Edição #163
Hantavirose
A hantavirose ocorre todos os anos no Brasil, concentrando-se nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste [1,2]. A forma clínica nas Américas é a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, uma doença incomum, porém com letalidade entre 30% e 45% [3]. Esse tópico aborda os aspectos clínicos e epidemiológicos da hantavirose.
O que é o hantavirus
Hantavirose é uma zoonose causada por vírus de RNA do gênero Orthohantavirus, chamados de hantavírus. Os hantavírus patogênicos para humanos costumam ser categorizados em dois padrões clínico-geográficos [4-6]:
- Velho Mundo (Europa e Ásia): febre hemorrágica com síndrome renal.
- Novo Mundo (Américas): síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), com edema pulmonar não cardiogênico, choque e componente de disfunção miocárdica em parte dos casos. Essa é a forma que ocorre no Brasil.
A doença já foi registrada em todas as regiões do Brasil, mas os casos se concentram nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Desde a identificação da doença no país, em 1993, até dezembro de 2025, foram confirmados 2.412 casos e 926 óbitos em território nacional (letalidade acumulada de 38%). Em 2025, o Brasil registrou 35 casos e 15 óbitos [7,8]. Os casos predominam entre maio e setembro (período seco), quando os roedores migram para áreas peridomiciliares em busca de alimento e abrigo [9,10]. Na região Sul, como em Santa Catarina, pode haver predominância nos meses de novembro/dezembro [11].
Os principais reservatórios são roedores silvestres, como o ratinho-do-cerrado (Necromys lasiurus) e o ratinho-do-arroz (Oligoryzomys nigripes) [12,13]. Os ratos urbanos comuns, como o rato preto ou rato de telhado (Rattus rattus), a ratazana (Rattus norvegicus) e o camundongo (Mus musculus), não são reservatórios habituais no Brasil. O vírus também pode infectar marsupiais e morcegos, embora o papel desses animais na transmissão não seja estabelecido.
O risco surge na interface entre ambiente silvestre, rural e peridomicílio: lavouras, silos, galpões, casas fechadas, áreas com roedores e limpeza de locais contaminados por excretas.
A transmissão humana ocorre principalmente pela inalação de aerossóis formados a partir da urina, fezes e saliva de roedores infectados. Outras formas menos frequentes incluem mordeduras, escoriações e contato de mucosas com mãos contaminadas [6]. Os hantavírus não são arbovírus. A transmissão não ocorre por mosquitos, carrapatos e outros vetores.
O período de incubação médio é de 1 a 5 semanas, podendo variar de 3 a 60 dias. A busca por exposição deve abranger um período amplo, incluindo atividades que podem ser esquecidas ou subestimadas, como limpar casa fechada, varrer galpão, mexer em grãos, dormir em área rural, acampar, trabalhar em lavoura ou entrar em local com sinais de roedores.
Transmissão pessoa a pessoa
A transmissão pessoa a pessoa é a exceção. Até o momento, esse tipo de transmissão foi documentado somente para a espécie de hantavírus chamada de Andes (ANDV). Essa espécie é descrita na Argentina e no Chile, e os casos com transmissão ocorreram após contato próximo e prolongado. Em um surto documentado em 2018–2019 em Chubut, na Argentina, ocorreram 34 infecções confirmadas e 11 mortes por vírus Andes, com transmissão pessoa a pessoa após uma introdução zoonótica inicial [14]. O paciente índice compareceu por 90 minutos a uma festa de aniversário e cinco pessoas que sentaram próximas a ele iniciaram sintomas entre 17 a 24 dias após a festa.
Não há documentação de circulação do vírus Andes no Brasil [6]. Contudo, a proximidade com Chile e Argentina e o período de incubação prolongado justificam atenção durante a anamnese.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica de relevância no Brasil é a síndrome cardiopulmonar por hantavírus. O quadro clássico é de uma doença febril inespecífica após exposição de risco nas semanas anteriores, acompanhada de plaquetopenia e hemoconcentração, com evolução rápida para tosse, dispneia e hipoxemia, refletindo edema pulmonar.
