Edição #158
Diabetes Mellitus: Atualização da ADA de 2026
A American Diabetes Association (ADA) publica anualmente o Standards of Care in Diabetes, com recomendações sobre o cuidado de pacientes com diabetes mellitus (DM). Este tópico revisa as principais atualizações da ADA de 2026 [1].
A edição de 2025 do Standards of Care in Diabetes foi abordada na revisão "Diabetes Mellitus Tipo 2 - Atualização da American Diabetes Association de 2025"
Atualizações dos últimos 5 anos da ADA
As principais atualizações da American Diabetes Association (ADA) até 2025 incluem:
- Escolha de medicamentos antidiabéticos orientada por comorbidades, como insuficiência cardíaca, doença renal crônica, alto risco cardiovascular e obesidade.
- Uso de sensores de monitoramento contínuo de glicose, especialmente para pacientes em uso de insulina.
- Destaque para doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD) e terapias específicas no paciente com diabetes mellitus (DM).
- Manejo de dislipidemia com metas mais intensivas e inclusão de ácido bempedoico como opção terapêutica.
- Rastreio de DM para todos os pacientes a partir dos 35 anos, com início mais precoce em pessoas com sobrepeso ou obesidade e outros fatores de risco.
- Metas glicêmicas individualizadas para idosos com o objetivo de reduzir o risco de hipoglicemia.
Esses temas foram abordados em tópicos e revisões anteriores no Guia TdC. Veja mais em "Guia Prático de Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica", "Resmetirom para Esteato-Hepatite Associada a Disfunção Metabólica (MASH)", "Atualização da ESC 2025 sobre a Diretriz de Dislipidemias", "Acido Bempedóico para Dislipidemia" e "Destaques das Diretrizes Brasileiras de Fibrilação Atrial, Dislipidemia e Obesidade".
A tabela 1 resume atualizações relevantes da ADA em 2026.
Novas recomendações sobre indicação de medicamentos
As novidades da ADA 2026 sobre indicações dos medicamentos incluem:
- Semaglutida ou tirzepatida para tratamento sintomático da insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada (ICFEP) em pacientes com obesidade.
- Semaglutida com destaque no paciente com diabetes e esteato-hepatite associada a disfunção metabólica (MASH).
- Metformina para prevenção de hiperglicemia induzida por corticoide.
- Manutenção de inibidores da SGLT2 (iSGLT2) é considerada segura até que o paciente inicie diálise.
Semaglutida e tirzepatida para insuficiência cardíaca
Semaglutida foi recomendada pela ADA em 2025 para pacientes com DM2, obesidade e ICFEP para melhora de sintomas de IC, a partir de estudos como o STEP-HFpEF (recomendação A) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37622681/). Em 2026, a ADA traz como novidade a inclusão de tirzepatida para o mesmo perfil de pacientes (recomendação A) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358899/). O ensaio clínico randomizado SUMMIT, que também incluiu pacientes sem diabetes, encontrou benefício com tirzepatida em um desfecho composto de morte cardiovascular ou piora de insuficiência cardíaca, além de melhora na qualidade de vida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39555826/).
Os dois trabalhos e suas perspectivas foram discutidos anteriormente em "Semaglutida para Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada" e "Tirzepatida para Insuficiência Cardíaca de Fração de Ejeção Preservada em Pessoas com Obesidade".
Semaglutida e MASH
Semaglutida é recomendada para pacientes com DM2 associada a MASH (recomendação A). O estudo ESSENCE observou melhora da fibrose hepática e esteato-hepatite em pacientes que utilizaram semaglutida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40305708/). Outras terapias, como pioglitazona e tirzepatida, podem ser consideradas nessa situação (recomendação B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358897/).
A mudança na nomenclatura da MASH e os novos medicamentos para tratamento foram abordados em "Guia Prático de Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica" e “"Resmetirom para Esteato-Hepatite Associada a Disfunção Metabólica (MASH)".
