Edição #140

Dor Torácica no Pronto-Socorro: Diretriz Brasileira de 2025

Criado em: 20 de Outubro de 2025 Autor: João Mendes Vasconcelos Revisor: Nordman Wall

A Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou, em 2025, a Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência [1]. O documento recomenda critérios para abertura do protocolo de dor torácica, padrões eletrocardiográficos de oclusão coronariana aguda e escores para avaliação de condições mais graves. Este tópico traz as recomendações da diretriz e os principais aspectos operacionais da abordagem dessa queixa no pronto-socorro.

Definições, principais causas e protocolo de dor torácica

Definições

Dor torácica aguda é qualquer dor torácica de início recente ou que envolve uma mudança no padrão em comparação com episódios anteriores [2]. A dor torácica estável (crônica) apresenta um padrão previsível, associado a fatores precipitantes claros, geralmente esforço ou estresse emocional.

Os termos dor torácica “típica” e “atípica” devem ser evitados. Eles podem levar a falhas de comunicação, pois “atípica” pode ser interpretada como “não cardíaca” sem avaliação adequada. A recomendação é utilizar os termos dor torácica de origem cardíaca, possivelmente cardíaca ou não cardíaca [2]. 

Devido a variações na percepção e expressão de sintomas, algumas queixas podem ser consideradas equivalentes à dor torácica. Isso é especialmente válido em pacientes de maior risco cardiovascular e sem explicação alternativa. Queixas que entram nessa categoria incluem dispneia, epigastralgia, náuseas/vômitos, diaforese, síncope/pré-síncope e fadiga.

Principais causas

A maioria dos pacientes com dor torácica recebe alta do pronto-socorro (PS) sem diagnóstico final [3]. O foco da avaliação do PS é identificar causas graves e estratificar o risco do paciente para decidir entre alta e internação. Pacientes sem condição identificada e de baixo risco (< 1% de MACE em 30 dias) podem ser liberados com acompanhamento ambulatorial. 

Entre as causas ameaçadoras à vida, as síndromes coronarianas agudas (SCA) são muito mais comuns do que as demais [4-6]. Em segundo lugar está o tromboembolismo pulmonar (TEP) [7]. Pneumotórax (espontâneo/traumático), tamponamento pericárdico e síndromes aórticas agudas vêm em seguida [8-12]. A perfuração esofágica tem a menor incidência entre essas causas [13,14].

Protocolo de dor torácica

Um protocolo de dor torácica é um fluxo assistencial padronizado, desde o primeiro contato com o serviço de saúde até a decisão de alta ou internação. Essas ferramentas organizam tarefas críticas e sua implementação está associada à redução da permanência hospitalar e à menor solicitação de testes de estresse e de angiografia coronariana, sem aumentar MACE [15-17].  

Os protocolos priorizam as ações abaixo, que devem ocorrer simultaneamente:

  • Obter um eletrocardiograma (ECG) com interpretação pelo médico em até 10 minutos a partir do primeiro contato com o profissional/serviço de saúde.
  • Monitorizar o paciente em um ambiente com desfibrilador disponível.
  • Obter acesso venoso e coletar sangue para exames durante a punção.
  • Avaliação médica imediata.

Os critérios para abertura do protocolo de dor torácica pela diretriz brasileira de 2025 estão na tabela 1. Como o primeiro contato na unidade de saúde costuma ser pela triagem de enfermagem, caso o paciente apresente algum critério de abertura, o profissional da triagem deve abrir o protocolo, realizar o ECG e acionar o médico. 

Tabela 1
Critérios para abertura do protocolo de dor torácica.
Critérios para abertura do protocolo de dor torácica.

O ECG é prioritário, seja a queixa estável ou aguda e independente do cenário (consultório, pronto-socorro, UTI ou enfermaria). Se o paciente estiver sendo atendido em um ambiente sem esse recurso, ele deve ser transferido ao PS [2]. Uma exceção é quando uma causa não cardíaca é evidente (como herpes zoster torácico).

Fluxograma 1
Sugestão de abordagem da dor torácica segundo a SBC.
Sugestão de abordagem da dor torácica segundo a SBC.

A diretriz brasileira estrutura a avaliação em quatro passos sequenciais (fluxograma 1).

