Edição #138

Intoxicação por Metanol

Criado em: 06 de Outubro de 2025 Autor: Kaue Dias Malpighi Revisor: João Mendes Vasconcelos

Resumo

  • Deve-se suspeitar de intoxicação por metanol em pacientes com história de ingestão alcóolica e que apresentem após 6 - 12 horas um ou mais dos seguintes sintomas: manifestações visuais (como amaurose, diplopia e escotomas), piora ou persistência de rebaixamento do nível de consciência, ataxia, dor abdominal, náuseas ou vômitos. Todo caso suspeito deve ser notificado.
  • O diagnóstico definitivo com a dosagem sérica de metanol pode não estar disponível a tempo, portanto o diagnóstico deve ser suspeitado com base em clínica sugestiva (como ingestão de alcool associada a alterações visuais) e alterações laboratoriais (acidose metabolica com anion gap elevado associado). Aumento do gap osmolar sugere o diagnóstico, mas níveis normais não excluem a hipótese de intoxicação por metanol.
  • O tratamento deve ser iniciado na suspeita clínica (tabela 1) e se baseia em quatro pilares: correção da acidose com bicarbonato para pacientes com pH < 7,3; uso dos antídotos fomepizol ou etanol (tabela 2); hemodíalise se o paciente apresentar alterações visuais, pH < 7,1 metanol sérico > 50 mg/dL ou estimativa de ingesta de metanol > 30 mL; uso do ácido folínico 1 mg/kg (máx: 50mg) a cada 4 ou 6 horas.

Em setembro de 2025, foram reportados casos de intoxicação por metanol no município de São Paulo por bebidas alcoólicas contaminadas. Esse tópico aborda os principais pontos sobre a intoxicação, incluindo diagnóstico e manejo. 

Introdução e quando suspeitar

Metanol é um álcool orgânico utilizado em produtos industrializados. A principal via de intoxicação por metanol é por ingestão, geralmente como contaminante em bebidas alcoólicas de produção irregular. Outros produtos que contêm metanol são solventes de tinta, aditivos de combustíveis e fluidos de limpeza automotivos. Intoxicação por inalação ou por via transdérmica é rara e, quando ocorrem, costumam ser no contexto ocupacional ou doméstico [1,2].

O metanol em si não é tóxico. A substância danosa é um metabólito do metanol, o ácido fórmico. O metanol é metabolizado em formaldeído pela enzima álcool desidrogenase (ADH) e o formaldeído é metabolizado em ácido fórmico. É o acúmulo de ácido fórmico que causa a acidose metabólica grave e a toxicidade ocular e neurológica. O ácido fórmico é então transformado em gás carbônico e água (figura 1).

Figura 1
Metabolismo do metanol.
Metabolismo do metanol.

Critério de suspeição

Deve-se suspeitar de intoxicação por metanol em pacientes com história de ingestão de bebida alcoólica que apresentem persistência ou piora de sintomas após 6 a 12 horas:

  • Sintomas como rebaixamento do nível de consciência, ataxia, dor abdominal, náuseas e vômitos.
  • Manifestações visuais (como amaurose, diplopia e escotomas).

Em intoxicação por ingestão, frequentemente há contexto epidemiológico positivo com casos semelhantes sendo relatados na mesma região.

Diante da suspeita, a notificação ao Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) deve ser imediata. O CIATox fornece suporte especializado 24 horas para auxiliar no manejo do caso. Os contatos podem ser encontrados no link

A notificação formal também é compulsória e deve ser feita mesmo sem confirmação laboratorial. Um protocolo de notificação de caso suspeito de intoxicação exógena está disponível no guia de vigilância em saúde [3].

Manifestações clínicas

Sintomas inespecíficos podem ocorrer após as primeiras horas da ingestão de metanol. Os mais frequentes são gastrointestinais (náuseas, vômitos e dor abdominal) e neurológicos (sonolência e confusão). Após seis horas, sintomas visuais e acidose metabólica ocorrem em graus variados [4].

A ingestão concomitante de álcool etílico (etanol, álcool comum) pode atrasar o início dessas manifestações. O etanol compete com o metanol pela enzima ADH, retardando a formação de ácido fórmico [5,6]. Nesse cenário, as manifestações podem ocorrer após 24 horas da ingestão, confundindo o diagnóstico. 

Alterações Visuais

Alterações visuais após ingestão de bebidas alcoólicas são um forte indício de ingestão de metanol [7]. As alterações mais comuns são turvação visual (descrita na literatura estrangeira como “visão em campo de neve”), baixa acuidade visual e escotomas centrais. Achados no exame físico podem incluir midríase não fotorreagente, defeito pupilar aferente relativo e edema de disco óptico [8-10].

