Edição #153

Manejo de Hemorragia Digestiva Alta Não Varicosa

Criado em: 16 de Fevereiro de 2026 Autor: Revisor: Frederico Amorim Marcelino

Hemorragia digestiva alta (HDA) é o sangramento que se origina antes do ângulo de Treitz (flexura duodenojejunal) e inclui o esôfago, estômago e/ou duodeno. Este tópico aborda o manejo inicial da HDA não varicosa.

Estabilização inicial

A apresentação clínica da hemorragia digestiva alta (HDA) inclui hematêmese, seja como sangue vivo ou em aspecto de "borra de café", melena e, menos frequentemente, hematoquezia [1]. Sangramentos de fossa nasal posterior, orofaringe e trato respiratório inferior podem ser deglutidos e, após êmese ou expectoração, serem confundidos com HDA. Nesses casos, pode haver tosse com sangue ou sangue espumoso, sugerindo origem respiratória.

No atendimento inicial de um paciente com suspeita de HDA, a prioridade é avaliar a proteção de via aérea e a estabilidade hemodinâmica (veja fluxograma 1).

Fluxograma 1
Fluxograma de manejo na hemorragia digestiva alta por úlcera péptica.
Fluxograma de manejo na hemorragia digestiva alta por úlcera péptica.

Proteção de via aérea

Deve-se considerar intubação quando houver rebaixamento do nível de consciência, sinais de broncoaspiração ou hematêmese volumosa [2].

Intubação profilática antes da endoscopia não é recomendada, pois parece aumentar o risco de pneumonia, prolongar a internação e elevar os custos hospitalares, sem acrescentar benefício [2,3]. 

Estabilidade hemodinâmica

A conduta é diferente para pacientes estáveis e instáveis. Além de parâmetros como hipotensão e tempo de enchimento capilar, o shock index ou age shock index são meios de identificar precocemente pacientes com evolução desfavorável [4,5].

  • Pacientes estáveis: uma estratégia de transfusão restritiva (transfundir somente se hemoglobina < 7 g/dL) está associada a melhores desfechos em sangramento gastrointestinal quando comparada a metas mais liberais [6]. Essa recomendação se aplica em HDA varicosa e não varicosa. Veja mais sobre metas transfusionais em "Quando Transfundir Concentrado de Hemácias".
  • Pacientes instáveis: a British Society of Gastroenterology recomenda a infusão inicial de cristaloides, 500 a 1000 mL em até 15 minutos [7]. Persistindo a instabilidade, deve-se considerar transfusão de hemocomponentes. O volume de hemocomponentes deve levar em consideração a velocidade da perda sanguínea e o nível de instabilidade hemodinâmica [7]. Diferentemente do paciente estável, a hemoglobina pode não ser um bom parâmetro para perda sanguínea nesse contexto. A transfusão nesses casos deve ser guiada pela instabilidade hemodinâmica e não por meta de hemoglobina.

Para pacientes que necessitam de grande quantidade de concentrados de hemácias, uma estratégia possível é o protocolo de transfusão maciça (PTM). O PTM facilita a logística para transfundir várias unidades de hemocomponentes rapidamente [8].    

Não há evidência que favoreça a estratégia de transfusão balanceada 1:1:1 (um concentrado de hemácias, uma unidade de plasma fresco e uma de plaquetas) em hemorragias não traumáticas com necessidade de transfusão maciça. O benefício é incerto e pode haver associação com maior mortalidade [9-11]. 

Reversão de anticoagulantes

O manejo de HDA em pacientes em anticoagulação depende do anticoagulante de uso contínuo e da gravidade do sangramento. Veja mais em "Sangramento em Uso de Anticoagulantes Orais e Quando Retornar a Anticoagulação" e "Tratamento Agudo de Sangramento após Uso de Anticoagulante Oral".

Estratificação de risco e inibidor de bomba de próton

Em pacientes estáveis, deve-se estratificar o risco de desfechos negativos para avaliar a necessidade de internação hospitalar. Os escores mais utilizados são o Glasgow-Blatchford Score, o Rockall pré-endoscópico e o AIM65.

O Glasgow-Blatchford Score tem melhor acurácia para identificar baixo risco de intervenção endoscópica ou transfusão. Um valor ≤ 1 sugere manejo ambulatorial com segurança, desde que haja fácil acesso a pronto atendimento e endoscopia ambulatorial em 1 a 2 semanas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25058843/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27640399/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28053181/).  

Não há um escore validado para internação em UTI. Na prática, pacientes instáveis ou com falha de proteção de via aérea devem ser internados em UTI. 

Inibidor de bomba de próton (IBP)

O uso precoce de IBP em dose de ataque (por exemplo, omeprazol 80 mg intravenoso) não reduz mortalidade ou necessidade de cirurgia. Contudo, pode reduzir a necessidade de terapia endoscópica na primeira endoscopia e diminuir ressangramento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34995368/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17442905/). 

Após o diagnóstico de úlcera péptica, dose, via e duração do IBP dependem da classificação endoscópica de Forrest (figura 1). Úlceras Forrest Ia a IIb têm indicação de IBP intravenoso por 72 horas. Não há diferença entre infusão contínua e dose intermitente (80 mg de ataque e 8 mg/h em bomba em relação a 80 mg de ataque e 40 mg a cada 12h) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33929377/).