Passo 1: avaliação inicial e eletrocardiograma

Essa etapa consiste em anamnese, exame físico e ECG simultâneos. O objetivo é reconhecer rapidamente pacientes com SCA, especialmente aqueles com padrões eletrocardiográficos de alto risco, como os indicativos de oclusão coronariana aguda (OCA).

A diretriz brasileira adota, além do supradesnivelamento do segmento ST, outros padrões sugestivos de SCA/OCA que servem como gatilho para intervenção acelerada (angiografia coronariana e intervenção percutânea geralmente). Essa é uma novidade relevante, reconhecendo a importância de outros padrões eletrocardiográficos associados a piores desfechos. Caso esses achados estejam presentes, o paciente deve seguir a conduta conforme as diretrizes de SCA. Confira os padrões eletrocardiograficos de alto risco aqui. Veja mais em "Novo Paradigma de Infarto: Oclusão Coronariana Aguda", "Síndromes Coronarianas Agudas - Diretriz AHA/ACC 2025" e "Medicamentos no Infarto Agudo do Miocárdio". 

A indicação de trombólise permanece para os casos que preenchem critérios de infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST), quando a intervenção coronariana percutânea não é possível no tempo-alvo. Nos demais padrões de alto risco de SCA/OCA, a conduta habitual é a estratégia invasiva urgente/precoce (cateterismo). Veja mais em “"Trombólise no Infarto Agudo do Miocárdio". 

Alterações no segmento ST podem ser causadas por diagnósticos diferenciais. Outros aspectos podem auxiliar na diferenciação (tabela 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26086496/). Pacientes com critérios claros de pericardite podem ser identificados nesse momento. Veja mais em "Pericardite: Novas Diretrizes Europeia e Americana de 2025". 

[tabela id=1558 index=3]

Quando a suspeita de SCA é elevada (como em pacientes com dor persistente), o exame deve ser repetido a cada 10 a 20 minutos, enquanto durar o sintoma ou o diagnóstico ser esclarecido, com pelo menos duas a quatro repetições (https://abccardiol.org/wp-content/plugins/xml-to-html/include/lens/index.php?xml=0066-782X-abc-122-09-e20250620.xml&lang=pt-br). As alterações são dinâmicas e alguns pacientes desenvolvem critérios de OCA no ECG após a chegada ao serviço de saúde. Derivações adicionais podem auxiliar:

  • V7-V9: particularmente quando, em V1-V3, existir infradesnivelamento de ST, onda T positiva (terminal) e/ou onda R proeminente e ampla (> 30 ms), habitualmente dominante (R>S) em V2. Um supradesnivelamento ≥ 0,5 mm já é considerado significativo, exceto em homens < 40 anos, em que o corte é ≥ 1 mm (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30165617/).
  • V3R-V4R: em pacientes com hipotensão, turgência jugular e sem congestão pulmonar ou naqueles com supradesnivelamento em DII, DIII e aVF. Um supradesnivelamento ≥ 0,5 mm já é considerado significativo, exceto em homens < 30 anos, em que o corte é ≥ 1 mm (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30165617/).

Alguns ECGs podem ser interpretados como duvidosos ou limítrofes. Nesses casos, recomenda-se solicitar a opinião de outro médico, comparar com ECGs prévios, seriar o exame e realizar ecocardiograma à beira do leito.

A maioria dos pacientes não será diagnosticada no passo 1 e o ECG será classificado como “não diagnóstico”. Se estiverem estáveis, esses pacientes poderão ser avaliados com mais calma e com aplicação de algoritmos diagnósticos (passo 3). 

Passo 2: pacientes instáveis

Ocorre praticamente em paralelo ao passo 1. A meta é identificar pacientes de maior risco que necessitam de investigação acelerada e intervenção precoce, com repetição seriada do ECG e imagem à beira do leito.

Os pacientes que entram nesse grupo são aqueles com critérios de instabilidade (tabela 3) ou com ECG “preocupante” (exame duvidoso ou limítrofe que não se encaixa nos critérios de síndrome coronariana aguda). Esses pacientes devem ser mantidos sob monitorização em um ambiente com desfibrilador disponível.