A neuropatia óptica tóxica é a principal lesão que leva à baixa acuidade visual [11]. Toxicidade retiniana direta pode ocorrer, com alguns relatos de associação com oclusão da artéria retiniana central.

A recuperação é variável. Até um terço dos pacientes pode ter acometimento visual grave persistente [11,12]. Pacientes com pH acima de 7,2 na avaliação inicial têm maior chance de recuperação [10].

Manifestações neurológicas

Alteração do nível de consciência é comum [13], podendo ocorrer desde as primeiras horas após ingestão. O quadro é progressivo, acompanhando a piora da acidose metabólica. Cefaleia e tontura podem ocorrer, apesar de serem menos comuns.

Em exames de imagem, necrose dos núcleos da base (particularmente do putâmen) pode estar presente, com ou sem hemorragia, o que pode contribuir em alguns casos com desenvolvimento de parkinsonismo [7,14]. Na ressonância magnética, pode surgir hiperintensidade em T2 e FLAIR circundando os núcleos lentiformes, conhecido como sinal da cerca lentiforme (lentiform fork sign) [15]. Esse achado pode ocorrer em outras encefalopatias metabólicas associadas à acidose grave, como acidose lática por metformina, síndrome do desequilíbrio da diálise e encefalopatia urêmica. O nervo óptico pode apresentar hiperintensidade em T2 com realce pelo contraste [16,17]. 

Acidose Metabólica

A metabolização do metanol em ácido fórmico gera uma acidose metabólica de ânion gap elevado. A presença desse distúrbio em um paciente com história de ingestão alcoólica sem outra causa óbvia (como hiperlactatemia grave, cetoacidose e insuficiência renal) é altamente sugestiva de intoxicação por metanol.

Cetoacidose alcoólica é uma condição que pode gerar dúvida diagnóstica considerável, por existir a história de álcool e acidose com ânion gap elevado. A cetoacidose pode tanto ser um diagnóstico diferencial como coexistir com a intoxicação por metanol. Assim, cetonemia ou cetonúria não excluem a intoxicação por metanol. Se existirem sintomas visuais, o caso deve ser encarado como suspeita de intoxicação por metanol. Caso o paciente esteja desperto e sem sintomas visuais com uma apresentação duvidosa, uma opção é administrar expansão volêmica inicial com ringer lactato, tiamina e glicose e observar a evolução por uma hora. Melhora sugere cetoacidose alcoólica, enquanto o contrário sugere intoxicação por metanol [18].

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo requer a dosagem sérica de metanol, mas este exame raramente está disponível a tempo. Portanto, o diagnóstico operacional é clínico e laboratorial, baseado na suspeita e na identificação de alterações metabólicas características: o aumento do gap osmolar e do ânion gap.

Gap osmolar é a diferença entre a osmolalidade medida (pelo osmômetro) e a calculada por uma fórmula. O metanol é uma substância osmoticamente ativa que não entra no cálculo, aumentando a diferença entre a osmolalidade medida e a calculada (gap osmolar). 

O gap osmolar normal é de aproximadamente 10 a 20 mOsm/kg de água [19]. Valores acima disso sugerem a presença de álcoois tóxicos. Quanto maior for o gap osmolar, maior a probabilidade de o quadro ser por um álcool tóxico, como metanol [20]. Ingestão de elevada quantidade de etanol com cetoacidose alcoólica, choque, insuficiência renal e uso de manitol também podem elevar o gap osmolar.

Gap osmolar normal não exclui o diagnóstico. Alguns pacientes podem apresentar gap osmolar normal na apresentação e o gap osmolar tende a reduzir conforme a metabolização do metanol. À medida que o metanol é metabolizado e convertido em ácido fórmico, o gap osmolar reduz e o ânion gap aumenta (veja figura 2) [5].

Figura 2
Alteração do gap osmolar e do ânion gap após ingestão de álcoois tóxicos.
Alteração do gap osmolar e do ânion gap após ingestão de álcoois tóxicos.

O método de aferição da osmolalidade também pode interferir nos resultados. Osmômetros de ponto de congelamento tendem a ser mais acurados para intoxicações por álcool do que osmômetros de pressão de vapor.