Metformina para prevenção de hiperglicemia
Metformina pode ser considerada para prevenção de hiperglicemia induzida por corticoides, especialmente quando o risco desse evento adverso é maior (doses elevadas de corticoide, por longos períodos e com fatores de risco para diabetes) (recomendação B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358891/). Estudos encontraram benefício em certos grupos, como o de pacientes oncológicos em uso de 30 mg ou mais de prednisona em esquemas de quimioterapia ou pacientes com doenças inflamatórias em uso de 7,5 mg ou mais de prednisona por pelo menos 4 semanas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31495292/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28073907/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32109422/). O benefício a longo prazo da introdução de metformina quando a hiperglicemia ainda não atinge critérios de diabetes é incerto.
Há recomendação semelhante para pacientes que utilizam alpelisibe ou inavolisibe (inibidores de PI3Kα), novos medicamentos para câncer de mama (recomendação B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358891/). Veja mais em ‘Diabetes induzido por terapia anticâncer’.
Inibidores de SGLT2 e função renal
Os iSGLT2, como a dapagliflozina, são recomendados para pacientes com diabetes e doença renal crônica. A diretriz ressalta que um iSGLT2 deve ser iniciado se a taxa de filtração glomerular (TFG) for ≥ 20 mL/min/1.73m². Se tolerado, é seguro manter o medicamento até que o paciente inicie a diálise, mesmo se a TFG atingir valores menores do que 20 mL/min/1.73m² (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358881/).
Cuidados com agonistas do receptor de GLP-1: efeitos adversos e pré-operatório
Alguns cuidados no manejo de incretinomiméticos (como semaglutida e tirzepatida) foram ressaltados pela ADA:
- Orientação de evitar esses medicamentos durante a gestação e de programar a suspensão antes de uma gravidez planejada.
- Associação com eventos adversos oftalmológicos.
- Risco de aspiração no pré-operatório.
Planejamento familiar
Mulheres em idade fértil em uso de agonistas do receptor de GLP-1 (aGLP-1) devem receber aconselhamento contraceptivo e orientação para evitar esses medicamentos durante a gestação (recomendação A). Esse cuidado ocorre pela incerteza quanto à segurança dessas drogas em gestantes.
Em uma gravidez planejada, a suspensão deve ocorrer 2 meses antes para semaglutida e 1 mês antes para tirzepatida. Após a suspensão, o controle glicêmico deve ser reavaliado e ajustado de outras formas antes da concepção (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358885/).
No caso da tirzepatida, o atraso do esvaziamento gástrico pode reduzir a eficácia de contraceptivos orais. Existe a orientação de utilizar um método hormonal não oral ou um método de barreira por 4 semanas após o início do medicamento e após cada escalonamento de dose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37940101/). A semaglutida não parece ter o mesmo impacto nos anticoncepcionais orais que a tirzepatida (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25475122/).
Associação com eventos adversos oftalmológicos
Estudos observacionais recentes sugeriram uma associação entre uso de aGLP-1 e aumento do risco de doenças oftalmológicas, como neuropatia óptica isquêmica não arterítica (NOIA-NA) e degeneração macular relacionada à idade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41701611/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40383360/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38958939/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40471562/). Os dados são limitados e observacionais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358886/).
Em 2025, a ADA já havia destacado a associação entre aGLP-1 e risco de piora da retinopatia diabética (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37728754/). Uma parte desses achados pode ser explicada pela rápida melhora glicêmica com o uso do medicamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33444163/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41701611/).
Risco de aspiração em cirurgias
A discussão sobre o uso de aGLP-1 no pré-operatório foi ampliada. Os autores destacam o aumento do risco de náuseas, vômitos e retardo do esvaziamento gástrico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358892/). Pacientes em uso de aGLP-1 têm maiores chances de apresentarem resíduos gástricos mesmo em jejum (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38446466/). Por outro lado, alguns estudos observacionais não encontraram aumento do risco de aspiração quando não houve orientação de suspensão desses medicamentos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39476514/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38648036/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40036031/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39142543/).
A melhor maneira de mitigar o risco de aspiração ainda é incerta. Há divergência entre recomendações iniciais e diretrizes mais recentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40814081/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37982170/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39480373/). A ADA comenta que não há informações suficientes para uma recomendação de suspensão universal de aGLP-1 no pré-operatório. O documento orienta considerar a indicação do medicamento (obesidade ou diabetes), controle glicêmico atual, presença de sintomas de retardo de esvaziamento gástrico, urgência do procedimento e tipo de anestesia. Intervenções que podem reduzir o risco incluem aumentar o tempo de jejum, orientar dieta líquida por 24 horas antes do procedimento e ultrassonografia para avaliação de resíduo gástrico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39370500/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358892/). Se for optado por suspender o medicamento, o tempo ideal de suspensão antes do procedimento não é claro.