[tabela id=1785 index=2]

Nos pacientes com suspeita de hemorragia varicosa, como pacientes com hepatopatia crônica ou hipertensão portal prévia, a British Society of Gastroenterology sugere prescrição de terlipressina ou somatostatina e uso de antibióticos.

Endoscopia

Pró-cinéticos

Pró-cinéticos podem melhorar a visualização endoscópica ao reduzir o conteúdo gástrico. A eritromicina intravenosa é o medicamento mais estudado para esse intuito e melhora a visualização da mucosa, reduzindo a necessidade de segunda endoscopia e o tempo de internação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27366031/). A dose utilizada é de 250 mg, 30 a 120 minutos antes da endoscopia. Metoclopramida intravenosa 10 mg é uma alternativa menos potente com benefício mais discreto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38556533/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38059896/).

Tempo para endoscopia

A diretriz do American College of Gastroenterology recomenda endoscopia em até 24 horas da admissão em pacientes com HDA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33929377/). Endoscopia de urgência, em menos de 6 horas, não parece acrescentar benefício, mesmo em pacientes de alto risco (Glasgow-Blatchford Score > 12), e pode se associar com maior risco de ressangramento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32242355/).

Estudos sobre tempo para endoscopia geralmente excluem pacientes instáveis ou em transfusão maciça. Nesses casos, pode-se considerar endoscopia urgente ou hemostasia por radiologia intervencionista (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31634917/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26417980/).

Tipo de terapia endoscópica para doença ulcerosa péptica

A terapia endoscópica é indicada em hemorragia ativa (Forrest Ia e Ib) ou com vaso visível (Forrest IIa).

As opções preferenciais são cauterização térmica ou clipes metálicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33929377/). A escolha depende da disponibilidade e experiência do endoscopista, sem evidência de superioridade entre os dois (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18986845/).

Não se recomenda adrenalina em monoterapia, pois apresenta maior risco de ressangramento quando comparado a outros métodos hemostáticos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18986845/). A adrenalina pode ser usada como adjuvante, especialmente quando o sangramento dificulta a visualização para clipagem ou cauterização.

Não há consenso sobre o manejo de úlceras com coágulo aderido (Forrest IIb). Uma conduta possível é a irrigação vigorosa ou manipulação para remover o coágulo e então tratar a lesão após visualização da base (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33929377/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36949934/). Se o coágulo não se desprender, pode-se optar por conduta conservadora com IBP, em vez de manipulação agressiva.

Sangramento persistente ou recorrente

Até 14% dos pacientes com úlcera apresentam persistência ou ressangramento em até 72 horas da terapia endoscópica primária (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21490373/). Fatores associados a ressangramento incluem instabilidade hemodinâmica, sangramento ativo na endoscopia, úlceras > 2 cm e localização em duodeno posterior ou pequena curvatura gástrica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21899582/).

A recomendação é realizar uma nova endoscopia diante de sinais de ressangramento. Repetir a endoscopia apresenta taxa de sucesso de 75% nos casos de ressangramento, com menos risco de complicações quando comparada à cirurgia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10072409/).

Se houver falha após a segunda endoscopia, a opção de resgate preferencial é embolização transarterial por radiologia intervencionista (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30733822/). Na indisponibilidade do recurso ou sangramento de difícil acesso para embolização, deve-se considerar abordagem cirúrgica. A cirurgia também deve ser considerada em casos de instabilidade hemodinâmica refratária e hemorragia com sinais de perfuração.

Outras lesões que podem causar HDA

A doença ulcerosa péptica é a principal causa de HDA (32 a 40% dos casos). Outras etiologias estão descritas na tabela 1.

[tabela id=1786 index=3]

Esofagite

A causa mais frequente de esofagite erosiva com sangramento é a doença do refluxo gastroesofágico. Outros fatores de risco são anti-inflamatórios não esteroidais, bifosfonatos ou infecções por Candida, vírus da herpes simples e citomegalovírus.

Em geral, não é necessária terapia endoscópica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25274156/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18387375/). Em casos de sangramento ativo ou vasos visíveis, pode-se considerar uso de clipe ou terapia térmica. 

O tratamento medicamentoso deve ser direcionado à etiologia.

Síndrome de Mallory-Weiss

Caracteriza-se por laceração da mucosa na junção esofagogástrica após vômitos prolongados e/ou com esforço intenso. Fatores de risco incluem etilismo, esofagite de refluxo e hérnia de hiato.

O sangramento costuma ocorrer com vômitos, como hematêmese ou vômitos com laivos de sangue (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8249973/). Melena é incomum se o sangramento não for volumoso.

O diagnóstico é endoscópico, com visualização de laceração longitudinal na mucosa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/6600377/). A terapia endoscópica é indicada se existirem sinais de sangramento ativo, seja em jato ou por extravasamento lento ("babação”) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11726841/).

Lesão de Dieulafoy

Ocorre por erosão de uma artéria submucosa dilatada. É mais comum na região proximal do estômago, na pequena curvatura e perto da junção esofagogástrica, mas pode ocorrer no esôfago, intestino delgado e cólon (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20848205/). O sangramento tende a ser autolimitado, porém até 10% podem apresentar hemorragia ameaçadora a vida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12872092/).