Testes séricos para metanol (cromatografia gasosa ou líquida) são pouco disponíveis e raramente fornecem resultados em tempo hábil para tomada de decisão. As manifestações clínicas e a mortalidade têm melhor correlação com o grau de acidose do que com concentrações de metanol, apesar de a concentração de metanol poder auxiliar em condutas. Metanol sérico menor que 20 mg/dL raramente está associado a sintomas significativos [21].

Manejo

O tratamento deve ser iniciado com base na suspeita clínica, sem aguardar confirmação laboratorial. O fluxograma 1 resume os passos do manejo e tratamento de casos suspeitos ou confirmados de intoxicação por metanol. Em todo caso de suspeição deve-se entrar em contato com o CIATox e notificar. A notificação deve ser feita na suspeita, sem necessidade de confirmação.

Fluxograma 1
Manejo de caso suspeito ou confirmado de intoxicação por metanol.
Manejo de caso suspeito ou confirmado de intoxicação por metanol.

O tratamento pode ser estruturado em quatro linhas de intervenção:

  • Medidas de suporte e correção da acidose.
  • Antídotos: fomepizol e etanol.
  • Hemodiálise
  • Cofator: ácido folínico.

Medidas de suporte e correção da acidose

Acidose metabólica costuma se apresentar tardiamente após a ingestão de metanol. Pacientes com sintomas leves e sem acidose metabólica após ingestão suspeita de produto contaminado devem ser observados por um período mínimo de 12 a 24 horas com monitorização e gasometria seriadas (a cada uma a duas horas).

Corrigir a acidose reduz a forma não dissociada do ácido fórmico e aumenta a forma dissociada (formato), que é menos tóxica. A diretriz da American Academy of Clinical Toxicology recomenda administrar bicarbonato se pH menor que 7,30 e monitorizar com frequência, objetivando uma faixa de pH próxima de 7,35 [21].

A acidose é um dos principais fatores prognósticos na intoxicação por metanol [10,22]. Taquipneia é um dos primeiros sinais clínicos de acidose grave. Em caso de necessidade de intubação orotraqueal, deve-se considerar o uso de bloqueadores neuromusculares de curta duração e frequência respiratória maior após acoplamento no ventilador mecânico para compensação da acidose metabólica (considerar manter a frequência maior ou igual a 25 incursões por minuto até gasometria disponível).

A lavagem gástrica ou o uso de carvão ativado não são recomendados. O metanol é rapidamente absorvido após ingestão e as apresentações costumam ser tardias [21].

Antídotos: fomepizol e etanol

O objetivo é evitar a conversão de metanol em ácido fórmico atuando sobre a ADH. O etanol tem uma maior afinidade à ADH do que o metanol, ocupando a enzima e reduzindo o metabolismo do metanol em seus produtos tóxicos. Dessa maneira, o metanol é excretado antes de se tornar ácido fórmico. Já o fomepizol atua inibindo a ADH diretamente. As indicações estão listadas na tabela 1 e o uso deve ser feito mesmo na suspeita, sem dosagem de metanol sérico.

Tabela 1
Proposta de indicação de tratamento em casos de intoxicação por metanol.
Proposta de indicação de tratamento em casos de intoxicação por metanol.

Se o etanol for utilizado, deve ser administrada uma dose de ataque de 0,6 a 0,8 g/kg. A dosagem sérica de etanol deve ser feita a cada uma hora inicialmente, com o objetivo de manter a concentração na faixa de 100 a 150 mg/dL. A manutenção deve ser feita conforme a tabela 2. As doses mudam se o paciente for etilista ou estiver em hemodiálise.

Tabela 2
Dose de ataque e manutenção de etanol para intoxicação por metanol.
Dose de ataque e manutenção de etanol para intoxicação por metanol.

O etanol pode ser administrado por via intravenosa, enteral ou oral. Formulações de etanol a 10% para via intravenosa são pouco disponíveis. A via preferencial costuma ser a enteral, pois a oral pode ser difícil de tolerar. Qualquer solução de etanol disponível comercialmente para consumo pode ser utilizada, preferencialmente destilados claros que apresentem concentrações próximas de 40% para reduzir o volume necessário (tabela 2). Bebidas ou soluções terapêuticas com teor acima de 40% devem ser evitadas ou diluídas para prevenir irritação gástrica.

A terapia deve ser mantida até a concentração sérica de metanol ser menor que 20 mg/dL, ocorrer normalização do pH e melhora dos sintomas. Caso o metanol sérico não esteja disponível, a terapia pode ser continuada por cinco a sete dias, com interrupção por 24 horas com monitorização de sintomas e acidose. Os principais efeitos colaterais do etanol são alteração do nível de consciência e hipoglicemia.

