Edição #168
Cefaleia no Pronto-Socorro: Como Investigar
Cefaleia é causa frequente de busca ao pronto-socorro (PS) [1]. Erros no diagnóstico etiológico nos Estados Unidos resultam em cerca de 18.000 pacientes ao ano com necessidade de retorno ao PS por causa secundária grave [2]. Este tópico aborda os primeiros passos para avaliação e manejo do paciente com cefaleia não traumática no PS.
Avaliação inicial: quando suspeitar de cefaleia primária ou secundária
As cefaleias podem ser classificadas como primárias e secundárias. As primárias não são causadas por outra patologia de base e são consideradas distúrbios neurológicos complexos com componente genético significativo, mas multifatorial e correspondem a até 70% das queixas de cefaleia no PS [3-5]. As secundárias possuem causas subjacentes, por vezes com alta morbidade, como neoplasia e meningite [3]. A diferenciação entre causas primárias e secundárias deve ser o foco da avaliação inicial.
As cefaleias primárias são classificadas em 4 subtipos (tabela 1) [3,6]:
- Enxaqueca ou migrânea
- Cefaleia tipo tensão ou tensional
- Cefaleias trigêmino-autonômicas, como cefaleia em salvas, hemicrania contínua, hemicrania paroxística, SUNCT e SUNA.
- Outras cefaleias primárias, como cefaleia em trovoada primária, cefaleia hípnica, cefaleia primária em facadas, e cefaleia numular.
As causas de cefaleia secundária podem ser divididas em causas graves e não graves (tabela 1). As causas graves podem representar até 7% dos pacientes com cefaleia no PS [4,5,7]
A maior parte dos pacientes com cefaleia no PS possuem exame físico e complementar normais, necessitando história clínica detalhada em busca de sinais de alarme para causas secundárias graves (tabela 2) [3,8].
Quando suspeitar de cefaleia secundária
A American Academy of Family Physicians (AFP) recomenda o uso do mnemônico SNNOOP10 para avaliação inicial (tabela 3) [9,10]. Os sinais de alarme mais fortemente associados a cefaleias secundárias graves são a história de neoplasia, déficits neurológicos (focais ou escala de Glasgow ≤ 12), idade > 50 anos, e traumatismo craniano recente (3-7 dias) [7].
Febre é um sinal de alarme sensível, mas isoladamente pouco específico para diagnósticos secundários graves [10,11].
O exame físico deve buscar alterações do exame neurológico que possam corroborar com a possibilidade de uma patologia intracraniana [3,9]. A fundoscopia direta evita a perda de diagnósticos. Um estudo avaliou a performance da fundoscopia em pacientes com cefaleia e identificou 8,5% de pacientes com alterações no fundo de olho, sendo que 41% desses apresentavam neuroimagem normal [12]. A maioria dos pacientes do estudo (80,5%) apresentava cefaleia como única queixa. Outro estudo mostrou que a fundoscopia pode aumentar a sensibilidade da avaliação clínica na identificação de cefaleias secundárias em até 9% [7].
As principais armadilhas na avaliação de um paciente com cefaleia são [3,9]:
- Considerar dor leve ou moderada como fator excludente para causas graves. Um estudo observacional viu que, em pacientes com cefaleia secundária grave, 13% apresentavam dor leve (escala de dor < 3), e 33% apresentaram dor moderada (escala de dor 4 a 7) [4].
- Considerar melhora à analgesia como fator de exclusão para cefaleia secundária. Até 44% dos pacientes com cefaleia secundária apresentam resposta significativa ou completa a analgesia em PS [13]
- Considerar ausência de alterações ao exame neurológico como exclusão de causas secundárias. Até 81% dos pacientes com causas secundárias podem ter o exame neurológico normal [7]
- Confundir cefaleia que piora ao esforço, que é comumente associada a enxaqueca, com cefaleia precipitada pelo esforço, que pode ser secundária a hipertensão intracraniana ou HSA.
- Considerar ausência dos sinais de Kernig e Brudzinski como excludente para meningite. Apesar de específicos, são pouco sensíveis [11].
Quando suspeitar de cefaleia primária
A maioria das cefaleias no PS são primárias. Os diagnósticos mais comuns são enxaqueca e cefaleia tipo tensão [4,5].
Os dados da história mais relacionados com o diagnóstico de enxaqueca são caráter pulsátil, duração de 4-72 horas, unilateralidade, náuseas e dor incapacitante [14]. O preenchimento de 4 desses 5 critérios apresentou razão de verossimilhança positiva de 24 para o diagnóstico de enxaqueca. Em pacientes com cefaleia crônica, fatores que foram associados a cefaleias secundárias foram a presença de cefaleia em salvas, alterações ao exame neurológico, cefaleia não classificável como primária, piorada por esforço ou valsalva, e associada a vômitos [14].
