Edição #162

Apixabana versus Rivaroxabana Para Anticoagulação Plena: Estudo COBRRA de 2026

Criado em: 11 de Maio de 2026 Autor: Julia Miranda Revisor: Luiza Axelrud

Qual anticoagulante escolher para o tratamento do tromboembolismo venoso é uma dúvida frequente na prática clínica. O estudo COBRRA comparou apixabana e rivaroxabana quanto ao risco de sangramento clinicamente relevante [1]. Esse tópico destaca os principais achados desse ensaio clínico, publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) em março de 2026.

Qual DOAC escolher?

A anticoagulação é a base do tratamento do tromboembolismo venoso (TEV) e do tromboembolismo pulmonar (TEP) [2,3]. Sua principal limitação é o risco de sangramento maior, que ocorre em 1 a 4% dos pacientes por ano  [4,5]. Esse risco é maior em pacientes com episódio prévio de sangramento, idosos (≥ 65 anos), pessoas com fragilidade, etilistas ou com pontuação elevada no escore HAS-Bled [6]. Veja mais em "Sangramento em Uso de Anticoagulantes Orais e Quando Retornar a Anticoagulação".

Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) são os fármacos de escolha na maioria dos casos de TEV segundo as principais diretrizes mundiais, com alto grau de recomendação [3,7-10]. Diversas meta-análises sugerem que os DOACs, comparados à varfarina, apresentam eficácia igual ou superior, com menor risco de sangramento e de mortalidade [11-13]. Além disso, a facilidade de administração, sem necessidade de controle laboratorial, pode melhorar a qualidade de vida dos pacientes [14].

Contudo, os DOACs não devem ser indicados em todos os casos. Em populações específicas, como pacientes com síndrome antifosfolípide, a varfarina permanece como tratamento padrão. [15-17]. Na cirrose Child Pugh C, o uso de DOACs deve ser evitado [3,18]. Além disso, alguns estudos sugerem segurança da apixabana, mas não da rivaroxabana, para pacientes com taxa de filtração glomerular < 30 mL/min [19-22]. Veja mais em "Anticoagulantes Orais Diretos (DOACs): Bulário". 

Até o momento, as principais diretrizes sobre tromboembolismo venoso não estabelecem superioridade de um DOAC em relação aos demais. [23-26]. No entanto, diversos estudos observacionais sugerem menor risco de sangramento com apixabana em comparação à rivaroxabana [27-31]. O estudo COBRRA publicado em 2026, é um dos primeiros ensaios clínicos randomizados a comparar DOACs.

O Estudo COBRRA

O estudo COBRRA é um ensaio clínico randomizado que avaliou se a apixabana tem menor risco de sangramento do que a rivaroxabana em TEV. 

Foram incluídos pacientes com trombose venosa profunda (TVP) aguda proximal dos membros inferiores e/ou tromboembolismo pulmonar (TEP) segmentar ou lobar sintomáticos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41812192/). Foram excluídos pacientes com contraindicação a essas medicações, como doença renal ou hepática avançada, câncer ativo ou outras indicações de anticoagulação a longo prazo, como a fibrilação atrial. O COBRRA-AF, um novo ensaio clínico randomizado, apenas em pacientes com fibrilação atrial, está em elaboração, com previsão de término para o fim de 2027 (https://clinicaltrials.gov/study/NCT04642430/).

Os pacientes foram randomizados para dois grupos e seguidos por três meses:

  • Apixabana 10 mg, 2 vezes ao dia por 1 semana, seguida de 5 mg, 2 vezes ao dia.
  • Rivaroxabana 15 mg, 2 vezes ao dia por 3 semanas, seguida de 20 mg por dia.

A randomização foi estratificada por taxa de filtração glomerular < 50 mL/min, uso concomitante de antiplaquetário e centro participante. Os pacientes e os médicos sabiam qual tratamento estava sendo utilizado. Apenas os responsáveis pela análise estatística eram cegados quanto à intervenção. 

O desfecho primário foi a taxa de sangramento clinicamente relevante, definida como sangramento maior ou sangramento não maior clinicamente relevante. A recorrência de tromboembolismo venoso foi analisada como desfecho secundário. As análises foram realizadas no modo de intenção de tratar (intention-to-treat). A tabela 1 apresenta mais informações sobre a metodologia do estudo. 

