Edição #155
Antiagregação Plaquetária Após Síndrome Coronariana Aguda
Antiplaquetários estão indicados por tempo indefinido após uma síndrome coronariana aguda (SCA). O tratamento padrão após a alta consiste em dupla terapia antiplaquetária (DAPT) por 12 meses, seguida de um antiplaquetário em monoterapia. Ensaios clínicos e revisões sistemáticas publicados em 2025 forneceram novas evidências sobre o tempo de DAPT e a escolha do antiplaquetário em monoterapia [1-4]. Este tópico revisa o tema com base nas publicações recentes.
Antiplaquetários no tratamento agudo da síndrome coronariana aguda já foram abordados em "Síndromes Coronarianas Agudas - Diretriz AHA/ACC 2025" e "Medicamentos no Infarto Agudo do Miocárdio".
Terapia inicial: dupla antiagregação plaquetária (DAPT)
O tratamento padrão após a alta hospitalar de um paciente com síndrome coronariana aguda (SCA) consiste habitualmente em dupla terapia antiplaquetária (DAPT) por 12 meses. Após esse período, mantém-se indefinidamente um antiplaquetário em monoterapia, estratégia conhecida como SAPT (do inglês, single antiplatelet therapy) [5-7].
A DAPT é indicada após SCA para reduzir eventos cardiovasculares maiores (MACE). Essa recomendação é para todos os pacientes com SCA, independentemente de terem sido tratados com intervenção coronariana percutânea (ICP) e angioplastia, revascularização cirúrgica ou tratamento clínico sem intervenção coronariana direta [5-11].
A DAPT é composta por ácido acetilsalicílico (AAS) associado a um inibidor do receptor P2Y12 (iP2Y12). Em pacientes submetidos à ICP, há preferência que o iP2Y12 seja prasugrel ou ticagrelor, devido à maior potência antiplaquetária em comparação ao clopidogrel, resultando em menor incidência de trombose de stent [5,6,9,12].
Trombose de stent é uma complicação da implantação de stents metálicos ou farmacológicos. A trombose precoce ocorre em até um mês após a ICP e é mais associada aos stents metálicos. A trombose tardia (após 1 mês) e muito tardia (após 1 ano) relaciona-se principalmente aos stents farmacológicos de primeira geração [13,14]. Com o desenvolvimento dos stents farmacológicos contemporâneos, houve redução significativa da incidência de trombose de stent, especialmente da forma tardia [15-17].
Tempo de DAPT
O tempo padrão de DAPT é de 12 meses, independente do tipo de tratamento (clínico, ICP ou cirúrgico) e do tipo de stent utilizado (recomendação classe IA). Exceções incluem [5,18]:
- Pacientes com indicação de cirurgia de urgência durante o período de DAPT: pode ser necessário interferir na DAPT pelo risco de sangramento. O manejo ideal depende do tempo desde a SCA e da realização ou não de ICP. Veja mais em "Ácido Acetilsalicílico (AAS) no Perioperatório"
- Pacientes em uso de anticoagulante: o risco de sangramento da associação de DAPT e anticoagulante é alto [19,20]. O manejo antitrombótico nesses casos foi detalhado em "Fibrilação Atrial e Doença Coronariana: Estratégia Antitrombótica" e "Estudo AQUATIC e Terapia Antitrombótica na Fibrilação Atrial e Doença Coronariana"”.
A DAPT aumenta o risco de sangramentos [8,21]. Quando há sangramentos durante o acompanhamento ou alto risco de sangramento (tabela 1), eventos adversos ou preocupações quanto à segurança/adesão, as diretrizes sugerem estratégias para ajustar o tempo e a intensidade da DAPT (tabela 2).
- Abreviação de DAPT para 1 mês para pacientes com muito alto risco de sangramento ou com sangramento ativo (tabela 1).
- Abreviação de DAPT para 1 a 6 meses conforme ponderação entre risco isquêmico e hemorrágico (tabela 1).
- Descalonamento de DAPT, que consiste na troca de prasugrel/ticagrelor por clopidogrel.
- Associação de inibidor de bomba de prótons à DAPT em pacientes com alto risco de sangramento.
Há possibilidade de DAPT por mais de 12 meses para pacientes com alto risco isquêmico que não tenham alto risco de sangramento. Outra possibilidade para reduzir o risco isquêmico é a associação de um anticoagulante em dose baixa ao AAS. Alto risco isquêmico é sugerido por eventos isquêmicos recorrentes, comorbidades associadas (diabetes mellitus ou insuficiência cardíaca) e características anatômicas ou relacionadas à ICP [14]. A ponderação entre risco isquêmico e risco de sangramento na consideração da extensão do tempo de DAPT é clínica, mas ferramentas como o DAPT score podem auxiliar no processo.
As estratégias alternativas de DAPT estão detalhadas na tabela 2.
Monoterapia antiplaquetária após término da DAPT
As diretrizes recomendam monoterapia com AAS indefinidamente após o término da DAPT (recomendação classe IA) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37471501/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37622654/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39210710/). Há divergência em relação à recomendação dos iP2Y12 nas diretrizes de síndrome coronariana crônica:
- A diretriz dos Estados Unidos de 2023 não faz recomendação de iP2Y12 como estratégia para monoterapia, argumentando evidências insuficientes na ocasião da publicação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37471501/).