[tabela id=1559 index=4]

A diretriz enfatiza o papel da ecocardiografia formal de urgência ou da ultrassonografia cardíaca à beira do leito (POCUS), especialmente no choque sem causa definida. Além das janelas cardíacas habituais, o exame deve incluir um corte supraesternal (para avaliar o arco aórtico na suspeita de dissecção) e pulmonar (para pneumotórax e sinais de congestão). Veja mais em "Avaliação do Ventrículo Esquerdo pelo Ultrassom (POCUS)".

Excluindo as arritmias, a situação de instabilidade mais comum é o choque cardiogênico por falência ventricular. A identificação precoce é importante para realizar a revascularização rapidamente e aplicar dispositivos de assistência ventricular, com benefício em redução de mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10460813/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22920912/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37634145/). Veja mais em "Novo Consenso de Choque Cardiogênico" e "Choque Cardiogênico e Dispositivos de Assistência Circulatória".

Quando o motivo da instabilidade é dissecção de aorta, o quadro pode ter complicado com ruptura da aorta, insuficiência valvar aórtica aguda ou tamponamento cardíaco. O método diagnóstico de escolha é o ecocardiograma transesofágico realizado na sala de emergência. Devido à instabilidade, esses pacientes não podem ser transportados para a angiotomografia. O ecocardiograma transtorácico pode auxiliar na avaliação inicial, mas tem acurácia limitada.

Em pacientes instáveis sem condições de realizar angiotomografia com suspeita de TEP, evidência ecocardiográfica de sobrecarga de ventrículo direito pode ser utilizada para indicar o tratamento empírico de TEP. O POCUS também auxilia na identificação rápida de tamponamento cardíaco e pneumotórax (ausência de deslizamento pleural). Veja mais em "POCUS: Avaliação do Ventrículo Direito, Derrame Pericárdico e Tamponamento Cardíaco" e "Tratamento de Tromboembolismo Pulmonar de Alto Risco".

Em pacientes sem critérios de instabilidade e que o ECG inicial não revelou o diagnóstico, a avaliação pode seguir para o passo 3.

Passos 3 e 4: escores de risco e estratificação não invasiva

O passo 3 consiste na avaliação da probabilidade diagnóstica estimada com ferramentas validadas e biomarcadores. A diretriz orienta classificar as características da dor como altamente suspeitas de SCA, moderadamente suspeitas ou pouco/nada suspeitas, facilitando a transposição para o escore HEART. Classificar a dor em tipo A/B/C/D deve ser evitado.

Escores de risco e fluxogramas de auxílio à tomada de decisão para as condições mais graves (SCA, TEP e dissecção de aorta) são recomendados. Essas ferramentas estruturam a estimativa da probabilidade diagnóstica, orientam a solicitação de biomarcadores (troponina e D-dímero) e uniformizam as decisões de alta segura ou investigação adicional. Implementar essas rotinas otimiza o uso de recursos e preserva a segurança do paciente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39436875/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25737484/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39134106/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29030346/).

Troponina e fluxograma de investigação de SCA

A troponina de alta sensibilidade (hs-cTn) é o marcador de escolha para o diagnóstico de SCA. Na ausência desse marcador, a troponina convencional pode ser utilizada.

Algoritmos de 0-1 hora ou 0-2 horas (momento da coleta das troponinas) são preferenciais em relação ao algoritmo de 0-3 horas (fluxograma 2). Os algoritmos de 0-1/0-2 horas só podem ser utilizados com troponinas de alta sensibilidade. Valores de corte de troponina de alta sensibilidade (muito baixo, baixo e elevado) e as variações com 1 e 2 horas (Δ) diferem conforme o fabricante do ensaio. O médico deve checar no laboratório do serviço qual a marca da troponina utilizada e os pontos de corte recomendados. O serviço deve adotar um protocolo institucional com a marca utilizada e disponibilizá-lo à beira do leito.

[tabela id=1560 index=5]

Os algoritmos permitem descartar infarto agudo do miocárdio com somente uma dosagem de troponina de alta sensibilidade. Isso é possível apenas se o valor for muito baixo (indetectável) e se os sintomas tiverem iniciado há mais de três horas. A diretriz pontua que essa conduta é mais segura em pacientes com escore HEART < 4 e sem antecedente de doença arterial coronariana (DAC). Se HEART ≥ 4 ou antecedente de DAC e a suspeita de SCA persistir, deve-se considerar investigação não invasiva (angiotomografia de coronárias ou testes funcionais). Veja mais em "Ergométrico, Eco com Estresse, Cintilografia e AngioTC: Quando Pedir e Como Interpretar". 

