Edição #157
Diretriz de AVC Isquêmico AHA/ASA 2026
Uma nova diretriz de manejo do acidente vascular cerebral foi publicada pela American Heart Association em conjunto com a American Stroke Association em janeiro de 2026 [1]. Este tópico revisa os principais pontos de mudança da diretriz.
Aspectos como diagnóstico etiológico detalhado, estratégias específicas de trombólise e trombectomia e outras condutas são discutidos em tópicos próprios no Guia TdC: "Abordagem Inicial da Suspeita de Acidente Vascular Cerebral (AVC)", "Abordagem do Paciente com Ataque Isquêmico Transitório", "Trombectomia Mecânica no AVC", "AVC Isquêmico Maligno", "Trombólise no AVC Isquêmico e Tenecteplase", "Antiagregação Plaquetária no AVC isquêmico e Tirofiban", "AVC Isquêmico: Etiologias e Manejo do Forame Oval Patente" e "Quando Iniciar Anticoagulação de Fibrilação Atrial Após AVC?".
Trombólise intravenosa
A trombólise intravenosa é a terapia de reperfusão mais utilizada e disponível para o acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico agudo. As indicações de trombólise incluem pacientes com déficit neurológico focal agudo incapacitante com instalação há menos de 4,5 horas.
Se indicado, o tratamento deve ser realizado o mais rápido possível, imediatamente após a avaliação da tomografia de crânio (TC) sem contraste. O início do trombolítico não deve ser atrasado para obtenção de exames de imagem avançada como angioTC ou ressonância magnética (RM).
As recomendações de controle pressórico e avaliação com a escala de NIHSS não sofreram alterações e foram revisadas em "Abordagem Inicial da Suspeita de Acidente Vascular Cerebral (AVC)".
Abaixo, estão os principais pontos de mudança da diretriz de 2026.
Escolha do trombolítico
A trombólise intravenosa pode ser realizada em pacientes com AVC isquêmico de instalação há menos de 4,5 horas com uma das drogas a seguir, ambas com recomendação classe I e nível de evidência A:
- Alteplase, na dose de 0,9 mg/kg (dose máxima: 90 mg).
- Tenecteplase, na dose de 0,25 mg/kg (dose máxima: 25 mg).
Múltiplos estudos demonstraram a não inferioridade da tenecteplase em relação à alteplase para desfechos funcionais, com perfil de segurança semelhante [2-6]. A dose de 0,4 mg/kg de tenecteplase já foi estudada, sem demonstração de benefício adicional e com pior perfil de segurança [7].
Pela facilidade posológica (administração em bolus) e não inferioridade demonstrada, a tenecteplase tende a se consolidar como trombolítico preferencial no tratamento do AVC isquêmico. Veja mais em "Trombólise no AVC Isquêmico e Tenecteplase".
Trombólise em janela estendida
A nova diretriz faz duas recomendações 2a com nível de evidência B para trombólise em janela estendida:
- AVC isquêmico com início desconhecido e déficit neurológico reconhecido a menos de 4,5 horas. Essa indicação inclui o AVC ao despertar (wake-up stroke). Nesse contexto, os pacientes devem ser selecionados para trombólise com RM mostrando dissociação (mismatch) entre as sequências de FLAIR e a difusão, de acordo com o estudo WAKE-UP [8]. Essa possibilidade já estava presente na diretriz de 2019 [9]. Esta avaliação foi detalhada em "Trombólise no AVC Isquêmico e Tenecteplase".
- AVC isquêmico entre 4,5 e 9 horas da última vez visto bem ou, no caso de AVC ao despertar, dentro de 9 horas do ponto médio do sono. Nessa indicação, os pacientes devem ser selecionados com estudos de imagem por perfusão, seja TC ou RM. Essa técnica utiliza programas de avaliação automatizada da perfusão para determinar se há área de penumbra salvável em relação ao núcleo (core) isquêmico. A recomendação baseia-se em estudos de fase 2 e 3 que avaliaram a janela estendida de trombólise. Esses estudos foram compilados em uma metanálise que encontrou melhor desfecho funcional. No entanto, houve aumento considerável de sangramentos intracranianos sintomáticos. A seleção do paciente deve ser criteriosa e em centros que dispõem de avaliação de perfusão por neuroimagem [10-12].