[tabela id=1938 index=2]

Foram randomizados 2760 participantes em 32 centros no Canadá, na Austrália e na Irlanda. Aproximadamente 90% eram brancos e 40% eram mulheres, com mediana de idade de 58 anos. A maioria apresentava TEV não provocado e cerca de metade, TEP. 

O estudo encontrou uma redução de mais de 50% no risco de sangramento clinicamente significativo com o uso da apixabana em relação à rivaroxabana (3,3% vs 7,1%), com um NNH de 26. A figura 1 ilustra a diferença observada. 

[tabela id=1937 index=1]

Esse achado foi consistente nas análises secundárias, que demonstraram menor risco de sangramento maior (0,4% vs 2,4%) e de outros sangramentos clinicamente relevantes (2,9% vs 4,9%) separadamente. O resultado se manteve ao ser ajustado por possíveis confundidores, como função renal, uso de antiplaquetários, idade e sexo. 

O estudo não encontrou diferença na recorrência de TEV. Não houve mortes por sangramento em nenhum dos grupos. A adesão medicamentosa foi discretamente inferior no grupo apixabana (65,7%) em comparação com o grupo rivaroxabana (75,1%).

Interpretação

O principal achado do estudo foi a menor taxa de sangramento com apixabana em comparação à rivaroxabana. Essa diferença pode ter sido influenciada pela maior duração da fase de ataque no tratamento, que é de 21 dias com rivaroxabana e de 7 dias com apixabana. A figura 1 sugere que a maior diferença entre os fármacos ocorre no primeiro mês. Como o estudo seguiu os pacientes por apenas três meses, não é possível saber se esse achado se mantém com o uso mais prolongado das medicações.

Outro ponto que pode explicar as distintas taxas de sangramento é a farmacocinética das duas drogas. A dose de manutenção de 20 mg/dia de rivaroxabana resulta em um pico de concentração plasmática mais elevado do medicamento quando comparada à dose de manutenção de 5 mg, administrada duas vezes ao dia, de apixabana (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28805299/).

Apesar da relevância de seus achados, o estudo apresentou limitações. O ensaio não apresentou poder estatístico suficiente para avaliar possíveis diferenças nas taxas de recorrência de tromboembolismo venoso entre os grupos. Além disso, pacientes de alto risco foram excluídos do estudo, como os com câncer. 

É importante notar que o estudo foi desenvolvido em países de alta renda e, majoritariamente, com pacientes caucasianos. A população negra, que é maioria no Brasil, correspondeu a menos de 4% da amostra (https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/composicao/secretaria-de-gestao-do-sistema-nacional-de-promocao-da-igualdade-racial/diretoria-de-avaliacao-monitoramento-e-gestao-da-informacao/hub-igualdade-racial/populacao/). 

Além disso, a diferença de preço entre as duas medicações pode dificultar a aplicação desse achado na prática clínica. No momento da publicação deste tópico, o custo mensal mínimo da rivaroxabana é de cerca de 35 reais, em comparação com 140 reais da apixabana no Brasil. 

Mesmo com suas limitações, o estudo COBRRA é a primeira evidência de alta qualidade que aponta superioridade no uso da apixabana em relação a outro DOAC. É provável que, com base nos seus achados, a prática clínica e as diretrizes futuras favoreçam a apixabana como uma opção mais segura para o tratamento do tromboembolismo venoso.

Edição #162

HIV: Diagnóstico e Início de TARV

Criado em: 11 de Maio de 2026 Autor: Revisor: Marcela Belleza

O avanço no tratamento da infecção pelo HIV permitiu um dos maiores ganhos na expectativa de vida na medicina. Em 1984, a sobrevida média após o diagnóstico de AIDS era de 11 meses [1]. Atualmente, pessoas que vivem com HIV têm sobrevida semelhante à da população em geral. [2,3] Este tópico explora a abordagem inicial de investigação e de manejo desta população. 

Rastreio e suspeição de infecção pelo HIV

Todos os adultos e adolescentes sexualmente ativos devem ser rastreados anualmente para infecção pelo HIV [4-7]. Habitualmente, a infecção pelo HIV cursa com um longo período pouco sintomático, até que surjam as manifestações típicas da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Assim, o propósito do rastreio universal é identificar as pessoas que vivem com HIV precocemente. 