Pacientes na zona intermediária do algoritmo devem ser mantidos em observação e realizar uma terceira dosagem de troponina. O POCUS pode evidenciar diagnósticos diferenciais e o escore HEART auxilia a estimar o risco desse grupo. Investigação coronariana com testes não invasivos deve ser considerada em regime de internação ou de forma ambulatorial precoce (passo 4).

Escores clínicos para dissecção de aorta e TEP

As síndromes aórticas agudas (dissecção, ulceração e hematoma) são raras, porém muito letais. A mais comum é a dissecção aguda de aorta. Classicamente, a dor é intensa, irradia para o dorso e não tem fatores de melhora. Porém, a condição pode se manifestar de maneira similar a outras causas de dor torácica. Terapias para SCA e TEP podem piorar o quadro ao aumentarem o risco de sangramento.

A ferramenta recomendada para quando existe a suspeita de dissecção de aorta é o ADD-RS (do inglês, Aortic Dissection Detection Risk Score) (fluxograma 3). Esse escore distribui os achados em três categorias diferentes e qualquer achado dentro de uma categoria confere um ponto (máximo de três pontos no total). Pontuação de 0-1 é de baixo risco e 2-3 de alto risco. O D-dímero e o POCUS podem ser utilizados em conjunto com esse escore.

[tabela id=1561 index=6]

A investigação de TEP recomendada pode ser consultada em "Tromboembolismo Pulmonar".

Edição #140

Atualizações em Hipertensão Arterial Sistêmica: Diretrizes da AHA e SBC de 2025

Criado em: 20 de Outubro de 2025 Autor: Nordman Wall Revisor: João Mendes Vasconcelos

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a American Heart Association (AHA) publicaram novas diretrizes de hipertensão arterial sistêmica em 2025. Este tópico resume as principais atualizações dos documentos, com foco nas novas recomendações de manejo [1,2].

O Guia TdC já abordou o diagnóstico e tratamento de hipertensão arterial sistêmica em "Diretriz de Hipertensão Arterial da ESC 2024 e Como Iniciar Tratamento de Hipertensão". 

Rastreio de hiperaldosteronismo primário

Uma das principais atualizações da diretriz americana é a sugestão de rastreio de hiperaldosteronismo primário (HAP) mais ampla em pacientes com hipertensão arterial sistêmica (HAS). A diretriz da European Society of Cardiology (ESC) de 2024 já trouxe essa tendência, que foi reforçada pela Sociedade Europeia de Endocrinologia em julho de 2025 [3,4]. 

A prevalência de HAP é maior do que se supunha [5]. Essa é uma causa potencialmente reversível de HAS e implica maior risco cardiovascular para os pacientes.

A American Heart Association (AHA) recomenda o rastreio de HAP para todos os pacientes com HAS e qualquer um dos seguintes (recomendação I, nível de evidência C):

  • Hipertensão resistente (uso de três medicamentos, sendo um diurético, ou mais de quatro medicamentos, independente da classe).
  • Hipocalemia, na presença ou não de diureticoterapia.
  • Apneia obstrutiva do sono.
  • Tumor adrenal, mesmo se descoberto incidentalmente.
  • História familiar de hipertensão de início antes dos 40 anos.
  • AVC isquêmico antes dos 40 anos.

Adicionalmente, a AHA coloca como opção uma estratégia de rastreio mais ampla, sugerindo que o rastreio pode ser considerado em todos os pacientes com HAS estágio II (pressão arterial > 140/90 mmHg) no momento do diagnóstico (recomendação 2b, nível de evidência C). Essa orientação está alinhada à diretriz europeia. Estudos de custo-efetividade sugerem que o recurso direcionado para o rastreio de HAP nessa população pode diminuir o custo com complicações cardiovasculares no futuro [6,7]. 

A suspeita de HAP aumenta conforme o grau de hipertensão. Pacientes com HAS estágio II (pressão arterial > 140/90 mmHg) possuem prevalência de HAP semelhante a pacientes com hipertensão resistente, cerca de 22% [5]. O documento reforça que a decisão de investigar HAP para todos os pacientes com HAS deve ser contextualizada, considerando a alocação de recursos locais.