A identificação pode ser difícil na ausência de sangramento ativo. Muitas vezes aparece como vaso visível sem ulceração e pode exigir novas endoscopias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10570333/). Ultrassonografia endoscópica pode auxiliar no diagnóstico nestes casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8304318/).

A terapia endoscópica pode ser feita por termocoagulação ou com clipes metálicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10570333/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12709692/). Há relatos de uso de ligadura gástrica para controle de sangramento nessas lesões, porém há risco de perfuração e essa não é a terapia de primeira escolha (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16185987/).

Edição #153

Derrame Pleural: Como Investigar

Criado em: 16 de Fevereiro de 2026 Autor: Luiza Axelrud Revisor: Marcela Belleza

Derrame pleural é comum em pacientes hospitalizados e está associado a maior mortalidade e tempo de internação [1]. Esse tópico aborda as principais etiologias de derrame pleural e como investigá-las, trazendo as recomendações da diretriz de doenças pleurais da Sociedade Torácica Britânica de 2023 [2].

Avaliação clínica

Derrame pleural pode cursar com tosse, dispneia e dor torácica pleurítica [3]. Derrames pequenos e de evolução lenta podem ser assintomáticos, detectados incidentalmente em exame de imagem [4]. Alterações possíveis no exame físico incluem som maciço à percussão, ausência de frêmito toracovocal, atrito pleural e redução da expansibilidade torácica e de murmúrios vesiculares [5]. 

A avaliação inicial deve identificar situações que exijam manejo imediato. A presença de desconforto respiratório, hipoxemia, instabilidade hemodinâmica ou trauma recente deve acelerar a abordagem [6]. 

As causas mais comuns de derrame pleural no Brasil são tuberculose, neoplasias, insuficiência cardíaca e cirrose [7,8]. A história clínica e o exame físico iniciais podem ser direcionados para fatores de risco e achados que sugiram essas condições [9]. Derrame bilateral com indicativos de hipervolemia, como ascite e edema periférico, sugere insuficiência cardíaca, cirrose e síndrome nefrótica. Derrame unilateral com sintomas constitucionais sugere empiema, neoplasia ou tuberculose [9]. 

Tabela 1
Etiologias de derrame pleural.
Etiologias de derrame pleural.

Após excluir as causas mais comuns, deve-se revisar a história buscando características que sugiram outras etiologias (tabela 1). Sintomas associados, comorbidades, trauma, cirurgia, exposições e uso de medicamentos devem ser questionados (tabela 2) [9]. 

Tabela 2
Derrames pleurais associados a drogas.
Derrames pleurais associados a drogas.

Exames de imagem

Ultrassonografia

É o exame de imagem de escolha na avaliação do derrame pleural. 

A British Thoracic Society (BTS) recomenda que seja realizada ultrassonografia (US) torácica em todos os pacientes na apresentação inicial e na realização da toracocentese (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/). Utilizando a tomografia computadorizada (TC) como referência, a US detecta mais de 90% dos derrames pleurais, enquanto a ausculta detecta 61% e a radiografia, 47% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14695718/).

O derrame pleural pode ser visto como uma imagem anecoica entre as pleuras visceral e parietal (figura 1). Septações ou loculações podem sugerir derrame complicado, enquanto  nodularidades no diafragma ou pleura são altamente sugestivas de neoplasia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26218493/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18852159/). A US também pode estimar o volume do derrame pleural e auxiliar na escolha do melhor sítio de punção. Veja mais em "POCUS no Derrame Pleural".

[tabela id=1792 index=3]

Radiografia de tórax

Costuma ser o exame inicial (figura 2). Deve ser realizada em ortostase nas incidências posteroanterior (PA), lateral e em decúbito lateral (incidência de Laurell). O decúbito lateral aumenta a sensibilidade do exame, permitindo avaliar volumes a partir de 50 mL, e pode sugerir se o derrame está livre ou loculado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8796649/).

[tabela id=1793 index=4]

A radiografia anteroposterior (AP) no paciente no leito tem baixa sensibilidade. O líquido tende a se espalhar posteriormente nessa posição. Pode-se tentar a radiografia em AP com elevação da cabeceira nos pacientes que não conseguem fazer as outras incidências (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/). 

Os achados na radiografia incluem apagamento do seio costofrênico, líquido nas fissuras, opacificação do hemitórax e desvio mediastinal contralateral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/).

Tomografia de tórax

A TC é o exame que melhor avalia pleura, parênquima pulmonar e mediastino no contexto de derrame pleural. No entanto, a TC pode ser reservada para cenários selecionados, não sendo necessária para todos.

Na prática, a TC pode ser solicitada nas seguintes situações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41314413/):

  • Derrame unilateral, sem diagnóstico após avaliação clínica e US, especialmente se exsudativo ou recorrente.
  • Toracocentese não é possível ou não é segura (como derrame pequeno e loculado).
  • Suspeita de neoplasia da pleura ou do parênquima pulmonar.
  • Suspeita de derrame parapneumônico complicado/empiema ou necessidade de planejamento de drenagem/cirurgia.
  • Suspeita de tromboembolismo pulmonar (TEP).

Um cenário típico em que a TC pode ser dispensada inicialmente é quando há quadro sugestivo de derrame pleural por hipervolemia. 

