Edição #133

Nova Diretriz Americana de 2025 sobre Tratamento de Infecção Urinária Complicada

Criado em: 18 de Agosto de 2025 Autor: Revisor: Nordman Wall

A Infectious Disease Society of America (IDSA) publicou uma nova diretriz de infecção do trato urinário (ITU) em 2025, abordando detalhes da classificação e terapia antimicrobiana [1]. Entre as razões para essa nova publicação, estão a necessidade de ampliar o foco da diretriz passada (que era direcionada somente para mulheres com ITU) e a crescente prevalência comunitária de bactérias resistentes envolvidas em ITU. Este tópico aborda a nova diretriz. 

O Guia já abordou infecção urinária em "Diretriz de Infecção do Trato Urinário", "Infecção do Trato Urinário Associada a Cateter Vesical" e "Piúria, Bacteriúria e Delirium".

Nova classificação: ITU complicada e não complicada

A nova diretriz da Infectious Disease Society of America (IDSA) mudou a classificação das infecções do trato urinário (ITU). Segundo o documento, para fins de manejo, as ITUs são divididas em complicadas e não complicadas: 

  • ITU complicada: ITU com sinais de que a infecção progrediu além da bexiga e/ou tem repercussão sistêmica, como febre, calafrios, instabilidade hemodinâmica, dor em flanco/lombar ou desconforto no ângulo costovertebral. Pielonefrite está incluída nessa categoria.
  • ITU não complicada: quadro restrito à bexiga (disúria, polaciúria, urgência e dor suprapúbica) sem febre ou outros sinais sistêmicos (salvo outra explicação) e sem dor em flanco/lombar ou desconforto no ângulo costovertebral. Pode ocorrer em mulheres ou em homens. 

Uma exceção é a presença de cateteres urinários (mesmo que intermitentes), stents na via urinária ou nefrostomia percutânea, que caracterizam uma ITU como complicada. Esses fatores são claramente identificáveis na avaliação clínica e impactam em vários aspectos do tratamento. Apesar dessa orientação, os autores reconhecem ser possível tratar como não complicada uma ITU associada a cateter na ausência de sintomas sistêmicos em um cateter recente. Veja mais em "Infecção do Trato Urinário Associada a Cateter Vesical".

A nova classificação difere da diretriz anterior da IDSA e da European Society for Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID) de 2010. O foco da diretriz atual é valorizar o quadro clínico, especificamente a extensão e a gravidade da infecção. Classificar uma ITU como complicada quer dizer somente que a infecção acomete partes do trato urinário além da bexiga e/ou tem sinais sistêmicos. O termo “complicada” não significa que existe uma complicação como abscesso ou litíase com obstrução do trato urinário. Essa mudança alinha-se à diretriz de 2024 da Sociedade Europeia de Urologia de infecções urológicas, que propõe uma classificação similar, porém com os termos ITU localizada (não complicada, cistite isolada) e sistêmica (complicada, como pielonefrite e prostatite) [2].

Pacientes do sexo masculino com ITU não são automaticamente considerados com ITU complicada. Uma ressalva é a possibilidade de prostatite aguda, que deve ser considerada e excluída antes de classificar uma ITU como não complicada. Não existe abordagem consensual de como excluir prostatite aguda. Na prática, a suspeita surge em pacientes com sintomas de cistite e sinais sistêmicos, dor pélvica, sintomas de dificuldade de esvaziamento vesical e instrumentação urológica recente. O toque retal auxilia no diagnóstico e pode ser feito de maneira cautelosa [3]. Ao longo da diretriz e desse tópico, “homem” e “mulher” são termos utilizados para o sexo biológico ao nascimento, por faltarem dados de estudos de ITU em pessoas transgênero. 

Imunossupressão, diabetes e anormalidades do trato urinário também não classificam uma ITU como complicada isoladamente. A diretriz pontua que faltam dados robustos indicando benefício de durações mais longas de antibiótico nessas populações quando o quadro é de ITU não complicada. Essas condições merecem atenção com acompanhamento mais próximo, mas não definem a categoria da ITU para fins de manejo.

Antibiótico inicial na ITU complicada: opções conforme gravidade

Recomendação

A diretriz sugere a escolha do antibiótico inicial separando dois grupos de pacientes (tabela 1): 

  • Pacientes com sepse (escore SOFA ≥ 2): preferir cefalosporinas de terceira (ceftriaxona) ou quarta geração (cefepime), quinolonas, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmicos.
  • Pacientes sem sepse: preferir cefalosporinas de terceira (ceftriaxona) ou quarta geração (cefepime), quinolonas ou piperacilina-tazobactam.
[tabela id=1442 index=1]

A abordagem em quatro etapas explicada abaixo e disposta na figura 1 orienta a escolha dentre esses antibióticos.