Para facilitar o rastreio, a AHA recomenda a dosagem de renina e aldosterona sem a necessidade de suspensão de medicamentos anti-hipertensivos, exceto os antagonistas do receptor de mineralocorticoide, como espironolactona (recomendação I, nível de evidência C). O objetivo é reduzir o atraso na investigação. Veja mais informações sobre o fluxo de investigação em "Diretriz de Hiperaldosteronismo Primário de 2025".

A nova diretriz brasileira de HAS não se posiciona quanto ao rastreio de HAP em todos os pacientes com HAS. A publicação mantém a recomendação anterior de investigar HAP em pacientes com hipertensão resistente, associada à investigação de doença renovascular e de apneia obstrutiva do sono.

Estágios de hipertensão e metas pressóricas

Os documentos atualizaram os valores e os estágios de HAS e almejam metas de pressão mais baixas (tabela 1). A publicação brasileira reforça o posicionamento da ESC, conceituando o estágio “pré-hipertensão” como pacientes com pressão arterial sistólica (PAS) entre 120 e 139 mmHg e/ou pressão arterial diastólica (PAD) entre 80 e 89 mmHg. A AHA considera como hipertensos pacientes com PAS ≥ 130 mmHg ou PAD ≥ 80 mmHg.

[tabela id=1562 index=1]

Os documentos convergem na recomendação de que pacientes com pressão arterial 130–139/80–89 mmHg (considerados “pré-hipertensão” pela SBC ou hipertensão estágio I pela AHA) devem iniciar tratamento medicamentoso se apresentarem história de (Recomendação I, nível de evidência A):

  • Insuficiência cardíaca ou doença cardiovascular (como doença arterial coronariana e AVC).
  • Diabetes.
  • Doença renal crônica (DRC).
  • Na ausência de comorbidades, ambas utilizam a calculadora PREVENT para orientar a decisão nesse grupo. A AHA recomenda que seja iniciada terapia farmacológica se risco ≥ 7,5% em 10 anos. A SBC coloca como limiar um risco de 20% ou maior e que a terapia medicamentosa poderia ser iniciada após três meses de medidas não-farmacológicas.

Ou seja, na ausência de comorbidades, o escore PREVENT determina a necessidade de tratamento de pacientes com pressão arterial 130–139/80–89 mmHg. Confira o manejo no fluxograma 1.

[tabela id=1563 index=2]

A calculadora PREVENT é um destaque em ambas as diretrizes, considerada parte da avaliação do paciente hipertenso. Veja mais em "Avaliação de Risco Cardiovascular: Calculadora PREVENT".

As sociedades brasileira e americana reforçam que o tratamento deve ser iniciado com a associação de dois anti-hipertensivos para quase todos os pacientes com HAS. A monoterapia fica reservada para pacientes ≥ 85 anos, com risco de hipotensão ortostática ou com hipertensão estágio I (pela definição da AHA). Os medicamentos de escolha para terapia inicial são os tiazídicos, inibidores de enzima conversora de angiotensina (iECA), bloqueadores de receptores da aldosterona (BRA) e bloqueadores dos canais de cálcio diidropiridínicos (como anlodipino e nifedipino) (tabela 2).

Tanto a SBC 2025 quanto a AHA/ACC 2025 indicam a meta de pressão arterial < 130/80 mmHg, com individualização em cenários de fragilidade, ortostatismo ou expectativa de vida limitada.

Veja mais em "Diretriz de Hipertensão Arterial da ESC 2024 e Como Iniciar Tratamento de Hipertensão".

Hipertensão resistente e denervação renal

Hipertensão resistente é definida como uma pressão arterial persistentemente elevada apesar do uso de três medicamentos anti-hipertensivos de classes diferentes, incluindo um diurético, ou necessidade de mais de quatro medicamentos para manter a pressão arterial na meta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40811516/,https://abccardiol.org/article/diretriz-brasileira-de-hipertensao-arterial-2025/). Em comparação com pacientes com HAS que não são considerados resistentes, aqueles com HAS resistente possuem risco 50% maior de evoluir com desfechos cardiovasculares desfavoráveis, como infarto agudo do miocárdio e AVC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31023262/).