- A European Society of Cardiology (ESC) recomenda o clopidogrel como opção de SAPT em sua diretriz de 2024 (recomendação classe IA). O ticagrelor pode ser considerado como alternativa, apesar do menor nível de evidência (recomendação classe IIB, nível de evidência C) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39210710/).
- A diretriz brasileira de 2025 recomenda o clopidogrel como opção de SAPT (recomendação classe IIA). Em pacientes com intolerância ao AAS, a recomendação é mais forte (classe IA) (https://abccardiol.org/article/diretriz-de-sindrome-coronariana-cronica-2025/).
A SAPT com iP2Y12 é respaldada por revisões sistemáticas. Essas análises encontraram redução de MACE com monoterapia com iP2Y12 (clopidogrel ou ticagrelor) em comparação com AAS em pacientes com doença coronariana (com ou sem SCA prévia) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37407118/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40467090/).
A SAPT com clopidogrel foi comparada à SAPT com AAS em uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados publicada em 2025 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40902613/). Foram incluídos pacientes com doença coronariana, majoritariamente com antecedente de SCA e ICP (cerca de 68 e 71%, respectivamente). Os resultados indicaram redução significativa de MACE de 2,99 para 2,61 eventos/100 pessoas-ano, principalmente às custas de redução de infarto agudo do miocárdio (IAM) e AVC, sem aumento do risco de sangramento.
Os achados reforçam que o clopidogrel é uma opção viável de terapia antiplaquetária a longo prazo em pacientes com doença coronariana. A sua utilização como SAPT padrão após o tempo de DAPT não é consensual em diretrizes.
Abreviação de DAPT: estudos NEO-MINDSET e TARGET-FIRST
O tempo ideal de DAPT após ICP não é conhecido, principalmente no contexto dos stents farmacológicos contemporâneos que reduzem o risco de trombose tardia de stent. Os estudos NEO-MINDSET e TARGET-FIRST de 2025 testaram a estratégia de DAPT abreviada após ICP com stents farmacológicos contemporâneos em pacientes com SCA.
NEO-MINDSET
O NEO-MINDSET foi um ensaio clínico randomizado, não cego, realizado em 50 centros no Brasil. Os pesquisadores avaliaram a monoterapia utilizando um iP2Y12 potente com retirada precoce de AAS após a ICP, em comparação com a manutenção de DAPT por 12 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40888723/).
Foram incluídos adultos que apresentaram SCA e realizaram ICP bem-sucedida com stent farmacológico contemporâneo nos primeiros 4 dias de internação. Os indivíduos foram randomizados após a ICP para o grupo intervenção (suspender o AAS e manter ticagrelor ou prasugrel) ou para o controle (manter a DAPT por 12 meses). A escolha do iP2Y12 utilizado ficou a cargo do investigador. Pacientes de alto risco de sangramento foram excluídos.
Foram avaliados dois desfechos primários hierárquicos:
- Desfecho composto de morte por qualquer causa e eventos isquêmicos (IAM, AVC ou revascularização urgente).
- Sangramento maior ou clinicamente relevante de acordo com o Bleeding Academic Research Consortium (BARC).
Trombose de stent foi avaliada entre os desfechos secundários.
O estudo foi conduzido entre 2020 e 2023, com 3413 pacientes randomizados. A idade média dos pacientes foi de 59 anos e 62% deles apresentaram IAM com supradesnivelamento de segmento ST. O tempo médio entre hospitalização e randomização foi de 2 dias. Prasugrel foi o iP2Y12 mais utilizado em ambos os grupos (aproximadamente 69% dos pacientes).
Os resultados após 12 meses de seguimento foram os seguintes:
- Morte e eventos isquêmicos ocorreram mais no grupo que recebeu monoterapia. A incidência foi de 7% de eventos em comparação com 5% do grupo que recebeu DAPT. A diferença absoluta de risco foi de 1,47 (IC 95%, -0,16 a 3,1) e não atingiu critérios de não inferioridade.
- Não foi realizado teste formal de superioridade para o desfecho de sangramentos, por se tratar de segundo desfecho hierárquico e os critérios de não inferioridade não terem sido atingidos. Os eventos de sangramento foram menos frequentes no grupo que recebeu monoterapia (2% em comparação com 4,9%).
- Trombose de stent foi mais frequente no grupo monoterapia (0,7% em comparação com 0,2%), principalmente às custas de trombose subaguda entre 24 horas e 30 dias após a ICP.
TARGET-FIRST
O TARGET-FIRST foi um ensaio clínico randomizado, não cego, realizado em 40 centros na Europa. Os pesquisadores avaliaram a suspensão do AAS um mês após a ICP em pacientes com IAM, em comparação com manutenção de DAPT por 12 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40888726/).
Foram incluídos adultos que apresentaram IAM submetidos a tratamento de todas as lesões coronarianas clinicamente significativas com stents farmacológicos contemporâneos. Poderiam ser necessários um ou mais procedimentos de ICP, contanto que o tratamento fosse realizado dentro de 7 dias após o IAM. Pacientes com alto risco de sangramento ou isquemia foram excluídos.
