Edição #164
KDIGO 2026 de Injúria Renal Aguda: Diagnóstico e Nefrotoxicidade
A Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) publicou o rascunho da atualização de práticas clínicas sobre injúria renal aguda e doença renal aguda após 14 anos de sua última versão [1]. Este tópico aborda definições, diagnóstico, estratificação de risco, avaliação etiológica e nefrotoxicidade. O documento é um rascunho para revisão por pares da comunidade científica e o conteúdo pode mudar. Este tópico pode ser modificado após a publicação da versão definitiva.
Um novo tópico baseado no KDIGO 2026 de injúria renal aguda sobre tratamento e terapia renal substitutiva será publicado em breve no Guia.
Definição de IRA e creatinina basal
Injúria renal aguda (IRA) é definida pela Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) como uma ou mais anormalidades da função ou estrutura renal, conhecidas ou presumidas como tendo ocorrido dentro de 7 dias (tabela 1). Os critérios funcionais continuam baseados em creatinina sérica, cistatina C sérica e volume urinário.
A principal mudança da definição proposta é a inclusão de critérios estruturais [2,3]. Biomarcadores de estresse ou dano tubular (como NGAL, TIMP-2 e IGFBP7) podem se elevar antes da queda mensurável da função renal, quadro chamado de “IRA subclínica” em algumas publicações [4]. A KDIGO restringe esse critério para biomarcadores dentro de uma indicação clinicamente validada, evitando o uso genérico como exame de rastreio para qualquer paciente com suspeita de IRA. Veja abaixo em "KDIGO 2026 de Injúria Renal Aguda: Diagnóstico e Nefrotoxicidade", no subtópico 'Estratificação de risco e biomarcadores'.
A creatinina sérica é o marcador funcional de escolha para diagnóstico e determinação de gravidade da IRA. Existem situações em que a creatinina tem menor acurácia para o cálculo da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe), como baixa massa muscular ou inibição da secreção tubular de creatinina (tabela 2). Nesses cenários, a KDIGO sugere que a cistatina C seja usada para o cálculo da TFGe. Esse marcador parece ser mais acurado e precoce do que a creatinina [5-7].
A definição do nível basal de creatinina ou cistatina C do paciente é necessária para detectar variações desses marcadores. Existem algumas maneiras de se chegar ao valor basal e a diretriz elenca os métodos preferencialmente da seguinte forma:
- Usar um valor ambulatorial representativo entre 8 e 365 dias antes da admissão ou do evento agudo, com o paciente em estado clínico estável. Pode ser a média, a mediana ou o valor mais recente nesse período.
- Utilizar o valor da admissão, somente se os valores ambulatoriais não estiverem disponíveis e não houver suspeita de IRA na chegada. Útil em admissões eletivas.
- O menor valor desta internação, se o paciente não estiver em terapia renal substitutiva (TRS).
- Em último caso, estimar a partir da fórmula CKD-EPI, assumindo uma TFGe de 75 ml/min por 1,73 m².
Equações convencionais de TFGe, como CKD-EPI, assumem que a creatinina está estável.
Por isso, não possuem boa acurácia durante um episódio de IRA em evolução ou recuperação. Quando a estimativa da função renal pode alterar uma decisão clínica, como ajuste de dose de medicamentos e manutenção de fármacos potencialmente nefrotóxicos, pode-se utilizar a fórmula de TFGe cinética (kinetic estimated glomerular filtration rate, KeGFR).
Critérios de gravidade, doença renal aguda e resolução de IRA
Classificação de gravidade
O documento propõe o sistema “CUB” para classificação de gravidade da IRA. Nessa abordagem, os critérios funcionais e estruturais são avaliados da seguinte maneira (tabela 1):
- “C”: estágios de elevação da creatinina sérica (C0 a C3) ou necessidade de terapia renal substitutiva (TRS).
- “U”: estágios de redução do volume urinário (U0 a U3).
- “B”: ausência ou presença de biomarcadores de dano renal (B0 ou B1).
A IRA subclínica corresponde ao estágio C0U0B1.
Doença renal aguda
Doença renal aguda é um conceito temporalmente mais amplo do que IRA, definida por qualquer um dos abaixo com duração ≤ 3 meses:
- IRA, pelo critério funcional ou estrutural.
- TFG < 60 mL/min/1,73 m².
- Redução da TFG ≥ 35 ml/min do valor basal.
- Aumento da creatinina sérica > 50%.
- Alterações no exame de urina, como albuminúria, hematúria ou leucocitúria.