O fomepizol é o antídoto preferencial, mas ainda não está disponível no Brasil. É necessária uma dose de ataque de 15 mg/kg via intravenosa. Após, é feito 10 mg/kg em bolus a cada 12 horas por quatro doses e, em seguida, 15 mg/kg a cada 12 horas. Deve ser administrado por cinco a sete dias com monitorização por 24 horas após sua suspensão. A principal formulação é o sulfato de fomepizol 5 mg/mL em ampola de 20 mL.

A dose recomendada muda se o paciente estiver em hemodiálise (tabela 3).

Tabela 3
Dose de fomepizol durante hemodiálise
Dose de fomepizol durante hemodiálise

O fomepizol tem perfil de segurança melhor que o etanol e não requer monitorização sérica, sendo a primeira opção de antídoto. Os principais efeitos colaterais são cefaleia, náusea e tontura. No dia 2 de outubro de 2025, a ANVISA divulgou um edital de chamamento internacional para abastecimento de fomepizol.

Hemodiálise

A hemodiálise remove tanto o ácido fórmico quanto sua forma dissociada (formato), além de auxiliar na correção da acidose. O protocolo do Médicos Sem Fronteiras em conjunto com a Universidade de Oslo recomenda hemodiálise se qualquer uma das condições abaixo estiver presente [18]:

  • Acidose metabólica grave — HCO3 < 10 ou pH < 7,1. Algumas referências recomendam considerar hemodiálise se pH menor que 7,25 a 7,3 [21].
  • Alterações visuais.
  • Metanol sérico acima de 50 mg/dL.
  • Estimativa de ingestão de metanol maior que 30 mL.

O grupo Extracorporeal Treatments in Poisoning Workgroup (EXTRIP) recomenda também em casos de crise convulsiva, coma ou injúria renal aguda [23].

Cofator: ácido folínico

O ácido fórmico é metabolizado em gás carbônico e água. O ácido folínico estimula este metabolismo. Se o ácido folínico não estiver disponível, o ácido fólico é uma alternativa.

A dose sugerida de ácido folínico é de 1 mg/kg, máximo de 50 mg, a cada 4 a 6 horas, preferencialmente intravenosa [21]. Deve ser mantido por 24 a 48 horas.

Comentários (3)

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Mauri César Martins

Muito bom! Há contraindicação ao uso de etanol em caso de cetoacidose alcoólica coexistente?

08 Out 2025
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João Paulo Araújo

Conteúdo excelente.

08 Out 2025
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Bruna Tavares

Conteúdo excelente e muito didático! Obrigada!

07 Out 2025

Referências

Artigos

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Mídia

Edição #138

Metformina: Bulário

Criado em: 06 de Outubro de 2025 Autor: Gabriel Paes Revisor: Iago Jorge

A metformina é um medicamento de primeira linha para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2. Este tópico revisa as principais indicações, contraindicações e efeitos adversos do fármaco.

Indicações atuais de uso

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), recomenda o uso de metformina no diabetes mellitus tipo 2 (DM2) em monoterapia, como primeira escolha. Essa recomendação se aplica a pacientes com hemoglobina glicada (HbA1c) abaixo de 7,5% com baixo ou intermediário risco cardiovascular e sem insuficiência cardíaca (IC), doença renal crônica (DRC) ou obesidade (recomendação nível B) [1].

Em pacientes com doença cardiovascular estabelecida ou alto risco cardiovascular, a preferência é por agonistas de GLP-1 (aGLP-1) ou inibidores do cotransportador SGLT2 (iSGLT2). Nos casos de IC, independentemente da fração de ejeção, os iSGLT2 são a primeira escolha. Para DRC, os iSGLT2 e a semaglutida (aGLP-1) apresentam maior benefício [2-5]. Em pacientes com obesidade, os aGLP-1 oferecem maior perda ponderal e proteção cardiovascular [1]. Na maioria dos estudos com essas novas drogas, os participantes já utilizavam metformina, reforçando sua ação sinérgica para atingir a meta glicêmica. Veja mais em "Diabetes Mellitus Tipo 2 - Atualização da American Diabetes Association de 2025", no subtópico 'Escolha da primeira droga'.

A dose inicial é de 500 mg com a refeição da noite (preferencialmente nas formulações de liberação prolongada) ou 500 mg uma ou duas vezes ao dia nas formulações de liberação imediata. Pode-se aumentar 500 mg a cada duas semanas, sempre durante as refeições, até a dose máxima de 2.000–2.250 mg/dia. A metformina não provoca ganho de peso, não costuma causar hipoglicemia em monoterapia, é geralmente bem tolerada e de baixo custo. Na tabela 1 confira as apresentações da droga.

