

As diretrizes e revisões recentes recomendam que a farmacoterapia para obesidade seja considerada nos seguintes grupos, após resposta insuficiente à modificação do estilo de vida [2-5]:

  • Índice de massa corporal (IMC) ≥ 30 kg/m² ou
  • IMC ≥ 27 kg/m² com pelo menos uma comorbidade relacionada à obesidade (por exemplo, diabetes tipo 2, hipertensão ou dislipidemia).

Em ensaios clínicos de medicamentos para obesidade, “perda de peso significativa” é definida como a redução de pelo menos 5% do peso corporal total. Esse valor é o mínimo para um benefício significativo ser percebido em fatores de risco metabólicos e cardiovasculares (como controle glicêmico, pressão arterial e perfil lipídico). Contudo, maior perda de peso está consistentemente associada a maior benefício em várias doenças e fatores de risco. Essa relação foi demonstrada em diabetes tipo 2, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, fatores de risco cardiovasculares e osteoartrite [6-9].

Diante desses achados, a intensidade da perda de peso e a frequência de eventos adversos com cada droga impacta na seleção terapêutica e na decisão compartilhada com o paciente. Nesse contexto, foi realizado o estudo SURMOUNT-5.

O estudo SURMOUNT-5

O SURMOUNT-5 foi um estudo de fase 3b, aberto, controlado e multicêntrico, comparando semaglutida com tirzepatida para perda de peso em pacientes com obesidade.

  • Critério de inclusão: IMC ≥ 30 kg/m² OU IMC ≥ 27 kg/m² com uma complicação relacionada à obesidade (hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular). Além disso, era necessário pelo menos uma tentativa mal sucedida de perda de peso com dieta.
  • Critérios de exclusão:
    • Diabetes.
    • Cirurgia para obesidade prévia ou planejada.
    • Tratamento com droga para redução de peso ou agonista da GLP-1 em até 90 dias antes da inclusão.
    • Mudança de mais de 5 kg em até 90 dias da inclusão.
  • Intervenção: dose máxima tolerada de tirzepatida (10 a 15 mg) ou semaglutida (1,7 a 2,4 mg). A intervenção era administrada por 72 semanas. Todos os participantes receberam aconselhamento sobre nutrição e atividade física.
  • Desfechos: o desfecho primário foi a variação percentual no peso corporal entre o início do estudo e a semana 72. Entre os desfechos secundários estavam uma redução de peso de pelo menos 10%, 15%, 20% e 25% e uma variação na circunferência abdominal entre o início do estudo e a semana 72. 
[tabela id=1370 index=1]

O estudo foi conduzido entre abril de 2023 e novembro de 2024. Foram 751 pacientes randomizados com média de idade de 44 anos, peso médio de 113 kg e IMC médio de 39 (tabela 1).

  • Resultados do desfecho primário: a média de perda de peso foi de 20,2% com tirzepatida, 13,7% com semaglutida. A tirzepatida foi significativamente superior à semaglutida em relação à perda de peso (diferença estimada de tratamento, −6,5%; IC 95%, −8,1 a −4,9).
  • Resultados dos desfechos secundários: considerando somente os que perderam pelo menos 30% do peso, foram 19,7% no grupo tirzepatida e 6,9% no grupo semaglutida. A redução da circunferência abdominal foi de 18,4 cm com tirzepatida e de 13,0 cm com semaglutida. Em ambos os grupos, a redução de peso foi aproximadamente 6% maior em mulheres do que em homens.
  • Segurança e eventos adversos: 76% do grupo tirzepatida e 79% do grupo semaglutida relataram pelo menos um evento adverso, sendo a maioria gastrointestinais e leves. Eventos gastrointestinais também foram os que mais levaram à descontinuação do tratamento e foram observados com maior frequência no grupo semaglutida (21 participantes — 5,6%) do que no grupo tirzepatida (10 participantes — 2,7%). Reações no local da injeção foram mais comuns com tirzepatida do que com semaglutida (8,6% vs. 0,3%). Essas reações não levaram a descontinuação do tratamento.

Em ambos os grupos, reduções de peso maiores foram associadas a melhorias mais expressivas em fatores de risco cardiometabólicos. Esse achado é consistente com estudos anteriores.

Perspectiva

Os resultados indicam que a tirzepatida tem maior efeito em perda de peso com menor eventos adversos que levam à interrupção do tratamento em comparação com a semaglutida.