O Ministério da Saúde recomenda a priorização do rastreio nas seguintes populações [4]:

O acesso ao teste também está recomendado para qualquer pessoa que queira realizá-lo [4]. O rastreio universal é uma medida custo-efetiva de saúde pública, pois permite detectar maior número de pessoas mais precocemente [8-12]. Homens héterossexuais tendem a receber diagnósticos mais tardios [13]. A tabela 1 apresenta a periodicidade do rastreio conforme o risco individual do paciente. 

Tabela 1
Periodicidade do rastreamento de HIV (Ministério da Saúde).
Periodicidade do rastreamento de HIV (Ministério da Saúde).

A infecção pelo HIV também deve ser pesquisada nas seguintes situações: 

  • Perda de peso involuntária sem causa definida [14]
  • Citopenias inexplicadas [15]
  • Investigação de diarreia crônica [16,17]
  • Alteração do estado mental sem causa definida [18]
  • Linfonodomegalias por > 3 meses [19-21
  • Sinais e sintomas de imunossupressão e diagnóstico de infecções tipicamente oportunistas (tabela 2)
  • Suspeita de infecção aguda pelo HIV [20]

Tabela 2
Classificação da OMS para sinais	e sintomas de	imunossupressão.
Classificação da OMS para sinais e sintomas de imunossupressão.

A AIDS é a condição em que a pessoa vivendo com HIV apresenta linfócitos T CD4 (LT-CD4) < 200 células/mm³ e/ou presença de condições definidoras (tabela 2).

A infecção aguda pelo HIV pode mimetizar uma síndrome mono-like ou uma síndrome semelhante à influenza (“influenza-like”). O início dos sintomas costuma coincidir com o pico de viremia inicial, cerca de duas semanas após a infecção. [22] Quanto mais sintomas, maior tende a ser a viremia inicial [23]. 

Os sinais e sintomas mais comuns da infecção aguda pelo HIV são febre, fadiga, mialgia, cefaleia e faringite. Manifestações menos prevalentes incluem rash, úlceras orais e genitais dolorosas, adenopatia cervical, artralgia, sudorese noturna e diarreia [20,24].

A infecção aguda pelo HIV é frequentemente subdiagnosticada, pois requer um alto grau de suspeição clínica [25]. Perguntar sobre exposição sexual de risco em pacientes com quadro clínico sugestivo pode ser útil. O teste molecular (PCR quantitativa do HIV) é o exame recomendado para a investigação nesta fase da doença. Deve ser realizado no momento em que o paciente com sintomas sugestivos e história prévia de exposição sexual de risco se apresenta ao serviço ou após 10 dias da exposição sexual de risco (após a fase de eclipse).

Métodos de PCR mais atuais permitem a detecção de cargas virais menores, encurtando o tempo da fase de eclipse para 5 dias, a partir dos quais é possível detectar a presença do HIV [26].

Testes de HIV e avaliação inicial

Para o diagnóstico da infecção pelo HIV são utilizados dois exames sequenciais com metodologias diferentes (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/manuais-tecnicos-para-diagnostico/) (tabela 3): 

  1. Teste inicial: primeiro teste de triagem para identificar pessoas vivendo com HIV. Preferencialmente são utilizados os ensaios imunoenzimáticos (testes rápidos imunocromatográficos ou ELISA), que detectam a presença de um complexo antígeno-anticorpo numa amostra biológica.
  2. Teste complementar: segundo teste realizado para confirmar ou esclarecer o resultado inicial. Podem ser Western blot, imunoblot ou testes moleculares (PCR).
[tabela id=1941 index=3]

Alguns serviços optam por realizar o PCR quantitativo (carga viral do HIV) como exame complementar padrão, pois já constitui o primeiro exame de monitoramento do paciente. 

Cerca de 0,5% das pessoas vivendo com HIV são capazes de manter viremia indetectável sem declínio dos LT-CD4 ao longo do tempo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37827174/). Estes pacientes são chamados de controladores de elite (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19852669/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36175445/).  Para esta população, o uso de PCR quantitativo não é adequado para o diagnóstico. A confirmação da infecção deve ser realizada por Western blot como exame complementar (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/manuais-tecnicos-para-diagnostico/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37591865/).