Pode-se dividir a apresentação clínica em duas fases:
- Fase prodrômica: sintomas inespecíficos que duram de um a seis dias, mas podem se estender até 15 dias. O paciente pode apresentar febre, mialgias, dor abdominal, cefaleia e sintomas gastrointestinais. O quadro pode lembrar dengue, leptospirose e influenza. Os sintomas respiratórios altos, como dor de garganta, são tipicamente brandos ou ausentes, o que pode auxiliar a diferenciar de influenza e outras viroses respiratórias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8527558/). Ao fim dessa fase, a doença pode regredir ou evoluir para a fase cardiopulmonar.
- Fase cardiopulmonar: inicia-se por tosse, seca ou produtiva, que pode acompanhar taquicardia, taquipneia, dispneia e hipoxemia. O quadro pode evoluir para edema pulmonar não cardiogênico e disfunção cardíaca. Isso ocorre por extravasamento capilar causado principalmente pela ação do vírus e resposta imune exacerbada.
A transição da fase prodrômica para a fase cardiopulmonar pode ocorrer em poucas horas, com muitos pacientes necessitando de ventilação mecânica em menos de 24 horas após a chegada ao hospital (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8121458/).
Disfunção renal e sangramentos (como epistaxe, hematêmese e hemoptise) podem ocorrer na síndrome cardiopulmonar por hantavírus, mas não costumam ser as manifestações mais relevantes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22475044/). Quando injúria renal aguda, icterícia ou manifestações hemorrágicas predominam, diagnósticos diferenciais como leptospirose e dengue devem ser considerados (tabela 1).
A fase cardiopulmonar dura geralmente de 2 a 3 dias, mas pode chegar até 7 dias. Após a resolução, o paciente pode apresentar aumento da diurese nos próximos cinco dias por eliminação do líquido acumulado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37105214/).
Exames complementares
O quadro de hantavirose pode cursar com leucocitose com desvio à esquerda, aumento de linfócitos atípicos para mais de 10% e plaquetopenia. Essas alterações podem surgir na fase prodrômica, mas são mais comuns na fase cardiopulmonar. Na fase prodrômica, um achado laboratorial associado à hantavirose é a plaquetopenia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11710682/).
Em um estudo norte-americano retrospectivo, após a presença de edema pulmonar percebido radiograficamente, a presença de 4 dos 5 achados abaixo no hemograma possui sensibilidade de 96% e especificidade de 99% para síndrome cardiopulmonar por hantavírus (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11710682/):
- Plaquetopenia.
- Hematócrito > 50% em homens e > 48% em mulheres.
- Ausência de granulação tóxica significativa nos neutrófilos.
- Mais de 10% de linfócitos atípicos.
- Desvio à esquerda.
Esse critério foi estudado nos Estados Unidos, local com menor prevalência de dengue e leptospirose que o Brasil. A acurácia desses achados no Brasil pode ser menor.
Exames de imagem podem ser normais na fase prodrômica. Na fase cardiopulmonar, a radiografia pode apresentar infiltrados bilaterais e derrame pleural. A tomografia pode apresentar espessamento septal, opacidades em vidro fosco e derrame pleural (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37105214/).
Diagnóstico
Caso suspeito
Um caso suspeito de hantavirose pelo Ministério da Saúde é qualquer quadro que preencha um dos critérios abaixo (https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude-volume-3-6a-edicao/view/):
- Síndrome febril associada à insuficiência respiratória na primeira semana de doença, sem etiologia determinada.
- Síndrome febril que evolui para insuficiência respiratória e óbito na primeira semana de doença.
- Síndrome febril em paciente com exposição a situação de risco nos 60 dias anteriores ao início dos sintomas.
A hantavirose é uma doença de notificação compulsória imediata. A notificação deve ser feita em todo caso suspeito, antes da confirmação.
Atividades de risco para hantavirose incluem trabalho, limpeza ou lazer em áreas rurais ou silvestres, especialmente em locais fechados ou pouco ventilados com presença de roedores, como galpões, depósitos e casas abandonadas. O risco aumenta ao mexer com grãos, fardos, lenha, maquinário agrícola ou poeira contaminada.