A doença renal aguda preenche uma lacuna diagnóstica e conceitual entre a IRA (≤ 7 dias) e a doença renal crônica (≥ 3 meses). Na prática, auxilia a nomear o paciente que ainda não voltou ao basal após a IRA, mas também ainda não preenche critério temporal de doença renal crônica. Sem essa categoria, esses pacientes ficariam sem denominação e poderiam não receber o acompanhamento e as intervenções recomendadas, apesar de apresentarem risco aumentado de desfechos negativos, como mortalidade e necessidade de terapia renal substitutiva (TRS) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36531983/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30951162/).
O conceito também identifica pacientes com disfunção ou dano renal agudo que não evoluíram rápido o suficiente para preencher critérios de IRA (doença renal aguda sem IRA prévia). Alguns tipos de agressão renal podem evoluir dessa maneira, como insuficiência cardíaca descompensada, cirrose e nefrite tubulointersticial (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35257065/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32918956/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30951162/).
A persistência das alterações por 3 meses ou mais caracteriza doença renal crônica. Veja mais em "Doença Renal Crônica: KDIGO 2024".
Resolução de IRA e IRA transitória
A creatinina não precisa retornar completamente ao valor basal para considerar que a IRA está resolvida. A KDIGO define “IRA completamente resolvida” quando a creatinina retorna para < 1,2 vezes o valor basal em até 7 dias. “IRA parcialmente resolvida” é definida quando a creatinina está ≥ 1,2 vezes e < 1,5 o valor basal, também em até 7 dias.
Os mesmos cortes de resolução se aplicam à doença renal aguda, porém quando a resolução ocorre após 7 dias e antes de três meses. Além disso, para doença renal aguda também existe a possibilidade de avaliar a resolução conforme a TFGe: > 80% do basal para resolução completa e > 66% e < 80% do basal para resolução parcial.
Alterações que duram ≤ 48 horas recebem o nome de IRA transitória, enquanto IRA persistente é definida por duração > 48 horas. IRA transitória normalmente tem um componente hemodinâmico e está relacionada a melhores desfechos a longo prazo em comparação a IRA persistente.
Estratificação de risco e biomarcadores
IRA é o resultado da interação entre fatores de risco e exposições causadoras de IRA. Doença renal crônica e episódios prévios de IRA são fatores de risco relevantes. Entre as exposições, destacam-se flutuações do estado hemodinâmico, infecções e substâncias nefrotóxicas.
O documento orienta a utilização de modelos de risco para avaliar a probabilidade de IRA. Contudo, não recomenda um específico e destaca que o modelo utilizado deve ser validado externamente. Vários modelos foram desenvolvidos para diferentes cenários, como antes de cirurgias ou de admissão em UTI. Para pacientes vindos da comunidade com acesso limitado a exames, a ferramenta ISN 0by25 utiliza somente variáveis clínicas e pode ser empregada para identificar aqueles com maior risco de IRA. Esse escore já foi estudado no Brasil e teve boa capacidade de detectar IRA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39541400/).
Biomarcadores
A presença de albuminúria no estado basal do paciente é um fator de risco para o desenvolvimento de IRA. O risco aumenta de forma progressiva quanto maior for a albuminúria e menor a TFGe, mesmo após ajuste para comorbidades.
O posicionamento do KDIGO 2026 sugere utilizar biomarcadores de estresse ou dano renal em cenários clínicos validados (recomendação 2B em adultos). A intenção é identificar precocemente pacientes de risco para IRA moderada a grave e guiar estratégias nefroprotetoras. O benefício ocorre somente se existir um conjunto de intervenções capaz de melhorar desfechos quando acionado pelo resultado do biomarcador (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28110412/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28857811/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42007986/).
Biomarcadores são moléculas que refletem diferentes estados de injúria renal, como estresse das células tubulares (IGFBP7 e TIMP-2), dano celular tubular (NGAL, KIM-1, NAG, L-FABP) ou inflamação intra-renal (IL-18, IL-9, CCL14). Em geral, possuem custo elevado e características distintas entre si. Os pontos de corte são variáveis na literatura e podem ser influenciados por vários fatores (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40045274/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33021646/). Os que o documento dedica mais atenção são a multiplicação das proteínas urinárias TIMP-2 e IGFBP7 e a lipocalina associada à gelatinase de neutrófilos (neutrophil gelatinase-associated lipocalin, NGAL), que indica dano tubular.