Tabela 1
Características do uso de metformina.
Características do uso de metformina.

Estudos mostram redução média de 1,0 a 1,5% da HbA1c em 12 a 16 semanas. [6-8]. Esta redução é semelhante ao descrito com uso de iSGLT2, mas inferior ao das incretinas (aGLP-1 e inibidores duais GLP-1/GIP). Há evidências de redução de LDL e aumento de HDL sérico [9,10]. No DM2 há evidências de redução de desfechos macro e microvasculares, incluindo infarto, acidente vascular cerebral, nefropatia, retinopatia diabética e mortalidade geral [11-15]. 

Para pacientes com pré-diabetes, a metformina reduz a progressão para DM2 em cerca de 30%, mas sem benefício comprovado em redução de desfechos como doença cardiovascular, retinopatia e nefropatia [16]. Esse evento ocorre em pacientes com obesidade (IMC > 35 kg/m²), glicemia de jejum ≥ 110 mg/dL, HbA1c ≥ 6,0 % ou histórico de diabetes gestacional [17].

Para casos de diabetes gestacional a mudança de estilo de vida pode ser suficiente. Caso exista necessidade de terapia farmacológica, a insulina é a primeira linha, segundo a diretriz da American Diabetes Association (ADA) de 2025 [18,19]. A metformina é considerada segunda linha, pois essa droga atravessa a barreira placentária e não possui dados de segurança de longo prazo.

Na síndrome dos ovários policísticos (SOP), a metformina é indicada em pacientes com sobrepeso (IMC ≥ 25 kg/m²) e resistência insulínica para reduzir o risco de DM2 e auxiliar na regularização do ciclo menstrual. Não é recomendada pela Endocrine Society para tratamento de hirsutismo [20].

Contraindicações e situações especiais

A metformina é contraindicada em situações que aumentam o risco de acidose lática, como:

  • DRC estágio IV ou V (< 30 mL/min/1,73 m²).
  • Condições de hipoperfusão tecidual (como choque, sepse ou IC descompensada).
  • Cirrose avançada (Child-Pugh C).
  • Reações de hipersensibilidade (alergia) ao uso prévio da metformina.

Pacientes com DRC estágio 3b (30–44 mL/min/1,73 m²), a metformina pode ser mantida em quem já a utiliza, com ajuste para até 1000 mg/dia. O início da droga para essa faixa é controverso: o FDA não recomenda, já a ADA/KDIGO, sugerem uso cauteloso, começando na dose de 500 mg/dia e ajuste até 1.000 mg/dia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25536258/,https://diabetesjournals.org/care/article/48/Supplement_1/S181/157569/9-Pharmacologic-Approaches-to-Glycemic-Treatment,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36189689/). Acima de 45 mL/min/1,73 m² não há necessidade de ajuste de dose.

Na IC, a metformina é segura quando não há descompensação, podendo inclusive reduzir hospitalizações e mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35906276/). Em pacientes com DRC ou IC que evoluem com quadros agudos de baixo débito ou hipovolemia, vômitos e diarreia intensa, recomenda-se a suspensão temporária.

Em cirrose Child-Pugh C deve ser evitada; em Child-Pugh B pode ser usada com cautela em pacientes compensados, iniciando 500 mg/dia, com aumento mensal até um limite de 1500 mg/dia conforme tolerância (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35317103/).

Segundo o American College of Radiology (2025), deve-se suspender a metformina antes de exames com contraste iodado em pacientes com injúria renal aguda, DRC estágio 4 (< 30 mL/min/1,73 m²) ou submetidos a injeção intra-arterial (ex.: coronariografia) (https://edge.sitecorecloud.io/americancoldf5f-acrorgf92a-productioncb02-3650/media/ACR/Files/Clinical/Contrast-Manual/ACR-Manual-on-Contrast-Media.pdf). Pode ser reiniciada 48 horas após o exame, mediante reavaliação da função renal. Não há necessidade de suspensão em ressonância magnética com gadolínio. 