Uma limitação importante é o custo. Em julho de 2025, a tirzepatida está disponível no Brasil (Mounjaro®) nas doses de 2,5 e 5 mg (um terço da dose do estudo) e tem custado de 1.700 a 2.300 reais para 4 semanas nessas doses. A semaglutida está disponível na dose de 2,4 mg (Wegovy®) e custa de 1.700 a 1.900 reais por 4 semanas.

A semaglutida demonstrou um benefício em prevenção de eventos cardiovasculares no estudo SELECT e esse tipo de evidência ainda não existe para tirzepatida. O estudo em andamento SURMOUNT-MMO com tirzepatida fornecerá dados sobre a prevenção de doenças cardiovasculares com essa droga (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40545827/). Veja mais sobre o estudo SELECT em "Semaglutida para Prevenção Cardiovascular Secundária".

Não existe uma orientação formal de como transicionar de semaglutida em doses altas para tirzepatida. Seguindo a bula, a tirzepatida deve ser iniciada na dose de 2,5 mg uma vez por semana e escalonada em seguida, independente da dose de semaglutida. Um estudo prospectivo avaliou a transição de semaglutida, liraglutida ou dulaglutida direto para tirzepatida 5 mg, com bom perfil de segurança (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38723893/). 

Com o provável aumento na prescrição desses medicamentos, deve-se atentar para a possibilidade de interações medicamentosas. Isso é válido especialmente para drogas orais, pois a lentificação do esvaziamento gástrico pode afetar a sua farmacocinética. Pacientes em uso de anticoncepcionais orais devem mudar para um método contraceptivo não oral por 4 semanas após o início do uso de tirzepatida e por 4 semanas após cada escalonamento de dose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37940101/). A semaglutida e outros agonistas do GLP-1 não parecem ter o mesmo efeito sobre os anticoncepcionais orais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25475122/).

Um dos próximos passos é tentar maximizar a redução de gordura preservando massa magra. A bula da semaglutida sinaliza maior incidência de fraturas de quadril e pelve em mulheres e em pacientes ≥ 75 anos, o que pode estar relacionado à perda de massa muscular. Quando um paciente perde peso e ganha novamente, esse ganho parece ocorrer predominantemente às custas de gordura, sem recuperação proporcional da massa magra (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21795437/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19366882/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30925026/). Alguns trabalhos testam abordagens complementares, como o estudo BELIEVE, que combinou semaglutida ao anticorpo bimagrumabe, conseguindo perda de peso e preservação de massa magra (resultados apresentados em congresso, ainda não publicados) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38218536/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33439265/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33074327/).

Edição #128

Hipodermóclise: Manual Brasileiro de 2025

Criado em: 07 de Julho de 2025 Autor: Revisor: Marcela Belleza

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) atualizaram recentemente seu manual sobre o uso da via subcutânea na geriatria e em cuidados paliativos [1]. Este tópico resume as principais informações sobre o tema e a hipodermóclise.

Definição e indicações da hipodermóclise

Hipodermóclise é o procedimento que estabelece um acesso à via subcutânea para administração de medicamentos ou soluções. Esse acesso é habitualmente obtido com um cateter de acesso venoso periférico de pequeno calibre (20 a 24 gauge).

As vantagens da hipodermóclise são o maior conforto do paciente em relação à via intravenosa, maior facilidade de realização do procedimento, maior satisfação da equipe de enfermagem e menor custo [2,3]. 

As principais indicações de administração subcutânea de medicamentos ou soluções via hipodermóclise são:

  • Desidratação.
  • Disfagia.
  • Impossibilidade de acesso venoso periférico, quando não há indicação de acesso venoso central.
  • Manejo de sintomas em cuidados paliativos.

Por ser menos invasiva, menos dolorosa e associada a maior satisfação do paciente, porém com alguma incerteza em relação à eficácia de alguns medicamentos, a principal aplicação da hipodermóclise é em cuidados paliativos. Neste contexto, o plano terapêutico prioriza o conforto e a eficácia da terapia está relacionada ao controle de sintomas. Há escassez de estudos que comparem a administração de medicamentos via hipodermóclise e via intravenosa. É comum o uso dessa via não estar na bula dos medicamentos. Um estudo em um hospice na Dinamarca identificou que dois terços dos medicamentos utilizados por via subcutânea não tinham esse uso descrito em bula, ou seja, foram utilizados off-label [4]. 

O manual brasileiro sugere que, nos casos em que há poucas evidências e experiência clínica limitada, a decisão sobre a inserção de uma via por hipodermóclise pode ser compartilhada [1]. 