Ou seja, o AVC ao despertar (wake-up stroke) pode ser elegível para trombólise por duas maneiras diferentes: uma pela RM com dissociação entre difusão e FLAIR (quando o déficit foi reconhecido há menos de 4,5 horas) e outra pela imagem de perfusão (RM ou TC, quando o paciente se apresenta em até 9 horas do ponto médio do sono).
O documento menciona uma terceira situação de janela estendida de trombólise, com evidência mais fraca (2b, nível de evidência B). Segundo a diretriz, em um paciente com AVC isquêmico por oclusão de grande vaso, que se apresenta entre 4,5 e 24 horas da última vez visto bem, com área de penumbra salvável na imagem e que não pode receber trombectomia mecânica, a trombólise pode ser considerada, se conduzida por equipe especializada [13]. Essa recomendação é uma exceção, não substitui a trombectomia quando ela é possível e deve ser considerada em centros de referência.
Contraindicações à trombólise
Foram adicionadas às contraindicações absolutas a presença de alterações de imagem associadas à amiloide (ARIA). Essas alterações são relacionadas aos anticorpos monoclonais contra a proteína beta-amiloide (como lecanemabe e aducanumabe), usados no tratamento da doença de Alzheimer. Essas alterações são vistas como áreas de edema cerebral (ARIA-E) ou sangramentos intracranianos (ARIA-H). Há preocupação em precipitar sangramentos intracranianos sintomáticos nesses pacientes, mas o risco exato é incerto.
Algumas condições antes consideradas contraindicações absolutas à trombólise, foram reclassificadas como contraindicações relativas. Alguns exemplos de destaque são:
- AVC hemorrágico prévio.
- AVC isquêmico há menos de 3 meses.
- Utilização de anticoagulante oral de ação direta (DOAC).
- Neurocirurgia entre 14 dias e 3 meses.
A tabela 1 traz a atualização das contraindicações absolutas.
Trombólise em crianças e adolescentes
Em pacientes com idade entre 28 dias e 18 anos, a trombólise com alteplase pode ser considerada segura. A eficácia ainda é incerta. Essa recomendação é baseada no estudo TIPS, interrompido por baixo recrutamento. A indicação da trombólise seguiu a indicação de tempo de instalação menor que 4,5 horas e déficit mensurado pela escala de NIHSS pediátrica (PedNIHSS) ≥ 4. A dose utilizada foi de 0,9 mg/kg [14-16].
Indicações de trombectomia mecânica
A trombectomia mecânica é um tratamento para AVC causado por oclusão de grandes vasos. As indicações de podem ser consultadas no fluxograma 1. Veja mais em "Trombectomia Mecânica no AVC".
Os pacientes com indicação de trombólise intravenosa e trombectomia mecânica devem receber as duas terapias de maneira sequencial.
A diretriz de 2026 trouxe recomendações incorporando evidências recentes de trombectomia para artéria basilar, AVC com grande área de isquemia e AVC de vasos médios (tabela 2).
Trombectomia de artéria basilar
A trombectomia mecânica da artéria basilar é recomendada em pacientes com:
- Início de sintomas há < 24 h.
- PC-ASPECTS ≥ 6.
- Funcionalidade prévia preservada (mRS 0-1).
- NIHSS ≥ 10.
A artéria basilar é o principal vaso da circulação posterior e é responsável pela vascularização do tronco encefálico. A artéria basilar surge da união das artérias vertebrais e dá origem às artérias cerebrais posteriores, responsáveis pela vascularização de parte dos tálamos e lobos occipitais.
Essa recomendação baseia-se em estudos recentes que avaliaram a trombectomia de basilar, com destaque para o estudo BAOCHE, que avaliou a terapia entre 6 a 24 h do início dos sintomas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36239644/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36239645/).
Trombectomia em AVC extenso (ASPECTS 0 a 5)
Pacientes com TC inicial com grande área de acometimento podem ser submetidos à trombectomia mecânica. Essa recomendação baseia-se em estudos recentes que observaram melhora funcional de pacientes com ASPECTS < 6 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36762852/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36762865/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38718358/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35138767/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37837989/).
A nova diretriz recomenda a realização da trombectomia mecânica em AVC de circulação anterior (artéria carótida interna e artéria cerebral média) em pacientes com (tabela 1):
- NIHSS ≥ 6.
- Funcionalidade prévia preservada (mRS 0-1).
- ASPECTS de 0-10.
Veja mais em "Trombectomia Mecânica no AVC".