[tabela id=1443 index=2]

Pacientes com critérios de sepse devem ter antibióticos com amplo espectro, considerando a cobertura para microrganismos diferentes de Enterobacterales (por exemplo, Pseudomonas aeruginosa, enterococo ou Staphylococcus aureus resistente à meticilina), quando o diagnóstico de ITU complicada não é claro ou se há suspeita de ITU por esses patógenos. A diretriz valoriza a cobertura inicial adequada em contexto de sepse para prevenir mortalidade. A escolha de um antibiótico com espectro mais estreito (descalonamento) pode ser feita após o resultado de culturas.

Por outro lado, em pacientes sem sepse, antibióticos como sulfametoxazol-trimetoprim, amoxicilina-clavulanato e cefalosporinas de primeira ou segunda geração podem ser considerados para tratamento oral empírico mesmo em casos de ITU complicada. Nesse grupo de pacientes sem critérios de sepse, a diretriz valoriza a escolha de um antibiótico inicial com espectro mais estreito, pois a mortalidade é baixa.

Abordagem em quatro etapas

Para seguir o raciocínio proposto pela diretriz, duas informações iniciais são necessárias:

  • Qual o impacto caso o antibiótico inicial seja inadequado? Os autores realizaram uma meta-análise com oito estudos observacionais e estimaram um aumento de mortalidade com odds ratio de 1,56 (IC 95% 0,99–2,46) se o antibiótico inicial for inadequado. A qualidade da evidência é baixa, mas é o melhor número disponível. Não foi possível estimar esse efeito em outros desfechos, como cura clínica, mas é plausível existir uma influência.
  • Qual o aumento aceitável de mortalidade ao optar por um antibiótico com espectro mais estreito? Por convenção dos autores, a meta é não ultrapassar 1% de aumento absoluto de mortalidade ao optar por um esquema mais estreito. 

A diretriz orienta que o processo de escolha da terapia inicial/empírica envolva quatro etapas (figura 1):

  1. Gravidade do quadro. Se o paciente está em choque séptico, sepse sem choque ou sem sepse.
  2. Fatores de risco para microrganismo resistente. 
  3. Fatores específicos do paciente. Como alergias e interações medicamentosas.
  4. Perfil de sensibilidade dos organismos locais.

Antibiótico inicial na ITU complicada: como escolher entre as opções

Etapa 1: gravidade do quadro

Esse é o aspecto mais influente na escolha da terapia inicial. Deve-se definir se o paciente tem sepse ou choque séptico segundo o Sepsis-3 (escore SOFA ≥ 2 para definir sepse)(https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26903338/). Essa caracterização é importante para separar os pacientes em três grupos de mortalidade estimada:

  • Choque séptico: aproximadamente 20%.
  • Sepse sem choque: aproximadamente 10%.
  • Infecção sem sepse: menor ou igual a 5%.

Em ITU com sepse ou choque séptico, a diretriz apoia o uso inicial de antibióticos de amplo espectro se necessário, com ajuste após o resultado de culturas. Em pacientes sem sepse, deve-se priorizar espectros mais estreitos e possivelmente eficazes, mesmo que exista incerteza sobre a adequação inicial. A escolha do antibiótico nesses casos tende a não influenciar grandes desfechos como redução de mortalidade, mas pode resultar em melhora sintomática ou cura clínica.

Etapa 2: fatores de risco para microrganismo resistente

O principal ponto dessa etapa é a análise de culturas prévias do paciente, especialmente dos últimos 3 a 6 meses. O documento sugere evitar antibióticos para os quais o paciente teve um microrganismo resistente isolado anteriormente. Além disso, caso tenha sido exposto a quinolonas nos últimos 12 meses, essa classe deve ser evitada.

Na revisão dos autores, quando o antibiótico inicial era concordante com a cultura anterior, a probabilidade de o tratamento ser adequado aumenta em pelo menos 7 vezes. Apresentar uma bactéria resistente em cultura anterior é um fator de risco para a identificação de uma bactéria resistente ao mesmo antibiótico na cultura atual. Ter mais de uma cultura prévia com a mesma resistência aumenta ainda mais as chances de identificar um microrganismo resistente ao mesmo antibiótico. Quando os resultados de culturas prévias são discordantes, a cultura mais recente é uma evidência mais forte para guiar a decisão. Exposição aos cuidados de saúde possuem uma associação fraca ou inexistente com a probabilidade de resistência.

Etapa 3: fatores específicos do paciente

Como boa prática, deve-se considerar o histórico de alergia a antibióticos, contraindicações a antibióticos específicos e potenciais interações medicamentosas. Por bom senso, os autores sugerem evitar um antibiótico que o paciente estava tomando quando os sintomas atuais se desenvolveram ou antibiótico que o paciente tomou muito recentemente.

Etapa 4: perfil de sensibilidade dos organismos locais

Essa etapa deve ser aplicada somente aos pacientes com critérios de sepse. Os dados são úteis para guiar a terapia se forem derivados do mesmo estabelecimento de saúde, baseados nos últimos 12 meses e de uma população semelhante ao paciente. 