A multiplicação das proteínas IGFBP7 por TIMP-2 (Nephrocheck®) é um marcador de estresse renal que pode ser utilizado para predizer IRA moderada a grave, se utilizado nas primeiras 12 horas da admissão na UTI ou após eventos de risco, como cirurgias de grande porte (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25237065/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37055509/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41843929/). Ensaios randomizados em pacientes cirúrgicos mostraram que protocolos de proteção renal guiados por esse biomarcador podem reduzir IRA moderada a grave (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28110412/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28857811/).
A NGAL é um indicador de dano renal e pode ser utilizada no contexto hospitalar para predizer IRA. A NGAL pode ser mensurada no sangue ou na urina, sendo um dos biomarcadores mais estudados. Tem bom desempenho em predizer desenvolvimento de IRA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36371256/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21511111/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32679151/). Concentrações elevadas também foram associadas a maior necessidade de TRS (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24674762/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29541790/).
Teste de estresse com furosemida
Teste sugerido para pacientes com IRA estágio 1 e 2 que estão hiper ou euvolêmicos (recomendação 2C). O objetivo é avaliar a integridade funcional tubular e estimar o risco de progressão para IRA estágio 3 e necessidade de TRS (fluxograma 1).
O teste consiste na administração intravenosa de 1 mg/kg de furosemida e avaliação da diurese em seguida (dose de 1,5 mg/kg nos usuários prévios de furosemida). A resposta é considerada adequada quando existe pelo menos 200 mL de diurese após 2 horas da administração do diurético (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24053972/). Pacientes que não respondem têm maior chance de progressão da IRA para estágio 3 e de necessidade de TRS.
Investigação etiológica
A causa da IRA deve ser identificada com base em fatores de risco, contexto clínico, além de exames laboratoriais e de imagem, se necessário. Algumas etiologias exigem tratamento específico.
A IRA previamente nomeada como “pré-renal” é descrita ao longo do texto como IRA hemodinâmica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32596733/). Essa condição representa uma queda na TFG mediada por hipoperfusão renal, sem dano parenquimatoso estrutural inicial. Várias situações distintas podem levar à IRA desse tipo, como hipovolemia, disfunção ventricular, congestão renal e medicamentos. O termo “pré-renal” poderia sugerir que o mecanismo sempre é hipovolemia e induzir à administração indiscriminada de fluidos.
Avaliação do sedimento urinário
Sugere-se como parte da investigação, especialmente se a etiologia não for clara ou houver suspeita de doença renal intrínseca (recomendação 2D). Essa avaliação costuma fazer parte do laudo do exame de urina habitual, que reporta características macroscópicas, resultado da fita reagente na urina (dipstick) e análise do sedimento urinário. A tabela 3 elenca os principais achados do sedimento urinário e as etiologias correspondentes.
Cilindros granulares e células epiteliais tubulares renais no sedimento sugerem injúria tubular aguda e auxiliam a diferenciá-la de IRA hemodinâmica isoladamente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18784207/). Por outro lado, um sedimento completamente normal apoia a hipótese de uma IRA hemodinâmica, apesar de não excluir uma lesão estrutural inicial. Hemácias dismórficas ou cilindros hemáticos indicam doença glomerular (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35777984/). A pesquisa de eosinófilos, apesar de classicamente associada à nefrite intersticial aguda, tem baixa acurácia diagnóstica na investigação dessa condição (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24052222/).
Exames de imagem
Não há recomendação específica para realizar ultrassonografia de rins e vias urinárias para todo paciente com IRA. Este exame pode identificar etiologias obstrutivas, porém, em pacientes com quadro pouco sugestivo, ele tende a acrescentar pouco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38937273/). Em uma coorte americana, menos de 1% dos pacientes sem quadro compatível apresentaram imagem com achados de obstrução urinária (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24011084/).
A diretriz destaca que a ultrassonografia à beira do leito (POCUS) pode ajudar a contextualizar a etiologia da IRA através da avaliação do estado volêmico (reconhecendo suas limitações), da visualização de congestão venosa, disfunção cardíaca ou sinais de obstrução de vias urinárias.
Em pacientes críticos, o Doppler renal com avaliação do índice de resistência renal pode auxiliar na estratificação de risco de progressão e gravidade da IRA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41976952/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29889830/).
