Edição #131
Atualização de DPOC: GOLD 2025
A publicação anual do Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) fornece recomendações atualizadas para o tratamento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A edição de 2025 trouxe novidades sobre avaliação e manejo dessa condição [1]. Este tópico aborda a publicação.
O Guia já abordou publicações prévias do GOLD em "Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica - GOLD 2023" e "Atualização de DPOC: GOLD 2024". Outros tópicos de DPOC incluem "Tromboembolismo Venoso em Pacientes com DPOC Exacerbada", "Betabloqueadores e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica" e "DPOC Refratária e Dupilumabe".
Espirometria e tomografia
Espirometria: uso dos valores pré-broncodilatador
O diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) se baseia no parâmetro espirométrico de VEF1/CVF < 0,7. Essa relação utiliza a velocidade expiratória forçada no primeiro segundo (VEF1) e a capacidade vital forçada (CVF). Os valores utilizados para o diagnóstico são aqueles aferidos após a administração de broncodilatador (BD).
O Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) de 2025 destaca o papel dos valores pré-BD como triagem (fluxograma 1). A relação VEF1/CVF com valores pós-BD continua sendo usada para o diagnóstico. Se a relação VEF1/CVF pré-BD for ≥ 0,7, DPOC pode ser descartada e a etapa de administração do BD não precisaria ser feita na maioria dos pacientes, ganhando tempo nos locais de realização de exames. Se a suspeita de DPOC for muito alta, como em pacientes muito sintomáticos ou com VEF1 baixo, a aferição dos parâmetros pós-BD para cálculo da relação pode ser feita mesmo se o valor da relação pré-BD for normal.
A preferência pelos valores pós-BD é justificada por (1) serem mais reproduzíveis, (2) diferenciarem DPOC de asma (por mostrarem uma obstrução que persiste após o BD) e (3) poderem flagrar pacientes que aumentam a CVF após o BD, gerando uma relação VEF1/CVF mais baixa e, possivelmente, revelando uma relação VEF1/CVF alterada que estaria normal antes do BD [2]. Evidências que levaram os autores a recomendar os valores pré-BD como triagem sinalizam que (1) os valores pré-BD são reproduzíveis, (2) a presença de reversibilidade não determina isoladamente a diferenciação de asma e DPOC e (3) a ocorrência de uma relação alterada que se torna evidente somente após o BD é rara [3-5].
Indicações de tomografia computadorizada
O documento pontua que a tomografia computadorizada (TC) de tórax deve ser considerada na DPOC com exacerbações persistentes ou frequentes com tosse com secreção excessiva, levantando a suspeita de bronquiectasia ou infecções atípicas. O GOLD também sugere a TC em pacientes com sintomas desproporcionais à gravidade da DPOC com base na espirometria, porém não detalha ou exemplifica o que seria essa desproporção.
A presença de bronquiectasias em pacientes com DPOC aumenta conforme o VEF1 diminui, com uma prevalência maior que 30% em pacientes com VEF1 ≤ 50% [6-8]. Outros fatores que aumentam a probabilidade dessa comorbidade em um paciente com DPOC são [6,9,10]:
- Pelo menos uma admissão hospitalar por exacerbação no último ano.
- Isolamento de uma bactéria patogênica no escarro, especialmente P. aeruginosa.
- Tuberculose prévia.
- Índice de massa corporal reduzido.
Diagnosticar uma bronquiectasia em um paciente com DPOC é relevante por afetar o manejo ambulatorial e durante exacerbações. Veja mais em "Bronquiectasia".
Risco cardiovascular e hipertensão pulmonar
A diretriz destaca os eventos cardiovasculares em pacientes com DPOC. O risco cardiovascular sofre um aumento expressivo durante e nas primeiras semanas após uma exacerbação de DPOC, especialmente naquelas com necessidade de internação. O aumento estimado é significativo, sendo de 15 ou até mais vezes na primeira semana e permanecendo elevado por até um ano (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38182279/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37990197/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36102236/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38729787/). Esse aumento afeta todos os tipos de eventos cardiovasculares (exacerbação de insuficiência cardíaca, arritmias e eventos coronarianos), mas parece especialmente importante para exacerbações de insuficiência cardíaca.
Esse risco enfatiza a necessidade de um diagnóstico diferencial apropriado nos pacientes com DPOC no pronto-socorro e ambulatório, com cautela para não se fixar somente na DPOC como causa dos sintomas. O limiar para solicitação de troponina e peptídeo natriurético (BNP) deve ser baixo. A DPOC não é uma contraindicação absoluta aos beta-bloqueadores, caso exista uma indicação estabelecida para o uso. Veja mais em "Betabloqueadores e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica".