Com base no perfil de sensibilidade local, deve-se selecionar um antibiótico com os seguintes limiares de sensibilidade:

  • Choque séptico: antibiótico com ≥ 90% de sensibilidade dos microrganismos prováveis.
  • Sepse sem choque: antibiótico com ≥ 80% de sensibilidade dos microrganismos prováveis.

Esses limiares de 90% (choque séptico) e 80% (sepse sem choque) são os pontos em que, em média, o risco extra de mortalidade por um antibiótico inicialmente inadequado não ultrapassa 1% (ver em acima em ‘Abordagem em quatro etapas’). Esse cálculo é feito utilizando o incremento de risco com a escolha inicial inadequada (odds ratio de 1,56) e a mortalidade basal de cada grupo.

Se o paciente tem uma cultura prévia, a escolha deve ser guiada pelo padrão de resistência da espécie isolada nos dados recentes daquele estabelecimento para a população do paciente. Na ausência de culturas prévias, deve-se utilizar padrão de resistência da E. coli.

Em pacientes que não têm critérios de sepse, a diretriz não se posiciona sobre utilizar ou não o perfil de sensibilidade local. Esse grupo possui baixa mortalidade prévia ao tratamento e um antibiótico inicial inadequado influencia pouco esse desfecho. Os autores apontam que utilizar antibióticos de amplo espectro nesse grupo pode aumentar a resistência bacteriana sem benefício para os pacientes. Por outro lado, é possível que uma escolha inicialmente inadequada impacte em outros desfechos como velocidade de recuperação, permanência hospitalar e cura clínica.

O antibiótico deve ser direcionado para a espécie isolada assim que o resultado da cultura atual estiver disponível. Quando não existe resultado de cultura atual, o quadro clínico pode servir de guia. Pacientes em melhora com antibiótico de amplo espectro são bons candidatos à transição para um regime mais estreito e troca para uma droga oral, caso microrganismos resistentes não sejam isolados. 

Transição para antibiótico oral e duração do tratamento na ITU complicada

Em pacientes que estão melhorando clinicamente, conseguem tomar medicamento oral e existe uma opção oral eficaz, a diretriz sugere modificar para antibiótico oral em vez de continuar a terapia parenteral pelo restante do tratamento. Essa recomendação é válida também para pacientes com hemocultura positiva para gram negativos.

O foco deve estar controlado para aplicar essa orientação, o que no caso de ITU significa desobstruir a via urinária ou drenar abscessos maiores que 3 a 5 cm. Em homens com ITU e febre, a escolha deve priorizar antibióticos com boa penetração na próstata, como as quinolonas, sulfametoxazol-trimetoprim e cefalosporinas.

Essa recomendação pode reduzir as complicações de dispositivos intravenosos, tempo e esforço de enfermagem, volume de fluido e sódio administrado, duração da hospitalização, custos de assistência médica e inconveniências para o paciente.

As doses das opções via oral estão na tabela 2.

[tabela id=1444 index=3]

Em pacientes que estão melhorando, a diretriz orienta um tempo de tratamento de 5 a 7 dias para esquemas com quinolonas e 7 dias para esquemas sem quinolonas. Em pacientes com hemocultura positiva para um gram-negativo, o tempo recomendado é de 7 dias.

Nos homens com ITU febril nos quais há suspeita de prostatite bacteriana aguda, pode existir benefício de uma duração mais longa (10 a 14 dias). Faltam evidências para orientar a duração ideal nessa população.

Edição #133

Bisfosfonatos

Criado em: 18 de Agosto de 2025 Autor: Revisor: Marcela Belleza

Bisfosfonatos são medicamentos de primeira linha para diversas doenças relacionadas aos ossos e metabolismo do cálcio. Este tópico revisa o uso desta classe, abordando as aplicações ambulatoriais e hospitalares. 

Mecanismo de ação

O efeito farmacológico primário dos bisfosfonatos é a redução da reabsorção óssea. Eles exercem esse efeito através da inibição da função dos osteoclastos.

Em relação a desfechos clínicos, os bisfosfonatos [1-8]:

Os bisfosfonatos são análogos sintéticos do pirofosfato. Após a administração, se ligam avidamente ao tecido esquelético, especialmente em áreas de remodelação ativa. Durante a reabsorção óssea, os bisfosfonatos são internalizados pelos osteoclastos e inibem a enzima farnesil pirofosfato sintetase, levando à inibição da função dessas células.

Os principais fármacos disponíveis e suas características estão resumidos na tabela 1.

Uso dos bisfosfonatos na osteoporose primária

Indicação e doses

Os bisfosfonatos são indicados para os seguintes grupos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/,https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/consultas/relatorios/2025/relatorio-preliminar-pcdt-osteoporose/view/):

  • Pacientes com osteoporose pelo critério de densidade mineral óssea (T-escore ≤ −2,5).
  • História de fratura por fragilidade (independente da densidade mineral óssea).
  • Pacientes com alto risco de fratura pela avaliação clínica. Indicação que contempla pacientes com osteopenia (T-escore entre −1,0 e −2,5) e fatores de risco adicionais de fratura. O risco de fratura pode ser estimado com a calculadora FRAX.