Não existe um fluxo único para diagnóstico de todas as apresentações clínicas, porém o Ministério da Saúde recomenda (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/manuais-tecnicos-para-diagnostico/):

  • Pessoas em fase crônica da infecção: imunoensaio de 3ª ou 4ª geração (teste rápido ou ELISA) seguido de um teste complementar (Western blot ou PCR quantitativo).
  • Infecção aguda pelo HIV: imunoensaio de 4ª geração como teste inicial seguido de PCR quantitativa como teste complementar.
  • Controladores de elite do HIV: imunoensaio de 3ª ou 4ª geração como teste inicial, seguido de western blot como teste complementar.

Para acelerar o diagnóstico, podem ser realizados dois testes rápidos de 4ª geração, com antígenos diferentes, de forma sequencial. Os dois testes rápidos positivos confirmam a infecção pelo HIV. A taxa de concordância entre os testes costuma ser alta, e essa estratégia tem valor preditivo positivo > 99% para o diagnóstico de infecção pelo HIV. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41165427/).

Quando iniciar TARV

A terapia antirretroviral (TARV) é indicada para todas as pessoas vivendo com HIV independentemente do valor de linfócitos T-CD4 (LT-CD4) e da carga viral. Salvo raras exceções, deve ser iniciada em até 7 dias após o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34587400/, https://www.eacsociety.org/guidelines/eacs-guidelines/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39393187/, https://www.who.int/publications/i/item/9789240031593/). Alguns estudos sugerem que o início da TARV no mesmo dia do diagnóstico melhora a vinculação do paciente no serviço e aumenta a chance de estar com boa adesão e carga viral indetectável após 12 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35721164/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27163694/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28742880/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31206168/). 

O início precoce de TARV reduz a mortalidade e o risco de progressão para AIDS (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26193126/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26192873/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20647201/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37213438/). O tratamento eficaz do HIV também diminui a incidência de neoplasias associadas ao HIV/AIDS (linfoma não-Hodgkin, sarcoma de Kaposi, linfoma primário de sistema nervoso central, carcinoma invasivo associado ao HPV) e melhora os desfechos em pacientes que já possuem estas doenças (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32785640/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29893768/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27609756/).

Em pacientes com tuberculose, iniciar precocemente o tratamento do HIV reduz a mortalidade, principalmente quando LT-CD4 < 50 células/mm³ (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26148280/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22010913/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22010915/).

Atualmente, o início da TARV em controladores de elite é recomendado para reduzir o risco de eventos não relacionados à AIDS (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/, https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/coinfections-tuberculosis-hiv/). No entanto, dados mais recentes questionam o benefício da TARV nessa população (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39208446/).

Pacientes em uso de TARV com carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37490935/). Os estudos PARTNER 1 e PARTNER 2 acompanharam prospectivamente casais sorodiferentes, em que a pessoa vivendo com HIV estava em tratamento regular e com carga viral < 200 cópias/mL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31056293/). Foram avaliados 76.088 eventos de relação sexual sem preservativo. Nenhuma transmissão foi detectada. Um ensaio clínico randomizado também obteve resultados semelhantes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21767103/). Compartilhar esta informação com o paciente é importante, pois ajuda a combater o estigma, melhora a qualidade de vida sexual e permite planejamento reprodutivo (https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/arv-therapy-as-prevention/).

Iniciar TARV em mulheres antes de engravidar também previne a transmissão vertical do HIV (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40652949/).

O combate ao estigma associado à infecção pelo HIV faz parte das linhas de cuidado para esta população. Pacientes que sofrem estigma têm maior risco de desenvolver sintomas depressivos, menor adesão à TARV e maior risco de falha virológica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33539757/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36728652/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41195979/).

Quando NÃO iniciar TARV precocemente

Existem duas situações nas quais o início da TARV deve ser postergado para 4 a 6 semanas após o início do tratamento de uma infecção oportunista: 

  • Suspeita ou diagnóstico de meningite tuberculosa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21596680/)
  • Suspeita ou diagnóstico de neurocriptococose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24963568/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34869498/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30039850/)

Nessas situações, o início precoce de TARV aumenta o risco de Síndrome Inflamatória de Reconstituição Imune (SIRI) que pode agravar o quadro neurológico e aumentar o risco de óbito (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20334848/).