Hipertensão pulmonar
Hipertensão pulmonar (HP) é comum em pacientes com DPOC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32184586/). A maioria dos pacientes com DPOC que desenvolve HP se encaixa nos grupos 2 (HP por disfunção cardíaca esquerda) ou 3 (HP por doença pulmonar, nesse caso, a própria DPOC). Contudo, alguns pacientes podem se encaixar em outros grupos e se beneficiar de outros tratamentos. A diretriz destaca pacientes com pouca ou moderada limitação ao fluxo de ar, hipercapnia ausente ou leve, mas com capacidade de difusão do monóxido de carbono (DLCO) < 45% do predito e limitação aos exercícios. Veja mais em "Hipertensão Pulmonar".
Pacientes com LABA e corticoide inalatório: o que fazer?
A combinação de um beta agonista de longa ação (LABA) e um corticoide inalatório, isoladamente, não é recomendada para DPOC. Os corticoides inalatórios podem beneficiar os pacientes com exacerbações, mas idealmente devem ser acrescentados em pacientes que já estão em uso da combinação de LABA e anti-muscarínicos de longa ação (LAMA), especialmente se a contagem de eosinófilos ≥ 100 células/μl. Na prática, é comum encontrar pacientes em uso de LABA e corticoide inalatório, por essa ser uma combinação recomendada na asma.
O GOLD faz as seguintes recomendações para lidar com pacientes em uso de LABA e corticoide inalatório (fluxograma 2):
- Se o paciente não tem passado de exacerbação, considerar trocar para a associação de LABA e LAMA.
- Paciente com passado de exacerbação e melhorou com corticoide inalatório: se não tem sintomas, manter o tratamento com LABA e corticoide inalatório. Se tem sintomas, acrescentar LAMA.
- Paciente está tendo exacerbações mesmo com essa combinação: utilizar a contagem de eosinófilos para guiar a conduta. Se < 100 células/μl, retirar o corticoide e prescrever a associação de LABA e LAMA. Se ≥ 100 células/μl, acrescentar LAMA.
Os corticoides inalatórios, apesar de reduzirem exacerbações, aumentam o risco de pneumonia. Se, após a introdução do corticoide inalatório, começarem a ocorrer pneumonias, deve-se suspender esse medicamento. Em pacientes com contagem de eosinófilos > 300 células/μl, existe maior risco de exacerbações após a retirada dessa droga.
A combinação de LABA e LAMA pode ser obtida via SUS (https://www.gov.br/conitec/pt-br/assuntos/noticias/2020/dezembro/pacientes-com-doenca-pulmonar-obstrutiva-cronica-ganham-mais-uma-opcao-de-tratamento-no-sus/,https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/20211123_portal_portaria_conjunta_19_pcdt_dpoc.pdf).
Ensifentrina e dupilumabe
Os pacientes com DPOC que persistem com sintomas ou exacerbações, apesar do uso de LABA, LAMA e corticoide inalatório, são candidatos a terapias adicionais. Dois medicamentos novos entraram no algoritmo, ensifentrina e dupilumabe.
A ensifentrina é uma opção para aqueles que persistem com dispneia apesar do uso de LABA e LAMA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39557208/). Esse medicamento é um inibidor da fosfodiesterase 3 e 4 administrado via inalatória, com atividade anti-inflamatória e broncodilatadora. Nos estudos com ensifentrina, os pacientes não estavam recebendo terapia dupla com LAMA-LABA, acrescentando incerteza no benefício dessa recomendação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37364283/). A dose é de 3 mg duas vezes ao dia e o medicamento ainda não está disponível no Brasil. A posição da ensifentrina no algoritmo de DPOC ainda pode mudar conforme novas evidências surgirem.
O dupilumabe é uma possibilidade para pacientes com DPOC que persistem com exacerbações, apesar da terapia com LABA, LAMA e corticoide inalatório. O uso de dupilumabe na DPOC foi abordado em "DPOC Refratária e Dupilumabe". Os pacientes devem ter contagem de eosinófilos ≥ 300 células/μl e bronquite crônica. O dupilumabe está disponível no Brasil e a dose para DPOC é de 300 mg via subcutânea a cada duas semanas. Outras opções para pacientes que persistem com exacerbações são azitromicina e roflumilaste (fluxograma 3).