Em pacientes com comorbidades, como doença renal crônica, ou de muito alto risco de fratura, outras opções terapêuticas podem ser preferíveis por maior eficácia ou segurança (como denosumabe e teriparatida). Veja mais em "Tratamento Farmacológico de Osteoporose Primária".

A dose habitual de cada fármaco está na tabela 1

[tabela id=1445 index=1]

Evidência de benefício

Ensaios clínicos demonstram que a maioria dos bisfosfonatos reduz fraturas vertebrais, não vertebrais e de quadril (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25199883/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/). Entre as exceções, há o ibandronato, que reduziu somente fraturas vertebrais, sem efeito claro em fraturas não vertebrais ou de quadril (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15231010/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16339289/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18047776/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18663402/). Muitos especialistas preferem outras opções de bisfosfonatos via oral por conta dessa limitação. O pamidronato tem sido menos utilizado para osteoporose, pois não demonstrou redução direta no risco de fratura e sua posologia intravenosa é menos conveniente que a do ácido zoledrônico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16357689/). 

De maneira geral, considera-se que os bisfosfonatos possuem eficácia similar entre si. Existem evidências que sugerem algumas diferenças entre esses fármacos, com destaque para:

  • Alendronato semanal promoveu maior ganho de densidade mineral óssea que risedronato semanal, sem diferença em incidência de fraturas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15619680/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16636120/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30674078/).
  • Ácido zoledrônico pode ser discretamente superior aos demais bifosfonatos para prevenção de fraturas vertebrais, de quadril e fraturas em geral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27273112/). 

Uso após fratura de fragilidade

Há controvérsia sobre o momento ideal para início de bifosfonato nesse contexto. Os principais receios teóricos do início precoce são:

  • Ao inibir a reabsorção óssea, poderia atrasar ou impedir a consolidação da fratura.
  • Risco de confundir eventos adversos relacionados ao medicamento, como sintomas flu-like (ver mais em ‘Cuidados com o uso’), com complicações pós-operatórias, levando a maior tempo de internação hospitalar.
  • Dificuldade no uso oral em pacientes acamados ou sob analgesia com opioides. 

O ensaio clínico HORIZON encontrou que iniciar ácido zoledrônico após duas semanas da fratura foi eficaz e seguro (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21153021/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/). Essa é a conduta usualmente recomendada em diretrizes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/). 

Alguns especialistas questionam a necessidade de aguardar duas semanas para o início do uso e encorajam o uso ainda mais precoce. Uma metanálise de ensaios clínicos randomizados avaliou que o início do bisfosfonato no perioperatório de uma fratura de fragilidade é seguro quanto à consolidação e reduz novas fraturas, representando uma janela de oportunidade para maior adesão terapêutica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39115687/). 

Tempo de uso e pausa no tratamento (“drug holiday”)

As diretrizes sugerem avaliar a suspensão dos bisfosfonatos (também chamada de drug holiday) após três anos para drogas intravenosas ou cinco anos para drogas orais. Evidências apontam que, após o uso de bisfosfonatos por cinco anos (drogas orais) ou três anos (drogas intravenosas), há efeito residual em prevenção de fraturas não vertebrais e de quadril na maior parte dos pacientes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22161728/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17190893/). Por outro lado, o uso prolongado eleva o risco de fratura atípica do fêmur (veja mais em 'Cuidados com o uso'). 

As recomendações da American Society for Bone and Mineral Research são as mais utilizadas para definir quem pode se beneficiar de drug holiday, apesar de essa conduta não ser consensual (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26350171/). Segundo esta referência, o holiday deve ser considerado em pacientes com os três critérios a seguir:

  • T-escore em fêmur total > −2,5.
  • Ausência de fraturas antes ou durante o período de tratamento. 
  • Risco de fraturas baixo ou intermediário, calculado pelo FRAX (https://abrasso.org.br/frax-brasil/).

Nas pessoas em que foi realizado o holiday, a reavaliação com densitometria e/ou marcadores de reabsorção óssea (como o CTX) deve ser feita a cada 2–4 anos, ou antes, se houver nova fratura. O objetivo da reavaliação é reiniciar a terapia com bisfosfonato se houver evidência de perda mineral óssea nos exames ou nova fratura de fragilidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/). 

Uso dos bisfosfonatos em outros cenários

Hipercalcemia

Os bisfosfonatos são utilizados para o tratamento nos seguintes cenários de hipercalcemia por aumento da reabsorção óssea (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36545746/):

  • Cálcio total corrigido maior ou igual a 14 mg/dL OU
  • Hipercalcemia sintomática.

O ácido zoledrônico é preferível. Na sua indisponibilidade, utiliza-se o pamidronato. A resposta é atingida em dois a quatro dias e pode se manter por até um mês (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36545746/). Veja mais em “"Tratamento da Hipercalcemia da Malignidade".