O Colégio Americano de Radiologia orienta que seja utilizado contraste para melhorar a visualização da pleura (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38823955/). Quando a suspeita é de malignidade da pleura, a TC com fase venosa do contraste tem melhor sensibilidade do que a angioTC habitualmente realizada para a pesquisa de TEP (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28024694/). A BTS sugere incluir TC de abdome e pelve quando a suspeita for de neoplasia. 

Espessamento pleural circunferencial ou nodular, espessamento da pleura parietal maior que 1 cm e envolvimento da pleura mediastinal sugerem acometimento neoplásico em um contexto adequado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2106209/). Na suspeita de infecção, realce pleural por contraste e sinal da pleura dividida/separada (split pleura sign) fortalecem a hipótese. Esse último sinal é caracterizado pela visualização da pleura visceral e parietal espessadas e realçadas por contraste, separadas por líquido pleural (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17392263/). Dentro de um contexto infeccioso, sugere derrame complicado e pode auxiliar a diferenciar um abscesso pulmonar de um empiema.

A TC avalia melhor o parênquima pulmonar do que os outros métodos. Sinais de pneumonia, massas, nódulos, cavitações, padrão de infarto pulmonar, atelectasias e linfangite carcinomatosa auxiliam na elucidação diagnóstica. Atelectasia compressiva do parênquima pulmonar é comum em derrames moderados a grandes, gerando opacidades em segmentos basais do pulmão. A diferenciação de pneumonia e atelectasia é facilitada por dados clínicos e laboratoriais. Atelectasia redonda é um tipo de colapso do parênquima pulmonar que ocorre habitualmente adjacente a uma cicatriz pleural e pode ser confundida com uma lesão neoplásica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25045412/). 

O PET-CT não é usado de rotina por ter menor acurácia para diferenciação de derrames pleurais benignos de malignos do que a TC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25188411/). Pode ser considerada para os pacientes que têm suspeita de neoplasia e pesquisa de células neoplásicas negativa no líquido ou quando não for possível obter uma amostra de forma invasiva (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/).

Toracocentese

A toracocentese diagnóstica deve ser realizada para todos os pacientes com derrame pleural de etiologia desconhecida. Existem duas principais exceções para essa orientação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/) (fluxograma 1):

  • Alta suspeita de o derrame ser causado por insuficiência cardíaca, síndrome nefrótica ou cirrose e com melhora após diurético ou diálise.
  • Derrame mínimo (≤ 2 cm no US ou TC). 
[tabela id=1794 index=5]

Na insuficiência cardíaca, o derrame pleural pode ser puncionado se houver refratariedade à dose máxima de diurético ou se houver suspeita de outras causas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39060018/). Veja mais em "Derrame Pleural na Insuficiência Cardíaca".

A British Thoracic Society recomenda que o procedimento seja sempre guiado por US, aumentando a chance de sucesso e reduzindo complicações, principalmente pneumotórax (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/). 

A toracocentese de alívio pode ser realizada quando houver dispneia atribuída ao derrame. Diretrizes sugerem que seja drenado no máximo 1,5 L na primeira hora no derrame pleural neoplásico pelo risco de edema pulmonar de reexpansão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20696688/).

Não existem contraindicações absolutas para a toracocentese. As contraindicações relativas são infecção de pele no local ou coagulopatia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/). Estudos observacionais não encontraram aumento de sangramento em pacientes com tempo de ativação de protrombina (TAP) ou tempo de tromboplastina total ativado (TTPa) menores que duas vezes o limite da normalidade ou plaquetas > 50 mil/mm3 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1996485/). Não é necessário suspender anticoagulantes e antiagregantes para o procedimento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31229333/).

Análise inicial do líquido pleural

A avaliação do líquido pleural inclui análise macroscópica, exames gerais e exames específicos para a suspeita clínica.

O aspecto do líquido pleural pode sugerir algumas etiologias, mas raramente define a causa. Líquido amarelo citrino é frequente e inespecífico, podendo ocorrer em transudatos como insuficiência cardíaca e cirrose. Aspecto sanguinolento pode ocorrer em neoplasias, TEP e trauma. Aparência leitosa sugere quilotórax ou pseudoquilotórax, mas a confirmação depende da dosagem de lipídeos no líquido pleural.

Exames básicos para investigação das principais etiologias incluem contagem total e diferencial de células e dosagem de proteínas, lactato desidrogenase (LDH), glicose e pH (tabela 3) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/).

[tabela id=1795 index=6]

Para iniciar a investigação, deve-se classificar o derrame pleural em transudato ou exsudato. Transudatos surgem pelo aumento da pressão hidrostática ou redução da pressão oncótica, como na insuficiência cardíaca, cirrose ou doença renal crônica avançada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/). Exsudatos ocorrem por inflamação da pleura, como na pneumonia, neoplasia, uso de medicamentos ou doenças autoimunes (tabela 4) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/). Algumas condições, como o TEP, podem se apresentar como transudato ou exsudato.

[tabela id=1796 index=7]

Os critérios de Light são tradicionalmente utilizados para a diferenciação de transudato e exsudato. Considera-se um derrame pleural como exsudativo se preencher um ou mais dos seguintes critérios (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/4642731/):

  • Proteína pleural/proteína sérica > 0,5.
  • Lactato desidrogenase (LDH) pleural/LDH sérica > 0,6.
  • LDH pleural > 2/3 do limite superior da normalidade.