Fração de excreção de sódio (FeNa) e fração de excreção de ureia (FeUr)
A diretriz do KDIGO 2026 sugere uso limitado para cenários específicos desses parâmetros para diferenciação entre IRA hemodinâmica (pré-renal) e necrose tubular aguda. Tradicionalmente, baixos níveis de FeNa (< 1%) e FeUreia (< 35%) podem sugerir IRA hemodinâmica (pré-renal). Fatores como exposição a diuréticos (para FeNa) ou histórico de DRC são comuns e prejudicam a acurácia desses parâmetros (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35545442/).
O único cenário que a diretriz menciona diretamente é o de IRA na cirrose. Em pacientes com IRA associada à cirrose sem resposta à otimização da volemia, a FeNa pode ser um parâmetro adicional para diferenciar a síndrome hepatorrenal de necrose tubular aguda. A síndrome hepatorrenal é caracterizada por intensa vasoconstrição renal com integridade tubular preservada, resultando em retenção de sódio e valores de FeNa inferiores a 0,1% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24375576/).
Biópsia renal
Deve ser considerada quando a avaliação clínica for insuficiente para diferenciar as causas potenciais ou quando os achados podem influenciar no tratamento. O documento cita como exemplo a dúvida se a IRA pode ser causada por agentes antineoplásicos (como inibidores de checkpoint imune), em que essa resposta impacta no resto do tratamento do câncer (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36168055/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39138117/). Outro cenário em que a biópsia tem potencial de modificar o tratamento é na nefrite intersticial aguda, uma causa de IRA com tratamento específico (corticoterapia). A manifestação clássica é incomum e a maioria dos casos se apresenta de forma oligossintomática, com risco de subdiagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40630288/).
A relação entre o quadro clínico e os achados na biópsia é imprecisa. Em um estudo americano, dos pacientes submetidos à biópsia renal, o diagnóstico da biópsia diferiu do diagnóstico clínico em 33% dos casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10692269/).
Manejo de drogas e nefrotoxinas
IRA associada a drogas pode corresponder a cerca de 20% das etiologias de IRA em pacientes hospitalizados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36754005/). Em uma coorte australiana, pacientes hospitalizados com IRA associada a fármacos tiveram maior probabilidade de óbito e mais tempo de internação hospitalar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36264150/).
Os medicamentos associados à IRA podem causar dano e/ou disfunção renal (tabela 4) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37946280/). Uns causam predominantemente dano (como aminoglicosídeos), outros predominantemente disfunção (como inibidores da enzima conversora de angiotensina) e alguns causam dano e disfunção em proporção similar (como os anti-inflamatórios não esteroidais). Essa distinção impacta a interpretação do quadro.
Medicamentos que reduzem a perfusão sistêmica ou a pressão intraglomerular podem causar queda da TFGe sem dano estrutural. Nesse grupo estão inibidores da enzima conversora de angiotensina (iECA), bloqueadores do receptor de angiotensina II (BRA) e inibidores da SGLT2 (iSGLT2). Reduções de até 30% da TFGe após início ou ajuste de dose são esperadas, não sendo recomendada a interrupção em pacientes estáveis (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42017862/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31648696/). Esses medicamentos têm papel estabelecido no tratamento de doença renal crônica com proteinúria e não devem ser evitados ou suspensos somente pelo potencial de IRA se a monitorização laboratorial identificar alterações dentro das esperadas.
Alguns fármacos elevam a creatinina sem disfunção renal ou dano estrutural, condição denominada pseudo-IRA. Os mecanismos incluem principalmente redução da secreção tubular de creatinina (mecanismo da trimetoprima) e aumento da produção de creatinina. Não se espera elevação da cistatina C nesse contexto e esse marcador pode auxiliar na interpretação quando pseudo-IRA é uma suspeita.
Veja mais em "Lesão Renal Aguda Induzida por Drogas".
Intervenções para proteção renal
O documento sugere monitorar as concentrações plasmáticas de medicamentos eliminados pelos rins ou que possuem potencial nefrotóxico (tabela 5). A monitorização pode auxiliar na prevenção ou progressão da IRA, especialmente com antibióticos como a vancomicina (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36728329/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31724529/). Veja mais sobre monitorização de vancomicina em "Staphylococcus aureus Resistente à Meticilina (MRSA) e Vancomicina".
Além da interação entre anti-inflamatórios não esteroidais, diuréticos e inibidores do eixo renina-angiotensina com efeito cumulativo de toxicidade renal (conhecido como triple whammy), o documento também destaca interações mediadas pela inibição do CYP3A4 envolvendo macrolídeos (claritromicina e eritromicina, mas não azitromicina), estatinas e bloqueadores dos canais de cálcio. A combinação desses medicamentos pode elevar o nível sérico de estatinas (especialmente sinvastatina e lovastatina), com potencial de rabdomiólise, e aumentar o efeito hipotensor dos bloqueadores de canais de cálcio, com risco de hipotensão e IRA hemodinâmica.