Hidratação e medicamentos via hipodermóclise

Hidratação

A eficácia e a segurança da hidratação via hipodermóclise são consideradas equivalentes ou até mesmo superiores à via intravenosa. Há menor incidência de agitação em idosos com comprometimento cognitivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8641599/) e menor risco de eventos adversos associados à via de administração (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33411351/). 

Quando há necessidade de reposição volêmica rápida, como na desidratação grave ou choque, é preferível utilizar a via intravenosa. É contraindicada a reposição de volumes maiores do que 3 litros em 24 horas via hipodermóclise por falta de estudos que indiquem segurança para administração de grandes volumes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32833979/,https://www.cambridge.org/core/journals/reviews-in-clinical-gerontology/article/abs/subcutaneous-fluid-and-drug-delivery-safe-efficient-and-inexpensive/40BDBC3068AFF5DF82A5A99E7D424B57/).

O modo e o tempo de infusão variam na literatura. Alguns autores sugerem velocidade de infusão em torno de 1 mL/min e até 1,5 L/dia por sítio (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11730312/). 

Medicamentos

Existem poucas evidências de ensaios randomizados que avaliem desfechos clínicos com medicamentos por hipodermóclise. Antes da prescrição via subcutânea, é recomendado a checagem das evidências sobre cada medicamento ou a utilização de protocolos institucionais.

Uma revisão sistemática considerou que as melhores evidências são para ceftriaxona, ertapenem, hidrocortisona, morfina e quetamina (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32833979/). Outra revisão também incluiu as seguintes drogas como aquelas com melhores evidências: teicoplanina, furosemida, midazolam, levetiracetam, ondansetrona, diclofenaco, cetorolaco e tramadol (https://www.cambridge.org/core/journals/reviews-in-clinical-gerontology/article/abs/subcutaneous-fluid-and-drug-delivery-safe-efficient-and-inexpensive/40BDBC3068AFF5DF82A5A99E7D424B57/). 

Medicamentos que reconhecidamente causam reações inflamatórias graves ou necrose quando há extravasamento no uso intravenoso não devem ser infundidos via hipodermóclise. Exemplos são vancomicina, fenitoína, claritromicina e amicacina.

Não há consenso sobre a diluição de medicamentos. Uma opção é realizar uma diluição 1:1, ou seja, 1 mL de diluente para cada 1 mL de medicamento.

As principais informações sobre drogas utilizadas comumente via subcutânea podem ser acessadas aqui (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32833979/,https://www.cambridge.org/core/journals/reviews-in-clinical-gerontology/article/abs/subcutaneous-fluid-and-drug-delivery-safe-efficient-and-inexpensive/40BDBC3068AFF5DF82A5A99E7D424B57/)

Aspectos técnicos da hipodermóclise

Os principais locais recomendados são (figura 1):

  • Abdome: principalmente fossa ilíaca esquerda.
  • Supraescapular ou interescapular: não interferem na mobilidade do paciente e são mais difíceis de serem retiradas pelo paciente confuso.
  • Tórax.
  • Deltoide.
  • Coxa lateral.
[tabela id=1369 index=1]

É sugerido uma espessura mínima da pele a ser puncionada de 1 a 2,5 cm. Especialistas orientam evitar áreas de proeminência óssea, dobras, cicatrizes de incisões cirúrgicas, regiões de radioterapia prévia ou áreas com lesões como úlceras, suspeita de infecção ou inflamação visível.

Recomenda-se utilizar cateteres de punção venosa (cateteres não agulhados, tipo Jelco®) de tamanho 20 a 24 G. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) recomenda trocar o local do acesso subcutâneo para soluções de hidratação a cada 24 a 48 horas e para medicamentos a cada 7 dias (https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-4-medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude.pdf/view/). Apesar disso, serviços de cuidados paliativos relatam períodos mais prolongados para troca de cateteres não agulhados, de até 12 dias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8021539/). 

[video id=29 index=1 vimeo-id=1148636722 tag=V%C3%ADdeo%201 title=Como%20realizar%20hipoderm%C3%B3clise]

O vídeo 1 mostra como realizar o procedimento.

Complicações e contraindicações

Contraindicações possíveis relacionadas à redução da absorção cutânea são: 

  • Baixa perfusão tecidual por choque circulatório.
  • Cicatrizes e sequelas de radioterapia.
  • Hipoalbuminemia.
  • Anasarca.

A hipodermóclise deve ser evitada em sítios de punção com sinais inflamatórios ou em pacientes com distúrbios da coagulação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32833979/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28977240/). 

As principais complicações que indicam a troca do local do acesso são dor persistente, sinais de infecção (calor, rubor, dor, edema, secreção purulenta), endurecimento local, hematoma e necrose.