Os critérios de Light foram desenvolvidos para identificar corretamente os exsudatos, mas classificam cerca de 25% dos derrames transudativos como exsudatos. Isso ocorre especialmente após o uso de diuréticos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23411053/). Nesses casos, outros parâmetros podem auxiliar. Na insuficiência cardíaca, o derrame pode ser caracterizado como transudato quando há um gradiente de albumina entre o soro e a pleura (subtração de um valor pelo outro) > 1,2 g/dL. Na cirrose, a razão albumina pleural/albumina sérica < 0,6 sugere transudato (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39060018/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22372660/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23508114/).

Outros critérios têm acurácia semelhante e não requerem exames séricos. Pode-se diagnosticar como exsudato se o líquido preencher pelo menos uma das seguintes características (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30826806/):

  • LDH pleural > 0,6 do limite superior da normalidade.
  • Colesterol pleural > 40 mg/dL.

Investigação etiológica

O diagnóstico da causa dos derrames transudativos costuma ser clínico. Na suspeita de insuficiência cardíaca, o nível sérico de NT-proBNP pode ser usado para classificar adequadamente o derrame pleural de pacientes em uso de diuréticos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29466146/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16481382/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22710710/). 

Nos exsudatos, a solicitação de exames específicos conforme a suspeita clínica pode auxiliar a definir a etiologia (tabela 5).

[tabela id=1797 index=8]

Todo derrame pleural associado a pneumonia bacteriana deve ser diferenciado entre complicado e não complicado. Derrames pleurais complicados indicam drenagem torácica. As características que apontam para derrame pleural complicado são aspecto do líquido pleural purulento (empiema), pH < 7,2, glicose pleural < 40, bacterioscopia ou cultura positivos e/ou aspecto loculado ou septado no US ou TC (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/). 

Tuberculose pleural é uma causa comum de derrame pleural no Brasil. Diante dessa suspeita, deve ser dosada a adenosina deaminase (ADA) no líquido pleural, marcador produzido por linfócitos que têm sensibilidade e especificidade acima de 90% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28052967/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34166463/). Cultura para micobactérias e teste rápido molecular para tuberculose no líquido pleural devem ser solicitados. Apesar de altamente específicos, conseguem detectar apenas cerca de 20% dos casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38442248/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31437432/). Nos casos de dúvida diagnóstica, pode ser necessária a biópsia da pleura (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14582908/). Veja mais em "Tuberculose Pleural".

Na suspeita de uma causa neoplásica, deve-se realizar a pesquisa de células neoplásicas (citologia oncótica ou estudo citopatológico são sinônimos) no líquido pleural. A sensibilidade média é de 58%, variando entre mais de 80% para adenocarcinoma de pulmão e ovário e menos de 30% para mesotelioma e carcinoma escamoso de pulmão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35110369/). Recomenda-se a coleta de pelo menos 25 a 50 mL de líquido pleural para análise, para aumentar a acurácia do diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/). 

Derrame pleural pode ocorrer por doenças inflamatórias autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico (LES) e artrite reumatoide (AR). O fator antinuclear pleural pode auxiliar no diagnóstico de pleurite lúpica, tendo alta acurácia para títulos ≥ 1:160 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37433578/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25318967/). O derrame pleural associado à AR pode se assemelhar a um empiema, com alta celularidade neutrofílica nas primeiras duas semanas, e linfocítica após esse período. Outras características incluem pH e glicose baixos e LDH alto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17294192/). O exame citopatológico pode apresentar achados patognomônicos, como células gigantes multinucleadas e células em “girino” (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17294192/). 

A amilase pleural pode ser solicitada na suspeita de ruptura esofágica ou pancreatite, embora seu aumento não seja específico para essas condições (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/). Na pancreatite, pode-se encontrar também aumento da lipase pleural (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37983698/).

A biópsia pleural pode ser realizada quando não é possível encontrar uma etiologia após a investigação inicial. Existem várias técnicas possíveis:

  • Às cegas: identifica a causa em apenas 40% dos casos e pode complicar com pneumotórax em 10% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16778273/).
  • Guiada por ultrassom ou tomografia: tem sensibilidade acima de 80% e menor taxa de complicações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24832701/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12711467/)
  • Pleuroscopia: preferida nos casos em que não há lesões pleurais visíveis nos exames, há alta suspeita de neoplasia ou quando há indicação de pleurodese (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31463153/). Pode ser feita sob anestesia local e ambulatorialmente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31463153/). Tem sensibilidade acima de 90% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29577922/).
  • Videotoracoscopia (VATS): é o padrão-ouro. É mais complexa e mórbida, pois deve ser realizada em centro cirúrgico e sob anestesia geral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31463153/).

No Brasil, a maior parte das biópsias demonstra achados sugestivos de tuberculose (como pleurite crônica granulomatosa) ou neoplasia (https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/36241/1/Vinicius%20Fernandes%20de%20Freitas%20-%20Características%20da%20biópsia%20pleural%20em%20pacientes%20com%20derrame%20pleural%20submetidos%20a%20toracocentese%20em%20um%20hospital%20de%20referência%20em%20Salvador%20Bahia%20de%202013%20a.pdf).