Metástases ósseas e lesões líticas de mieloma múltiplo

No contexto oncológico, os bisfosfonatos são utilizados nos seguintes cenários:

  • Prevenção de eventos relacionados ao esqueleto. As evidências são mais robustas em pacientes com lesões líticas de mieloma ou metástases ósseas de neoplasias sólidas. Em pacientes com câncer de próstata sensível à castração, parece não existir benefício nesses eventos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24782453/).
  • Tratamento de hipercalcemia da malignidade.
  • Prevenção de perda de massa óssea em pacientes em hormonioterapia de câncer de mama ou próstata. Essas indicações estão na tabela 2.
  • Cuidado paliativo e alívio de sintomas. Melhoram o controle da dor óssea e a qualidade de vida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29082518/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12076438/).
  • Tratamento adjuvante de mulheres na pós-menopausa com câncer de mama. Duas metanálises encontraram benefícios em redução de recidiva, recidiva óssea, fraturas, mortalidade câncer de mama específica e mortalidade por todas as causas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26211824/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29082518/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37170778/). As principais diretrizes do tema divergem quanto à seleção de pacientes que se beneficiam dessa terapia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28618241/,https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/pdf/breast.pdf).
[tabela id=1446 index=2]

Doença de Paget

Os bisfosfonatos são os fármacos de escolha, preferencialmente o ácido zoledrônico. São indicados na doença de Paget ativa, caracterizada por elevação de fosfatase alcalina ou atividade cintilográfica, em presença de (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25406796/):

  • Sintomas, sendo dor óssea o mais comum.
  • Elevado risco de complicações, como lesões em coluna (risco de síndromes compressivas), ossos de carga (risco de fratura), crânio (risco de perda auditiva) ou regiões periarticulares (risco de osteoartrite secundária);
  • Antes de cirurgias em sítios ativos (para reduzir o risco de sangramento). 

O uso de bisfosfonatos está associado à redução de atividade da doença e à melhora da dor e qualidade de vida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25406796/). 

Cuidados com o uso

Avaliação pré-tratamento

Antes do início de qualquer bisfosfonato, deve-se avaliar os seguintes aspectos:

  • Função renal: contraindicados se taxa de filtração glomerular menor que 35 mL/min/1,73 m2. 
  • Cálcio sérico: hipocalcemia deve ser corrigida antes do início. 
  • Consumo ou suplementação de cálcio e vitamina D: garantir ingesta adequada, para reduzir o risco de hipocalcemia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12686715/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16524863/). 
  • Avaliação odontológica: realizar procedimentos com manipulação da gengiva (implantes ou extrações) e otimizar higiene antes do início do bifosfonato, reduzindo o risco de osteonecrose de mandíbula. 
  • Doenças esofágicas: como esofagite, acalásia, estenoses, esôfago de Barrett e varizes esofágicas. Contraindicam a terapia oral, pelo risco elevado de irritação de mucosa pelos bisfosfonatos e por essas condições dificultarem a transferência efetiva de comprimidos. 
  • Postura: contraindicada a terapia oral para pacientes que não podem ficar sentados e/ou em pé por 30 a 60 minutos devido ao risco de esofagite. 

Orientações para uso oral

A ingestão do comprimido deve ser em jejum e com grande quantidade de água. O jejum deve ser mantido por pelo menos 30 a 60 minutos com o paciente na posição em pé ou sentado. Essas orientações têm por objetivo tentar reduzir o risco de esofagite, garantindo o trânsito eficaz do medicamento até o estômago.

Efeitos adversos

Exacerbação de sintomas de doença do refluxo gastroesofágico, esofagite e úlceras esofágicas são exclusivos das formulações orais. Ocorrem pela ação tópica deletéria sobre a mucosa. Os bisfosfonatos orais estão contraindicados em doenças esofágicas ou outras condições que impeçam a transferência efetiva de comprimidos da orofaringe para o estômago. Alguns especialistas também recomendam evitar a via oral em pacientes com reconstruções gastrointestinais em Y-de-Roux. Pacientes com doença do refluxo gastroesofágico, doença ulcerosa péptica ou dispepsia bem controladas podem utilizar bisfosfonatos via oral. Naqueles com contraindicação a via oral, bisfosfonatos intravenosos são uma alternativa.

Os sintomas flu-like são eventos adversos exclusivos dos bifosfonatos administrados por via intravenosa. Caracterizados por febre baixa, mialgia e artralgia até 72 horas após infusão, resolvem espontaneamente. Podem ser manejados com analgésicos simples e costumam ser mais brandos nas aplicações subsequentes. 

Alguns efeitos adversos são comuns a ambas as vias e incluem:

  • Hipocalcemia.
  • Dores musculoesqueléticas.
  • Sintomas oculares (dor, conjuntivite, episclerite, uveíte).
  • Osteonecrose de mandíbula.
  • Fratura atípica do fêmur.
  • Fibrilação atrial (controverso).

Osteonecrose de mandíbula

A osteonecrose de mandíbula (ou necrose avascular da mandíbula) costuma se manifestar com dor, edema, exposição óssea, infecções e fraturas patológicas. Pode ocorrer por diversas etiologias, mas é considerada uma complicação rara quando relacionada aos bifosfonatos, com 1 caso por 10 a 100 mil pessoas-ano tratadas para osteoporose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25414052/). 