Durante internação hospitalar, a SBD sugere considerar o uso adjuvante de metformina para controle glicêmico somente em pacientes estáveis, com função renal preservada e sem previsão de exames contrastados (https://diretriz.diabetes.org.br/manejo-da-hiperglicemia-hospitalar-em-pacientes-nao-criticos/). Ao internar pacientes em uso de metformina, principalmente por quadros sob risco de acidose lática, a droga deve ser suspensa. Veja em "Nova Diretriz de Hiperglicemia no Paciente Internado". No perioperatório eletivo, recomenda-se suspender no dia da cirurgia e reiniciar após retorno da dieta e estabilidade clínica (https://diretriz.diabetes.org.br/rastreio-e-controle-da-hiperglicemia-no-perioperatorio/#ftoc-introducao). Veja mais em "Diabetes Mellitus e Drogas Antidiabéticas no Perioperatório".

Efeitos adversos e cuidados com o uso crônico

Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais (≥10%): anorexia, náusea, dor abdominal em cólica, diarreia e gosto metálico. Podem ser transitórios e melhoram com administração junto às refeições ou redução da dose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36129996/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27987248/). A formulação de liberação prolongada (XR) pode reduzir sintomas, embora uma meta-análise indique benefício na adesão e não na redução de efeitos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34079464/).

A American Diabetes Association (ADA) destaca que o uso prolongado de metformina pode levar à deficiência de vitamina B12 em até 20% dos pacientes, com maior risco em doses ≥ 1.500 mg/dia e duração prolongada. A ADA recomenda dosagem anual de vitamina B12 em pacientes que utilizam metformina há mais de 4 anos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39651971/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39651989/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31725641/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26900641/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17030830/). Veja mais sobre em "Nova Diretriz de Diagnóstico de Deficiência de Vitamina B12".

Toxicidade por metformina

A toxicidade por metformina pode acontecer em casos de superdosagem (ex.: tentativa de autoextermínio) ou uso de doses habituais em condições que aumentam a recirculação da droga e o risco de acidose lática, como piora da função renal (TFG < 30 mL/min/1,73 m²), IC, hepatopatia, hipovolemia ou hipoxemia, sepse e cetoacidose.

A manifestação mais grave da toxicidade pela droga é a acidose lática associada à metformina (metformin-associated lactic acidosis – MALA). O quadro resulta da inibição da gliconeogênese hepática e do aumento da conversão esplâncnica de glicose em lactato. É um evento raro, estimado em cerca de 3 casos a cada 100.000 pacientes/ano (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26705203/). Em usuários de metformina, valores de lactato acima de 5 mmol/L (45 mg/dL) associados à acidose metabólica sugerem o diagnóstico de MALA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32960426/). 

O quadro clínico inicial é inespecífico, geralmente com sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos e dor abdominal. Complicações graves incluem insuficiência respiratória, rebaixamento do nível de consciência e choque. Hipoglicemia pode ocorrer, principalmente na vigência de outros antidiabéticos. A dosagem de metformina sérica é pouco disponível e o nível sérico não tem valor prognóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19556031/).

O tratamento da MALA é de suporte clínico, com suspensão imediata da metformina, estabilização hemodinâmica e respiratória e tratamento das causas associadas. Hemodiálise é indicada quando lactato > 20 mmol/L (180 mg/dL), pH < 7,0 ou na ausência de resposta às medidas iniciais. Existem outros cenários em que a hemodiálise pode ser considerada, embora com evidências mais limitadas.  (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25860205/). O carvão ativado pode ser usado em intoxicações agudas.

A hiperlactatemia isolada em pacientes assintomáticos, sem acidose metabólica, pode ser observada em uso prolongado da droga e não caracteriza MALA.

Edição #138

Neuralgia do Trigêmeo: Diagnóstico e Manejo

Criado em: 06 de Outubro de 2025 Autor: João Urbano Revisor: Nordman Wall

A neuralgia do trigêmeo é uma doença do grupo das neuropatias cranianas dolorosas que causa dor facial intensa de início súbito no território inervado pelo nervo trigêmeo. A dor pode ser desencadeada por estímulos mínimos como falar ou mastigar, o que causa grande sofrimento aos pacientes. Esse tópico revisa o diagnóstico e tratamento da neuralgia do trigêmeo.

Como diagnosticar a neuralgia do trigêmeo

Sintomas e prevalência

A neuralgia do trigêmeo é um distúrbio de dor facial classificada no grupo das neuropatias cranianas dolorosas. É uma doença crônica caracterizada por episódios de dor de características neuropáticas como choque, de muito forte intensidade e curta duração em territórios inervados pelos ramos periféricos do nervo trigêmeo. Os critérios para o diagnóstico clínico da neuralgia do trigêmeo clássica estão na tabela 1 [1,2].