Edição #153

Hidrocefalia de Pressão Normal

Criado em: 16 de Fevereiro de 2026 Autor: Revisor: Iago Jorge

A hidrocefalia de pressão normal é caracterizada pela tríade de alteração de marcha, declínio cognitivo e urge-incontinência urinária. O diagnóstico é clínico-radiológico com apoio de provas funcionais. Em dezembro de 2025, foi publicado um estudo no New England Journal of Medicine que avaliou o impacto da derivação ventriculoperitoneal nos sintomas dessa doença. Este tópico aborda o diagnóstico e o tratamento dessa condição e os resultados do estudo [1].

Definições

Algumas definições são necessárias para o entendimento da hidrocefalia de pressão normal (HPN) e de condições correlacionadas:

  • Ventriculomegalia: dilatação dos ventrículos cerebrais por qualquer causa. Pode ocorrer por hidrocefalia, mas também por atrofia do parênquima cerebral com dilatação passiva dos ventrículos, perda focal de tecido cerebral (como após um AVC isquêmico) ou por variantes do desenvolvimento.
  • Hidrocefalia: ventriculomegalia causada por alterações no fluxo de líquido cefalorraquidiano (LCR). Tipicamente associada ao aumento da pressão intracraniana, também pode ocorrer sem esse achado.
  • Hidrocefalia não comunicante: causada por condições que interrompem a comunicação entre os ventrículos cerebrais. Exemplos incluem tumores de fossa posterior, estenose do aqueduto cerebral, má formações (como a de Chiari) e obstrução do quarto ventrículo (como na meningite por tuberculose).
  • Hidrocefalia comunicante: a comunicação entre os ventrículos cerebrais está preservada, mas há interrupção do fluxo de LCR no espaço subaracnóideo ou dificuldade na absorção. Exemplos são hidrocefalia pós-hemorragia intraventricular (mais comum em crianças prematuras), pós-infecciosa (meningite causando obstrução das cisternas basais), comprometimento de absorção nas granulações aracnóides após uma hemorragia subaracnóidea e hidrocefalia de pressão normal.

A HPN é uma hidrocefalia comunicante. Na punção lombar, a pressão de abertura costuma estar na faixa normal, o que auxilia na diferenciação com quadros de hidrocefalia com hipertensão intracraniana sustentada.

A HPN pode ser secundária ou idiopática (primária). A forma secundária é menos frequente e está relacionada a eventos prévios como hemorragia subaracnoidea, trauma cranioencefálico, meningite crônica e neoplasias intracranianas [2]. Os mecanismos envolvidos na HPN idiopática não são totalmente compreendidos. Possíveis explicações incluem alterações na absorção e dinâmica do LCR e na complacência intracraniana. 

A forma idiopática é a mais comum e a mais representada em estudos. Existe uma clara relação com o envelhecimento, sendo mais comum em pessoas acima dos 60 anos. A doença pode acometer até 5,9% das pessoas acima de 80 anos [3,4].

Manifestações clínicas

A apresentação clássica de HPN é de uma tríade que evolui de meses a anos, caracterizada por alteração de marcha, declínio cognitivo e urge-incontinência urinária.

Os componentes da tríade são prevalentes na população idosa. Deve-se avaliar com cautela cada um dos sintomas, bem como possíveis diagnósticos diferenciais ou doenças concomitantes (tabela 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27689463/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39539993/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/). É comum a ocorrência de comorbidades que explicam os sintomas da tríade.

Alteração de marcha

É o sintoma mais comum. Costuma ter boa resposta ao tratamento com derivação liquórica. Chamada de marcha “magnética”, “imantada” ou “apráxica”, é descrita como uma marcha de base alargada, com diminuição da velocidade, diminuição do tamanho do passo, aumento do tempo de apoio bipodal, e pouca elevação do pé em relação ao chão. Há dificuldade em mudar a direção, realizando viradas por meio de múltiplos passos. Pode ocorrer um fenômeno de dificuldade de iniciação de marcha, chamado de congelamento. O aspecto da marcha é como se os pés do paciente estivessem magneticamente grudados ao chão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39734225/).

A alteração de marcha contribui para o aumento do risco de quedas. Em um estudo com 176 pacientes, 67% apresentavam quedas recorrentes (definidas por duas quedas ou mais no período pré-operatório de 12 meses). Após tratamento com derivação ventrículo-peritoneal, houve redução no número de pacientes com quedas recorrentes para 35% e melhora em indicadores de medo de cair e de confiança na marcha (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33830219/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39734225/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33906000/).

Declínio cognitivo

O principal domínio afetado é o das funções executivas, por disfunção do lobo frontal. Espera-se lentificação de pensamento, dificuldade em selecionar, organizar e realizar tarefas em etapas. Apatia também pode estar presente. Testes úteis que podem estar alterados são o teste do desenho do relógio, o teste de Luria e a fluência verbal.

Sintomas corticais não relacionados ao lobo frontal devem aumentar a suspeita de um diagnóstico alternativo ou de outra causa de demência como comorbidade. Entre esses sintomas estão memória episódica, afasia, negligência, apraxia manual e alterações visuoespaciais, por exemplo. A disfunção causada pela HPN não causa declínio cognitivo com esses sintomas.