Fatores de risco para a ocorrência durante o uso de bisfosfonatos são (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34033275/):

  • Uso de bisfosfonatos intravenosos, em doses elevadas e por duração mais prolongada.
  • Pessoas com câncer em terapia oncológica.
  • Procedimentos com manipulação da gengiva ou próteses dentárias má adaptadas.
  • Má higiene oral.
  • Uso de glicocorticoides. 
  • Presença de tabagismo, diabetes, hipertensão arterial ou artrite reumatoide.

A otimização da higiene oral é principal medida preventiva (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16873332/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35300956/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34033275/). 

Consensos de associações médicas e odontológicas americanas e brasileiras (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16873332/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35300956/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34033275/) concordam em não recomendar a suspensão de rotina dos bisfosfonatos antes de procedimentos odontológicos. A justificativa é não existirem estudos demonstrando que a suspensão diminui o risco desse evento e, mesmo em pacientes com fatores de risco, a ocorrência é rara. Outras medidas para a prevenção de osteonecrose pelos dentistas durante procedimentos são encorajadas, como assepsia e antissepsia otimizada, antibioticoprofilaxia, técnica cirúrgica minimamente invasiva e fechamento primário da lesão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35300956/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34033275/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16873332/). 

Fratura atípica do fêmur

As fraturas atípicas do fêmur são complicações raras. Estima-se uma ocorrência de 3,2 a 50 casos a cada 100.000 pessoas-ano tratadas para osteoporose. Acredita-se que a inibição excessiva do turnover ósseo leva a um acúmulo de microfraturas, deixando o osso mais frágil, culminando em fraturas de estresse. Há evidências de que o holiday reduz o risco desses eventos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23712442/). 

Em geral, as fraturas atípicas do fêmur apresentam uma fase prodrômica com dor inespecífica na virilha ou coxa, apresentando um espessamento cortical do fêmur na radiografia. Em seguida pode haver uma fase aguda com fratura franca, que costuma ocorrer nas regiões subtrocantérica ou diafisária (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23712442/). 

O diagnóstico segue os critérios radiográficos das fraturas atípicas do fêmur propostos pela American Society for Bone and Mineral Research (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23712442/). A conduta é a suspensão da terapia com bisfosfonatos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30907953/).  
 

Edição #133

Miastenia Gravis no Pronto-Socorro

Criado em: 18 de Agosto de 2025 Autor: Revisor: Pedro Rafael Del Santo Magno

A miastenia gravis é a doença mais comum da junção neuromuscular [1]. É causada por anticorpos contra estruturas da placa motora e cursa com fraqueza muscular. Podem ocorrer exacerbações com necessidade de suporte ventilatório, episódios chamados de crises miastênicas. Esse tópico revisa conceitos sobre a doença, o diagnóstico e o tratamento da crise miastênica.

Definição e diagnóstico de miastenia gravis

A miastenia gravis é a doença mais comum da junção neuromuscular [1]. O primeiro pico de incidência é por volta dos 30 anos, com predomínio de mulheres, enquanto o outro pico de incidência ocorre ao redor dos 50 anos, com predomínio em homens [2]. 

A doença é causada por autoanticorpos contra estruturas da placa motora (figura 1). O alvo mais comum é o receptor nicotínico de acetilcolina, na forma do anticorpo anti-AChR, encontrado em 80 a 85% dos pacientes. Outros alvos possíveis são a quinase músculo específica, com o anticorpo anti-MuSK em 5 a 10% dos pacientes e o anticorpo anti-LRP4 em 1 a 3% dos pacientes. [3,4]. Cerca de 10% dos pacientes com a doença podem ser soronegativos (ou seja, não apresentam anticorpos detectáveis) [5,6].

Figura 1
Miastenia gravis e mecanismo de doença.
Miastenia gravis e mecanismo de doença.

O principal sintoma é a fraqueza muscular. Essa fraqueza difere de outras síndromes neurológicas por ser flutuante e fatigável, piorando após uso repetido da musculatura e comumente ao final do dia. 

A miastenia gravis pode ser classificada em forma generalizada ou forma ocular pura. Na forma generalizada, há fraqueza de membros de predomínio proximal, com ou sem acometimento de musculatura ocular, respiratória ou da função bulbar, como alteração da deglutição. Na forma ocular pura, há somente envolvimento da musculatura ocular, com queixa de diplopia por paralisia de musculatura oculomotora e ptose por fraqueza do músculo elevador da pálpebra. Cerca de 75% dos pacientes com início de doença com a forma ocular irão desenvolver sintomas da forma generalizada após três anos do início da doença [7]. 