Trombectomia de vasos médios (M2 dominante)
A indicação de trombectomia mecânica foi ampliada para situações específicas envolvendo vasos de médio calibre. A recomendação envolve oclusões da porção dominante do segmento M2 da artéria cerebral média (figura 1).
O paciente deve estar dentro das indicações clássicas de trombectomia mecânica, com início de sintomas há < 6 horas, NIHSS ≥ 6, ASPECTS ≥ 6 e boa funcionalidade (mRS 0-1).
Trombectomia em crianças e adolescentes
Em pacientes com 6 anos ou mais com AVC isquêmico e oclusão de grandes vasos, a trombectomia mecânica deve ser considerada (classe 2a, nível de evidência B). Pacientes com idade entre 28 dias e 6 anos possuem evidência mais frágil, com recomendação 2b com nível de evidência B. As evidências sobre esse ponto derivam de estudos populacionais e de metanálises de estudos retrospectivos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39401507/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36592199/). O serviço deve ter material adequado e experiência em realização de procedimentos pediátricos.
Manejo do Ataque Isquêmico Transitório e AVC minor
A diretriz recomenda a dupla antiagregação plaquetária (DAPT) nos pacientes com AVC isquêmico minor (NIHSS ≤ 3) ou ataque isquêmico transitório (AIT) de alto risco (escore ABCD2 ≥ 4) dentro de 24 horas do início dos sintomas (classe I, nível de evidência A). Essa recomendação se aplica a eventos que não sejam cardioembólicos e a pacientes não submetidos à trombólise. A DAPT pode ser considerada também para AVC com NIHSS de 4 ou 5 ou com início dos sintomas entre 24 e 72 horas, com menor nível de evidência (classe II, nível de evidência B).
A DAPT nesse contexto é composta por ácido acetilsalicílico (AAS) e clopidogrel. No primeiro dia, a prescrição deve ser de AAS 100 mg e clopidogrel 300 mg (dose de ataque do clopidogrel). No dia seguinte, deve ser prescrito AAS 100 mg e clopidogrel 75 mg, ambos uma vez ao dia, por 21 dias. Após o período de 21 dias, deve ser mantido apenas um antiagregante, preferencialmente AAS 100 mg ao dia como profilaxia secundária.
O AVC minor pode ser definido como o AVC isquêmico com pontuação no NIHSS ≤ 5. Alguns estudos utilizaram o ponto de corte de NIHSS ≤ 3 para a definição de AVC minor. Isso explica a divergência entre as classes de recomendação e nível de evidência entre os pontos de corte de NIHSS ≤ 3 ou NIHSS ≤ 5. O AIT de alto risco é definido como a ocorrência transitória de sintomas neurológicos focais relacionados a uma síndrome vascular com escala ABCD2 ≥ 4.
O tratamento com DAPT é indicado para pacientes com AVC minor ou AIT de alto risco que não receberam trombólise intravenosa. Pacientes com AVC minor ou AIT de alto risco que foram submetidos a trombólise devem aguardar 24 horas antes de receber quaisquer antiplaquetários.
O AIT de alto risco e o AVC minor têm alto risco de recorrência precoce. Em pacientes cuja etiologia não seja presumidamente cardioembólica, a DAPT precoce diminui o risco de recorrência de evento cerebrovascular em 90 dias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29766750/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23803136/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38157499/). Quando a etiologia cardioembólica fica evidente no atendimento inicial, a profilaxia secundária deve ser realizada com anticoagulação. O principal exemplo são os pacientes com fibrilação atrial verificada na avaliação inicial.
Retorno de anticoagulação após AVC por fibrilação atrial
Pacientes com fibrilação atrial em anticoagulação que têm AVC isquêmico devem ter a anticoagulação suspensa na fase aguda para diminuir o risco de sangramento intracraniano. O momento ideal de retorno da anticoagulação era um tema com poucas evidências e grandes divergências entre as recomendações.
A diretriz de 2026 utilizou dados do estudo ELAN, publicado em 2023, para recomendar que o retorno precoce de anticoagulação com DOAC deve ser considerado em pacientes com fibrilação atrial e AVC isquêmico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37222476/). A recomendação é 2a, com nível de evidência A. A definição de início precoce e tardio, bem como a definição da extensão do AVC, estão na tabela 3.
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Saiba mais em "Quando Iniciar Anticoagulação de Fibrilação Atrial Após AVC?".