[tabela id=1565 index=4]

Caracterizar o paciente com HAS resistente leva a duas condutas:

  • Investigar causas secundárias, válido para todos com HAS resistente (tabela 3) (recomendação I, nível de evidência B).
  • Revisar a prescrição (tabela 4), procurando interações que diminuam o efeito dos anti-hipertensivos ou oportunidades de melhoria na adesão (recomendação I, nível de evidência B). 
[tabela id=1566 index=5]

A denervação renal é uma possibilidade de tratamento para pacientes com HAS resistente. Essa intervenção consiste na ablação dos nervos simpáticos das artérias renais por radiofrequência ou ultrassonografia. É um procedimento minimamente invasivo e que reduz a PAS em torno de 4 a 6 mmHg (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36853250/). 

O uso é reservado para pacientes com taxa de filtração glomerular ≥ 40 mL/min/1,73 m² e viabilidade anatômica para o procedimento. A indicação é para pacientes com HAS resistente e risco cardiovascular alto associado a intolerância ou contraindicação à associação farmacológica (recomendação 2b, nível de evidência B). A diretriz americana recomenda acompanhamento multidisciplinar com equipe experiente e acompanhamento pós-procedimento com vigilância para estenose ou dissecção da artéria renal.

Edição #140

Destaques das Diretrizes Brasileiras de Fibrilação Atrial, Dislipidemia e Obesidade

Criado em: 20 de Outubro de 2025 Autor: Pedro Rafael Del Santo Magno Revisor: João Mendes Vasconcelos

O Congresso Brasileiro de Cardiologia de 2025 trouxe novas diretrizes sobre fibrilação atrial, dislipidemia e obesidade [1-3]. Este tópico foca nas principais atualizações e os compara a documentos internacionais sobre o tema.

O Guia TdC já abordou esses temas anteriormente. Veja mais em "Fibrilação Atrial", "Atualização da ESC 2025 sobre a Diretriz de Dislipidemias" e "Novos Critérios Diagnósticos e Classificação da Obesidade".

Diretriz de fibrilação atrial

Quando anticoagular?

A diretriz brasileira segue a European Society of Cardiology (ESC) e recomenda a calculadora de risco tromboembólico CHA₂DS₂-VA. Pacientes com pontuação maior ou igual a 2 devem ser anticoagulados.

Pacientes com pontuação zero no CHA₂DS₂-VA não devem receber anticoagulação. Aqueles que têm pontuação 1 devem ter sua conduta individualizada, ponderando risco de sangramento, benefício clínico e preferências do paciente. 

O critério ‘sexo feminino’ foi removido do escore porque, na prática, não alterava a indicação de anticoagulação. Além disso, o critério não contemplava pessoas não binárias, pessoas trans ou quem estivesse em terapia hormonal. Veja mais em "Atualização sobre a Nova Diretriz de Fibrilação Atrial da ESC 2024".

A diretriz destaca que algumas condições associadas à FA necessitam de anticoagulação mesmo quando o escore CHA₂DS₂-VA é baixo. O documento destaca cardiomiopatia hipertrófica, amiloidose cardíaca e hipertireoidismo [4,5]. 

Fibrilação atrial aguda estável

Na decisão de cardioverter um paciente com FA aguda estável, deve-se considerar o tempo de início de sintomas e o risco tromboembólico do paciente (fluxograma 1):

  • Tempo de sintomas: a diretriz brasileira reduziu o tempo máximo de sintomas considerado seguro para realizar a cardioversão, estipulando um limite de 24 horas. Esse posicionamento está alinhado com a diretriz da ESC. 
  • Risco embólico: pacientes com alto risco tromboembólico não devem receber cardioversão se estiverem estáveis, mesmo se os sintomas estiverem presentes há menos de 24 horas. Pacientes de alto risco especificados pela diretriz são aqueles com FA de etiologia valvar, evento embólico prévio ou CHA₂DS₂-VA ≥ 2. 
Fluxograma 1
Manejo de pacientes com indicação de cardioversão na fibrilação atrial.
Manejo de pacientes com indicação de cardioversão na fibrilação atrial.

Controle de ritmo

Os autores recomendam a estratégia de controle de ritmo como preferencial. O controle de frequência pode ser escolhido em pacientes assintomáticos ou com baixa probabilidade de manutenção do ritmo sinusal, como aqueles com mais de 65 anos e remodelamento atrial esquerdo importante. 