Alguns testes clínicos são úteis na identificação de pacientes com miastenia gravis:

  • Teste de fatigabilidade: avalia a perda de força muscular após esforço repetitivo. O examinador mede inicialmente a força de um grupo muscular, por exemplo, a abdução do ombro. Em seguida, solicita ao paciente que eleve e abaixe os braços por 20 vezes. A redução da força após essa sequência caracteriza fatigabilidade, achado sugestivo de miastenia.
  • Teste do gelo: realizado somente se houver ptose palpebral. Primeiro, a ptose do paciente é medida com uma régua. Em seguida, uma compressa gelada é aplicada com proteção sobre o olho com ptose por três a cinco minutos. Após esse período, a ptose do paciente é novamente medida. Uma melhora de pelo menos 2 mm é indicativa de doença de junção neuromuscular e uma pista para o diagnóstico de miastenia. Acredita-se que o resfriamento local melhore a transmissão neuromuscular e diminua a atividade enzimática da acetilcolinesterase, aumentando a acetilcolina disponível após o período de repouso com gelo [8,9].

O diagnóstico é feito com quadro clínico compatível e dosagem de anticorpos como anti-AChR e anti-MuSK positivos. Caso haja suspeita clínica, mas a dosagem de anticorpos negativa, o diagnóstico pode ser confirmado por eletroneuromiografia ou resposta à terapia empírica [5].

Identificação de crise miastênica

Crise miastênica é definida como uma exacerbação da miastenia gravis com insuficiência respiratória por fraqueza dos músculos respiratórios e/ou bulbares, necessitando de suporte ventilatório, seja invasivo ou não invasivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19078687/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37114503/). Até 20% dos pacientes com a doença podem apresentar crise miastênica durante a vida, especialmente nos primeiros três anos de doença (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24141444/). A crise miastênica pode ser a forma de apresentação inicial em pacientes sem diagnóstico prévio, sendo um diagnóstico diferencial de outras causas de paralisia flácida aguda, como síndrome de Guillain-Barré e botulismo. O "Caso Clínico #5" do Guia possui um fluxo de abordagem aos pacientes com fraqueza muscular.

A crise colinérgica é um importante diagnóstico diferencial de crise miastênica. Essa condição é rara e causada por doses elevadas de anticolinesterásicos como a piridostigmina, comumente utilizada como tratamento sintomático para a miastenia gravis. A crise colinérgica também se apresenta com piora sintomática, porém junto a outros sintomas autonômicos parassimpáticos exacerbados como broncorreia, diarreia, fasciculações e bradicardia. A ocorrência de crise colinérgica é incomum com o uso em doses habituais de piridostigmina (180 a 450 mg/dia) e deve levantar a suspeita de dose inadequada ou consumo acidental do fármaco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9153452/).

Há fatores estabelecidos que podem levar à piora de sintomas e precipitar uma crise miastênica. Os mais comuns são infecções, medicamentos que pioram a miastenia e dificuldade de adesão ao tratamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37114503/). Apesar desses fatores, cerca de 24% dos pacientes não terão um gatilho identificável para a crise (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31469909/). Vacinação não possui associação com exacerbação sintomática de miastenia gravis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35503373/). A tabela 1 traz as principais classes de medicamentos que devem ser evitadas ou usadas com cautela em pacientes com miastenia gravis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31469909/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33144515/).

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A identificação da crise miastênica envolve definir quando um paciente com piora sintomática da miastenia deve receber suporte ventilatório. Os principais sinais clínicos de alerta para falência respiratória são:

  • Dispneia.
  • Disartria flácida.
  • Disfagia.
  • Taquicardia e hipertensão.
  • Sudorese e salivação excessivas.

A insuficiência respiratória ocorre por fadiga dos músculos respiratórios, causando retenção de CO₂. Pela fraqueza muscular, muitos pacientes podem não apresentar sinais claros de uso de musculatura acessória ou de taquipneia e evoluir rapidamente para insuficiência respiratória com rebaixamento do nível de consciência e acidose respiratória.

O tratamento da crise miastênica é composto por suporte ventilatório e tratamento medicamentoso. 

Suporte respiratório na crise miastênica

A decisão de intubação orotraqueal envolve a avaliação de insuficiência respiratória e da capacidade de proteção da via aérea. Todo paciente com suspeita de crise miastênica deve ter a aferição frequente dos parâmetros respiratórios de capacidade vital (CV), pressão inspiratória máxima (Pins) e pressão expiratória máxima (Pex). Essa medição é realizada por um manômetro acoplado à boca do paciente e feito o registro da melhor de três tentativas para cada parâmetro.

A regra de bolso “20/30/40” (CV < 20 mL/kg; Pins > −30 cmH2O e Pex < 40 cmH2O) é útil para memorização de valores preocupantes, mas não são cortes validados em estudos prospectivos formais (tabela 2). Os parâmetros mais associados à necessidade de suporte ventilatório são a CV e a Pins. A Pex está mais associada à tosse eficaz e ao sucesso na etapa de extubação. Algumas recomendações de especialistas indicam valores diferentes para indicação de intubação, como CV < 15 mL/kg e uma Pins > −20 cmH2O (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37114503/).