Após um mês de DAPT, os pacientes que não apresentaram eventos isquêmicos ou hemorrágicos foram randomizados para receber monoterapia com iP2Y12 ou para manter DAPT por mais 11 meses. A escolha do iP2Y12 ficou a cargo do investigador.
O desfecho primário avaliado foi um composto de morte por qualquer causa, IAM, trombose de stent, AVC e sangramento maior de acordo com o BARC (tabela 3). Sangramento clinicamente significativo foi avaliado como desfecho secundário.
O estudo foi conduzido entre 2021 e 2024, com 1942 pacientes randomizados. A idade média dos pacientes foi de 61 anos e 50,4% deles apresentaram IAM com supradesnivelamento de segmento ST. O tempo médio entre hospitalização e randomização foi de 37 dias. Ticagrelor foi o iP2Y12 mais utilizado em ambos os grupos (aproximadamente 74% dos pacientes), seguido do prasugrel.
Os resultados após 11 meses de seguimento foram os seguintes:
- Morte por qualquer causa, IAM, trombose de stent, AVC e sangramento maior foram similares entre os grupos, com 2,1% (21 eventos) no grupo monoterapia e 2% (20 eventos) no grupo DAPT. A diferença absoluta de risco foi de -0,09 (IC 95%, -1,39 a 1,2) e atingiu o critério de não inferioridade na análise por intenção de tratar, considerando a margem de não inferioridade de 1,25% previamente estabelecida. A margem de não inferioridade não foi atingida na análise por protocolo, que é tipicamente mais confiável nos testes de não inferioridade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28976859/).
- Sangramentos clinicamente significativos ocorreram menos no grupo que recebeu monoterapia (2,6% em comparação com 5,6%). O hazard ratio foi de 0,46 (IC 95%, 0,29 a 0,75), estatisticamente significativo no teste de superioridade, com NNT de 33 para prevenção de sangramento.
Perspectiva
Os resultados do NEO-MINDSET sugerem que a suspensão imediata do AAS após ICP se associa a maior risco de eventos isquêmicos. As principais limitações são a ausência de cegamento e a baixa ocorrência de eventos, que pode comprometer o poder do estudo. O estudo STOPDAPT-3 de 2024 testou a monoterapia com prasugrel imediatamente após a ICP e não demonstrou redução de sangramentos em comparação com a DAPT, mas pareceu aumentar eventos isquêmicos, assim como no NEO-MINDSET (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37994553/). Essas evidências indicam que a suspensão do AAS imediatamente ou poucos dias após ICP não parece ser segura e não é recomendada.
Os resultados do TARGET-FIRST sugerem que a abreviação do tempo de DAPT para 1 mês após ICP parece reduzir o risco de sangramento, sem agregar aumento de eventos isquêmicos.
Contudo, o estudo tem aspectos que limitam a extrapolação dos resultados:
- Baixa ocorrência de morte e eventos isquêmicos, sugerindo que a população selecionada foi de baixo risco. Isso pode ter ocorrido tanto pela exclusão de pacientes de alto risco isquêmico, quanto pela realização de revascularização completa rápida, que diminui o risco isquêmico residual.
- A inclusão de sangramentos no desfecho primário reduz o poder do estudo para identificação de diferenças em relação a eventos isquêmicos.
- O não cumprimento de critérios de não inferioridade na análise por protocolo, o que enfraquece a conclusão de não inferioridade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28976859/).
Ao longo da última década, outros ensaios clínicos randomizados testaram a abreviação da DAPT após ICP no contexto de SCA. A maioria dos estudos utilizou o ticagrelor como monoterapia após 1-3 meses de DAPT, demonstrando redução de sangramentos, sem aumento de MACE (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32543684/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37878786/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33085967/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38599220/). A exceção foi o STOPDAPT-2 ACS, que testou a monoterapia com clopidogrel após 1-2 meses de DAPT e falhou em atingir o critério de não inferioridade em relação ao tratamento padrão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35234821/).
Apesar de essas evidências sugerirem que alguns pacientes podem se beneficiar da abreviação da DAPT, limitações dos estudos são frequentemente apontadas. Entre os apontamentos estão o baixo poder para detecção de diferenças potencialmente relevantes em desfechos isquêmicos, subrepresentação de pacientes com SCA de alto risco e população majoritariamente asiática (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38506796/).
O TARGET-FIRST se une a essas evidências, com limitações metodológicas semelhantes. A abreviação da DAPT após a ICP por SCA se fortalece como uma alternativa à terapia padrão, especialmente em populações de baixo risco isquêmico, conforme já incorporado por diretrizes (tabela 2). A extrapolação para outros perfis de pacientes e o momento exato da descontinuação do AAS ainda são incertos. Essas evidências não respaldam a segurança da abreviação da DAPT em pacientes submetidos à ICP com stents metálicos ou stents farmacológicos de primeira geração, pois os estudos incluíram pacientes que utilizaram stents farmacológicos contemporâneos.