A ablação por cateter deve ser discutida nos pacientes com FA sintomática, seja paroxística ou persistente, sendo uma opção de primeira linha de tratamento. Se existir insuficiência cardíaca com suspeita de taquicardiomiopatia, recomenda-se a ablação mesmo em pacientes assintomáticos. 

Diretriz de dislipidemia

A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) de dislipidemia traz dados epidemiológicos brasileiros, baseados no registro Network to Control AtheroThrombosis (NEAT). No país, 5% dos pacientes com doença arterial coronária e/ou periférica não utilizam estatina. Dentre os que utilizam, 55% não estavam com a terapia recomendada de alta intensidade. Somente 14,4% apresentavam valores de LDL-c inferiores a 50 mg/dL e aproximadamente 30% dos indivíduos estavam com níveis ≥ 100 mg/dL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38378735/).

Estimativa do risco cardiovascular

Para pacientes de 30 a 79 anos que não possuem doença cardiovascular estabelecida, a diretriz brasileira recomenda que a calculadora PREVENT seja utilizada para estimar o risco do paciente. Essa ferramenta foi validada na população dos Estados Unidos da América, mas por não existir uma calculadora contemporânea e abrangente validada no Brasil, a SBC orienta o uso da PREVENT. 

A diretriz estabelece a categoria de “extremo risco”, que a diretriz europeia também propôs, porém com outros critérios. De forma geral, pacientes são definidos como de extremo risco pela SBC se tiverem histórico de múltiplos eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores ou um evento cardiovascular aterosclerótico maior e pelo menos duas condições de alto risco (tabela 1).

[tabela id=1568 index=2]

Escore de cálcio

O escore de cálcio coronário (CAC) auxilia a estimar o risco cardiovascular.  Essa medida pode reclassificar o paciente para uma categoria de risco superior à definida por critérios clínicos e calculadoras. 

A diretriz da SBC recomenda a utilização do CAC em pacientes de risco intermediário, com idade superior a 40 anos e LDL-c entre 70–159 mg/dL. Essa variável também pode ser considerada em indivíduos de baixo risco com histórico familiar de doença cardiovascular precoce (homens < 55 anos e mulheres < 60–65 anos).

Os valores de CAC que modificam o risco são:

  • CAC > 100 UA ou percentil > 75 para sexo e idade: classificar como alto risco cardiovascular.
  • Diabetes mellitus e CAC entre 10 e 300 UA: classificar como alto risco cardiovascular.
  • CAC > 300 UA: classificar como muito alto risco cardiovascular.
  • Hipercolesterolemia familiar e CAC > 100 UA: classificar como muito alto risco cardiovascular.

Colesterol não HDL

A redução do colesterol não-HDL também deve ser uma meta. O valor é calculado através do resultado da dosagem do colesterol total, subtraindo o HDL. O objetivo dessa avaliação é considerar outras lipoproteínas, estimando de maneira indireta a apolipoproteína B (ApoB). Essa estimativa é mais relevante em pacientes com triglicerídeos acima de 150 mg/dL.

A meta do colesterol não-HDL varia conforme a estratificação de risco, assim como a meta de LDL (tabela 2). 

[tabela id=1569 index=3]

Em relação à redução do LDL, um percentual de redução deve ser alcançado. A meta varia conforme a estratificação de risco:

  • Risco alto, muito alto ou extremo: redução ≥ 50%. 
  • Risco baixo ou intermediário: redução ≥ 30%.

A terapia deve ser intensificada sempre que alguma das metas não for alcançada. Em pacientes que já atingiram a meta, a diretriz recomenda considerar a dosagem de ApoB para decidir se ainda é preciso intensificar a terapia ou não. As metas de ApoB são menos estabelecidas que as de LDL. A recomendação da diretriz brasileira está na tabela 1.

A diretriz sugere a dosagem de lipoproteína(a) [Lp(a) ou “Lp azinha”] pelo menos uma vez na vida, recomendação similar à diretriz europeia. Valores acima de 50 mg/dL sinalizam um risco maior de eventos cardiovasculares e devem desencadear uma investigação familiar em cascata para identificar outros portadores de Lp(a) elevada e avaliar precocemente o risco cardiovascular.

Diretriz de obesidade

A diretriz da SBC de obesidade foca na redução de risco cardiovascular e de insuficiência cardíaca no paciente com sobrepeso e obesidade. A diretriz não explicita a definição de obesidade utilizada. Existe uma proposta de novos critérios para obesidade, veja mais em "Novos Critérios Diagnósticos e Classificação da Obesidade".