Alguns medicamentos causam IRA através da formação de cristais dentro do rim. A intervenção mais estabelecida na prevenção é a administração de cristaloides, habitualmente 1–2 litros antes e após a infusão do medicamento, com atenção ao estado volêmico. O documento também pontua a alcalinização urinária para prevenir a lesão causada por metotrexato em alta dose (como agente antineoplásico).
Ajuste de drogas eliminadas pelos rins
Sugere-se a calculadora kinetic estimated glomerular filtration rate (keGFR) para estimativa da TFGe no contexto de IRA e ajuste de dose de medicamentos (recomendação 2B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40824303/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34176181/). Estimar a TFG nesse cenário pode ser difícil por conta do estado dinâmico dessa condição e a ferramenta CKD-EPI tem pouca precisão.
A TRS pode alterar a concentração sérica e o efeito de fármacos. O percentual estimado de remoção depende da modalidade de TRS e de características da droga (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18027987/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33939855/). Há risco de subdosagem e falha terapêutica ou de superdosagem e toxicidade, em particular com antimicrobianos. Aminoglicosídeos, glicopeptídeos (como vancomicina) e beta-lactâmicos podem ser impactados pela TRS e frequentemente requerem ajuste de dose, sendo a monitorização terapêutica uma estratégia benéfica para minimizar o impacto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18027987/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32150603/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41573720/). A dose de ataque inicial geralmente não deve ser reduzida.
Injúria renal aguda associada ao contraste iodado
A consideração de contrastes iodados parenterais como fatores causadores de IRA na atualidade é controversa e o documento reconhece esse debate. O Colégio Americano de Radiologia se posiciona que essa é uma entidade real, porém rara (https://edge.sitecorecloud.io/americancoldf5f-acrorgf92a-productioncb02-3650/media/ACR/Files/Clinical/Contrast-Manual/ACR-Manual-on-Contrast-Media.pdf). O risco de IRA após administração de contraste é maior em procedimentos cardíacos que utilizam contraste intra-arterial. Veja mais em "Nefropatia por Contraste".
Antes da administração de contraste intravenoso, sugere-se a avaliação de fatores de risco de IRA associada ao contraste e rastreio de comprometimento prévio da função renal. Fatores de risco associados podem ser divididos em:
- Associados ao paciente: idade, função renal basal e outras comorbidades. Alguns autores definem como principais grupos de risco aqueles com TFGe < 30 ml/min, IRA ou TFGe 30-44 ml/min associado a múltiplos fatores de risco (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33015613/).
- Associados ao procedimento: volume e osmolaridade do contraste utilizado e tipo de procedimento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40042847/). O uso de contraste intra-arterial, como na angiografia coronariana, é associado a maior risco de IRA em relação ao uso intravenoso (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31264950/).
Estratégias de prevenção
Não se deve adiar ou atrasar um exame contrastado quando julga-se que o benefício do exame é relevante. Métodos alternativos podem ser utilizados desde que garantam diagnóstico ou intervenção terapêutica adequados. Sugere-se utilizar contrastes iso-osmolares ou de baixa osmolaridade em pacientes de maior risco de IRA associada ao contraste (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31755952/).
Recomenda-se administração profilática de NaCl 0,9% para prevenção de IRA em pacientes com fatores de risco, pesando-se o risco-benefício de sobrecarga hídrica e desde que guiada por avaliação prévia do estado volêmico (recomendação 1B) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28143505/). Há preferência por NaCl 0,9% em vez de bicarbonato de sódio ou fluidos hipotônicos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29130810/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28181941/).
O documento também orienta a suspensão de medicamentos não essenciais potencialmente nefrotóxicos (como AINE e diuréticos) em pacientes com TFGe < 30 ml/min por 24 a 48 horas antes e 48 horas após exposição ao contraste. Os inibidores do eixo renina-angiotensina devem ser mantidos por ausência de redução da incidência de IRA com sua suspensão e benefício clínico comprovado em diversas condições (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26093871/).
O uso de N-acetilcisteína não demonstrou benefício consistente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29130810/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18001477/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14978179/). Hemodiálise profilática pericontraste não é recomendada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17180572/).