A hantavirose é influenciada por fatores que aumentam a densidade de roedores silvestres ou que favorecem a sua aproximação das pessoas. Isso pode ocorrer por enchentes, queimadas, floração de bambus e o fenômeno da “ratada”. Desmatamento, expansão urbana sobre áreas rurais e culturas agrícolas que oferecem alimento e abrigo aos roedores propiciam a ocorrência da doença. Os roedores podem invadir residências e depósitos em busca de alimento, aumentando o risco de contato humano com excretas contaminadas.
Caso confirmado
O caso é confirmado se o paciente suspeito apresentar resultado positivo em pelo menos um exame específico para hantavirose. Os exames considerados são sorologia reagente para anticorpos IgM contra hantavírus, imuno-histoquímica positiva em tecido ou material genético viral detectado por reação em cadeia de polimerase (PCR) para hantavírus.
Os métodos laboratoriais utilizados para o diagnóstico são os seguintes:
- Ensaio imunoenzimático (ELISA) IgM e IgG (sorologia): principal método para o diagnóstico na fase aguda. A maioria dos pacientes com síndrome cardiopulmonar por hantavírus apresenta anticorpos IgM detectáveis já no início dos sintomas (diferente de outras doenças virais). O IgG tem maior utilidade em investigações epidemiológicas, pois identifica exposição prévia ao vírus
- Imuno-histoquímica: especialmente indicada em casos fatais, quando não houve possibilidade de confirmação sorológica ainda em vida. Nesses casos, pode auxiliar na identificação do agente em amostras de tecido.
- Reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR): pode detectar o material genético viral e contribuir para a identificação do vírus e de seu genótipo. Se for coletado, idealmente deve ser realizado até o sétimo dia de início dos sintomas.
As amostras devem ser encaminhadas aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN) ou ao laboratório de referência nacional.
Tratamento
Não há terapia antiviral ou imunomoduladora com benefício comprovado para hantavirose. Um trabalho com ribavirina não encontrou diferença de mortalidade, apesar do baixo número de pacientes randomizados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15494907/). Um estudo chileno com metilprednisolona também não resultou em benefício (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23784924/). Existem pesquisas com plasma de convalescentes, mas ainda sem resultado definitivo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25316807/).
O manejo padrão é a terapia de suporte. Desfechos melhores estão associados à suspeição precoce, monitorização e transferência rápida para um centro capaz de fornecer cuidados intensivos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37105214/). Dos pacientes que necessitam de hospitalização, até 46% podem necessitar de ventilação mecânica e 28% de droga vasoativa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22475044/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41983792/).
A administração de fluidos deve ser cautelosa. Excesso de volume pode piorar o edema pulmonar e está relacionado com maior necessidade de ventilação mecânica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16906244/). O manejo hemodinâmico ideal deve aliar preditores dinâmicos de fluidorresponsividade e fluidotolerância, considerando o perfil de choque variável ao longo da doença e diferente do choque cardiogênico e séptico isoladamente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39024823/). Veja mais em "Fluidos, Fluido-Responsividade e Fluido-Tolerância" e "POCUS: Ultrassonografia no Diagnóstico do Choque".
A evolução para choque pode ser rápida, exigindo avaliação precoce quanto à necessidade de transferência para hospital de referência com disponibilidade de oxigenação por membranas extracorpórea venoarterial (ECMO-VA) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37105214/). Um estudo nos Estados Unidos relatou sobrevida de 80% em pacientes tratados com ECMO-VA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21900022/). Nessa estratégia, os introdutores vasculares eram inseridos profilaticamente com base no diagnóstico presuntivo de síndrome cardiopulmonar por hantavírus. A intubação era postergada para ser feita quase simultaneamente com a canulação para ECMO. A lógica é que a intubação é um momento de alto risco nesse contexto, podendo precipitar colapso cardiovascular.
Antibioticoterapia de amplo espectro é uma medida comumente empregada na dúvida de infecção secundária. Em uma coorte brasileira, até 80% dos pacientes que foram hospitalizados receberam antibioticoterapia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41983792/).