Na meningite tuberculosa em paciente com LT-CD4 < 50 células/mm³  pode-se considerar iniciar a TARV em duas semanas, desde que o paciente  (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/, https://www.eacsociety.org/guidelines/eacs-guidelines/, https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/coinfections-tuberculosis-hiv/):

  • Esteja recebendo tratamento efetivo para meningite tuberculosa sem progressão da doença;
  • Esteja em um hospital de referência capaz de monitorar complicações neurológicas e intervir precocemente em caso de SIRI (manejo de hipertensão intracraniana, hidrocefalia, convulsões, rebaixamento do nível de consciência);
  • Esteja disponível uma equipe multidisciplinar com experiência em manejo de neurotuberculose (infectologista, neurologista, neurocirurgião, intensivista).

O manejo dessa condição foi revisado em "Meningite Tuberculosa".

Como iniciar a TARV

O esquema de primeira linha de TARV no Brasil para pacientes virgens de tratamento é (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/):

  • Dolutegravir 50 mg, 1 comprimido, via oral 1x ao dia
  • Tenofovir 300 mg/Lamivudina 300 mg, 1 comprimido, via oral 1x ao dia

Em pacientes que já usavam TARV e interromperam o tratamento, a escolha do esquema deve considerar o histórico de esquemas prévios, bem como genotipagens para detecção de mutações de resistência. O esquema de resgate mais adequado deve ser discutido com um infectologista ou um Médico de Referência em Genotipagem.

No momento, a recomendação atual é de que pacientes coinfectados com tuberculose em uso de rifampicina necessitam de dose dobrada de dolutegravir: 50 mg 12/12 h até 15 dias após a suspensão da rifampicina (https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/coinfections-tuberculosis-hiv/). Estudos de farmacocinética sugerem aumento do clearance do dolutegravir quando coadministrado, porém um ensaio de fase II não encontrou benefício de aumentar a dose do dolutegravir (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35604212/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37230101/). Mais estudos são necessários para esclarecer esta questão.

Tenofovir é contraindicado em caso de ClCr < 60 mL/min. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25234519/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20673002/)

Após o início da TARV uma nova carga viral deve ser solicitada em 8 semanas para avaliar a resposta ao tratamento (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/, https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/plasma-hiv-1-rna-cd4-monitoring/). Pacientes com boa adesão à TARV e com carga viral indetectável devem repetir o exame a cada 6 meses (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39393187/, https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/plasma-hiv-1-rna-cd4-monitoring/).

Repetir a contagem de LT-CD4 é recomendada para avaliar a necessidade de profilaxia de infecções oportunistas e/ou auxiliar no diagnóstico diferencial de intercorrências clínicas nestes pacientes (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39393187/, https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-arv/plasma-hiv-1-rna-cd4-monitoring/):

  • Se LT-CD4 < 350 células/mm³: a cada 6 meses
  • Se LT-CD4 350-500 células/mm³ e carga viral indetectável: anualmente
  • Se LT-CD4 > 500 células/mm³ e carga viral indetectável: não solicitar

Uma nova contagem de LT-CD4 deve ser solicitada em caso de intercorrência clínica, falha virológica ou interrupção da TARV. Alguns centros optam por não repetir o exame em pacientes com contagem > 350 células/mm³, com carga viral indetectável e com boa adesão ao tratamento. 

[tabela id=1942 index=4]

O manejo inicial de pacientes diagnosticados com HIV deve incluir avaliação laboratorial detalhada na  tabela 4.

O que fazer após o diagnóstico?

Uma vez diagnosticada a infecção pelo HIV, deve ser feita uma avaliação com anamnese e exame físico para identificar sinais de alerta para a necessidade de encaminhamento imediato a serviços de referência (fluxograma 1) (https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/publicacoes/2022/circuito-rapido-da-aids-avancada-fluxogramas.pdf).