Tabela 1
Critérios diagnósticos de Neuralgia do Trigêmeo clássica de acordo com a Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3) e Classificação Internacional de Dor Orofacial (ICOP-1).
Critérios diagnósticos de Neuralgia do Trigêmeo clássica de acordo com a Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3) e Classificação Internacional de Dor Orofacial (ICOP-1).

A dor pode ser incapacitante devido a sua intensidade. Os gatilhos mais comuns são estímulos não dolorosos em regiões inervadas pelo trigêmeo, como toque leve no rosto, escovar os dentes, falar ou mastigar. As zonas de gatilho mais comuns associadas a toque leve são o sulco nasolabial e a região perioral. Cerca de metade dos pacientes podem apresentar sensação dolorosa mais leve e em peso entre os ataques de dor lancinantes.  [3].

A dor é unilateral na maior parte das vezes. Em 1-3% dos pacientes pode haver dor bilateral. A presença de dor bilateral é sinal de alarme para pesquisa de causas secundárias, como a esclerose múltipla. Outros achados sugestivos de causas secundárias são [3-6]:

  • Início dos sintomas em pessoas < 40 anos (maior prevalência de tumor de fossa posterior e esclerose múltipla).
  • Déficit neurológico focal ao exame.
  • Dor atípica (contínua, sem paroxismos) ou com características autonômicas (lacrimejamento, rinorreia).

A prevalência é maior em mulheres e varia entre 2,1 e 27 casos para cada 100.000 pessoas [7]. A doença é mais comum em pessoas acima de 50 anos [4]. 

Avaliação clínica

O nervo trigêmeo, também chamado de 5º par craniano, é responsável pela sensibilidade da face, motricidade da musculatura mastigatória e realiza a função sensitiva (aferente) do reflexo corneopalpebral. Ele emerge do sistema nervoso central na ponte e percorre um trajeto até o gânglio trigeminal, localizado no osso temporal. O gânglio trigeminal abriga os corpos neuronais sensitivos dos 3 ramos periféricos do nervo trigêmeo (figura 1):

  • Ramo oftálmico (V1): Responsável pela sensibilidade da região da testa, ponte nasal e pálpebra superior.
  • Ramo maxilar (V2): Responsável pela sensibilidade da região maxilar, zigomática, lábio superior, palato duro, gengiva superior e mucosa jugal.
  • Ramo mandibular (V3): Responsável pela sensibilidade da região de lábio inferior, mento, ⅔ anteriores da língua, gengiva inferior e mandíbula, com exceção do ângulo da mandíbula.
Figura 1
Localização anatômica da dor na neuralgia do trigêmeo.
Localização anatômica da dor na neuralgia do trigêmeo.

Os territórios mais afetados pela neuralgia do trigêmeo são V2 e V3, isoladamente ou em conjunto. Os sintomas ocorrem mais comumente no lado direito do rosto [3].

Etiologicamente, a neuralgia do trigêmeo pode ser dividida em 3 tipos:

  • Neuralgia do trigêmeo clássica: quando há identificação de contato entre um vaso sanguíneo e a raiz do nervo trigêmeo, causando alteração morfológica. O vaso mais comumente relacionado é a artéria cerebelar superior, mas a compressão pode ser causada também por dilatações aneurismáticas ou veias (figura 2).
  • Neuralgia do trigêmeo secundária: quando há outra causa identificada que leva ao aparecimento da dor. As causas mais comuns são doenças desmielinizantes, como a esclerose múltipla, e causas compressivas como tumores. 
  • Neuralgia do trigêmeo idiopática: quando não há alteração em exames complementares que justifiquem a presença de dor. 
Figura 2
Ressonância de crânio na neuralgia do trigêmeo.
Ressonância de crânio na neuralgia do trigêmeo.

É recomendado que todos os pacientes com diagnóstico de neuralgia do trigêmeo realizem uma ressonância magnética do crânio para investigação de causas secundárias. A imagem deve ser solicitada preferencialmente com estudo de vasos (angiorressonância) e avaliação de realce pelo contraste de gadolínio [8].

Um dos principais diagnósticos diferenciais da neuralgia do trigêmeo são afecções dentárias. Em uma coorte de 62 pacientes, 33% dos pacientes com neuralgia do trigêmeo foram submetidos a procedimentos dentários como extrações dentárias ou tratamentos endodônticos de maneira desnecessária [9]. Outros diagnósticos diferenciais podem ser consultados na tabela 2.