Veja mais em "Diabetes Mellitus Tipo 2 - Atualização da American Diabetes Association de 2025".
Alvos no manejo da diabetes
Alvo glicêmico
O alvo de hemoglobina glicada (HbA1c) permanece < 7% para a maior parte dos adultos que não são idosos ou gestantes (recomendação A). O alvo de HbA1c < 6,5% deve ser considerado quando é possível atingi-lo sem episódios frequentes ou graves de hipoglicemia ou outros efeitos adversos (recomendação B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358894/). A figura 1 resume alvos de HbA1c e sensores de monitoramento contínuo de glicose.
Alvo pressórico
O alvo de pressão arterial para a maioria dos pacientes hipertensos e com diabetes permanece < 130 x 80 mmHg. A atualização neste tema é a ênfase na possibilidade de um alvo de pressão arterial sistólica (PAS) < 120 mmHg para pacientes selecionados com alto risco cardiovascular ou renal (recomendação A) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358899/).
Os ensaios clínicos randomizados BPROAD, de 2025, e ESPRIT, de 2024, compararam alvos de PAS < 120 mmHg e PAS < 140 mmHg incluindo pacientes com DM (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39555827/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38945140/). O controle mais intensivo da PA foi associado à redução de desfechos compostos cardiovasculares. No ensaio clínico randomizado ACCORD, não houve benefícios em desfechos primários, porém o alvo de PAS < 120 mmHg foi associado a redução no desfecho secundário de AVC em 41% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20228401/).
A comparação entre PAS < 120 mmHg e < 130 mmHg não foi estudada. Existem dificuldades práticas para atingir PAS < 120 mmHg, com maior risco de eventos adversos como hipotensão ortostática e hipocalemia. O benefício desse alvo mais baixo parece ser maior para a prevenção de AVC. Há incertezas sobre o benefício em pacientes com maior risco de eventos adversos.
Alvo de perda de peso
O alvo para perda de peso em pacientes com obesidade ou sobrepeso foi modificado de 3% para 5 a 7%, no mínimo (recomendação A). Medicamentos que resultam em perda de peso devem ser priorizados, principalmente nos pacientes que não atingem este alvo com modificações de estilo de vida. Os benefícios metabólicos e glicêmicos ocorrem a partir de 5% de perda de peso e são maiores quando há perda > 10% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33289165/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25935570/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24307184/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358882/).
Diabetes induzido por terapias anticâncer
Uma nova sessão foi escrita no ADA 2026 para este cenário. Diabetes pode ser induzido por medicamentos para tratamento de câncer, especialmente inibidores de checkpoint (como nivolumabe e pembrolizumabe), inibidores da PI3Kα (como alpelisibe e inavolisibe) ou inibidores do mTOR (como everolimo).
Os pacientes em uso destes medicamentos devem ser orientados quanto ao risco de hiperglicemia e crises hiperglicêmicas (recomendação E). A diretriz recomenda o monitoramento da glicemia no início e durante o tratamento, mesmo na ausência de sintomas. A maioria das recomendações é embasada em opiniões de especialistas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358893/).
Os inibidores de checkpoint estão associados ao diabetes autoimune (CIADM, do inglês, checkpoint inhibitor-associated autoimmune diabetes), que ocorre em aproximadamente 0,5% dos pacientes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39207773/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29937434/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30885563/). A maior parte dos casos surge em até 3 meses de tratamento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31199005/). O quadro pode se apresentar com cetoacidose diabética em até 70% dos pacientes e frequentemente leva à necessidade de insulina cronicamente, semelhante ao diabetes tipo 1 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37220262/).
A metformina pode ser considerada para prevenir hiperglicemia em indivíduos de alto risco tratados com inibidores da PI3Kα (como alpelisibe) (recomendação B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41358891/). Hiperglicemia é o evento adverso que mais frequentemente leva à suspensão do alpelisibe (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35000092/). A metformina foi eficaz para prevenção deste evento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38638399/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39462728/).