[tabela id=1945 index=7]

Um em cada cinco pacientes com HIV hospitalizados morre durante a internação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26423651/). As principais causas de internação hospitalar nesta população são as infecções bacterianas (principalmente a pneumonia) e as condições relacionadas à AIDS (tuberculose, encefalite por Toxoplasma sp., pneumocistose, meningite criptocócica). 

Todos os pacientes com LT-CD4 < 200 células/mm³ e/ou condições definidoras de AIDS precisam passar por uma abordagem estruturada de avaliação, conhecida como Circuito Rápido de AIDS Avançada:

  • Investigar presença de tuberculose doença e infecções bacterianas
  • Realizar testes de rastreamento com antígeno criptocóccico, LF-LAM e antígeno urinário de histoplasma 
  • Iniciar profilaxia para doenças oportunistas (tabela 5)
  • Iniciar TARV em até 7 dias na ausência de contraindicações
[tabela id=1943 index=5]

Pacientes com HIV têm risco aumentado de desenvolver tuberculose em comparação com a população geral, e esta é a principal causa de morte entre os hospitalizados (27%; IC95%: 46-68) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26423651/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32156698/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33612015/). Por isso, é necessária a vigilância de sinais e sintomas (tosse persistente, febre diária, perda ponderal e sudorese noturna). A estratégia de tratamento preventivo de tuberculose (TPT) reduz o risco de adoecimento e está recomendada nas seguintes situações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26193126/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33387480/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17589190/):

  • Se LT-CD4 > 350 células/mm³: repetir ensaio de liberação de interferon-gama (IGRA, do inglês) ou prova tuberculínica anualmente. Se reagentes e paciente assintomático, indicar TPT.
  • Se LT-CD4 < 350 células/mm³: afastar tuberculose doença e indicar TPT independente do IGRA ou da prova tuberculínica

Pessoas vivendo com HIV apresentam maior risco de complicações cardiometabólicas e de doença cardiovascular (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36453273/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31154814/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36576812/). Um ensaio clínico recente demonstrou redução de eventos cardiovasculares com o uso de estatinas nesta população (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37486775/). Veja mais em "Dislipidemia: Diretriz da AHA/ACC 2026".

[tabela id=1944 index=6]

O esquema de vacinação em pessoas vivendo com HIV é diferente do da população geral. Estes pacientes devem ser encaminhados aos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs) para iniciar as imunizações. Vacinas com vírus vivos atenuados são contraindicadas em pacientes com LT-CD4 < 200 células/mm³. A tabela 6 traz as vacinas recomendadas e disponibilizadas nos CRIEs para essa população.

Edição #162

Prostatite Bacteriana: Diagnóstico e Manejo

Criado em: 11 de Maio de 2026 Autor: Revisor: Nordman Wall

As prostatites constituem um grupo heterogêneo de condições que podem integrar o diagnóstico diferencial das infecções do trato urinário. Este tópico explora a abordagem e o manejo com base em duas revisões publicadas recentemente sobre o assunto [1,2].
 

Tipos de prostatite

Prostatite é definida como infecção, inflamação ou dor na glândula prostática, afetando cerca de 9% dos homens ao longo da vida [3]. 

Em 1999, com o intuito de facilitar as pesquisas sobre o tema, o National Institutes of Health (NIH) classificou as prostatites em aguda, crônica, assintomática e síndrome da dor pélvica crônica (tabela 1) [3]. A diferenciação clínica dessas condições pode ser desafiadora e, quando não diagnosticada, cerca de 20% a 25% dos casos de prostatite aguda podem evoluir para bacteremia e 5% a 6% podem evoluir para abscessos ou prostatite crônica [4,5].

Tabela 1
Classificação de prostatite segundo o National Institutes of Health.
Classificação de prostatite segundo o National Institutes of Health.

As prostatites bacterianas (agudas ou crônicas) são mais comuns em idosos. Alguns fatores de risco para essas infecções são: hiperplasia prostática benigna, manipulação do trato urinário baixo (como cateterismo uretral ou biópsia prostática), estase urinária, imunossupressão e sexo anal desprotegido [1,2]. 