Quando há outra causa de demência junto à HPN, a resposta cognitiva à terapia com derivação liquórica tende a ser menos consistente. Se disponível, uma avaliação neuropsicológica é útil para caracterizar o perfil de comprometimento cognitivo com testes específicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41366839/). Veja mais em "Demências: Diagnóstico e Investigação".

Nas ferramentas de rastreio cognitivo mais utilizadas, as etapas que avaliam predominantemente as funções executivas são a etapa de subtração seriada, presente no mini exame do estado mental (MEEM), a etapa de teste das trilhas B (trailmaking B) e o teste do desenho do relógio, presentes na escala cognitiva de Montreal (MoCA).

Urge-incontinência urinária

O principal sintoma é a urgência. O lobo frontal exerce função inibitória sobre o reflexo miccional. Na HPN, esse controle fica prejudicado e o reflexo de esvaziamento vesical é acionado com mais facilidade, causando urge-incontinência urinária. Em estudos urodinâmicos, cerca de 77% dos pacientes apresentam hiperatividade do músculo detrusor como achado principal (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28892272/).

Características de imagem

O achado principal na HPN é a ventriculomegalia. Porém, isoladamente, esse achado é pouco específico. Como a HPN é uma doença de pessoas com mais de 60 anos, um grau esperado de ventriculomegalia pode ocorrer pela atrofia do parênquima cerebral. Esse tipo de ventriculomegalia também é chamado de hidrocefalia ex vacuo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39332282/). Na HPN, a ventriculomegalia geralmente é desproporcional ao grau de atrofia cerebral.

Para identificar a ventriculomegalia da HPN maneira precisa, tentando diferenciar de outras causas como a hidrocefalia ex vacuo, pode-se utilizar o índice de Evans e a medida do ângulo calosal (figura 1):

  • Índice de Evans: medida feita em um corte axial. Calcula-se a razão entre a maior distância entre os cornos frontais dos ventrículos laterais e o maior diâmetro interno do crânio, medido a partir da superfície óssea interna. Uma razão > 0,3 é considerada compatível com ventriculomegalia.
  • Medida do ângulo calosal: medida realizada em corte coronal ao nível da comissura posterior (figura 1). Mede-se o ângulo entre os ventrículos laterais. Valores < 90º são sugestivos de HPN. Em um estudo com 102 indivíduos, o ponto de corte do ângulo calosal < 90º teve uma acurácia de 93% para diferenciar HPN de demência por doença de Alzheimer (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18500524/).

Além da ventriculomegalia, a HPN pode apresentar um aumento desproporcional do espaço subaracnoideo, achado também conhecido pela sigla DESH (do inglês disproportionately enlarged subarachnoid-space hydrocephalus) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27692614/). Há dilatação do sulco lateral (também chamado de fissura Sylviana) e estreitamento dos sulcos cerebrais da alta convexidade (figura 1). Esses achados são reflexo do aumento do conteúdo liquórico sem atrofia cerebral significativa e estão presentes em cerca de 30% dos pacientes com HPN (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27692614/). 

Na ressonância magnética (RM), casos mais graves de HPN podem apresentar alteração de substância branca periventricular, com hipersinal em T2/FLAIR. A causa desse achado não é completamente compreendida. A gravidade das alterações de substância branca é um marcador de pior resposta ao tap test (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34599204/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17768003/).

Não se deve indicar derivação baseando-se somente na imagem. Nenhum sinal radiológico, isoladamente, tem valor como preditor de resposta à derivação liquórica. No entanto, há sinais correlacionados com melhor resposta ao tap test. Os sinais do porco-espinho e do halo do porco-espinho (hedgehog sign e hedgehog-halo sign) são descritos na RM e se relacionam à maior gravidade do acometimento de marcha e maior responsividade da marcha ao tratamento com punção lombar. Pacientes com esses achados tiveram melhora mais consistente em parâmetros de marcha após o tratamento, quando comparados àqueles sem os sinais radiológicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39503269/).

Diagnóstico

O diagnóstico de HPN idiopática é realizado a partir da suspeita clínica e exame de imagem sugestivo, auxiliado por exame de punção lombar e teste de retirada liquórica (tap test). A diretriz japonesa de 2021 divide o diagnóstico em possível, provável e definitivo conforme os critérios abaixo (fluxograma 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/): 

  • HPN possível: 1) presença de mais de um dos três componentes da tríade clínica e 2) ausência de um diagnóstico alternativo mais provável. A diretriz menciona que idade > 60 anos e o achado de imagem de ventriculomegalia são fatores de apoio à suspeita diagnóstica.
  • HPN provável: 1) cumpre critérios para HPN possível, 2) a pressão de abertura ao exame de punção lombar está ≤ 20 cmH₂O e a análise citológica e bioquímica do LCR é normal e 3) uma das investigações adicionais está presente:
    • Características de DESH com alteração de marcha sugestiva (marcha apráxica).
    • Melhora de sintomas após realização de tap test.
  • HPN definida: 1) cumpre critérios para HPN provável e 2) melhora objetiva dos sintomas após realização de cirurgia de derivação

Punção lombar

Recomendada na investigação de HPN com dois objetivos: primeiro, avaliar a pressão de abertura e a análise citológica e bioquímica do LCR, e segundo, realizar o tap test.