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Na impossibilidade de medir pressões e volumes respiratórios, seja por falta de material ou por falha de acoplamento ao manômetro por fraqueza de musculatura facial, podem-se utilizar os seguintes testes clínicos que têm correlação com valores de CV para auxílio na tomada de decisão:

  • Flexão de pescoço: com o paciente em decúbito dorsal, é avaliada a força de flexão de pescoço. A incapacidade de manter o sustento cefálico contra a gravidade indica comprometimento respiratório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26437790/).
  • Contagem em fôlego único: é solicitado ao paciente que realize, em um fôlego único, a contagem de números sequenciais. A contagem em fôlego único de menos que 20 números indica comprometimento respiratório (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26437790/).

A ventilação não invasiva (VNI) tem espaço no manejo da crise miastênica principalmente nos cenários pré-intubação e na prevenção de falha de extubação. Em um estudo com 250 pacientes com crise miastênica, 38% dos pacientes que receberam VNI não necessitaram de intubação orotraqueal. O principal fator associado à falha de VNI e necessidade de intubação foi a presença de infecção como gatilho para a crise miastênica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31801833/). 

Em relação ao procedimento da intubação orotraqueal, o uso de bloqueadores neuromusculares é debatido. Existe risco de duração prolongada do bloqueio neuromuscular e comportamento farmacocinético imprevisível do bloqueador. Se for utilizado, a preferência é pelos bloqueadores não despolarizantes com uso de reversor específico após o procedimento, como o rocurônio seguido de sugamadex (antídoto do rocurônio) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23424048/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34707886/). Pacientes com miastenia são mais sensíveis a bloqueadores não despolarizantes, incluindo rocurônio, sendo sugerido o uso de doses menores que as habituais, porém não existe evidência direta de dose ideal para intubação nesse grupo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8678231/). Nos casos em que apenas a Succinilcolina estiver disponível, deve-se ponderar sobre o seu uso em doses reduzidas, pelo risco de bloqueio prolongado após infusão do medicamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27755068/).

A média de tempo de ventilação mecânica é de 12 dias. Fatores relacionados com tempo de ventilação mecânica prolongado são idade avançada, comorbidades e complicações como pneumonia associada à ventilação mecânica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31801833/). Os pacientes em crise miastênica podem apresentar broncorreia pelo uso de anticolinesterásicos, dificultando a ventilação. Por isso, há a recomendação de suspender essa classe de medicamentos durante o período de ventilação mecânica e retornar próximo à programação de extubação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34292475/). O momento da extubação deve ser avaliado conforme a melhora sustentada dos parâmetros ventilatórios de CV, Pins e Pex.

Tratamento específico da crise miastênica

O tratamento definitivo para a crise miastênica é com imunoglobulina humana intravenosa (IVIG) ou plasmaférese. As duas modalidades têm início de efeito e benefício clínico semelhantes. Há uma tendência de início de efeito mais rápido para a plasmaférese, mas sem diferenças em desfechos motores após 15 dias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35690385/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9189040/).

A escolha entre as modalidades depende de fatores individuais de cada paciente, guiado por perfil de efeito adverso. 

  • Plasmaférese: realizada por cateter venoso central de curta permanência. São feitas cinco trocas no período de 7 a 14 dias. O paciente está suscetível a complicações relacionadas ao cateter e hipotensão. Está contraindicada em pacientes com infecção ativa. Tem efeito máximo entre uma e três semanas. Veja mais em “"Plasmaférese".
  • Imunoglobulina humana: dose total de 2 g/kg dividida em dois a cinco dias. Pode ser necessária a pré-medicação com anti-histamínicos e analgésicos para evitar reações infusionais e profilaxia para tromboembolismo venoso. Há risco de reações de hipersensibilidade (incluindo anafilaxia), sobrecarga volêmica e complicações hematológicas (hemólise e eventos trombóticos) e neurológicas (meningite asséptica). Tem efeito máximo entre uma e três semanas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22448967/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29951056/).

A maioria dos pacientes responde a um único tratamento. Em pacientes com fraqueza refratária, dificuldade de extubação persistente ou piora sintomática após melhora inicial, é possível trocar a modalidade de tratamento, ou realizar um novo ciclo de tratamento, com níveis de evidência baixos. Há evidências crescentes do uso de inibidores de complemento, como o eculizumabe, como alternativas para crises refratárias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40505554/).

A introdução ou aumento de imunossupressão durante a crise miastênica pode causar piora sintomática transitória (tabela 1). Caso o paciente já esteja em uso de imunossupressor, como corticoide ou azatioprina, os mesmos podem ser mantidos durante a internação.

Após a alta, o acompanhamento ambulatorial envolve:

  • Inibidor de acetilcolinesterase, como a piridostigmina, é a terapia inicial para casos leves a moderados.
  • Em casos moderados a graves, corticosteroides e imunossupressores (azatioprina, micofenolato e ciclosporina).
  • Pesquisa de timoma, encontrado em 10% dos pacientes e com melhora dos sintomas após a timectomia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28029925/).