Os principais agentes microbiológicos envolvidos nas prostatites bacterianas são as enterobactérias, com destaque para a Escherichia coli (52 a 88% dos casos de prostatite aguda) e Enterococcus faecalis (cerca de 40% dos casos de prostatite crônica) [1]. Outros agentes menos comuns possíveis são: agentes classicamente causadores de uretrites (Mycoplasma e Ureaplasma), S. aureus (cuja presença deve suscitar a investigação de infecção metastática), fungos (como Candida spp. e Cryptococcus) e micobactérias (especialmente após a infusão de BCG intravesical). 

Diagnóstico

Prostatite bacteriana aguda (PBA)

A apresentação típica da PBA é de sintomas do trato urinário inferior (STUB/LUTS) de início agudo, mais comumente STUB/LUTS irritativos, associados a sintomas ou sinais infecciosos sistêmicos, como febre, calafrios e queda do estado geral (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/). Outras manifestações que podem estar presentes incluem dor perineal ou suprapúbica e retenção urinária aguda (fluxograma 1).

[tabela id=1948 index=2]

O diagnóstico diferencial inclui outros tipos de infecção do trato urinário (ITU), especialmente a pielonefrite, que também se manifesta com sintomas ou sinais sistêmicos. A presença de dor lombar ou no flanco favorece o diagnóstico diferencial de pielonefrite. 

O toque retal está indicado em casos de suspeita de PBA, uma vez que a presença de edema, flutuação e/ou dor prostática é observada em 63 a 90% dos casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16437219/,https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18234108/). Deve ser realizado com cautela, sem força excessiva. A pressão aplicada na região prostática, também chamada de massagem prostática, está contraindicada na suspeita de PBA, pois aumenta o risco de bacteremia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38442248/). 

Alterações no exame de urina, como a presença de nitrito, esterase leucocitária, piúria e hematúria, podem estar presentes no diagnóstico, embora tenham baixo valor preditivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35839369/). A coleta de urocultura está sempre indicada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/). Entre 20% e 25% dos pacientes com PBA apresentam bacteremia, o que justifica a indicação de coleta de hemocultura em caso de suspeita (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20237098/, https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/full-guideline/EAU-Guidelines-on-Urological-Infections-2026.pdf).

A dosagem de PSA não está indicada de rotina na suspeita de PBA (https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/full-guideline/EAU-Guidelines-on-Urological-Infections-2026.pdf). O PSA possui baixa sensibilidade e especificidade suficientes para auxiliar no diagnóstico. No entanto, se o paciente fez este exame por outro motivo (por exemplo, rastreio neoplásico) e seu resultado apresentou uma elevação fora do basal do paciente, esse achado favorece o diagnóstico de PBA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15264238/). 

A realização de imagem de rotina não é indicada na suspeita de PBA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/) (https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/full-guideline/EAU-Guidelines-on-Urological-Infections-2026.pdf). No entanto, exames de imagem nesse cenário são comumente realizados para descartar diagnósticos diferenciais, como litíase urinária associada à infecção. Nesse contexto, o achado de abscesso prostático também favorece o diagnóstico de PBA. Pacientes com PBA e resposta insatisfatória ou tardia (> 7 dias) aos antibióticos também devem ser avaliados quanto à presença de abscesso prostático (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/). Veja mais sobre exames de imagem em "Diretriz de Infecção do Trato Urinário".

Prostatite bacteriana crônica (PBC)

O quadro da PBC é mais indolente do que o da PBA. Em geral, os pacientes apresentam episódios de ITU recorrente, com o mesmo agente microbiológico e antibiograma igual ou semelhante (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/). Entre os episódios, alguns indivíduos apresentam dor pélvica e/ou STUB/LUTS persistentes por meses. Esses pacientes não apresentam sinais ou sintomas de infecção sistêmica, como febre e calafrios (fluxograma 2). 

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A PBC pode resultar de episódios de PBA inadequadamente tratados. Diferentemente da PBA, em que há acometimento difuso da próstata, na PBC apenas algumas regiões são acometidas. Acredita-se que essas regiões são locais onde os microrganismos persistem protegidos por um biofilme (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/). 

Na PBC, o toque retal pode ser normal ou identificar uma próstata dolorosa, sendo pouco útil para a definição diagnóstica. A solicitação de exames para inflamação sistêmica (como proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação), hemocultura, PSA e exames de imagem não é indicada de rotina, devido à baixa sensibilidade. Mesmo o exame de urina e a urocultura possuem desempenho inferior ao encontrado na PBA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38442248/). 