A enxaqueca pode ser acompanhada de auras, sintomas neurológicos focais transitórios associados à dor. Auras típicas têm instalação gradual, duração < 60 minutos e reversão completa. As mais comuns são sensitivas e visuais [6].
Auras atípicas podem se confundir com sinais de alarme para cefaleia secundária. São consideradas aura atípicas as auras prolongadas (> 60 minutos por aura), de instalação súbita, sem cefaleia acompanhada, associada a confusão mental ou auras não-sensitivas e não-visuais (por exemplo, hemiplégica ou de tronco encefálico) [6,15-18].
Os diagnósticos diferenciais de auras atípicas são acidentes isquêmicos transitórios ou crises epilépticas [17,18]. Esses pacientes devem ser investigados e internação considerada a depender da suspeita diagnóstica, exceto nos casos em que a enxaqueca com aura atípica já é conhecida [16,19]. Também se pode considerar a internação de pacientes com enxaqueca (com ou sem aura) refratária às medidas analgésicas no PS [19].
Exames complementares
Exames de Imagem
Cerca de 80% dos pacientes com cefaleia no PS submetidos a tomografia (TC) de crânio possuíam exame normal (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34726783/). A American College of Radiology (ACR) recomenda uma estratégia racional para a solicitação de exames de imagem para pacientes com cefaleia (tabela 4) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38823945/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37236753/).
A American Headache Society recomenda realizar ressonância magnética de crânio (RM) sempre que o exame for disponível, exceto quando houver suspeita de hemorragias intracranianas, AVC e traumatismo crânio encefálico, na qual a tomografia (TC) pode ser solicitada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24266337/). A RM é mais sensível que a TC para detecção de neoplasias, doenças vasculares, lesões da fossa posterior, e distúrbios de pressão intracraniana (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24266337/).
A TC e a RM podem ser realizadas com ou sem contraste. A escolha pelo tempo de infusão do contraste depende da estrutura a ser avaliada:
- Angiotomografia (AngioTC) e Angiorresonância (AngioRM): estudos adquiridos precocemente após a infusão do contraste, para avaliação dos vasos de maior calibre. Eles podem avaliar tanto o fluxo arterial quanto o venoso, da porção intracraniana e cervical. São indicadas quando há necessidade de investigação de doenças vasculares, como lesões arteriais intracranianas (aneurismas), lesões arteriais cervicais (dissecção de carótida), e lesões venosas intracranianas (trombose venosa central) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34794589/)
- AngioRM “Time of Flight”: avalia o fluxo sanguíneo intravascular sem a utilização de contraste. Útil em pacientes com necessidade de estudo de vasos, mas que possuem alergia ou contraindicações ao gadolínio (como gestantes) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28518279/)
- A fase de parênquima (TC ou RM “com contraste”): tempo de infusão mais tardio, após as fases arterial e venosa. Útil para identificar e caracterizar lesões onde há quebra da barreira hemato-encefálica, como tumores ou abscessos, nos quais pode haver captação (ou realce) característico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40409872/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34794589/)
Líquido cefalorraquidiano e outros exames
O exame do líquido cefalorraquidiano (LCR) pode diagnosticar inflamação, infecção, invasão neoplásica e alterações de pressão intracraniana (hipertensão ou hipotensão) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16628526/). Deve-se atentar às precauções para realização do exame (tabela 5) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34303412/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36472590/). Veja mais sobre a análise do líquor em "Nova Diretriz de Meningite Bacteriana Comunitária".
Em pacientes com suspeita de meningite, recomenda-se coleta de hemoculturas e dosagem de proteína C reativa (PCR) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15494903/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40393410/). Pacientes com suspeita de arterite de células gigantes (idade > 50 anos, sintomas sistêmicos, claudicação mandibular) devem possuir dosagem de PCR, velocidade de hemossedimentação e plaquetas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36788362/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11754714/). Estudos recentes mostraram o uso do d-dímero em situações de baixa suspeita clínica para afastar o diagnóstico de TVC, porém, essa conduta não é formalmente recomendada em diretrizes mais recentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41645104/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32576633/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38284265/).
Cefaleia em trovoada
Cefaleia em trovoada (thunderclap headache, TCH), é um tipo de cefaleia primária que possui etiologias e abordagens específicas no PS. Sua classificação orienta a investigação e manejo clínico (fluxograma 1).
É uma cefaleia de forte intensidade, início súbito, que atinge o pico de intensidade em até 1 minuto (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29368949/). A causa mais comum é HSA, cuja prevalência varia de 3,6 a 25% dos pacientes com TCH, a depender do estudo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35144978/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7914965/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12110111/). Até 15-20% das HSA são não-aneurismáticas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28723321/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17258671/).
Na TCH, a dor pode durar de minutos a horas. Por isso, é possível que o paciente esteja assintomático no momento da avaliação e ainda necessitar de avaliação adicional. O exame físico pode apresentar déficits focais, alteração do estado mental ou rigidez de nuca, mas a ausência destes não afasta a necessidade de investigação (tabela 6). Cefaleia ao despertar não é TCH por definição, mas esta não pode ser excluída (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23303883/).