Tabela 2
Diagnósticos diferenciais de neuralgia do trigêmeo.
Diagnósticos diferenciais de neuralgia do trigêmeo.

Tratamento agudo da neuralgia do trigêmeo

As descompensações agudas de neuralgia do trigêmeo podem ser intensas e incapacitantes a ponto de impedir deglutição ou fala e são comumente refratárias a medicações orais. Nessas situações, o tratamento deve ser realizado no ambiente hospitalar, preferencialmente com medicações parenterais.

O tratamento deve ser realizado preferencialmente com fenitoína IV na dose de 10-20 mg/kg. Deve-se realizar a diluição em soro fisiológico (NaCl 0,9%) e infusão em bomba de infusão na velocidade máxima de 50 mg/min. A infusão deve ser realizada com o paciente monitorizado. Os principais efeitos adversos da Fenitoína IV são bradicardia e ataxia. Tontura, desequilíbrio e achado de nistagmo evocado pelo olhar ao exame físico após o término da infusão são comuns. A melhora da dor após administração dura 24 a 48 horas. Assim, o tratamento agudo também é uma oportunidade para início de medicação profilática e encaminhamento para acompanhamento ambulatorial, pois há risco de recorrência da dor após esse período (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30860637/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26136846/). 

Uma alternativa à fenitoína é a lidocaína IV, na dose de 5 mg/kg com infusão em 60 minutos. Esse medicamento também deve ser realizado em ambiente com observação direta, como a sala de emergência, com o paciente monitorizado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30860637/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27335883/).

Um ponto de atenção no cuidado dos pacientes é avaliar o nível de hidratação. Muitas vezes, o impedimento de alimentação e hidratação por via oral pela dor facial intensa pode durar alguns dias até o atendimento inicial e levar a quadros de desidratação e desnutrição.

Tratamento profilático e indicação de tratamento cirúrgico da neuralgia do trigêmeo

O tratamento de primeira linha para controle de sintomas a longo prazo e prevenção de exacerbações é a carbamazepina ou a oxcarbazepina (fluxograma 1). Em uma coorte com 200 pacientes com neuralgia do trigêmeo clássica, 98% dos pacientes tiveram resposta inicial expressiva com carbamazepina na dose de 600 mg/d (com variação de dose entre 200 mg/d e 1200 mg/d) e 94% para oxcarbazepina na dose de 1200 mg/d (com variação de dose de 600 mg/d a 1800 mg/d) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24912658/). Veja mais na Revisão de "Anticonvulsivantes".

[tabela id=1536 index=5]

Os tratamentos medicamentosos de segunda linha podem ser usados como adição ao tratamento de primeira linha ou como alternativas em caso de intolerância ou contraindicação. Dentre as opções estão lamotrigina, baclofeno, gabapentina, pregabalina e toxina botulínica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30860637/). A tabela 3 contempla as doses dos medicamentos para tratamento da neuralgia do trigemeo.

[tabela id=1537 index=6]

Pacientes gestantes devem evitar drogas como a carbamazepina pelo risco teratogênico (categoria C). Deve-se dar preferência para a lamotrigina ou gabapentina (categoria B). Tratamentos tópicos não invasivos como lidocaína tópica 4%, bloqueios de ramos do trigêmeo ou neuromodulação não invasiva podem trazer alívio nesse contexto (https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10306390/). 

Tratamento cirúrgico específico para a neuralgia do trigêmeo pode ser recomendado para pacientes com neuralgia do trigêmeo clássica que não atingiram controle de dor após titulação de pelo menos 2 drogas adequadas ou com intolerância ao tratamento medicamentoso. Dentre as técnicas possíveis, estão a descompressão microvascular e tratamentos ablativos como a cirurgia de raios gama (Gamma knife surgery) e procedimentos percutâneos de lesão do gânglio trigeminal. A descompressão microvascular consiste em aliviar o contato neurovascular com a interposição de um material sintético entre o vaso e a raiz do nervo trigêmeo. Já as terapias ablativas causam lesão intencional do nervo ou gânglio para diminuir a aferência dolorosa, podendo causar hipoestesia persistente após o procedimento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30860637/). 

Na neuralgia do trigêmeo clássica, há preferência para a descompressão microvascular, por melhor alívio de sintomas. Pacientes com neuralgia do trigêmeo secundária podem ser avaliados individualmente para tratamento cirúrgico, mas com respostas menos expressivas. Já nos casos de neuralgia do trigêmeo idiopática, as principais diretrizes não fazem recomendação específica, mas sugerem uma preferência por técnicas ablativas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30860637/).