Na HPN, espera-se que a pressão de abertura esteja na faixa normal, com valores ≤ 20 cmH₂O. Deve-se utilizar um raquimanômetro na posição de decúbito lateral. Medidas na posição sentada tendem a valores mais elevados e não são comparáveis ao padrão de referência para essa avaliação. A análise citológica e bioquímica deve vir normal. Pressão de abertura acima de 20 cmH₂O ou alterações na citologia e bioquímica do líquor devem motivar a investigação de diagnósticos alternativos de hidrocefalia, como meningites crônicas, paquimeningites, neuroinfecções ou outros distúrbios da hidrodinâmica cerebral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/). 

O tap test auxilia no diagnóstico e na predição de resposta ao tratamento com cirurgia de derivação. É um exame de punção lombar de alívio, com objetivo de avaliação clínica antes e após a retirada de 30-50 ml de líquor. Recomenda-se realizar um teste de marcha, como o timed up-and-go test (TUG) ou teste de caminhada de 10 m, e uma escala cognitiva, como o mini exame do estado mental (MEEM). A comparação deve incluir tempo cronometrado e, quando possível, registro em vídeo para análise qualitativa da marcha. As avaliações devem ser realizadas antes do procedimento, 2-4 horas após a punção lombar e cerca de 24 horas após a punção lombar. Reavaliações ao longo da primeira semana após o tap test podem mostrar melhora tardia de sintomas, especialmente da disfunção urinária e cognição (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23250963/).

O tap test tem um valor preditivo positivo superior a 90%, enquanto o valor preditivo negativo é inferior a 20%. Um resultado positivo é altamente sugestivo do diagnóstico de HPN, enquanto um resultado negativo não é capaz de excluir o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23250963/).

Tratamento

O tratamento com melhor evidência para HPN é a cirurgia para derivação liquórica, que pode ser indicada para pacientes que cumprem critérios para HPN provável. Durante a avaliação de indicação cirúrgica, deve-se esclarecer os riscos e benefícios e levar em consideração a condição clínica e funcionalidade prévia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/).

Não há terapia farmacológica estabelecida como modificadora de doença na HPN.

As diferentes modalidades de derivação (ventriculoperitoneal, ventriculoatrial e lomboperitoneal) têm eficácia semelhante. A mais utilizada é a derivação ventriculoperitoneal (DVP), com menor necessidade de revisão do sistema de derivação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26871203/). 

Os sistemas de derivação utilizam válvulas para orientar a drenagem liquórica, impedir refluxo e diminuir riscos de infecção. Válvulas de pressão ajustáveis são a recomendação de diretriz, pois permitem ajustes não invasivos e podem facilitar o manejo de complicações relacionadas à hiperdrenagem, como hematomas subdurais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30497150/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33455998/). 

Em dezembro de 2025, foi publicado no New England Journal of Medicine o PENS, um ensaio clínico randomizado multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo, que avaliou a DVP na HPN idiopática (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40960253/). Foram selecionados pacientes capazes de andar 10 metros sem apoio e que tiveram melhora da velocidade de marcha após tap test.

Todos os participantes foram submetidos à cirurgia de DVP. Metade foi randomizada para o grupo intervenção, com a válvula ajustada para manter-se funcionante. No grupo placebo, a válvula foi configurada para alta pressão de abertura, o que impedia a drenagem, tornando-a não funcionante. Após avaliação dos desfechos primários em três meses, o grupo placebo teve ajuste da pressão da válvula para que ela se tornasse funcionante. Assim, ao final do período de observação do estudo, todos os pacientes receberam o tratamento.

O desfecho primário foi a mudança na velocidade máxima de marcha em três meses, medida pelo teste de caminhada de 10 metros. Após 3 meses, o grupo intervenção apresentou melhora média de 0,23 m/s, contra 0,03 m/s do grupo placebo. Além disso, 80% dos pacientes do grupo intervenção atingiram uma melhora significativa, em comparação com 24% do grupo placebo.

Os desfechos secundários incluíram avaliação de mobilidade/equilíbrio (escala de Tinetti), cognição (MoCA) e sintomas urinários (questionário OABq-SF). Houve melhora significativa na mobilidade/equilíbrio no grupo da intervenção, mas não houve diferença estatisticamente significativa em cognição e sintomas urinários no período de três meses.

Os eventos adversos da DVP envolvem complicações do ato cirúrgico, como sangramento intracraniano ou infecções, e complicações do tratamento de derivação, como a hiperdrenagem liquórica, que pode levar à formação de hematomas subdurais. No estudo PENS, o evento adverso mais reportado foi cefaleia posicional, ocorrendo em 59% dos pacientes do grupo intervenção e 28% no grupo placebo. Revisão da derivação ou retirada do sistema foi necessária em dois pacientes do grupo de intervenção. Hematoma e/ou hemorragia subdural ocorreram em 6 (12%) dos pacientes do grupo intervenção, e em 3 pacientes houve necessidade de drenagem cirúrgica ou embolização de artéria meníngea média. Veja mais em "Hematoma Subdural Crônico".

Os achados do PENS fortalecem a evidência de outros ensaios randomizados de que a derivação liquórica melhora a velocidade de marcha e funcionalidade no curto prazo. Os resultados estão alinhados com a revisão da Cochrane de 2024, que apontou um provável benefício na marcha, mas maior incerteza para melhora de cognição e ocorrência de eventos adversos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39105473/).