A regra de Ottawa é uma ferramenta clínica para identificar pacientes com cefaleia possivelmente secundária à HSA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24065011/). Segundo a regra, a investigação para HSA é indicada para pacientes > 15 anos, sem critérios de exclusão, que apresentam cefaleia nova não traumática, de início súbito, forte intensidade, com pico de intensidade em até 1 hora, associada a pelo menos um fator adicional (tabela 7).
O algoritmo possui alta sensibilidade para identificar pacientes com HSA, porém com especificidade de apenas 15,3% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24065011/). Dessa forma, pacientes que preenchem os critérios da regra devem realizar inicialmente uma TC de crânio sem contraste para investigação de HSA. Pacientes que não preenchem os critérios têm baixa probabilidade de HSA. Nesses casos, a necessidade de investigação de outras causas de cefaleias secundárias deve ser guiada pela presença de sinais de alarme não contemplados pela regra de Ottawa.
Em pacientes com TCH, exame neurológico normal e hematócrito > 30% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28601276/), uma TC de crânio realizada em até 6 horas da instalação da dor possui alta acurácia para afastar HSA (sensibilidade 98,7%, especificidade 99,9%, LR- 0,01), desde que a imagem seja realizada em aparelho com pelo menos 16 canais e avaliada por um neurorradiologista certificado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26797666/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37212182/).
Se a TC de crânio for normal e realizada > 6 horas do início da cefaleia, deve-se realizar coleta de LCR (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23303883/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23303883/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28601276/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37212182/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/). A avaliação do LCR deve conter análise da pressão de abertura, aspecto, celularidade e contagem de hemácias.
LCR xantocrômico ou com > 2000 hemácias/µL sugere HSA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25694274/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17258671/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28601276/). Para diferenciar o acidente de punção de uma HSA verdadeira, técnicas como o clareamento de hemácias em tubos seriados (3 a 4), desprezo de 5–10 mL de LCR entre as coletas e a análise celular do último tubo (< 100 hemácias/µL) são descritas, embora suas validades sejam questionadas na literatura (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28601276/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17258671/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15814927/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23517256/).
Existe discussão sobre a substituição da coleta de LCR por AngioTC de crânio na investigação de TCH, devido à invasividade da punção e seu baixo rendimento diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20370785/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26823138/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28601276/). A superioridade dessa abordagem ainda não foi demonstrada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26728524/). A AngioTC tem baixa sensibilidade (61%) para detectar aneurismas < 3mm e a normalidade do exame também não exclui HSA não-aneurismática (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37212182/).
Na ausência de sangramentos na TC e no LCR, se o paciente não apresentar outros sinais de alarme, sugere-se que a investigação seja encerrada no PS, e o paciente seja encaminhado para seguimento e investigação ambulatorial (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28601276/). Caso ainda exista suspeita de diagnósticos diferenciais, deve-se prosseguir com investigação específica e direcionada.
Internar ou dar alta
Deve-se considerar internação hospitalar na suspeita ou confirmação de cefaleia secundária a doenças graves, ou em pacientes com características de alto risco (alteração do estado mental, déficits focais, crises convulsivas) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36126007/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/). A internação também é recomendada aos pacientes com sintomas refratários (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32189074/).
O regime de internação deve ser guiado pelo risco de deterioração clínica, neurológica e hipótese diagnóstica. Por exemplo, pacientes com suspeita de HSA, meningite ou lesões com efeito de massa devem ser internados em unidade de terapia intensiva (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35985353/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27637674/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34303412/). Alguns pacientes requerem investigação urgente mas não necessitam de vigilância neurológica e monitorização contínua, como aqueles com tumores sem efeito de massa, arterite de células gigantes, ou hipertensão intracraniana idiopática com sintomas visuais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36126007/). Nesses casos, a internação pode ser em enfermaria.
Nem toda cefaleia com sinais de alarme requer investigação urgente. Como exemplo, pacientes com cefaleias trigêmino-autonômicas podem ser investigados ambulatorialmente (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36126007/). Há também pacientes com cefaleia secundária a causas não graves, como as músculo-esqueléticas, que geralmente não necessitam de internação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36126007/).
O American College of Emergency Physicians (ACEP) recomenda prescrição de medicamentos de resgate para analgesia como estratégia para prevenção de recorrência após a alta (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/). Cerca de 73% dos pacientes tratados por cefaleia primária retornam ao PS em 48 horas devido à recorrência dos sintomas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20303198/). Em pacientes com enxaqueca, a prescrição de antiinflamatórios ou abortivos (como sumatriptano) reduziu a intensidade da dor e retorno ao PS (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31543134/). Veja mais em "Tratamento Agudo de Enxaqueca".