O exame padrão-ouro para o diagnóstico de PBC é o teste dos 4 frascos (ou teste de Meares-Stamey) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38442248/). Nele, são coletadas quatro amostras em sequência: urina do início do jato urinário; jato médio; secreções uretrais após uma massagem prostática e jato médio após uma massagem prostática. Nesse teste, a presença de cultura positiva ou de crescimento maior (pelo menos 10 vezes mais unidades formadoras de colônia) após a massagem prostática, em relação às demais, sugere o diagnóstico de PBC (tabela 2). Sintomas presentes, com as quatro amostras negativas, podem sugerir o diagnóstico de prostatite crônica ou de síndrome da dor pélvica crônica (tipo 3). Uma adaptação é o teste dos 2 frascos, no qual se coletam amostras urinárias do jato médio antes e depois da massagem prostática, com interpretação semelhante. Ambos os testes são realizados com pouca frequência.

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Em casos de suspeita de PBC, mas com dúvidas sobre a presença de cistite, o teste pode ser repetido após um período de tratamento empírico com beta-lactâmico ou nitrofurantoína. Ambas as classes não apresentam penetrância prostática na ausência de inflamação aguda, mas apresentam boa atividade urinária, o que permite erradicar bactérias vesicais que possam confundir a interpretação do teste (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/).

Tratamento

Prostatite bacteriana aguda (PBA)

O tratamento empírico inicial da PBA pode ser feito com penicilinas de amplo espectro (como piperacilina-tazobactam), cefalosporinas de terceira geração (como ceftriaxona) ou fluoroquinolonas (como ciprofloxacino ou levofloxacino) (tabela 3) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40788632/). Para pacientes com infecções febris após biópsia transretal da próstata, a American Urological Association recomenda a introdução de carbapenêmicos, amicacina ou cefalosporinas de segunda ou terceira geração (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28363690/). Os antibióticos podem ser ajustados posteriormente de acordo com os resultados das culturas. Veja mais em "Nova Diretriz Americana de 2025 sobre Tratamento de Infecção Urinária Complicada".

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Uma vez que o paciente esteja em melhora clínica, a terapia empírica intravenosa pode ser transicionada para a via oral. As principais opções são as fluoroquinolonas ou o sulfametoxazol-trimetoprim (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/). 

Em geral, a terapia é mantida por 2 a 4 semanas. Dois ensaios clínicos que incluíram pacientes com PBA e outros tipos de ITUs, comparando 7 e 14 dias de terapia, falharam em encontrar a não inferioridade de cursos mais curtos de antibióticos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36785526/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28366170/). Não há evidências diretas de ensaios clínicos para durações de tratamento superiores a 2 semanas.

Pacientes que evoluem para abscesso prostático devem ser avaliados por urologistas, e a cirurgia deve ser considerada para abscessos > 2 cm (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/). A drenagem do abscesso para controle de foco é a opção cirúrgica mais comum, mas a ressecção transuretral ou a prostatectomia radical pode ser necessária.

Prostatite bacteriana crônica (PBC)

Fluoroquinolonas são as terapias de primeira linha para PBC devido à sua elevada penetração na próstata (tabela 3). Os ensaios clínicos randomizados sobre o tema descrevem uma duração típica do tratamento de 4 a 6 semanas. Outros antimicrobianos alternativos são: doxiciclina, minociclina, sulfametoxazol-trimetoprim, fosfomicina e azitromicina.

Pacientes refratários ao tratamento antimicrobiano de 6 semanas devem ser avaliados quanto à possibilidade de tratamento cirúrgico ou nova tentativa de tratamento antimicrobiano (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41657226/). A ressecção transuretral da próstata e a prostatectomia radical devem ser indicadas apenas em casos de complicações infecciosas, diagnóstico de câncer de próstata associado ou refratariedade a tratamentos menos invasivos. O risco de disfunção erétil e incontinência urinária após procedimentos deve ser discutido com o paciente. Apesar da ausência de trabalhos robustos sobre o tema, coortes pequenas sugerem cura clínica da PBC em 67 a 85% dos casos após cirurgia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37969767/).