Meta de perda de peso

A diretriz estipula metas de perda de peso diferentes a depender do propósito. É recomendado que pacientes com sobrepeso ou obesidade que apresentam risco cardiovascular moderado reduzam o peso em 5%. Essa redução auxilia no controle de fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão e dislipidemia, além de evitar ou atrasar o aparecimento de diabetes. As principais evidências que sustentam essa recomendação são os estudos DPP e Look-Ahead (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11832527/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23796131/). 

Para a redução de eventos cardiovasculares, a diretriz faz uma recomendação fraca de perda de peso de 10% nos pacientes com risco moderado e alto. O embasamento vem de trabalhos com mudança de estilo de vida, semaglutida e cirurgia bariátrica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35312758/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37952131/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22215166/). 

Nos pacientes com obesidade e fibrilação atrial, a recomendação é de perda de peso de 10% para reduzir as complicações associadas à arritmia. 

Tratamento

Mudança de estilo de vida é recomendada para todos com sobrepeso e obesidade. Isso inclui um programa alimentar com distribuição adequada de macronutrientes e prática de exercício físico aeróbico e resistido. Essas medidas devem visar um déficit energético inicial de 500–750 kcal/dia.

Um agonista do receptor GLP-1 (AR GLP-1) ou um coagonista dos receptores GLP-1/GIP é recomendado para pacientes com risco moderado ou alto de doença cardiovascular. Entre as opções estão liraglutida, semaglutida e tirzepatida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26132939/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33567185/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35658024/).

Para aqueles com doença cardiovascular estabelecida, a diretriz recomenda a semaglutida 2,4 mg/semana (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37952131/). Veja mais em "Semaglutida para Prevenção Cardiovascular Secundária", que abordou o estudo SELECT. Os autores sinalizam que a tirzepatida ainda não possui estudos como o SELECT nesse cenário, mas esses trabalhos estão em andamento. 

Outros medicamentos para perda de peso são opções, porém com um grau de recomendação menor e restritos a casos em que não seja possível utilizar AR GLP1 ou coagonista dos receptores GLP-1/GIP. Entre as alternativas possíveis estão o orlistate e a naltrexona/bupropiona.

Algumas comorbidades associadas à obesidade possuem recomendações de medicamentos específicos, como:

  • Diabetes mellitus tipo 2: AR GLP-1 (liraglutida, dulaglutida e semaglutida subcutânea ou oral).  
  • Diabetes mellitus tipo 2 e doença renal crônica: semaglutida 1,0 mg/semana. É necessário que a taxa de filtração glomerular esteja ≥ 25 ml/min/1,73 m².
  • Insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida: inibidores de SGLT2. Um AR GLP-1 pode ser utilizado, estando contra-indicado somente se NYHA 4. 
  • Insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada: inibidores de SGLT2 e semaglutida 2,4 mg/semana.
  • Apneia obstrutiva do sono: liraglutida ou tirzepatida.

A diretriz contraindica o uso de sibutramina para pacientes com risco cardiovascular alto ou coronariopatia crônica. O estudo SCOUT encontrou mais eventos cardiovasculares em quem utilizou sibutramina quando comparado com placebo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20818901/). 

A cirurgia bariátrica é recomendada para pacientes com índice de massa corpórea (IMC) ≥ 35 kg/m² e risco cardiovascular moderado e alto. A intervenção também é indicada para aqueles com risco de insuficiência cardíaca em 10 anos maior que 20%, quando o tratamento clínico for insuficiente para perder peso de forma sustentada. Pacientes que se encaixam nesse grupo de alto risco de insuficiência cardíaca pela diretriz são:

  • IMC > 40 kg/m², mesmo assintomáticas.
  • Pessoas com obesidade, diabetes e hipertensão associados.
  • Apneia obstrutiva do sono grave (veja mais em "Síndrome da Apneia e Hipopneia Obstrutiva do Sono: Diagnóstico e Tratamento").
  • Fibrilação atrial.
  • Doença renal crônica estágio 3b.
  • NT-proBNP/BNP elevados.
  • Escore PREVENT para insuficiência cardíaca em 10 anos igual ou maior que 20%.
  • Doença aterosclerótica cardiovascular estabelecida.